As Vinhas da Ira de John Ford: Um homem de todas as épocas

“Andarei por aí no escuro. Estarei em toda a parte. Para onde quer que olhem. Onde houver uma luta para que os famintos possam comer, estarei lá. Onde houver um polícia a espancar uma pessoa, estarei lá. Estarei nos gritos das pessoas que enlouquecem. Estarei nos risos das crianças quando têm fome e as chamam para jantar. E quando as pessoas comerem aquilo que cultivam e viverem nas casas que constroem. Também lá estarei.”

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Nunca tinha havido um romance americano, “o” romance americano universal. A história de uma família durante a Grande Depressão, que ruma à Costa Oeste, à abençoada Califórnia. E no centro, um pouco à sombra, está a figura de ‘Tom Joad’, acabado de sair em liberdade condicional, depois de ter assassinado um homem, submetido às políticas e atirado para a fome e a pobreza.

Os agricultores, de tão endividados, tornaram-se inquilinos na terra que era sua. Veio a Grande Depressão e os bancos venderam a terra, os tratores seguiram em frente, por cima de casas, lares, provocando um êxodo para o paraíso de que todos falavam, a Califórnia. Os migrantes, apelidados de «Okies», fossem ou não do Oklahoma, encontraram amargura.

“Há nisto tudo um crime, um crime que ultrapassa o entendimento humano. Há nisto uma tristeza, uma tristeza que o pranto não consegue simbolizar. Há um malogro que opõe barreiras a todos os nossos êxitos; à terra fértil, às filas retas de árvores, aos troncos vigorosos e às frutas maduras. (…) Nos olhos dos homens reflete-se o malogro. Nos olhos dos esfaimados cresce a ira. Na alma do povo, as vinhas da ira crescem e espraiam-se pesadamente, pesadamente amadurecendo para a vindima.”

Fonda, John Carradine ('Casey') e John Qualen ('Muley').
Fonda, John Carradine (‘Casey’) e John Qualen (‘Muley’).

O livro de John Steinbeck foi publicado em abril de 1939 e, nessa altura, considerava-se prematuramente que a Grande Depressão já acabara. Começava a guerra na Europa, eram tempos conturbados. A obra de Steinbeck foi apelidada de “propaganda soviética”, censurada em Portugal, mas, do outro lado do Atlântico, o presidente americano Roosevelt falou numa conferência na Casa Branca, nestes termos, em janeiro de 1940: “Chama-se As Vinhas da Ira, e há 500 mil americanos que vivem dentro desse livro.”

The Grapes of Wrath, uma das obras-prima de Steinbeck, tornou-se num best-seller imediato e, dias após ser publicado, os direitos de adaptação foram adquiridos pela 20th Century Fox por 100 mil dólares. As Vinhas da Ira foi como uma foice e um martelo na consciência americana, mostrando como o país era visto por quem o habitava e até pelo exterior. Virou a nação do avesso.

'Tom Joad' regressa a casa.
‘Tom Joad’ regressa a casa.

John Steinbeck escreveu As Vinhas da Ira visualizando um organismo, o conceito da vida como uma interação de organismos, o que não foi caso excecional na sua obra. Todas as substâncias estão unidas num fluxo espiritual e biológico. Todas as mortes pressupõem uma regeneração. A nível político, temos o liberalismo do New Deal de Roosevelt e o coletivismo (não o comunismo). Como o pregador ‘Casy’ diz, “talvez todos os homens tenham uma grande alma de que todos fazem parte”.

Henry Fonda e Dorris Bowdon ('Rosasharn').
Henry Fonda e Dorris Bowdon (‘Rosasharn’).

O final do livro é o culminar das ideias de John Steinbeck. ‘Rosasharn’, irmã de ‘Tom Joad’, dá à luz um nado-morto e acaba por oferecer o leite materno a um velho esfomeado num celeiro durante uma tempestade. Como um crítico disse, Steinbeck tinha um “talento poético para o inexplicável”.

‘Tom Joad’ não está sempre em foco, mas é o foco das atenções. Pretende encarar o mundo com o cinismo que ele merece, ansiando a autossobrevivência. Em contraste, surgem as necessidades de sobrevivência da família e da sociedade. E até de um objetivo na História. O conflito do personagem é encarnado por Henry Fonda, que compreendeu – e isso é flagrante – a solidão versus comunidade, interesse pessoal versus interesse comum.

Já muito foi escrito sobre o modo como os diálogos soam intemporais, assemelham-se a peças da antiguidade, acompanhados pelos contrastes abruptos a preto e branco com que John Ford filma. As Vinhas da Ira não seria o filme que é sem Henry Fonda, que incorpora as metáforas simples e profundas de Steinbeck e Ford. Há alturas em que pára no tempo, como se pretendesse deixar instantes gravados na memória.

O mais fulgurante é, sem dúvida, o famoso final de ‘Tom Joad’, um dos discursos mais marcantes da História do cinema. Não é um monólogo, são pensamentos, um olhar e uma intenção. John Ford nem lhe acrescentou música, pois a voz de Fonda é um som, uma expressão, e o seu rosto, um mapa de emoções. A justiça na sua expressão é mais do que representar. Henry Fonda tornou-se ator após ter tido a sua “dose” de vida. O talento e a experiência aliam-se numa cena irrepreensível.

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Steven Spielberg quer agora repintar a Mona Lisa, já anunciou as suas intenções de nos presentear com um conveniente remake de The Grapes of Wrath em tempos de crise global. ‘Tom Joad’ está de novo em fuga, é um cúmplice da raça humana e do seu destino. Heroico, sem dúvida, mas tal como no filme e no livro, há algo de muito assustador nisto. Fonda parece ter assimilado o destino de ‘Tom’, dividido entre aceitar um sistema novo e falível ou optar pelo desconhecido, renunciando à comunidade e assumindo-se como um proscrito. Tal como diz ‘Tom Joad’ no filme, “não é preciso muita coragem para seguir a única via possível”.

Alguns seres humanos são atirados para aí, arriscando-se a serem apelidados de corajosos ou tolos. No final, ‘Tom Joad’ é uma alma anónima, o que nos permite vestir-lhe as roupas com toda a facilidade. Henry Fonda, após uma série de papéis que apontavam neste sentido, parece que esperava por estas palavras.

vinhas da ira john ford henry fonda (1)“Suponho que nenhum ser humano saiba realmente muito sobre outro”, disse John Steinbeck, referindo-se a Henry Fonda, cuja alcunha era Hank. Durante quase 30 anos o autor do livro e o ator foram amigos. Steinbeck definiu o Henry Fonda do ecrã e o da vida pessoal deste modo:

“As minhas impressões de Hank são as de um homem que tenta aproximar-se mas é impossível de alcançar, gentil mas capaz de violência súbita e perigosa, muito crítico para com os outros e possuidor da mesma autocrítica, enjaulado, lutando contra as grades, mas receando a luz, opondo-se viciosamente às restrições do exterior e impondo uma escravidão férrea a si mesmo. O seu rosto é o retrato de opostos em conflito.”

A história interessou o descendente de irlandeses John Ford porque “era sobre pessoas simples. Era semelhante à fome que se passou na Irlanda, quando tiraram as terras às pessoas e as deixaram a morrer na estrada. Talvez tenha sido parte da minha tradição irlandesa, mas gostei desta família que ia tentar a sorte no mundo”.

O realizador que “montava o filme na câmara”, com poucos takes, exibiu a sua versão final perante Darryl F. Zanuck, o patrão da 20th Century Fox, que lhe deu os parabéns, exultante. “Obrigado, mas tenta não o estragar, está bem?”, respondeu Ford. Zanuck já tinha feito alterações em My Darling Clementine (A Paixão dos Fortes) para desagrado do realizador.

Existia um certo conflito entre ambos: John Ford acusava-o de falta de integridade artística e de só querer apoiar filmes de sucesso garantido. Mas também é verdade que As Vinhas da Ira é um produto do seu tempo, e Zanuck, embora tivesse amenizado o teor político da história, demonstrou coragem e fugiu a controvérsias, no estado em que os EUA se encontravam no fim da década de 30. Para Ford, a família ‘Joad’ não era um estudo social, apenas lhe interessavam enquanto personagens. “Lutei para fazer aquele filme e dei-lhe tudo o que tinha.”

Jane Darwell (no centro) venceu o Óscar de Melhor Atriz Secundária.
Jane Darwell (ao centro) venceu o Óscar de Melhor Atriz Secundária.

E foi preciso combater em várias frentes; o orçamento de 750 mil dólares não era uma fortuna, pelo que se teve de recorrer a cenários e a localizações próximas do estúdio. Com toda a legitimidade, John Steinbeck não achava que Hollywood pudesse lidar honestamente com semelhante material. Perguntou a Zanuck se acreditava na exploração feita aos trabalhadores migrantes. O astuto produtor respondeu que já contratara uma firma de detetives para investigar a veracidade do relato de Steinbeck, e descobrira que a realidade era ainda pior do que o retratado no livro. Zanuck visitou também alguns campos de trabalho, experiência que terá tornado mais liberais as suas convicções políticas, segundo Nunnally Johnson, que adaptou o material de Steinbeck.

Embora se vivesse um caos económico nesta época, o “espírito americano” mantinha-se capitalista, e Zanuck também lutou pelo filme cuja natureza era considerada altamente controversa. Uma das barreiras que o produtor teve de ultrapassar foi a própria 20th Century Fox:

“Quando comprei As Vinhas da Ira, esta companhia era controlada pelo Chase National Bank, que era o maior acionista… Disseram-me que o presidente do conselho de administração do banco, Winthrop Aldrich… provavelmente se ia antagonizar comigo porque eu tentava abordar um assunto controverso que não encarava com bons olhos o capital.” Recorde-se que o Chase National Bank era quase simbólico do status quo político e financeiro da época.

Darryl Zanuck relembra: “Quando Steinbeck veio até cá e compareceu na primeira conferência sobre a história, tinha grandes suspeitas e finalmente contou-me que o tinham avisado: Todo o esquema pretendia retirar o significado social da sua história e nunca me teria vendido o seu livro se soubesse que esta companhia [a Fox] era, na realidade, controlada por grandes interesses da banca.”

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O supervisor de produções da Fox assegurou o escritor de que “pretendia arriscar de modo legítimo ou justificado com o material”. Apesar de ter sossegado Steinbeck, Zanuck agiu nas suas costas e trabalhou em proximidade com o argumentista, para tornar o ponto de vista político do livro menos radical e ameaçador para os interesses corporativos.

Quando Zanuck foi a Nova Iorque reunir-se com o patrão do Chase National Bank, este disse-lhe inesperadamente: “Ouvi dizer que comprou um livro chamado As Vinhas da Ira.” Zanuck esperou que as suas piores suspeitas se confirmassem, mas Winthrop prosseguiu: “A minha esposa, Winnie, adora o livro, e eu comecei a lê-lo a noite passada e achei-o tão fascinante que não o consegui pousar. Devia dar um filme maravilhoso.”

Entre 4 de outubro e 16 de novembro de 1939, ao longo de 43 dias, John Ford concluiu o trabalho. Dois meses depois, As Vinhas da Ira estava pronto para a estreia. Zanuck interferiu no trabalho de Ford, que pretendia terminar com um plano de ‘Tom Joad’ a subir uma colina ao nascer do sol. “Eu queria acabar num tom mais sombrio, mas da forma que Zanuck alterou, o final é muito mais esperançoso”, criticaria o realizador. As Vinhas da Ira termina com um discurso encorajador (e americanista no pior sentido) de ‘Ma Joad’:

“Os ricos surgem e morrem, e os filhos deles não prestam e desaparecem. Mas nós continuamos sempre. Somos os que sobrevivemos. Não conseguem acabar connosco. Não nos podem esmagar. Vamos continuar sempre, pai, porque somos o povo.”

Russell Simpson ('Pa Joad'), Jane Darwell ('Ma Joad') com Fonda.
Russell Simpson (‘Pa Joad’) e Jane Darwell (‘Ma Joad’) com Fonda.

O problema não está na eloquência da atriz Jane Darwell, mas sim, na colocação deste discurso estrategicamente no fim, e no modo como não condiz com a personagem, pouco dada a estas considerações humanistas.

A cena surgiu anexada ao argumento com a data de filmagem de 1 de novembro de 1939, enquanto John Ford se mantinha ocupado a filmar as principais cenas. Zanuck perguntou eventualmente a Ford o que achava do novo fim. O cineasta respondeu sarcasticamente que era ótimo e que Zanuck o devia filmar ele próprio. Mais tarde Ford diria a Peter Bogdanovich que, enquanto a partida de ‘Tom Joad’ é o “fim lógico” da história, “a mãe teve um pequeno e bonito solilóquio”. Aliás, se tivermos em conta alguns dos filmes seguintes de John Ford, veremos que, especialmente os últimos, se preocupam mais com o individuo solitário do que com a comunidade em que se insere.

Houve outras ironias associadas à produção de As Vinhas da Ira. Aquando da estreia do filme, surgiu um artigo no Nation, intitulado «Slumming with Zanuck» (algo como “visitando os pobres com Zanuck”), escrito por Michel Mok. Este apontava a ironia subjacente à estreia nova-iorquina do filme, na qual compareceram estrelas com joias e casacos de peles, executivos de bancos e companhias proprietárias de terrenos, as mesmas que tinham expulsado pessoas como os ‘Joad’…

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Por isso, não podemos deixar de insistir que o filme foi um produto da sua época. Zanuck e Nunnally Johnson atenuaram a violência da obra para evitar a censura e eliminaram a maioria das exposições de John Steinbeck acerca da necessidade de uma revolta organizada das classes desfavorecidas. Outro tema – fulcral no livro e também suavizado – foi a visão do escritor, o tom de desespero com que geralmente encara o sistema socioeconómico americano. Por estes motivos, não acredito que mais de 70 anos depois, Steven Spielberg consiga fazer um remake digno de nota. Depende do mesmo dinheiro, está inserido no mesmo sistema e quer agradar às mesmas pessoas.

Zanuck e Johnson também reorganizaram as secções do livro: Primeiro, mostra-se os Joad a viverem num campo limpo, justo, e gerido pelo Governo, contrastando isto com o campo seguinte, onde são explorados na colheita de pêssegos. Ao inverterem estes dois passos para o filme, tornam a história mais otimista. Ou seja, as políticas do New Deal de Roosevelt podem resolver os problemas dos trabalhadores migrantes, ou assim é sugerido.

Acrescente-se que Zanuck era Republicano e, logo, mais inclinado para o ponto de vista do grande capital. Ainda que tenha ordenado todas estas alterações, não deixa de ser uma concessão da sua parte. No seu todo, o livro não é o filme. Este último transmite uma mensagem política mais liberal, a de que o sistema económico americano é capaz de se autorreformar.

Tais contradições não passaram despercebidas a todo o público nem a toda a crítica. Não obstante, a opinião geral foi de que houve bastante “elasticidade” por parte do estúdio e dos responsáveis pelo filme, face ao material mais forte que Steinbeck escreveu. Como li o livro primeiro e só depois vi o filme, partilho, em parte, desta opinião.

O filme agradou a John Steinbeck. O escritor sentiu mesmo que lhe tinham retirado um fardo das costas. “Zanuck mais do que manteve a palavra. Conseguiu um retrato duro e fiel, em que os atores se submergem tão completamente que parece e nos toca como um documentário, e certamente possui esse cariz verdadeiro e árduo. Na verdade, ao removerem o material descritivo, torna-se mais rude que o livro, de longe. Parece incrível, mas é verdade.”

A opinião do escritor manteve-se constante ao longo dos anos. Em 1958, disse a Henry Fonda que assistira a uma cópia de 16mm do filme que “o realizador Elia Kazan roubou à 20th Century Fox. É um filme maravilhoso, tão bom como sempre foi. Não parece datado”.

A questão acaba por se dividir em dois: O que foi retirado à obra de Steinbeck e o que o filme reteve. É importante aqui a opinião de Woody Guthrie, o músico folk que viveu os tempos e sofreu o que os ‘Joad’ sofreram. E compôs uma canção sobre o filme, intitulada «Tom Joad», em que o sumarizou, a pedido da Victor Records. Em 17 versos, Guthrie conta a história, e a balada tornou-se igualmente num clássico. Também importante é o facto de o próprio cantor ter escrito uma crítica ao filme na sua coluna no jornal do Partido Comunista:

“Vai ver As Vinhas da Ira, amigo. Não o percas. Tu és a estrela do filme.”

David Furtado

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