Lee Marvin e Lee Strasberg: O aluno ensina o professor e o professor não gosta

A 5 de abril de 1950, em Nova Iorque, um ator de 26 anos fez uma audição no Actors Studio. A escola ensinava o Método Stanislavsky, uma técnica de representação pioneira. Os dois principais responsáveis eram Lee Strasberg – que considerava a escola a sua “criação” e a protegia – e Elia Kazan.

lee marvin wandrin star (10)

O Studio era um ponto de referência para todos os atores, uma autêntica Meca, pois já tinham passado por lá nomes famosos como Marlon Brando ou Marilyn Monroe. Strasberg era, porém, uma pessoa com demasiada rigidez e pouca humildade. Mesmo quem o venerava, como Ben Gazzara, achava que Strasberg não ficava propriamente agradado quando os atores criavam uma peça na escola e esse trabalho era levado à cena fora daquelas quatro paredes. Strasberg ficava satisfeito apenas na medida em que isso dava projeção ao seu Actors Studio, que muitos consideravam o seu “império”.

As audições eram momentos de grande nervosismo, em que desconhecidos tinham de preparar um monólogo ou uma cena com um colega ator e desempenhá-los perante Lee Strasberg e os alunos, normalmente. Se fosse detetada promessa neste “teste de aptidão”, seguia-se outro teste, ainda mais árduo para os nervos, devido à presença adicional de Elia Kazan. Só depois o aluno era admitido.

O essencial no “method acting” era a “memória afetiva” ou “memória sensorial” utilizada pelo ator no sentido de recriar as emoções do personagem em questão.

Nessa quinta-feira, Lee Marvin sujeitou-se à apreciação de Strasberg, tendo preparado um monólogo baseado no conto «The Snows of Kilimanjaro» de Ernest Hemingway, na qual um homem moribundo, com gangrena numa perna, reflete sobre as desilusões do passado. Quando Marvin terminou, Strasberg começou a explicar aos alunos por que motivo a cena não resultara, dissecando a atuação do jovem ator.

O professor declarou com frieza que a cena fracassara pois o ator não conseguira transmitir a dor da gangrena ao público. O ex-Marine Lee Marvin disse a Lee Strasberg que estava errado: Assistira aos efeitos terminais desta condição nas selvas do Pacífico e explicou que, nessa fase, não havia dor.

O teatro ficou em silêncio, com Strasberg e alunos espantados perante o que Marvin dissera. Furioso por ter sido corrigido diante dos discípulos, Strasberg gritou ao aspirante para desaparecer e nunca mais regressar. Sem problemas, Marvin fez isso mesmo, gritando ao professor: “Fuck you!”

“É APENAS UMA PALAVRA”

The Wild One.
The Wild One.

36 anos depois, em 1986, John Gallagher aludiu a esta abordagem, começando por recordar a Lee Marvin os dias em que representou com Humphrey Bogart em The Caine Mutiny, Spencer Tracy em Bad Day at Black Rock e Gary Cooper em You’re in the Navy Now. Atores que, segundo Marvin, nunca lhe deram conselhos.

“Mas, sendo eu um fã fervoroso deles, observava-os e aprendia muitíssimo. Porque eles fazem uma coisa tão simples no set e nós ficamos… [expressão de terror] Mas assistimos no dia seguinte nas projeções diárias e aquilo quase explode. E perguntamos, ‘espera aí, o que fez ele?’ Essa forma de representar subtilmente; como os pequenos movimentos se podem tornar poderosos no grande ecrã, em contraponto aos palcos de Nova Iorque em que tudo parece ser grande.”

O entrevistador refere-se a Marlon Brando em The Wild One, filme em que ambos contracenaram, como “o Método numa motorizada”, o que diverte Marvin. E sublinha o prestígio que O Método tinha nesses tempos. O ator responde:

“Acho que o Método é apenas uma palavra. Penso que, na verdade, nada significa. Existem 70 formas de representação e… não há razão por que não possam entrar em conflito no ecrã e serem ótimas. Ou então, se todos fossem do Método, teríamos um filme do Método. Se os atores forem bons, independentemente da escola ou forma donde provenham, se os juntarem… ela é assim, ele é assim… não ficam todos num plano similar.”

David Furtado

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