Wand’rin’ Stars: Letícia Magalhães Pereira: Cinéfila inata

Não sei se sou precoce ou atrasada. Talvez precoce na inteligência, nos interesses, nos atos. Atrasada em relação à vivência das pessoas da minha idade. Para se ter uma ideia, fui pisar em uma sala de cinema pela primeira vez aos nove anos de idade, e isso na minha própria cidade. Como então uma espectadora tardia se torna uma cinéfila em menos de uma década? Aí entra a parte precoce: sempre gostei de coisas antigas.

Breakfast at Tiffany's.
Breakfast at Tiffany’s.

Na passagem da infância para a adolescência, comecei a me desligar dos desenhos que via e passar para o mundo das séries. Novamente, meus interesses falaram mais alto e comecei a procurar séries antigas. Passava as noites das férias de verão com A Família Addams (The Addams Family), Os Monstros (The Munsters), Agente 86 (Get Smart), A Feiticeira (Bewitched) e Jeannie é um Gênio (I Dream of Jeannie).

Nessa mesma época, por insistência minha, assinámos um pacote de TV a cabo com mais canais. Entre as novidades estava um canal que passava filmes e séries antigos, incluindo a exibição diária de Agente 86. Foi através das desventuras secretas de Maxwell Smart que ingressei no mundo dos clássicos. Durante o intervalo, via com curiosidade as propagandas dos filmes estrelados por nomes como Judy Garland e Spencer Tracy. Mas ainda demoraria para que eu mergulhasse de cabeça nesse mundo.

Por mais maçante que seja, é necessário destacar alguns pontos importantes nessa minha jornada. Em 2007, tive minha primeira experiência com um filme antigo, ou melhor, minha segunda experiência depois de uma exibição de Tempos Modernos (Modern Times) na escola. Em uma tarde de sábado, sentei-me com toda a família para ver As 7 Faces do Dr. Lao (7 Faces of Dr. Lao), sendo a mocinha, justamente, minha querida gênia Jeannie. Lembro-me perfeitamente dos detalhes dos efeitos especiais do filme, bem característicos dos anos 1960. Foram necessários, entretanto, vários meses para que novamente eu apreciasse um clássico com minha família: Marujo Intrépido (Captains Courageous), um surpreendente drama que deu a Spencer Tracy seu primeiro Oscar em 1937.

Captains Courageous.
Captains Courageous.

Mais alguns meses de hiato e, em julho de 2009, aproveitando ao máximo as férias depois de um traumatizante semestre, comecei a procurar filmes de duas atrizes que muito me impressionaram: Greta Garbo, de quem eu sempre ouvira falar, e Katharine Hepburn, ganhadora de quatro Oscars. A partir daí a paixão pelo cinema foi só crescendo, com a preferência, claro, pelos filmes antigos. Nem sempre a família apoia o número exagerado de filmes que vejo semanalmente, mas sempre é um prazer assistir a aventuras, faroestes ou mesmo filmes mudos com meus avós e romances e comédias com minha mãe.

Ao contrário de alguns, não considero Cidadão Kane (Citizen Kane) o maior filme de todos os tempos, muito menos Um Corpo Que Cai (Vertigo): minha escolha ficaria entre Casablanca, um romance adorável, denso e à frente do seu tempo, e Crepúsculo dos Deuses (Sunset Blvd.), obra-prima sobre o cinema, sem a ideia de fábrica de sonhos, mas também sem amargura total. Já no nível pessoal, deixo de lado minha parte crítica e o emocional toma conta, de modo que meu filme favorito é Nasce uma Estrela (A Star is Born), de 1937, também metalinguístico, mas que mexe mais comigo que Crepúsculo dos Deuses.

A Star Is Born (1954) de George Cukor.
A Star Is Born (1954) de George Cukor.

Raramente revejo filmes, o oposto do que fazia na infância, quando via meus desenhos favoritos vezes suficientes para decorar as falas. Não tenho um ritual estabelecido para apreciar as produções cinematográficas, mas vejo a maioria dos filmes nos fins de semana e, por preferir o cinema antigo, minhas principais fontes são a televisão a cabo e a internet. Em minha cidade, tenho a sorte de contar com o Instituto Moreira Salles, que semanalmente exibe filmes mais antigos, mas infelizmente de uns tempos para cá as escolhas vêm sendo repetitivas e óbvias, acarretando um desinteresse meu e também de parte do público.

Get Smart.
Get Smart.

O blog Crítica Retrô já existia antes de eu começar a gostar de cinema. Entretanto, por falta de assunto ou mesmo tempo para postar, ele ficava abandonado durante muito tempo. A migração de servidor me fez ressuscitar o blog em 2008, sob o título Bonequinha de Luxo. Apesar de não ter visto o filme Breakfast at Tiffany’s, [Bonequinha de Luxo, título dado no Brasil], já admirava a protagonista, Audrey Hepburn, sua beleza e presença quase oníricas. No início de 2010, decidi compartilhar no blog algumas curiosidades sobre filmes antigos, mas foi necessário mais um ano, quando eu já estava na faculdade, para que o blog tomasse o formato que tem hoje, com o mesmo visual, e com textos semanais.

Através do meu blog, conheci muitas pessoas simpáticas, com o mesmo gosto cinematográfico ou não, e a cada texto aprendo mais. Vi muitos filmes depois da indicação de amigos virtuais, conheci e aprendi a apreciar astros que não tinham muita importância para mim e vez ou outra até mudei de opinião sobre algum filme depois de ler as críticas de meus amigos. A experiência com o blog e, mais recentemente, com Twitter e Tumblr, me mostrou que não sou a única a gostar de filmes clássicos. Posso estar sozinha no mundo ao meu redor, em que as pessoas da minha idade não partilham os mesmos gostos, mas nesse planeta há outros jovens adoráveis que preferem os clássicos.

Sem o blog, também não conseguiria realizar um sonho: publicar livros. Embora meu primeiro livro tenha sido uma coletânea de escritos da infância e da adolescência, foi com o segundo que vivi realmente a experiência de ser tumblr_lwessiZ1nd1r4tx5xo1_500uma escritora, com direito a ampla divulgação e tarde de autógrafos. O blog foi ferramenta mor de divulgação do evento e a partir dele várias críticas foram selecionadas para figurar no livro, além de artigos de outros sites para os quais fui convidada a escrever graças à visibilidade do meu trabalho no blog.

O grande Federico Fellini disse que o cinema é um modo divino de contar a vida. Concordo imensamente com ele, porque não há quem não goste de filmes e da magia do cinema. Filmes nos transportam para outras realidades, para dentro da mente de outras pessoas. Sei que não são todos que são tão apaixonados por cinema quanto eu, mas posso afirmar que me tornar cinéfila (se é que um cinéfilo é feito, e não é um gosto com o qual a pessoa nasce) foi uma das maiores, melhores e mais importantes experiências da minha vida.

Letícia Magalhães Pereira

Aka “Lê”, autora do blog Crítica Retrô. (http://criticaretro.blogspot.pt/)

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