Doze Homens em Fúria de Sidney Lumet: Os 12 gumes da Justiça

A premissa de 12 Angry Men parece pouco atrativa e até maçadora, apesar de Henry Fonda ser o protagonista. 12 jurados reunidos na sala de um tribunal, deliberando sobre a culpabilidade de um réu. Tudo se desenrola dentro de quatro paredes num sufocante dia de verão. Poderia ser teatro filmado e/ou um ataque ou defesa politizados ao sistema judicial norte-americano. Nisto reside a magia do cinema – com grandes interpretações, um hábil argumento e realização de mestre, só conseguimos abandonar o filme no final, questionando a Justiça, a sua fragilidade e o nosso papel nela. Ao investigar os bastidores de Doze Homens em Fúria, aprendi um pouco sobre como se faz cinema, através de Sidney Lumet, que ensina como se consegue filmar uma obra de 96 minutos dentro de uma sala com 12 atores, sem orçamento, em tempo recorde e, como se não bastasse, tornar isto tudo numa “herança cultural”.

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Doze Homens em Fúria começa com o final de um julgamento a que não assistimos e com as palavras do juiz: “Ouviram os testemunhos e a interpretação da lei no tocante a estes casos. É agora vosso dever reunirem-se e tentarem separar os factos da ficção. Um homem morreu. Está em jogo a vida de outro homem. Se existir uma dúvida legítima nas vossas mentes em relação à culpabilidade do acusado, devem trazer-me um veredicto de inocência. Se, contudo, não existir dúvida legítima, devem, em boa consciência, considerar culpado o acusado. Seja como for, o vosso veredicto tem de ser unânime. Enfrentam uma séria responsabilidade. Obrigado, meus senhores.”

"Há sempre um!"
“Há sempre um!”

Está em jogo a pena de morte, e os jurados retiram-se para a sua sala. Depois da conversa de circunstância, percebemos que estão todos de acordo, querem ir para casa e despachar o assunto. Começam a votar: “Muito bem. 11 votam culpado. Quem vota inocente? Um. Muito bem. Agora sabemos em que pé estamos.” “Caramba! Há sempre um”, comenta um jurado olhando para o homem que votou inocente, representado por Henry Fonda. É este homem, um arquiteto, simbolicamente vestido de branco, que questiona o julgamento. (Saberemos no fim que se chama ‘Davis’, já que não são dados nomes aos jurados, apenas números.) Os restantes 11 provocam-no:

“Acha mesmo que ele é inocente? Ouviu o que ele fez. O miúdo é um assassino perigoso. Apunhalou o próprio pai. Provaram-no de uma dúzia de maneiras diferentes no tribunal. Quer que lhe faça uma lista?”
“Não.”
“Então o que quer?”
“Só quero falar. Não é fácil levantar a mão e mandar um miúdo para a morte, sem falar antes sobre isso. Trata-se da vida de alguém. Não podemos decidir em cinco minutos. Suponham que estamos enganados?”

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A Biblioteca do Congresso Americana adicionou, em dezembro de 2007, 25 filmes ao seu arquivo, ato que se destina a preservar estas obras para futuras gerações. Doze Homens em Fúria foi e é universalmente aclamado e considerado uma herança cultural nos Estados Unidos.

A adição elevou para 475 o número de filmes desta lista. James H. Billington, o Bibliotecário do Congresso, anunciou a seleção: “Os americanos enchem os cinemas para assistir às estreias, mas poucos se apercebem de que metade dos filmes produzidos neste país, antes de 1950, e 90 por cento dos que foram realizados antes de 1920, se perdem para sempre. O National Film Registry procura, não só honrar estes filmes, mas também garantir que são preservados para que futuras gerações possam usufruir deles.”

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Tanto podem ser selecionados filmes recentes como antigos, entre as centenas nomeadas pelo público. O critério baseia-se no significado histórico, cultural e estético. A diversificada lista de 25 integrou Encontros Imediatos do Terceiro Grau, O Homem que Matou Liberty Valance, Danças com Lobos ou Regresso ao Futuro. Entre outras obras, destacaram-se Matar ou Não Matar, de 1950, com Humphrey Bogart, o musical Oklahoma!, de 1955, Dias do Paraíso, de Terrence Malick e O Monte dos Vendavais, de 1935.

Entre estes, a CNN salientou dois quando deu a notícia, a 27 de dezembro: “Bullitt e Doze Homens em Fúria entre filmes honrados.” Já aqui falei do primeiro, passo ao segundo; são duas obras reveladoras do modo como os EUA, país que tanto deu ao cinema, se revela através da sua arte.

“INFRINGI A LEI”

É então que o filme nos começa a absorver, com um jurado preocupado com o jogo de basebol na televisão ou outros que agem motivados por preconceitos. Todos têm uma razão que vem progressivamente ao de cima, através de duelos verbais. Numa cena, os jurados examinam a arma do crime, uma navalha de ponta e mola, espetada na mesa:

“Olhem para esta navalha. É muito pouco comum. Nunca vi nenhuma assim. Não nos está a pedir que aceitemos uma coincidência incrível?”
“Só digo que uma coincidência é possível”, insiste ‘Davis’, espetando uma faca idêntica na mesa, ao lado da arma do crime.
“Donde veio isso? É uma faca igual!”, retorquem os restantes jurados. “Onde a arranjou?”
“Fui dar uma volta ontem à noite pelo bairro do rapaz”, explica ‘Davis’. “Comprei isto numa loja de penhores a dois quarteirões de casa dele. Custou seis dólares.”
“É ilegal comprar ou vender navalhas de ponta e mola”, adverte um jurado.
“É verdade. Infringi a lei”, responde ‘Davis’.

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O jurado alega que há uma dúvida razoável e não recua, questionando a veracidade dos testemunhos e argumentando que a Justiça não é uma ciência exata. Mas o filme nunca cai na demagogia nem perde o ritmo, servindo-se sempre de diálogos extremamente bem escritos, close-ups e movimentos da câmara que nos prendem durante hora e meia. Os jurados fazem uma segunda votação e, desta vez, dois reclamam “inocente” e 10, “culpado”. A partir de então, o argumento reserva bastantes surpresas.

TORNAR OBSTÁCULOS EM VANTAGENS

Sidney Lumet.
Sidney Lumet.

A ideia que fica é que Sidney Lumet, talento nato para o cinema, tinha o filme dentro da cabeça. Admira a sua confissão de que fazer um filme inteiro dentro de quatro paredes não lhe pareceu um problema; achou até que podia transformar isso numa vantagem:

“Um dos elementos dramáticos mais importantes, para mim, era a sensação de armadilha que aqueles homens deviam ter naquela sala. Lembrei-me imediatamente de um truque com as lentes. À medida que o filme de desenrola, quis que a sala parecesse cada vez mais pequena. Assim, mudaria para lentes mais longas, enquanto progredia. Comecei com as de captação normal, (28 a 40 mm), passámos a 50 mm, a 75 e a 100.”

Lumet adicionou mais um truque que nos passa despercebido: “Filmei o primeiro terço acima do nível do olhar, e depois, baixando a câmara, filmei o segundo terço ao nível do olhar, e o final, abaixo do nível do olhar. Deste modo, quando nos aproximamos do fim, o teto começa a aparecer. Não eram só as paredes que se aproximavam, o teto também. A sensação crescente de claustrofobia fez muito por aumentar a tensão na parte final. No último plano, no exterior, que mostra os jurados a abandonarem o tribunal, também usei uma lente de ângulo amplo, mais amplo do que usara no filme todo. E também ergui a câmara o mais possível. A intenção era dar-nos ar a todos, deixar-nos finalmente respirar depois de duas horas de aprisionamento cada vez maior.”

É certo que me apercebi do tecnicismo envolvido no filme, da maestria nada casual com que nos absorve, mas, ao ouvir Lumet explicar estes detalhes, soa-me a um alquimista a desvendar segredos:

“Um dos trabalhos mais complexos de iluminação em que participei foi o primeiro plano dentro da sala dos jurados. Dura quase oito minutos e é quando conhecemos todos os 12 homens. Começa por cima da ventoinha, que será importante mais tarde no filme e, em certas alturas, a câmara foca, num plano médio, pelo menos, cada pessoa. Fiz isto com uma grua. A sua base, a dolly [plataforma móvel] tinha 13 posições diferentes para se mover, entrar e rodear o pequeno cenário. O boom [o braço] onde assentava a câmara, tinha 11 posições diferentes, para a esquerda e para a direita, e oito diferentes, para cima e para baixo. O diretor de fotografia Boris Kaufman precisou de sete horas para iluminar o plano. Conseguimos o que queríamos ao quarto take.”

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HENRY FONDA

Foi no início do verão de 1956 que Henry Fonda adquiriu os direitos de adaptação cinematográfica da peça televisiva Twelve Angry Men de Reginald Rose. O ator fundou também uma companhia para produzir o filme, a Orion Productions. Fonda e Sidney Lumet, que era na época um jovem realizador na TV e um estreante no cinema, filmaram Doze Homens em Fúria num estúdio da West Fifty-fourth Street em Nova Iorque em praticamente três semanas.

Henry Fonda queixou-se a Sidney Lumet acerca dos cenários pouco realistas que se podiam ver pelas janelas da sala dos jurados. “São uma merda. Hitch arranjou grandes cenários, parecia que podíamos entrar neles.” Foi uma referência à obra que acabara de filmar com Alfred Hitchcock, The Wrong Man (O Falso Culpado). Lumet assegurou-o de que o diretor de fotografia Boris Kaufman tinha um plano para que funcionassem.

Neste período, Henry Fonda passava férias em Hyannisport, Massachusetts com a sua nova amante, com quem casara em março anterior, mas dificilmente se pode dizer que fez pausas para interlúdios românticos ou luas-de-mel. No outono, já filmava um western, The Tin Star com o “novato” Anthony Perkins (um grande filme de Anthony Mann com excelentes desempenhos de ambos), terminava as últimas cenas de The Wrong Man, de Hitchcock e até já assinara contrato para um novo filme, Stage Struck. No meio de tanta atividade, os médicos aconselhavam-no a abrandar.

Fonda e Martin Balsam.
Fonda e Martin Balsam.

É por isso impressionante que Doze Homens em Fúria tenha sido filmado nestas circunstâncias – é um dos melhores desempenhos de Henry Fonda (e há tantos por onde escolher); prova de que o seu estatuto lendário não é imerecido.

Como também é justa a aclamação geral que o filme recebeu. Nomeado para três Óscares e outros seis prémios, arrecadou 16. Está hoje em sétimo lugar no top 250 da IMDb, abaixo de… Pulp Fiction, O Cavaleiro das Trevas (!) e outras obras descaradamente inferiores. Mais irónico ainda foi o facto de, apesar de ter obtido tanto reconhecimento na época em que estreou, tenha sido um fracasso de bilheteira na América.

No ano em que 12 Angry Men foi lançado, Henry Fonda mantinha-se também ativo na defesa dos Democratas nos EUA. Jane Fonda não herdou só as feições do pai, herdou também a queda para a atividade política e o talento. Sublinhe-se que, quando começou, era apenas e só “a filha de Henry Fonda” e, como tal, não a levavam a sério. Felizmente, a sua ânsia por aprender e afirmar-se cativou “professores” e “apoiantes” como Lee Marvin ou Ben Gazzara.

Neste contexto, e de acordo com as opiniões políticas e humanistas (é um melhor termo) de Henry Fonda, 12 Angry Men foi uma afirmação acerca dos bodes expiatórios, das listas negras de Hollywood e dos preconceitos. Foi dito que estas convicções pessoais lhe afetaram negativamente o desempenho. E foi a única vez que Fonda se aventurou como produtor.

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Obviamente, o filme era especial para Fonda, que não comprometeu o talento em prol da mensagem, que é uma autêntica lição de civismo de impacto tremendo. Tanto que, hoje, nos EUA, é exibido em liceus. O filme serve também de instrumento em escolas de negócios e workshops, para ilustrar a dinâmica de grupo e técnicas de resolução de conflitos.

Ainda há quem o rotule de campanha em prol dos Democratas, mas a obra expande e revela até as falhas da democracia, que, como sabemos, é o último recurso quando tudo o resto falhou e a anarquia acena no horizonte.

Houve quem chamasse a Henry Fonda a “irritante voz da consciência” em 12 Angry Men, no meio de atores mais apelativos ou humanizados. Mas é isto mesmo que distingue a sua atuação. Como ‘Tom Joad’ na adaptação de The Grapes of Wrath (As Vinhas da Ira) de John Steinbeck, Fonda foi genial. Nos EUA, era o protótipo do homem comum, oprimido por injustiças. Sempre encarei o papel de jurado em Doze Homens em Fúria como uma continuação desse trabalho.

O filme não lucrou, e Henry Fonda nunca recebeu o salário. Apesar disto, sempre achou que era um dos três melhores filmes que fizera. Os outros dois eram As Vinhas da Ira e The Ox-Bow Incident (Consciências Mortas). Igualmente recomendáveis.

“UMA FORMA SUBTIL DE SABOTAGEM”

Doze Homens em Fúria, realizado depois do telefilme com o mesmo nome, foi a obra de estreia de Sidney Lumet, produzida com um orçamento ínfimo e realizada num tempo recorde. Foi nomeado para três Óscares, Melhor Filme, Melhor Realizador e Melhor Argumento Adaptado. Há um grande elenco de atores como Fonda, Martin Balsam, Lee J. Cobb, Jack Warden e Ed Begley. O filme é também exímio ao retratar a pressão de grupo e o modo como diferentes indivíduos a ela reagem. Décadas depois, continua a integrar diferentes listas dos melhores filmes de sempre.

Lee J. Cobb. é o Jurado nº 3, se bem que seja difícil destacar um só ator neste elenco.
Lee J. Cobb é o Jurado nº 3, se bem que seja difícil destacar um só ator neste elenco.

O modo como foi concretizado também nos troca as voltas. Sidney Lumet:

“Geralmente, quando se filma um personagem em grande plano, ele está a falar ou a reagir a uma ou mais pessoas. Tal como noutras situações, para ajudar a manter o realismo e a concentração, gosto de ter o ator ou atores que não estão ser filmados em redor da câmara, para que trabalhem com o ator que está a ser filmado. Isto era obviamente imprescindível em Doze Homens em Fúria.”

Um parêntesis: Muitas vezes, tal não é possível visto que os atores estão a ser pagos e arranjam-se substitutos para poupar dinheiro. Num meio tão feroz como Hollywood, geralmente as estrelas não têm tempo nem paciência para esta tarefa, mas sublinhe-se que há alguns que o fazem. Harrison Ford fez isso para que o olhar coincidisse com o seu – um perfecionismo. Jack Nicholson é outro que não se importa de repetir takes e dar as deixas, take após take, mesmo quando os atores em foco são desconhecidos. No meio, isto é encarado como profissionalismo e generosidade, embora nem sempre seja possível por muito boas intenções que haja, uma vez que há compromissos a cumprir. E há o reverso da medalha…

O veterano Sidney Lumet explica-nos mais aprofundadamente:

“Por vezes, o ator que não é filmado não está realmente a trabalhar com o que está a ser. Pode ter receio de esgotar as suas emoções, se a sua parte ainda não foi filmada. Às vezes, é uma forma subtil de sabotagem. Uma vez, visitei um set e vi a estrela a fornecer as deixas a um ator contratado para um pequeno papel com salário diário. A estrela sentava-se num banco alto e nem sequer olhava para o outro ator. Na verdade, a atenção dela estava concentrada no crochê. Isto pode gerar muito mau ambiente num set. Sempre que vejo tal coisa, tomo medidas de imediato, falando com o ator que não está a ser filmado, com a gentileza ou firmeza necessárias.”

Foi uma questão de muito talento e quase nenhuns recursos. Como salienta Sidney Lumet:

“Não tínhamos dinheiro para fazer Doze Homens em Fúria. O orçamento era de 350 mil dólares. Exato. Mal se iluminava uma cadeira, tudo o que se passava nessa cadeira era filmado. Bom, também exagero. Andámos pela sala três vezes: Uma vez, para obter luz natural, da segunda, para captar nuvens carregadas de chuva, que alteravam a qualidade da luz que vinha do exterior; e uma terceira vez quando as luzes de cima estavam acesas.”

Foi preciso um grande engenho para encaixar todas estas peças, se ouvirmos a explicação de Lumet:

“Quando Lee Cobb discute com Henry Fonda, haveria obviamente planos de Fonda (contra a parede C) e planos de Cobb (contra a parede A). Foram filmados com uma distância de sete ou oito dias. Isto significava, é claro, que eu tinha de possuir a memória emocional perfeita da intensidade alcançada por Lee Cobb, sete dias antes. Mas foi aí que os ensaios se mostraram imprescindíveis. Depois das duas semanas de ensaios, eu tinha um completo gráfico na cabeça sobre o local onde queria situar cada nível de emoção no filme. Terminámos a filmagem em 19 dias, um dia antes do previsto, e mil dólares foram poupados.”

Jack Warden, Henry Fonda e Joseph Sweeney.
Jack Warden, Henry Fonda e Joseph Sweeney.

Lumet achava estas considerações técnicas meros refinamentos, mais do que problemas: “A maioria dos atores já estão habituados a isso, após alguns filmes. Henry Fonda era mais rigoroso do que a responsável pela continuidade. Em Doze Homens em Fúria, a maravilhosa Faith Hubley era a script girl e reparou que o cigarro estava aceso em determinada frase. Fonda disse que era na frase anterior. Filmámos das duas maneiras. Henry tinha razão.”

“Por algum motivo, ainda me recordo que fiz 387 posicionamentos de câmara em Doze Homens em Fúria. Mais de metade seriam usados na última meia hora. O ritmo acelerava constantemente ao longo do filme, mas começaria a galopar nos últimos 35 minutos. Este aumento de ritmo ajudou imenso, tanto em tornar a história mais empolgante como em alertar o público para o facto de o filme se estar a comprimir cada vez mais no espaço e no tempo.”

OS ATORES E OS PROBLEMAS COM O ESPELHO

No final dos anos 50, Sidney Lumet caminhava pelos Campos Elísios e viu um letreiro de néon num cinema. Douze Hommes en Colère – un Film de Sidney Lumet. Tratava-se já do segundo ano de exibição do filme, mas Lumet não deixou que isso lhe subisse à cabeça:

“Felizmente, para a minha psique e carreira, nunca achei que fosse ‘un Film de Sidney Lumet’. Não me interpretem mal. Não é falsa modéstia. Sou o tipo que diz, ‘revela, e que decide o que surge no ecrã. Para quem nunca esteve num set: Depois de uma cena ser ensaiada, começamos a filmá-la. Cada vez que filmamos, chama-se take. Podemos filmar um ou 30 de um só momento. Quando um take parece satisfatório no seu todo ou em parte, dizemos, ‘revela’. Isso significa que esse take será levado para o laboratório, para ser revelado e para que possamos assistir no dia seguinte. Os takes revelados constituem o filme final.”

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Alguns atores nunca comparecem a este processo diário de assistir ao material em bruto. “Detestam ver-se a si próprios. A autoexposição é dolorosa”, reflete Lumet. “Henry Fonda nunca o fez durante a carreira inteira. Na verdade, mal viu o filme – só mais de um ano depois de estrear. Contudo, no caso de Doze Homens em Fúria, também era o produtor, por isso, tinha de vir. Depois de assistirmos às filmagens do primeiro dia, inclinou-se para a frente, apertou-me o ombro e murmurou, ‘está magnífico’, foi-se embora e nunca mais voltou.”

Esta atitude é a oposta de Al Pacino, segundo Sidney Lumet: “Vem sempre. Senta-se à parte, sozinho e uma calma glacial toma conta dele. É muito duro consigo mesmo. Se acha que estragou tudo, pede-nos para repetir, se possível. Sai sempre melhor. Por vezes, os atores usam este processo de modo autodestrutivo. O seu aspeto ilude-os. O mínimo indício de papos debaixo dos olhos, mergulha-os num ímpeto depressivo. Quando vejo que tal acontece, peço-lhes que não voltem. Normalmente, isto despoleta uma pequena crise, mas estou pronto para ser muito firme quanto a isso. Alguns atores têm o direito contratual de assistirem a estes visionamentos.”

“Mas até que ponto eu estou a liderar? Será que o filme é ‘un Film de Sidney Lumet’? Estou dependente das condições atmosféricas, do orçamento, do que a atriz principal comeu ao pequeno-almoço, da pessoa pela qual o ator principal está apaixonado. Estou dependente dos talentos e das idiossincrasias, dos humores e dos egos, das políticas e das personalidades de mais de 100 pessoas diferentes. E isso só durante a fase de filmagem. Nem sequer discutirei o estúdio, o financiamento, a distribuição, o marketing e por aí fora.”

UMA JUSTIÇA ESQUECIDA PARA TERMINAR

Doze Homens em Fúria é um filme com um elenco exclusivamente masculino e o mesmo sucedeu nos bastidores, o que está enraizado na História, segundo explica Sidney Lumet:

“Quando comecei a fazer filmes, os únicos trabalhos na equipa disponíveis para mulheres eram os de script girls ou no departamento de edição. Por isso, ainda penso numa equipa como masculina. E, de facto, isso ainda predomina. As palavras ‘atriz’ ou ‘escritora’ sempre me soaram condescendentes. Um médico é um médico, certo?”

Fonda e Jurado nº 9 (Joseph Sweeney).
Fonda e o Jurado nº 9 (Joseph Sweeney).

No que toca ao filme em causa, Lumet conclui: “Muitos filmes que realizei envolveram a polícia, antes de as mulheres desempenharem um papel significativo nas forças da autoridade, por isso, até os meus elencos foram fortemente dominados por homens. Afinal, o meu primeiro filme, chamou-se Doze Homens em Fúria. Nesses tempos, as mulheres podiam ser dispensadas dos deveres num júri apenas por serem mulheres. A maioria das pessoas que trabalha no cinema, hoje, foi criada num mundo muito mais igualitário do que eu. Espero que tais indulgências não voltem a suceder.”

E, sem desvendar o final do filme, espero que a faca da Justiça não tenha 12 gumes, no mínimo, sob pena de ser julgado como… sonhador.

David Furtado

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