McQueen/MacGraw: Os dois “Big Macs” no filme de Peckinpah

The Getaway (Tiro de Escape), obra de Sam Peckinpah, ficou interligada para sempre com a persona de Steve McQueen. O ator conheceu Ali MacGraw, e a atração mútua foi de tal ordem que tinha o efeito de uma droga, como descreveu a atriz. A filmagem foi o caos organizado típico do realizador. Relato aqui um pouco dessa história em que a realidade se misturou com a ficção.

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Steve McQueen preferia procurar trabalho com intervalos de ano e meio. Quando o fazia, era cuidadoso – o mais importante era o personagem, não a ação. Em 1971, a sorte não lhe sorria; tinham passado quase quatro anos desde o seu último sucesso, Bullitt. O seu filme mais recente, Junior Bonner (Junior Bonner, O Último Brigão) não rendera um cêntimo e revelara-se o maior fracasso da sua carreira. Em 1972, estava divorciado. Desde meados dos anos 50, era a primeira vez que estava só, por isso, dedicou-se ao trabalho com mais afinco.

mcqueen the getaway (11)Interessou-se por Butch Cassidy and the Sundance Kid (Dois Homens e Um Destino), em que seria perfeito como ‘Sundance Kid’ ao lado do rival Paul Newman. Segundo um insider da indústria que conheceu ambos, Newman sentia-se intimidado com McQueen, visto que este era mais desenfreado. Receando ser remetido para segundo plano, e com razão, visto que isso aconteceria em The Towering Inferno (A Torre do Inferno), Newman achou melhor jogar pelo seguro.

McQueen, furioso, achou que fora traído: Já tinham sido acordados vários detalhes do negócio. Newman preferiu Marlon Brando, mas o papel acabaria por ser atribuído a Robert Redford.

Steve McQueen sempre quisera representar um anti-herói ao estilo de Bogart. O seu relações públicas, o produtor David Foster, encontrou o que poderia ser apropriado. (Certas fontes creditam Mike Medavoy por isto. Terá sido ele a contactar Foster.) The Getaway era um livro de Jim Thompson, publicado em 1958 com a ação a decorrer nos anos 40. Thompson viria a adquirir um certo estatuto de culto nos anos 80 e 90, mas, nesta altura, era um autor pouco conhecido em busca de uma oportunidade. O mesmo se aplicava a McQueen, cuja carreira se afundara.

O ator declarou que não seria fácil representar ‘Doc McCoy’; o público já se habituara a uma imagem menos rude dele. Inspirou-se em Humphrey Bogart e especificamente em High Sierra (O Último Refúgio): “Vi Bogart pela primeira vez no ecrã quando era miúdo. Adorei-o imediatamente e sempre o admirei. É o mestre e sempre será”, comentou.

mcqueen the getaway (9)The Getaway é a história de ‘Doc McCoy’, um criminoso que sai da cadeia, libertação concedida através da influência de ‘Jack Benyon’, político corrupto que mexe os cordelinhos no sistema de liberdade condicional, por pedido de ‘Carol’, a mulher de ‘Doc’. Em troca, ‘Benyon’ quer que ‘Doc’ organize e leve a cabo um assalto a um banco do Texas. Seguem-se várias traições.

Peter Bogdanovich foi sugerido para realizador. Foster e McQueen assistiram a The Last Picture Show (A Última Sessão) – que ainda não estreara – e adoraram-no. Para coprotagonista, consideraram Angie Dickinson, Dyan Cannon e Farrah Fawcett. Jack Palance foi contactado para interpretar o vilão. Jerry Fielding começou a compor a banda sonora e Walter Hill ocupou-se do argumento, por sugestão do agente de Bogdanovich. Todos estes nomes seriam excluídos, apenas Hill permaneceu.

Walter Hill transpôs a história para o Texas de 1972, mantendo toda a ação dentro do Estado e eliminando os contornos mais xaroposos do livro. Dedicou o argumento de The Getaway a Raoul Walsh, cineasta responsável por inúmeros clássicos como High Sierra.

O trabalho incisivo de Hill satisfez a Paramount e, com Steve McQueen associado ao projeto, nada podia correr mal, mas foi quando tudo começou a dar para o torto. Bogdanovich voltou atrás na palavra. A Warner ofereceu-lhe uma grande oportunidade: What’s Up, Doc? (Que Se Passa Doutor?) com Barbra Streisand e Ryan O’Neal. O realizador preferiu dedicar-se de imediato a este sucesso quase garantido. McQueen marcou uma reunião com ele e disse-lhe: “Então a Streisand é mais importante para ti do que eu?”

mcqueen the getaway (23)Peter Bogdanovich pediu a McQueen que não interpretasse as coisas assim, e disse-lhe que continuava interessado, pedindo que aguardassem seis meses. O ator queria começar a trabalhar logo e dispensou Bogdanovich, substituindo-o por Sam Peckinpah, uma vez que acabara de trabalhar com ele em Junior Bonner. Apesar do confronto de egos, tinham-se entendido. O agente de Steve, o produtor e Sam Peckinpah – que, por coincidência, lera o livro e até já contactara Thompson com a intenção de o adaptar – entraram em acordo de imediato.

Sam Peckinpah ficou entusiasmado; agora iam deixá-lo “brincar com carros e comboios em vez de cavalos e carroças”. Pretendia mudar de género: Cinco dos seus últimos seis filmes tinham sido westerns. Peckinpah provou ser problemático. Walter Hill disse: “Eu gostava dele e encorajou-me quando me tornei realizador. Mas realmente bebia imenso e abusava da paciência alheia.”

Sam Peckinpah quis ler o guião de Hill, e este pensou que ia perder o trabalho. Peckinpah geralmente incluía os seus próprios colaboradores. O argumentista ficou surpreendido quando Sam gostou e apenas fez ligeiras alterações. David Foster elogia a autenticidade que McQueen quis dar ao papel: “Nas reuniões sobre o guião, ele dizia, ‘quero que os punhos das camisas estejam esfarrapados, este tipo não tem alfaiate’. Ele era obcecado pelo realismo e isso era muito astuto da sua parte.”

McQueen e o realizador Sam Peckinpah.
McQueen e o realizador Sam Peckinpah.

Peckinpah queria Stella Stevens para o principal papel feminino e recusou Jack Palance. A atriz não estava disponível e Palance, furioso, pensou em processar, mas não havia contrato assinado. Estes impasses não agradaram à Paramount que passou o projeto à First Artists.

Faltava a atriz principal. Depois de Peckinpah sugerir vários nomes, o produtor disse, “que tal a Ali MacGraw? Até imagino isso em grandes letras: McQueen/MacGraw!”

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Ali MacGraw, formada em Wellesley, uma das mais prestigiadas faculdades americanas, procurava novos rumos. Começara a carreira com A Lovely Way to Die (Que Importa Morrer) em 1968, protagonizara Goodbye Columbus (Adeus Columbus), e, com o drama Love Story, o filme mais lucrativo de 1971, tornou-se uma estrela. Love Story tinha sido produzido pelo marido de MacGraw, Robert Evans, vice-presidente executivo da Paramount, com quem casara em 1969.

McQueen ensinando MacGraw a disparar.
McQueen ensinando MacGraw a disparar.

Esta ascensão súbita de Ali MacGraw no cinema provocou muitas críticas, uma vez que o marido era influente. A atriz enfrentava problemas em ser levada a sério e queria a todo o custo o papel de ‘Daisy’ em The Great Gatsby (O Grande Gatsby).

Ali MacGraw ambicionava a reputação de atriz séria, não de menina bonita. Evans não conseguiu convencer a Paramount quanto a Gatsby (o papel viria a ser atribuído a Mia Farrow, um erro de casting). Ao saber de The Getaway, contactou David Foster e incentivou a esposa a optar pelo filme, convicto de que lhe mudaria a imagem.

Ali conhecera Steve McQueen na cerimónia de entrega dos Óscares de 1971, em que MacGraw estava nomeada para Melhor Atriz. McQueen ia entregar a estatueta de Melhor Filme. Ben Johnson, que interpreta o político corrupto em The Getaway foi abordado na festa após a cerimónia por Ali MacGraw: “Ela pediu-me que a apresentasse a Steve, porque eu já o conhecia de Junior Bonner. Ela era grande fã dele.”

MacGraw encontrou-se com Sam Peckinpah e com o produtor David Foster, que a achou “maravilhosa”. “A mulher mais encantadora que conheci na vida, excetuando a minha esposa.” Ali MacGraw mostrou-se hesitante e até assustada com os destravados Peckinpah e McQueen, grandes bebedores de cerveja. “Peckinpah até se injetava com o complexo B-12 na nádega à frente das pessoas”, segundo Foster.

O produtor diz também que Ali preferia contracenar com Warren Beatty ou Robert Redford. “Mas McQueen servia. Tudo servia para se livrar da armadilha de Love Story.” Por isso, seguiu-se outra reunião: Foster, Peckinpah e McQueen foram a casa de Evans e MacGraw, tentando convencer a atriz de que seria excelente para o papel.

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Dá-se outra reviravolta: Ali MacGraw sai de uma “Love Story” e entra noutra… durante o encontro, os dois atores não conseguiram tirar os olhos um do outro. MacGraw diria, anos depois: “Tive de abandonar a sala para me recompor.” A opinião de Steve foi mais “direta ao assunto”. Disse a um amigo: “Ela tem o melhor rabo que já vi numa mulher.”

“Ele entrou na minha vida como o Sr. Humilde, sem ego, era um dos tipos. O Steve era uma pessoa muito original e com princípios, que não parecia integrar o sistema, e eu adorava isso. Ele era astuto, delicado, entusiasmante, e tinha as respostas todas. Deslumbrei-me imediatamente. Surgiu uma atração eletrizante e obsessiva.”

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McQueen procurou convencê-la a aceitar o papel em The Getaway, e MacGraw pretendia que ele aceitasse o de protagonista em The Great Gatsby. O resultado foi inconclusivo. MacGraw continuava relutante.

“Hesitei porque já pressentia que me iria meter em sarilhos com Steve. Não havia forma de o evitar. Ele separara-se recentemente e eu tinha medo da minha enorme atração por ele.”

mcqueen the getaway (18)Quando a Paramount se fartou dos impasses e o negócio transitou para a First Artists, o agente de McQueen, Freddie Fields, resolveu o imbróglio. O negócio foi arriscado para o seu cliente, que não receberia nenhum salário de antemão, mas teria direito a 10 por cento do total dos lucros, mal o filme rendesse um dólar. Era o tudo ou nada.

O marido de Ali MacGraw telefonou a Sam Peckinpah, dizendo-lhe que, independentemente das negociações, Ali devia ser considerada para o papel. O realizador ficou encantado e tornou-se, segundo Walter Hill, um dos maiores defensores da contratação de MacGraw, que foi efetuada.

Alguém tinha de ceder. O orçamento ultrapassou os três milhões de dólares, barreira que a financiadora National General estipulava. Mais uma vez, o agente de McQueen interveio, sugerindo que MacGraw recebesse o previsto, 300 mil dólares, e que os lucros do filme na Alemanha fossem para ela. A atriz concordou e viria a ganhar mais do que esperaria.

Estava tudo pronto para a rodagem, que começou a 7 de fevereiro de 1972 na Prisão de Huntsville, no Texas. É a cena inicial de The Getaway, em que McQueen se comporta como um presidiário, e os restantes intervenientes eram realmente presidiários.

“Bom, a cena termina quando o Sam grita ‘corta’, e dirijo-me ao camarim para beber um café”, recordou McQueen. “Lá ia eu, vestido de preso, separando-me dos presidiários. Quando dou por mim, estou a correr a toda a mecha, com uma matilha de cães quase a morderem-me o rabo. Estavam treinados para perseguirem qualquer prisioneiro que saísse das fileiras, e ninguém se dera ao trabalho de os informar que aquilo era um filme. Nem sei como saí inteiro daquele pátio.”

A cena inicial, filmada na Prisão de Huntsville.
A cena inicial, filmada na Prisão de Huntsville.

Peckinpah filmou em locais já existentes. Depois de Hunstsville (quatro dias), seguiu-se San Antonio (seis dias) e El Paso (cinco semanas). Era uma produção à maneira da Sam Peckinpah, tudo aparentemente descontrolado… o duplo Gary Combs afirmou nunca ter visto uma equipa que fumasse tanta droga.

A atriz Sally Struthers lembra-se que Peckinpah “tinha um grave problema com a bebida. Começava a beber tequila com Al Lettieri às 8:00 e, às 11:00, já não se podia falar com nenhum dos dois”.

MacGraw, Sally Struthers, McQueen e Al Lettieri.
MacGraw, Sally Struthers, McQueen e Al Lettieri.

Ali MacGraw chegou ao set um dia depois de McQueen para uma cena na prisão. Com Steve e Peckinpah, foi depois transportada até ao condomínio onde a equipa se instalara. “Que viagem! Steve começou a exibir-se, aos ziguezagues pelas quatro vias da autoestrada com o carro alugado. Foi um começo profético para a nossa relação.”

“Lembro-me de o ver do outro lado de uma piscina e fiquei com os joelhos a bater um no outro. Radiava tanta energia máscula. Os homens queriam ser como ele. As dignificadas senhoras da sociedade e as namoradas dos motoqueiros morriam para estar com ele.”

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A equipa reparou na atração magnética entre os dois protagonistas – o ambiente, nesse aspeto, era pesado. Romances deste tipo, durante filmagens, não são coisa rara e espalharam-se boatos de que ambos já estavam na cama uma hora depois de se encontrarem. O supervisor dos adereços Bobby Visciglia nega: “Ali não o suportou durante o primeiro mês e meio. Quando filmaram a cena na prisão, disse-me, ‘mantém este filho da mãe longe de mim!’”

Segundo Visciglia, foi durante a primeira cena amorosa que se apaixonaram. Era um par insólito, pois McQueen preferia a companhia de pessoas simples, e Ali era uma intelectual. Perguntaram a Ali por que estava a fazer aquilo a Evans, e esta respondeu que a sua vida conjugal era cheia de mordomias. McQueen era um indivíduo terra-a-terra. Ambos deixaram de esconder, o que se tornou num pesadelo para o produtor David Foster. “Será que Bob Evans aparece aqui de caçadeira na mão? Isto vai ser um escândalo e o filme não será levado a sério?”

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Steve McQueen era um mulherengo inveterado, com uma tendência inevitável para infidelidades e reações imprevisíveis e violentas com mulheres. Divorciara-se de Neile Adams, mas continuou a considerá-la a sua melhor amiga. O caso de MacGraw foi diferente. Os amigos dizem que foi a mulher da vida do ator.

Sam Peckinpah tinha já alertado Bob Evans para não visitar o set, no sentido de não interferir nas filmagens, algo que Evans respeitara. Isto só deu mais liberdade aos protagonistas. David Foster, furioso, confrontou Steve McQueen: “És maluco. Vê se metes juízo nessa cabeça.” O ator tranquilizou-o: “Não te preocupes, está tudo bem.”

A atriz Sally Struthers assistiu: “Adoro ver duas pessoas a apaixonarem-se. Muitas pessoas são casadas e isso não significa que sejam felizes, nem que vá durar nem que sejam certos um para o outro. Acontece e infelizmente é exaltado no mundo do espetáculo. Mas acontece todos os dias em bairros de todo o mundo. Só que essas pessoas não acabam nos jornais.”

Peckinpah e McQueen.
Peckinpah e McQueen.

O falatório chegou à imprensa, e MacGraw regressou apressadamente para junto do marido, o que se viria a revelar uma manobra de faz-de-conta, já que passaram apenas a coabitar na mesma casa. “Os produtores queriam dois Big Macs e tiveram mais do que pretendiam”, comentou Casey St. Charnez, um dos biógrafos de McQueen.

No set de The Getaway, McQueen, que sempre fora “um pouco” indomável, mostrou-se feroz. O grande motivo era, obviamente, MacGraw e, no filme, nota-se bem a atração entre ambos. Foi tão autoritário que, quando contraiu gripe, a equipa teve de votar se lhe enviaria um cartão a desejar melhoras. Foi aprovado por 70 contra 49.

Sam Peckinpah era o tipo de “bruto” que, quando confrontado, passa a respeitar quem o fez, um pouco ao estilo de Lucio Fulci. Manteve o controlo em The Getaway. Como disse um observador, “com os atores era descontraído, mas com a equipa até fazia estalar um chicote”. A sua relação com Steve McQueen não era fácil, mas Peckinpah dizia sempre às pessoas, “se quiserem ver como se representa em cinema, prestem atenção aos olhos de McQueen”. A admiração era mútua.

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Desentenderam-se várias vezes, como na cena importante em que ‘Doc’ sai da prisão e fica a sós num quarto com a esposa, passados quatro anos. Steve achava que o personagem era um animal que se atiraria à mulher. Peckinpah discordou. Queria que ‘Doc’ se mostrasse intimidado. E foi o que ficou no filme, “[a prisão] faz-nos coisas…”, tenta explicar ‘Doc’ a ‘Carol’. Resultou muito melhor.

Noutras sequências, envolvendo adereços de todo o tipo, como frigideiras, McQueen foi muito elogiado pelo diretor de fotografia Lucien Ballard e por Walter Hill. Este último diz também que “nunca ninguém manuseou armas tão bem no cinema. Nota-se o treino militar de Steve nos seus filmes. Ele era mesmo ativo e confiante ao manejá-las. Era uma abordagem muito inovadora para a época”.

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Obsessivo com a autenticidade, McQueen dedicou atenção ao corte de cabelo (de presidiário), ao guarda-roupa, aos diálogos e aos automóveis. “Olhem para os carros em The Getaway”, salienta o produtor David Foster. “Amassados. Como os que um criminoso guiaria. Pegava no guião e dizia, ‘demasiadas palavras, demasiadas palavras… dou-te um close-up que diz mil’. Ele era assim. Achava que um criminoso não deveria ser muito erudito ou ter longos diálogos, e tinha razão.”

McQueen foi embirrento com o responsável pelo guarda-roupa, despindo uma camisa e atirando-a para o chão. O reputado Kent James não estava para o aturar e disse ao produtor que ia embora. Quando McQueen soube, foi ter com James e pediu desculpa. Ficaram amigos para o resto da vida. James começou a saber lidar com o ator quando este resmungava. “O que foi agora, Steve? Rasgaste outra vez os collants?”

Houve problemas com Al Lettieri, celebrizado por The Godfather (O Padrinho). O ator era irmão de um mafioso e não era para brincadeiras. McQueen apresentou a atriz Sally Struthers a um amigo, sem saber que esta saía com Lettieri. Quando Struthers terminou o caso com o ator, Al Lettieri apareceu de pistola no set à procura de Steve McQueen. Os ânimos acalmaram, mas McQueen contratou dois guarda-costas para vigiarem o ator. “Ele sabia tomar conta de si mesmo”, notou Visciglia, “mas olhava por cima do ombro mais do que uma vez quando Al estava no set”.

MacGraw, tentando agradar a
MacGraw, tentando agradar a “dois brutos”.

Ali MacGraw, num fogo cruzado, procurava agradar a McQueen e Peckinpah. Era uma ex-modelo e uma mulher refinada com dois brutos. Felizmente, Peckinpah também tinha um lado gentil e tratou bem a atriz. Aproveitou a atração entre a dupla com inteligência. No final, instruiu secretamente o ator Slim Pickens a cortar o diálogo e a perguntar a McQueen e MacGraw: “Vocês são casados, miúdos?”

“Atira-lhe isso de chofre, para vermos se o Steve sabe representar”, segredou Peckinpah a Pickens, que obedeceu. McQueen ficou espantado. Ali sorriu e respondeu “sim”. A cena ficou no filme.

Este “sim” foi pronunciado na vida real a 12 de julho de 1973, dia em que Terrence Stephen McQueen casou com Alice MacGraw Hoen Evans. Era o segundo casamento do ator e o terceiro da atriz. A cerimónia foi simples, com a presença dos filhos de McQueen. O ator considerava o Wyoming o derradeiro Estado que não tinha sido “estragado” pela civilização. Portanto, o local foi simbólico: A margem do Lago Minnehaha, em Cheyenne.

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Terminado o trabalho, Steve assumiu o controlo, retirando-o a Sam Peckinpah e supervisionou a remontagem de The Getaway. O realizador, indignado, deserdou o filme, mas isso não é nada de novo quanto a Peckinpah. E não precisava de o fazer, pois o seu estilo está lá, na violência em câmara lenta, no modo como sempre filmou; juntamente com a narrativa sintética e bem orquestrada por Walter Hill e a química entre os protagonistas. A banda sonora de Jerry Fielding, já terminada, foi atribuída pelo produtor a Quincy Jones, com a aprovação de McQueen.

O filme incluiu o cinismo dos anos 70, em que o anti-herói leva a melhor e consegue fugir. Em Espanha, a atitude não caiu bem; vivia-se um regime fascista. No final, surge uma indicação de que ‘Doc’ e ‘Carol’ voltam a ser presos seis semanas depois da fuga. Foi colada uma cena no final, com McQueen a reentrar na prisão, para agradar aos censores.

McQueen (com Peckinpah, à direita, e restante equipa) celebra o seu aniversário nas filmagens. Mais tarde, retiraria o controlo do filme ao realizador.
McQueen (com Peckinpah, à direita, e restante equipa) celebra o seu aniversário nas filmagens. Mais tarde, retiraria o controlo do filme ao realizador.

De modo geral, a crítica não gostou. Jay Cocks disse na Time que “se o filme tivesse saído da linha de montagem, podia ser facilmente esquecido. Mas é o trabalho de um grande artista americano. Peckinpah está a abusar dos seus privilégios”. Pauline Kael achou que “o profissionalismo discreto de Steve McQueen se tornara em representação mínima. MacGraw é a mulher de um gangster mais empertigada e convencida de todos os tempos”. Kael achou que faziam um par terrível porque “a cabeça de MacGraw é maior que a de McQueen”.

A única coisa que coincidiu na reação do público e da crítica foi o facto de repararem que o lado indomável de Steve McQueen nunca tinha surgido com tanta “verosimilhança” nos seus filmes. Ao contrário do que vemos no ecrã, o ator estava em paz consigo mesmo devido a Ali MacGraw, com quem queria casar.

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Desde o lançamento de The Getaway, em dezembro de 1972, ao casamento, foi uma questão de meses. Os tabloides encarregaram-se do que sucedeu entretanto, e várias biografias, algumas recentes, disseram horrores sobre o comportamento do ator para com Ali MacGraw e as mulheres.

A união não durou muito e não foi um mar de rosas. Steve tentou boicotar a carreira da atriz. Depois de Ali MacGraw ter pedido o divórcio, e quando já namorava com a que seria a sua terceira esposa, Barbara Minty, Steve McQueen tentou retomar o relacionamento com MacGraw. Esta recusou. Terá ocorrido em 1979, um ano antes da morte do ator, quando este já sabia que tinha os dias contados.

Durante a rodagem de Papillon (1973).
Durante a rodagem de Papillon (1973).

Depois da morte de McQueen, em 1980, Ali MacGraw, no programa de TV Entertainment Tonight, indignou-se e perdeu a calma perante a atitude mórbida dos jornalistas: “A coisa mais importante para ele era a sua privacidade e dignidade. Estava demasiado fraco para combater esse tipo de invasão. Todos nós que o amávamos, ficámos doidos. Ainda guardo um enorme rancor por uma revista que publicou uma foto dele depois de morto. Não compreendo. A dor é demasiado grande para ser violada dessa forma.”

Só um estúdio publicou um anúncio de página inteira na imprensa, com apenas uma frase no centro: “A United Artists junta-se à indústria, expressando o seu pesar pelo falecimento de Steve McQueen.”

Como diz a canção… “we’ll get away just like McQueen did with MacGraw when they were in that groovy film by Peckinpah”. The Getaway é recomendável, não por estas histórias, mas porque é um bom filme, independentemente delas.

David Furtado

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