Thelma & Louise de Ridley Scott: No rasto de um Thunderbird verde

Thelma & Louise é a história de duas mulheres – uma delas com um casamento infeliz, a outra numa relação insatisfatória. Partem numa espécie de férias para irem pescar. Pelo caminho, param num bar. ‘Thelma’ dança com um homem e, cá fora, ele tenta violá-la. ‘Louise’ aparece de revólver na mão. O homem não demonstra remorsos e ‘Louise’ mata-o. As duas amigas põem-se em fuga e começam a ser perseguidas pela polícia. Um agente junta as peças e mostra-se compassivo, tentando protegê-las do excesso de zelo do FBI que persegue um certo Thunderbird verde “com duas mulheres armadas e extremamente perigosas”.

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Um ano depois da estreia de Black Rain (1989), numa fase em que Ridley Scott regressara à produção de filmes publicitários, o realizador deparou-se com o argumento de Thelma & Louise. Por esta altura, Scott dedicava-se à empresa RSA (Ridley Scott Associates), com escritórios em Los Angeles e Londres. A argumentista Callie Khouri entregou o guião a Mimi Polk, que já trabalhava com Scott desde Legend (1985).

O cineasta apreciou a história por vários motivos. No dossier de imprensa do filme, declarou: “A principal razão por que o fiz foi porque nunca fizera nada assim antes. Aqui, a ênfase ou a força motriz, se preferirem, concentra-se quase exclusivamente nos personagens em vez da origem de uma nave espacial… um dos pontos fortes é a maneira como coloca as relações entre homens e mulheres em perspetiva. Espero que, depois de ver o filme, o público de ambos os sexos se reveja nalguma coisa. Se gostarem do que virem, isso ficará com eles. Se não, talvez o tentem mudar.”

Michael Madsen, Susan Sarandon, Geena Davis e Ridley Scott.
Michael Madsen, Susan Sarandon, Geena Davis e Ridley Scott.

Comparado com o orçamento das suas obras anteriores, Thelma & Louise foi relativamente barato: 16 milhões de dólares, conseguidos através da MGM, da Pathé Entertainment e da United International Pictures, que só o financiaram quando Scott concordou em produzir e realizar. Fizeram-se várias alterações ao argumento, até ser considerado “apropriado”. (Algumas cenas foram filmadas e, na edição especial, há mais de meia hora de material excluído.)

Originalmente, o filme era mais explícito; mas não posso revelar mais sob pena de estragar o desfecho para quem não viu. E porque acho que o filme deve ser visto. Refiro-me a certos detalhes; não precisamos de ver alguém a cair depois de uma bala lhe acertar. Opções de estilo que resultam, tendo em conta a primazia que Scott quis dar aos personagens. Em suma, não nos distrai. O final, embora seja exatamente o mesmo, foi alterado à última da hora por Ridley Scott. E muito bem conseguido, se tivermos em consideração o modo mais explícito como estava já filmado.

thelma louise (16)Para que a obra funcionasse, o elenco era essencial, e Ridley Scott contratou os atores por fases. A primeira atriz a ser contratada foi Susan Sarandon e, logo a seguir, Geena Davis.

Sarandon lutou com Ridley Scott e afirmou que só aceitaria o papel se o final não fosse alterado. Ficou entusiasmada com a oportunidade rara de a mulher ser vista como uma fora-da-lei a todos os níveis e disparando balas contra os demónios sociais e os preconceitos.

A rodagem começou a 11 de junho de 1990 e terminou a 31 de agosto. Durante este período, a equipa trabalhou em locais verdadeiros, o que dá ao filme a sensação de realismo – uma opção inteligente de Scott, que contrasta as paisagens com os personagens. Foram 54 os locais de filmagem, em Los Angeles e arredores. A produção trabalhou também no Utah’s Arches National Park e no Canyonlands National Park, que substituem o Arizona e o Novo México, e em Bakersfield, Califórnia.

Numa entrevista, Ridley Scott afirmou que, pela primeira vez, filmara uma obra inteira com duas câmaras em simultâneo, para obter “ângulos múltiplos de cada cena e não interferir na espontaneidade dos desempenhos dos atores, técnica que empregaria em todos os seus filmes seguintes.

GUERRA DOS SEXOS E DOS CRÍTICOS

Quando estreou, em junho de 1991, a receção a Thelma & Louise foi compreensível. Como o filme retrata duas mulheres que fazem frente a um mundo masculino povoado de broncos, os críticos masculinos desprezaram a obra… disseram que “glorificava a violência feminina”. As críticas das mulheres defenderam-na, “racionalizando” essa violência como resposta legítima a um “domínio patriarcal e abuso sexual”.

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Na época, ambas as reações foram veementes. Sarandon e Davis surgiram nas capas da Time e da Newsweek, tamanha foi a agitação na opinião pública. A Newsweek assinalou que a obra “é fiel à natureza mítica de um filme com um grande coração”. Concordo com a visão feminina e não acho que seja um filme feminista. (Uma coisa não implica ou exclui a outra.) O único personagem masculino digno de empatia, o único que realmente compreende o dilema de Thelma & Louise é ‘Hal’, representado por Harvey Keitel com a autenticidade e o profissionalismo habitual. Até Brad Pitt parece estar no seu elemento: Um assaltante de pouca monta e um sedutor canastrão.

Foram vários os jornais a elogiar Thelma & Louise para além das questões de sexo. O Houston Chronicle exaltou a ligação emocional que se estabelece com a história e os personagens, e o Christian Science Monitor disse que o filme “é uma prova de que Hollywood ainda tem de percorrer um longo caminho antes que as suas credenciais feministas possam ser consideradas respeitáveis”, observação inteligente e que não perdeu a atualidade.

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Feminista ou antifeminista, Thelma & Louise, que superficialmente é classificado como um road movie, abalou a cultura americana e não só, em 1991. Tornou-se assunto de discussão no dia-a-dia e motivo de conversa entre casais; gerou estudos entre o público em universidades. “Deu que falar” pelos melhores motivos, algo que não acontecerá, suponho a Wolverine 3D, a última garotice lançada por Hollywood com o intuito de calar espíritos críticos, render dólares e servir de pano de fundo a namorados do liceu.

OS MITOS DAS PESSOAS COMUNS

Como é hábito, filmes que causam esta discussão nos EUA, são recebidos de modo diferente na Europa. O britânico The Independent considerou que era o filme mais caloroso que Ridley Scott realizara até então. O Sunday Telegraph considerou-o uma “celebração de como a cultura popular consegue tornar histórias de pessoas comuns em mitos com ressonância social”. Este é um ótimo modo de descrever Thelma & Louise.

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Devido a estas questões, que não apelidaria de polémicas, o filme lucrou três vezes o custo de produção, só nos EUA. Na Europa e na Ásia, os resultados foram extraordinários, comprovando que ultrapassou culturas. Callie Khouri venceu um Óscar por Melhor Argumento Original. Quando duas mulheres foram presas no Canadá, em 1995, por abaterem homens que lhes pediam favores sexuais, seriam catalogadas de “Thelma & Louise” pelos jornais.

Como notou um crítico, ‘Thelma’ e ‘Louise’ conduzem, não só o Thunderbird verde, mas também o enredo do filme, “desafiando a visão tradicional do cinema associado à masculinidade”. É também uma obra sobre a amizade entre duas mulheres, que se mantém inabalável face às relações abusivas ou ambíguas com o sexo oposto.

‘Thelma’ (Geena Davis) começa por ser uma ingénua, assumindo a responsabilidade do seu destino, quase ao modo de uma pistoleira do Velho Oeste. ‘Louise’ (Susan Sarandon) é a mais inteligente, a que tenta encaixar uma experiência traumática do passado no momento presente. As duas completam-se tão bem, e os desempenhos são de tal ordem (dos atores e das atrizes), que ficamos espantados com o poder que o cinema já teve e perdeu.

Giuseppe Tornatore pretendia que Nuovo Cinema Paradiso fosse o epitáfio do cinema, mas foi aconselhado por poderes superiores a modificar o seu filme. Obedeceu. E lucrou. Assim, o Cinema Paraíso é uma ode ao “sonho” ou qualquer coisa do género. Toda a gente tem um preço, dizem. Para ‘Thelma’ e ‘Louise’ o preço é a amizade entre ambas e um pouco mais. Ridley Scott foi “acusado” de ser politicamente correto com este filme. O que, face às outras reações… é um pouco estranho.

AS ATRIZES

thelma louise (3)Susan Sarandon: Susan Abigail Tomalin, natural de Nova Iorque, obteve o seu primeiro grande sucesso em The Rocky Horror Picture Show (1975). A atriz sempre teve a fama de não ceder a argumentos fáceis. A sua faceta ativista (em inúmeras causas, desde a SIDA ao controlo de venda de armas e ao aborto) tornou-a persona non grata no meio cinematográfico; a sua carreira foi composta por paragens e arranques.

Um exemplo fulcral foi o modo como se recusou a contracenar com Clint Eastwood em Tightrope, em 1983. (Uma das poucas atrizes que o fez; nem Meryl Streep perdeu a oportunidade da sublimação de trabalhar com um dos poucos atores que nunca fez de vilão em 50 anos, na xaropada de Madison County.) Sarandon não gostava do argumento de Tightrope. Nunca gostara dos filmes conduzidos por testosterona, cujas personagens femininas eram vítimas ou interesses amorosos, sem terceira opção.

“Eu estava completamente nas lonas e desesperada por arranjar trabalho, por isso, compareci ao encontro com Eastwood”, disse a atriz ao Los Angeles Times. “Perguntei-lhe, ‘não se preocupa quando o seu personagem começa a fazer algumas destas coisas que vão descambar ao sexo e à violência e a tratar mal as mulheres?’ Ele disse: ‘Não acho que seja da minha competência preocupar-me com tais coisas. Sou um ator.’”

Bom ator. Sarandon recusou o papel e preferiu ficar com a conta do banco a zero. Boa atriz.

No ano anterior, Susan Sarandon aceitara um papel em Tempest por ser admiradora de John Cassavetes. Quando percebeu que a sua personagem pouco mais tinha de fazer do que andar sem soutien e servir de geisha ao personagem de Cassavetes, além de que o argumento era incongruente, a atriz não foi ter com o realizador. Falou em privado com Cassavetes, ameaçando abandonar o projeto. Este já se apercebera de que Tempest era uma confusão de A a Z e disse-lhe duas coisas: “Primeiro, se tentares ir embora, parto-te as pernas. Segundo, já que estás aqui, diverte-te.” Sarandon ficou, e as suas cenas com John Cassavetes (filmadas depois desta conversa) demonstram química e são das melhores do filme.

CADA VEZ MAIS “SUJAS”

Harvey Keitel, desempenha o único homem íntegro no filme.
Harvey Keitel, desempenha o único homem íntegro no filme.

Sarandon apreciou ter sido escolhida pelo realizador de Blade Runner e Alien, mas exigiu a alteração de várias cenas e situações, como o ar cada vez mais sujo que as duas personagens vão aparentando ao longo do filme. Várias cenas em que ‘Louise’ reflete acerca do momento problemático na sua vida provieram de Sarandon, tal como a paragem no Grand Canyon. A atriz não achou apropriada uma cena de cama com Michael Madsen, alegando que não fazia qualquer sentido e diminuía a credibilidade da sua personagem.

Scott, conhecido por autoritário e perfecionista, acatou. Houve até quem dissesse que a rodagem de Thelma & Louise foi um matriarcado regido a pulso por Susan Sarandon e nem sempre por Ridley Scott. A atriz mais experiente achou piada a isto, comentando que estava a “ficar velha” aos 45 anos.

Quando Ridley Scott disse a Geena Davis que tinha de se despir da cintura para cima, esta não se sentiu à-vontade: “Achei má ideia. No intervalo para o almoço, fui ter com Susan e perguntei-lhe o que devia fazer.” Sarandon disse ao realizador: “Por amor de Deus, Ridley, a Geena não se vai despir nesta cena!” Scott disse que não discretamente…

O realizador elogiou Sarandon na imprensa: “Ela é sempre inventiva, uma surpresa constante e muito engraçada. Na verdade, Susan é das melhores atrizes que temos.” No set, era a ela que recorriam os atores novatos, como Brad Pitt, na altura.

As exigências físicas de Thelma & Louise foram grandes, e também isto Sarandon apreciou: “Vamos ter com Ridley no meio de nenhures, entramos num carro, conduzimos oito horas sob um sol abrasador e submetemo-nos à sua apreciação.” Apesar das explosões, dos tiroteios e perseguições, Susan Sarandon gostou da organização: “Durante uns tempos, nem sequer nos sujámos. Tive de convocar uma reunião e dizer-lhe, ‘Ridley, precisamos de ficar sujas’.”

MULHERES DE ARMAS COM ARMAS

Sarandon também não viu nenhum mal ou subentendidos em beijar Geena Davis no final de Thelma & Louise, ainda que os produtores “não estivessem certos por causa da coisa gay. Mas o sol estava a pôr-se, tínhamos de filmar em dois takes, portanto eles não tinham hipótese”.

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Susan Sarandon e Geena Davis não faziam ideia do impacto que o filme teria. Na altura de estreia, Sarandon achava que “era uma ameaça primária. Uma mulher com uma arma. Ela está irritada e pode retribuir”, conforme disse à Premiere. Foi um papel que contribuiu muito para a imagem pública que a atriz tem hoje, mas nada foi calculado. Sarandon achou que a cena em que abate o violador foi mais uma tentativa de “apagar” o insulto que ele lhe dirigira (“faz-me um broche”) do que assassiná-lo.

A nível de condução, a filmagem requereu a destreza de Susan Sarandon, que tinha de manter o automóvel a uma distância precisa da carrinha que filmava. “Geena tinha as falas todas. Eu só me concentrava em guiar e responder ocasionalmente. E, não sei como, isso até resultou. Percebi que podemos fazer o nosso melhor trabalho quando estamos concentradas noutra coisa.”

A destreza na condução, por parte de Sarandon, foi posta à prova.
A destreza na condução, por parte de Sarandon, foi posta à prova.

Sarandon bem o pode dizer. Foi nomeada para o Óscar de Melhor Atriz. Agradeceu os elogios da imprensa por ter fugido a estereótipos, num papel em que tal era quase vinculativo, e rapidamente desapareceu dos olhares do público.

thelma louiseGeena Davis (Virginia Elizabeth Davis), nascida em Wareham, Massachusetts, tinha também uma carreira prestigiante. Ganhara um Óscar por The Accidental Tourist (1988), depois de participações em Tootsie (1982), The Fly (1986) e Beetle Juice (1988). Davis soube que Ridley Scott ia realizar Thelma & Louise, e foi ela a pedir o papel.

Para a atriz, foi um desafio diferente e a reação espantou-a: “As pessoas vinham ter comigo e diziam que lhes mudara as vidas. Buzinavam-me nos semáforos, erguiam os punhos e gritavam ‘Whoo-hoo!’” Davis achou que a sua personagem fazia a mesma jornada que ela própria: “Este é um filme sobre duas mulheres que descobrem o seu poder e assumem a responsabilidade pelas suas vidas e é mesmo isso que eu tento fazer agora.”

Keitel, que trabalhou pela segunda vez com Ridley Scott (protagonizara o primeiro filme do realizador, The Duellists), é o personagem masculino que analisa as vidas de ambas com cuidado, que as percebe e as defende, embora as persiga. É um cavalheiro sulista educado, mas descontraído e divertido. É o único digno de simpatia e foi também uma das pessoas que melhor resumiu Thelma & Louise:

“Qualquer que seja o falatório que provoque, eu digo, ‘ótimo’. E só espero que tenha um efeito duradouro em termos de relacionamentos entre homens e mulheres, espero que eles se conheçam melhor a eles próprios e se conheçam melhor uns aos outros.”

David Furtado

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