Death Wish 4: The Crackdown – A Bronson o que é de Bronson

J. Lee Thompson era um realizador eficiente e que Bronson respeitava imenso. Se alguma coisa não corria bem, o ator repetia sem protestar. Esta confiança, aliada ao profissionalismo dos envolvidos, tornou o set de Death Wish 4: The Crackdown (O Exterminador da Noite) num ambiente feliz e descontraído, por muitos tiros e pancadaria que vejamos no ecrã. Dana Barron recorda, com afeto, o lado brincalhão do icónico Charles Bronson, “esse personagem”. O argumentista fala de um homem rabugento que dispensava duplos e rasgava o guião ao meio, dizendo, “que porcaria”…

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Charles Bronson continuou a trabalhar com a Cannon em Murphy’s Law (A Lei de Murphy) e interpretou de seguida o patrão de um sindicato em Act of Vengeance (Acto Selvagem) para o canal HBO, papel ligeiramente diferente do seu estilo e sem o carismático bigode. Regressou à Cannon em 1987 com Assassination (Missão de Alto Risco), contracenando pela última vez com a sua esposa Jill Ireland.

Os filmes que hoje são considerados clássicos pelos fãs do cinema de ação, nomeadamente The Delta Force (Força Delta) com Chuck Norris, e Over the Top (O Lutador), com Sylvester Stallone, lançados no final dos anos 80, nunca foram blockbusters. Missing in Action (Desaparecido em Combate) de 1984, com Norris, foi o maior sucesso de sempre da Cannon, arrecadando 38 milhões de dólares.

charles bronson death wish 4 (14)Em 1986, a companhia enfrentava a ira dos acionistas e a apatia do público. No ano seguinte, foram inundados de processos por parte de empregados. No meio das dificuldades, a produtora ambicionava (e precisava) de um êxito. As suas maiores apostas eram Chuck Norris e Charles Bronson.

Para a conceção de Death Wish 4: The Crackdown, a Cannon pediu auxílio a Pancho Kohner, produtor independente que trabalhara sete vezes com Bronson e era filho do agente do ator, Paul Kohner. “Quando se trabalhava com Charles, havia pessoas que enviavam guiões e, de repente, surgia um bom.” Foi assim que se produziram Murphy’s Law e Assassination, embora Kohner não tivesse um contrato nem obrigatoriedades com a Cannon.

Pancho Kohner apreciava o primeiro Death Wish, mas as sequelas não lhe agradavam tanto. O produtor revela que Bronson tinha um bom relacionamento com a dupla Golan/Globus e não se importava de retomar o papel: “Ele sabia o que o seu público queria dele e não pretendia desviar-se muito disso. Ocasionalmente, enveredou por outros rumos, como no caso de From Noon Till Three (Três Horas Decisivas) (1976).”

O ator explicou ao Los Angeles Times, em 1986: “Todos os argumentos que me oferecem são violentos. Não sei o que fazer, exceto optar por aqueles que têm algo a dizer.”

Michael Winner afirmou ter recusado Death Wish 4, mas circularam também rumores de que Bronson não gostara de trabalhar com ele em Death Wish 3 e o rejeitou como realizador. A única hipótese considerada por Kohner e Bronson foi J. Lee Thompson, um veterano da II Guerra Mundial, com uma extensa carreira no cinema, iniciada em 1940. Trabalhou em todos os géneros, foi argumentista, editor e realizador. Entre muitos outros, realizou os clássicos Guns of Navarone (Os Canhões de Navarone) e Cape Fear.

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Ao longo de vários anos, Bronson e Thompson mantiveram uma colaboração que deu origem a alguns dos melhores filmes de Bronson enquanto herói de ação: The White Buffalo (A Carga do Búfalo Branco), Caboblanco (A Aventura Começa em Caboblanco), 10 to Midnight (Dez para a Meia-Noite), The Evil That Men Do (Vingança Selvagem) e Murphy’s Law.

Quanto a argumentos, havia muito por onde escolher, e a opinião de Bronson contava mais do que as restantes. Brian Garfield escreveu um guião que foi rejeitado pelo ator. Gail Morgan Hickman acabou por ser incumbido da tarefa; as suas ideias para Death Wish 3 não tinham sido aprovadas, mas Hickman, diga-se, tinha habilidade para engendrar filmes de ação e já escrevera Murphy’s Law e The Enforcer.

Gail Morgan Hickman admite que precisava de um projeto comercial para iniciar a carreira e foi assim que surgiu Murphy’s Law: “Achei que seria interessante algemar um polícia duro a uma ladra de automóveis numa fuga. De início, pensei em Clint Eastwood para o filme.”

Agindo por sua conta, Hickman achou melhor não se dirigir diretamente a Bronson, mas ao seu agente. Os Kohner, pai e filho, gostaram do guião de Murphy’s Law e Bronson também. Foi aprovado. Portanto, Hickman foi convidado para selecionar o script de Death Wish 4.

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Escolheu uma história que dava alguma consistência ao personagem de ‘Paul Kersey’, numa franchise que corria o sério risco de se tornar repetitiva. A ideia de Hickman não obteve aprovação. Nesta época, Bronson já evidenciava sinais de Alzheimer; sofria de esquecimentos. A sua esposa, Jill Ireland, estava a ser tratada devido a cancro da mama. Hickman recorda Ireland como uma pessoa positiva: “Escreveu um livro chamado Life Wish e não queria representar uma personagem que morria no filme.”

Hickman recorreu a outra história sua que ninguém aceitava, sobre de um terrorista que vinha a San Francisco, “numa espécie de missão e matava um amigo de ‘Paul Kersey’”. Os envolvidos acharam boa ideia, e Gail Morgan Hickman empenhou-se nisso, só que a Cannon anunciou Wanted: Dead or Alive (Procura-se Morto ou Vivo) com Rutger Hauer, filme que se baseava no mesmo conceito… 

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Pela terceira vez, e agora sob a pressão injusta da Cannon, Gail Hickman imaginou ‘Paul Kersey’ a receber mensagens do estilo “sei o que fizeste”, acompanhadas por fotografias. O argumentista inspirou-se em A Fistful of Dollars (Por Um Punhado de Dólares) e Yojimbo, pegando no conceito de dois gangs antagónicos, com ‘Kersey’ no meio. Outras ideias foram incluídas por Pancho Kohner.

“Os responsáveis da Cannon respiraram de alívio, pois já tinham todo o esquema de publicidade montado”, diz Hickman. “Eu não era fã do terceiro capítulo da saga, embora gostasse do segundo. Era bastante óbvio que Golan e Globus queriam um filme de entretenimento. E também era uma época em que o género ação evoluía nesse sentido, incluindo vários exageros. O primeiro guião de Death Wish 4 era sério, mas Thompson e eu decidimos torná-lo mais ligeiro.”

“Parecia-me que havia dois modos de contar a história de um vigilante: Um, sobre as implicações morais de viver num mundo onde se pode fazer justiça pelas próprias mãos, o que isso faz à sociedade e ao autor de tais atos. Ou então, o entretenimento. E, nesse caso, tem de ser um cartoon, porque, se assim não for, é uma irresponsabilidade pôr um homem a abater pessoas nas ruas sem julgamento. Se não íamos lidar com a moralidade do mundo, que o fizéssemos por divertimento.”

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Hickman equipara os exageros crescentes da saga Death Wish à de James Bond, embora distancie aqui a saga Dirty Harry, “na qual houve uma transição diferente até se tornar num cartoon”. Por estes motivos, foram inventados novos gadgets para ‘Paul Kersey’, que incluíam agora uma submachine gun (que combina o disparo automático de uma metralhadora com munições de pistola), um lança-granadas e uma garrafa de vinho que explode…

Gail Hickman aplicou-se freneticamente no argumento durante dois meses. Noutras frentes, já se contratavam atores, a fase da pré-produção avançava. Kay Lenz foi considerada a melhor atriz a surgir numa sequela de Death Wish, possuía um extenso curriculum e fora galardoada com um Emmy. Entre muitos papéis, destaca-se Breezy (Ontem ao Fim do Dia), o segundo filme realizado por Clint Eastwood, em 1973, no qual a atriz se estreou no grande ecrã.

Kay Lenz e Bronson.
Kay Lenz e Bronson.

Dana Barron era outro rosto conhecido nesta época, especialmente devido ao papel de filha de Chevy Chase em National Lampoon’s Vacation (Que Paródia de Férias) (1983). Barron foi contactada para um casting e ficou entusiasmada:

“Conhecia Bronson, claro. Que grande ícone. Mas não tinha visto o seu trabalho porque era demasiado jovem para isso! Não assistia a filmes violentos. Recordo-me de celebrar o meu 19º aniversário no set. Acho que isso é sempre um bom presente, já que estamos a trabalhar num filme.”

Dana Barron ficou entusiasmada com a ideia de contracenar com Bronson.
Dana Barron ficou entusiasmada com a ideia de contracenar com Bronson.

Em vez dos punks de rua dos anteriores filmes, Death Wish 4 inclui vilões bem vestidos, sendo o principal John P. Ryan, que estudara no Actors’ Studio com os colegas Robert De Niro, Dustin Hoffman, Al Pacino e Robert Duvall. Não ficou tão famoso, mas era um ator respeitado.

O argumento lidava com tráfico de droga, e o filho que Jill Ireland adotara, enfrentava problemas com drogas pesadas. Charles Bronson nunca aludiu a este paralelismo. O argumentista achou o ator temperamental: “Ele podia ser impulsivo e imprevisível.”

De manhã, pegava no guião e rasgava-o ao meio, dizendo, “isto é uma porcaria”. Faziam-se as alterações possíveis. Porém, à tarde, Bronson insistia, entre takes: “Isto não presta. É estúpido. Não gosto disto. Detesto esta frase.” Hickman não antipatizava com o ator, mas tinha de reescrever non-stop, devido a estas situações.

Olá...
Olá…

O retraimento de Bronson permanecia intacto. Não almoçava com a equipa, mas sim, sozinho no trailer. O ator não apreciava o catering geralmente fornecido nos sets e, portanto, cabia a Hickman encontrar bons restaurantes, uma vez que Bronson, que vivera na miséria, não gostava de maus estabelecimentos e era muito cuidadoso com a dieta.

Hickman confirma que Bronson era um pouco resmungão e um bicho-do-mato. “Mas era um homem interessante. Conheci-o num restaurante de Malibu para falar de Murphy’s Law. A meio do almoço, apareceu Jill. Mal ela entrou, o rosto dele iluminou-se como o de um rapazinho. Levantou-se e puxou-lhe a cadeira como um cavalheiro. Ela amava-a realmente.”

Dana Barron achava que Bronson era “um personagem. Muito amigável, descontraído, sempre a assobiar. Ao caminhar, fazia poses na brincadeira. Tinha aquele brilho de uma criança no set. Era uma dicotomia interessante, tendo em conta a sua presença no ecrã, pois era muito brincalhão ao trabalhar. É isso que mais recordo dele. Tinha uma família que o apoiava e vinha vê-lo. Lembro-me de conversar com ele sobre o seu desejo de fazer outro tipo de filmes. A minha mãe era uma grande fã de Charles Bronson. Até veio de Nova Iorque assistir às filmagens.”

Dana Barron gostou de trabalhar com Bronson. Não foi como imaginara.
Dana Barron gostou de trabalhar com Bronson. Não foi como imaginara.

Estas impressões de Barron no set de Death Wish 4 condizem com a opinião de Pancho Kohner: “Mais cedo, na sua carreira, os produtores tinham exigido muito dele; muitas horas de trabalho e sem o tratarem bem por ele ainda não ser uma grande estrela. Charles guardava um terrível ressentimento por causa disso. Trabalhava oito horas, não 16, o que deixou a equipa toda feliz.”

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O realizador, Thompson, era uma pessoa afetuosa que contava histórias engraçadas. Hickman recorda que “era perfeito para Charlie. Pensa-se que ser realizador consiste em esculpir representações e escolher os ângulos certos para a câmara, mas uma das grandes tarefas de um realizador é gerir os egos e personalidades das estrelas. É um dos motivos por que os ‘grandes realizadores’ obtêm esse título. Charlie tinha um ego, e merecidamente”.

Nalguns dias, Bronson aparecia rabugento no set. “Podia até nem estar relacionado com o script, nunca se sabia. Talvez o pequeno-almoço lhe tivesse caído mal. Mas J. Lee era mesmo bom a lidar com ele, fazendo-o sentir integrado no processo criativo.”

Charles Bronson tivera uma má experiência com Walter Hill nas filmagens de Hard Times (O Lutador da Rua), em 1975. Desenrolava-se durante a Grande Depressão, e Hill queria um visual estilizado, mas Bronson, que vivera esses tempos difíceis, dizia-lhe que certos pormenores não eram fidedignos. Walter Hill não o quis ouvir, o que entristeceu o ator.

Thompson não era assim. Realizou Death Wish 4 aos 73 anos, era consumidor de álcool e anfetaminas e não mostrava sinais de abrandar. O cineasta foi responsável pela melhor realização de um filme da saga. Não repetiu os excessos anteriores de Michael Winner nem o seu desleixo. Em boa forma, J. Lee Thompson sabia o pretendido: Ação. Nisso ninguém nega a sua eficácia.

Por exemplo, enquanto Winner incluiu, nos três capítulos anteriores, cenas repugnantes e gratuitas de violação, em Death Wish 4, Thompson incluiu uma tentativa. O realizador não era consensual, apesar disso. Segundo Dana Barron, Thompson quis que ela tirasse a roupa e expusesse os seios. A jovem atriz recusou, alegando que tal não estava no contrato. “Ele foi maldoso e tentou rebaixar-me. Felizmente sou de Nova Iorque, não sou qualquer ingénua do Kansas. Venci a discussão”, graceja Barron. “É pena, mas dele não tenho boas memórias.”

A atriz prossegue: “Excetuando isso, tenho excelentes recordações de Death Wish 4. Estávamos contentes por estar ali, sentíamos que continuávamos o ‘legado’. Kay Lenz era uma mulher maravilhosa, muito espontânea e sem pretensiosismos de qualquer espécie. Quando a minha personagem morre, lembro-me que Kay ficou perturbada o dia todo, pois o seu papel era bastante emocional.”

charles bronson death wish 4 (6)Aos 66 anos, Bronson não teve problemas com as cenas de ação. O coordenador de duplos, Ernie Orsatti, preocupava-se muito em proteger o ator, mas este, em plena forma, disponibilizou-se para várias cenas que normalmente envolveriam um duplo. Hickman graceja que “ele não era o Jackie Chan, mas também não era medroso, definitivamente!”

Outro dos méritos de J. Lee Thompson reside no modo como filmou Charles Bronson. Surge em Death Wish 4 com um ar ameaçador e carismático. A Cannon não interferiu na rodagem – Golan e Globus andavam ocupados em eventos sociais.

Curioso é também o facto de a banda sonora ter sido composta pelos enteados de Charles Bronson, Paul e Valentine McCallum, em colaboração com John Bisharat. Não se deveu a interferências do famoso padrasto. Basicamente, eram compositores e trabalhavam por pouco dinheiro.

O quarto capítulo foi o 47º filme realizado por J. Lee Thompson, é o mais longo (99 minutos), tem ritmo e cumpriu o objetivo: Um filme de pipocas. Nada mais, nada menos. Tudo correu muito melhor com a censura, que não colocou objeções.

Estreado a 6 de novembro de 1987 em 1.030 cinemas americanos, Death Wish 4: The Crackdown recebeu… críticas decentes. A Variety admitiu que a fórmula ainda funcionava e que “os fãs de Bronson apreciarão a contagem de cadáveres e o humor negro”. “Previsível” e “inofensivo” foram outros adjetivos. Até o Los Angeles Times concedeu que era um filme “eficiente, uma fantasia de banda desenhada”.

A Cannon tomou de assalto os clubes de vídeo, fornecendo imagens de cartão em tamanho real de Bronson com a espingarda. As cassetes diziam bombasticamente, “This Time It’s War!” Os proprietários dos videoclubes puseram o filme em grande destaque na secção de ação, o que fez de Death Wish 4 o filme que mais vendeu de toda a série: 100 mil cassetes.

A Cannon não soube gerir o negócio e, no final da década de 80, entrou em colapso financeiro. Golan e Globus desentenderam-se, jurando que nunca mais fariam filmes juntos. O determinado Menahem Golan fundou a sua própria companhia, a 21st Century Pictures. E adivinhe-se qual foi um dos primeiros filmes anunciados… Exato. ‘Paul Kersey’ não estava pronto para a reforma e regressaria numa derradeira sequela.

Por falar em sequelas, termina no próximo artigo: «Death Wish V: The Face of Death».

David Furtado

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