Death Wish II: “Acreditas em Jesus? Ainda bem, vais conhecê-lo.”

O sucesso de Death Wish (O Justiceiro da Noite) deu novo alento à carreira de Charles Bronson. A dupla de produtores Golan e Globus, da Cannon, queriam tanto fazer uma sequela que a anunciaram insolitamente na imprensa, como “próximo lançamento”. Dino De Laurentiis avisou-os: Sujeitavam-se a um grave processo por fraude. Ou… podiam comprar os direitos. Entre a espada e a parede, acederam. Pelo meio, o argumentista ficou à beira de um ataque de nervos e foi afugentado por Charles Bronson.

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No rescaldo de Death Wish, os filmes anteriores de Bronson, como Mr. Majestyk e The Stone Killer, foram reexibidos. The Mechanic foi até relançado nos cinemas com outro título, The Killer of Killers, uma tentativa de ludibriar o público com uma suposta sequela.

O realizador Michael Winner afirmou: “Ao longo da História, os dramaturgos apenas registaram o que se passa na sociedade… a violência na sociedade era muito maior antes do aparecimento do cinema e da televisão… não acho que, se retirarmos seis socos de determinado filme, um assaltante acorde uma manhã e diga, ‘hoje não vou assaltar ninguém. Vou-me instalar numa pousada de juventude e ajudar os jovens’.”

Bronson quer apenas ler o jornal, mas não o deixam...
Bronson quer apenas ler o jornal, mas não o deixam…

No final de 1974, Death Wish foi eleito um dos melhores 10 filmes do ano por alguns jornais americanos. Foi o primeiro blockbuster de Charles Bronson nos EUA, tendo arrecadado 20 milhões de dólares no final do ano. As suas obras anteriores, realizadas na Europa e sobretudo em Itália, foram lançadas na América. A Paramount promoveu Death Wish com novos visionamentos e publicidade, ambicionando nomeações para os Óscares.

Com o carismático gorro.
Com o carismático gorro.

No início de 1975, a Columbia Pictures lançou o filme em vários países, tonando-o num êxito internacional enorme. Em Londres, censuraram-no, mas no México e na Turquia, não. Para o público japonês, Charles Bronson tornou-se num ídolo. Perguntaram ao ator como encarava a súbita popularidade: “Não me peçam para explicar uma mística… estou só a desfrutar de tudo isto enquanto dura. Não sou um dos meus atores favoritos.” A Roger Ebert, disse: “Sou apenas um produto como uma barra de sabão, para ser vendido o melhor possível.”

A reviravolta foi tão grande que todos os estúdios queriam contratar Bronson. O ator, porém, revelou que considerava aposentar-se. Não foi o que sucedeu: Continuaria ativo nos 23 anos seguintes. Várias propostas foram consideradas, mas uma sequela de Death Wish não constava nos planos do produtor Dino De Laurentiis: “Pessoalmente, não gosto de sequelas, prefiro sempre explorar outras áreas. Mas essa pergunta reforça a ideia de que talvez o deva repensar…” Com efeito, ao longo de 60 anos de atividade, De Laurentiis produziu muito poucas sequelas.

Entre os fãs de Death Wish, havia muitos polícias, curiosamente, além de cidadãos comuns. A popularidade do filme manteve-se até 1980, entrando na Era do VHS e Beta e inspirando inúmeros clones. Neste lapso de tempo, Bronson dedicou-se a outros filmes, assegurando três sucessos internacionais consecutivos no mesmo ano: Breakout, Hard Times e Breakheart Pass (1975). Variou um pouco com St. Ives (1976) e Telefon (1977). Mas, em 1980, a sua estrela já não brilhava tanto. O ator admitiu que “ninguém fica no topo para sempre”, em 1979.

Aliás, Charles Bronson nem precisava de continuar a trabalhar: “Tenho dinheiro suficiente para o resto da vida e para assegurar a vida dos meus filhos. Mas sou um elemento de uma trupe, gosto de sujar as mãos.”

No meio de tantas imitações de Death Wish, uma dupla de produtores ambicionava o “produto genuíno”: Menahem Golan e Yoram Globus. Eram dois primos israelitas que já obtinham sucesso na sua terra natal desde 1960 e se mudaram, em 1979, para o mercado americano. Compraram uma empresa de distribuição e produção nova-iorquina de contornos questionáveis, The Cannon Group Inc. E começaram logo a lucrar com The Godsend, Schizoid e The Happy Hooker Goes Hollywood, todos de 1980.

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Os primos queriam uma grande estrela e anunciaram nos jornais diversas “novas atrações”, entre as quais… Death Wish II (O Vingador da Noite). Esta manobra tresloucada provocou uma reação inesperada em Dino De Laurentiis, que achou divertido. Por que não ganhar algum dinheiro? Advertiu Golan e Globus que se arriscavam a um processo por fraude, visto que não detinham os direitos do original. Mas podiam… comprá-los.

“Foi uma espécie de ‘façam-me uma oferta que não posso recusar’”, graceja Brian Garfield, autor do livro original. “Encostou a Cannon à parede e disse-lhes que, por cada sequela que fizessem, tinham de nos pagar uma percentagem.” A Cannon cedeu.

O tiro saiu pela culatra. O coprodutor do Death Wish original perguntou a Golan e Globus se tinham um argumento, e estes disseram que sim, mas… estava a ser escrito à pressa por David Engelbach. Na verdade, nem era o guião do filme, era outra história policial que foi cosida como uma manta de retalhos para se enquadrar no espírito do Justiceiro…

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Faltava o principal: Bronson. Golan e Globus contactaram o seu agente, Paul Kohner, e, por seu intermédio, o ator disse que não estava interessado. Nem sequer queria ler o argumento. Só as insistências junto de Kohner produziram resultados: “Está bem, mandem-me o guião. Se eu gostar, entrego-lho.”

Conclusão: Golan e Globus pressionaram o atarefado Engelbach para acabar o argumento, contando-lhe esta história. O argumentista entrou em parafuso e, quando terminou o guião, meteu-se no carro, arranjou uma Mapa das Casas das Estrelas de Hollywood e foi bater à porta de Charles Bronson!

Para cúmulo, Bronson era uma pessoa muito resguardada e não apreciava quando lhe vinham bater à porta em busca de autógrafos ou tirar fotos à propriedade. Embora fosse sereno e tímido, se o importunavam… tinha armas em casa. Quando abriu a porta a Engelbach, disse-lhe “quem és tu? Põe-te fora daqui!” Engelbach deixou cair o argumento no alpendre e fugiu a correr.

Charles Bronson telefona então ao seu agente e pergunta: “O que andam vocês a fazer? Não vos disse para não me mandarem o maldito script?!” O agente nada sabia, pelo que contactou Golan e Globus, dizendo o mesmo: “O que andam vocês a fazer? São doidos? Depois deste trabalho todo? Esse louco apareceu-lhe à porta!” Os produtores nada sabiam e telefonaram a Engelbach, durante três dias, sem o conseguirem localizar.

O argumentista telefonou e confessou: “Fiquei tão empolgado quando o acabei, que me passei e fui lá…” Acalmados os ânimos, Charles Bronson reavaliou a ideia e apreciou o salário de 1,5 milhões de dólares, proposto por Golan e Globus.

Todd Roberts, o filho do produtor de Death Wish, tinha então 19 anos e viu-se envolvido no processo, como moço de recados. “Uma vez, disseram-me para ir à Cannon Films, buscar um guião ou não sei o quê. Pensei, ‘que espelunca’. Tinham os posters dos seus filmes na parede e eu nunca ouvira falar de nenhum. E íamos nós fazer negócio com estas pessoas em Death Wish II. Era quase fatalista. Eu não acreditava que aqueles tipos conseguissem fazer um filme. Mas enganei-me. Até fizeram um decente. Só prova que nunca sabemos o que pode acontecer.”

Michael Winner, contrariado, regressou por pedido de Bronson e também porque a sua carreira após Death Wish não correra bem. Tentara concretizar um projeto, Firepower, com Bronson e Sofia Loren, mas surgiram conflitos: Bronson era inseguro e não queria a concorrência de coprotagonistas conhecidas. Loren não queria contracenar com Bronson porque o achava inferior. Protagonizado por James Coburn, foi um fracasso.

Winner retocou o guião de Death Wish II sem evitar erros de continuidade, e Bronson dedicou-se a eliminar e a bater em vilões sem estar preocupado em manter-se fiel ao personagem. A Cannon, com a sua tendência para o exagero, falou num orçamento entre 8 e 10 milhões de dólares. Em maio de 1981 começou a filmagem, tendo em vista o lançamento no Natal. Originalmente, desenrolava-se em São Francisco, mas foi filmado em Los Angeles e Hollywood. O argumento era débil e tinha só 89 páginas.

Quando o protagonista apareceu no set, Michael Winner ficou espantado e lamentou-se: “Ele tinha feito um facelift. Fez tantos que não sei como ainda lhe conseguiam esticar a pele. Nos anos 70, possuía aquele maravilhoso rosto enrugado e sulcado. Depois suavizou-se até parecer o de um bebé. Mas nunca falámos nisso. Eu não era assim tão corajoso!”

O protagonista pediu que a esposa, Jill Ireland, com que já fizera 12 filmes, integrasse o elenco. O realizador conhecia-a desde 1956, quando tinham sido amantes e quase casaram. Aparentemente, Bronson nunca soube do relacionamento. Vincent Gardenia retomou o papel do Death Wish original, mas a filha de ‘Paul Kersey’ foi substituída por outra atriz, Robin Sherwood, que participara em filmes de terror de baixo orçamento. O realizador não perdeu tempo e envolveu-se com ela, affair que terminou quando Sherwood descobriu que não era a única.

Laurence Fishburne, um desconhecido, na época.
Laurence Fishburne, um desconhecido, na época.

Bronson recusou um ator porque era avesso a filmar cenas com pessoas mais altas do que ele. Não se entende muito bem, visto que, com 1,78 metros, não era propriamente baixo. Winner encontrou vários rostos pouco conhecidos e escolheu-os com cuidado. Um deles era o então desconhecido Laurence Fishburne, que, com Kevyn Major Howard, passeou pelas ruas de Los Angeles vestido de “marginal”.

Entretanto, a Cannon, ainda nos primórdios, passava por dificuldades financeiras; o gabinete atribuído a Michael Winner era sujo, e o realizador duvidava que o filme se concretizasse. Golan e Globus negociavam de modo estranho: Menahem Golan ordenou que todos os atores já contratados recebessem telefonemas, informando que o salário mudara e descera, claro. Era pegar ou largar. Os atores ficaram porque queriam entrar num filme com Charles Bronson.

A Laurence Fishburne, a responsável pelo guarda-roupa deu um chapéu e umas calças, e o ator ripostou, “yo, man, não posso usar esta merda”. “Perguntei-lhe onde os comprara. Ela disse-me, ‘vai a Melrose Avenue, toma lá 50 dólares’.” A partir de então, Fishburne começou a escolher o vestuário nos seus filmes antes de falar com o departamento de guarda-roupa e até reutilizou os seus tiques em Death Wish II num papel semelhante, King of New York (1990).

Para obter o realismo pretendido, o filme foi rodado em zonas pouco recomendáveis de L.A. e Hollywood e era frequente ouvirem-se tiros. A polícia teve de destacar 20 agentes para protegerem a equipa. Charles Bronson recebeu uma visita inesperada. Um alcoólico, sem-abrigo que vivia nas ruas. Deu-lhe algum dinheiro. Era um dos irmãos de Bronson, que viria a ser encontrado morto, mais tarde.

Para obter ainda mais realismo, Michael Winner rejeitou os figurantes e preferiu pessoas das ruas, desde toxicodependentes a travestis, selecionou 30 e filmou com elas. Quando surgiu um grupo de motociclistas, a meio de um take, Winner encorajou-os a subirem para o passeio, participando na ação – sequência que se manteve e incluiu uma agressão ao ator Kevyn Howard.

Howard afirma que Bronson era um dos seus ídolos de infância, portanto não foi difícil trabalhar com ele. “Ele afastava-se muito. Mantinha-se no seu próprio mundo. Numa cena em Hollywood Boulevard, deviam estar 5 mil pessoas na rua só para verem Bronson. Ele estava de costas e a multidão pediu-lhe que se virasse para acenar. Mas ele não o fez e foi vaiado, o que não o afetou nada. Estava ali para trabalhar e era esse o modo como encarava a situação. Ele e a esposa andavam de mão dada.”

Com a esposa, Jill Ireland.
Com a esposa, Jill Ireland.

Ireland descreveu o marido, dizendo que “o cinema era uma estranha ocupação para ele. Não gosta de ser fotografado. É de poucas palavras. Mantém um confortável silêncio enquanto as pessoas em seu redor conversam, tentando conhecê-lo”.

Mas houve uma situação que atraiu as atenções do solitário Bronson. Howard e Fishburne jogavam “chicken”, em que uma pessoa está de pernas abertas deitada no chão e a outra lança uma faca para o solo, entre as pernas. Quem está deitado, vai fechando cada vez mais as pernas até que se acobarda, (chicken). “Charles saiu do camarim, viu-nos a jogar aquilo e começou a divertir-se connosco”, recorda Kevyn Howard.

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Winner incluiu em Death Wish II outra repugnante cena de violação. Diga-se que Michael Winner era um realizador eficaz, nunca brilhante, e tinha ideias absolutamente desgostantes. Disse aos atores que podiam fazer o que quisessem, quando atacam a atriz Silvana Gallardo, que também era professora de representação. Gerou-se o caos. Howard lembra-se que Gallardo começou a chorar. “Foi muito difícil. Todos ficámos com pena dela e, mal o tormento terminou, cada um de nós foi ter com ela e deu-lhe um abraço.”

Michael Winner era vizinho do guitarrista dos Led Zeppelin, Jimmy Page, e convidou-o para compor a banda sonora. Page atravessava um período de reclusão e não tocava guitarra desde 1980, altura em que os Zeppelin tinham acabado. Viu o filme em casa de Winner e aceitou o trabalho, para o qual lhe deram um prazo de dois meses.

Ao contrário do primeiro Death Wish, a MPAA exigiu cortes – a cena da violação foi cortada para metade; ao todo, três minutos e 42 segundos de violência gratuita e excessiva filmada por Michael Winner, que ficou furioso. Tiveram mesmo de filmar cenas para substituir outras, o que deu um ar desconjuntado ao filme. Em Inglaterra, nem com cortes o filme evitou a classificação X (só para adultos).

O filme foi lançado e foi um sucesso, tal como a banda sonora. Os fãs dos Led Zeppelin compraram-na e o disco alcançou o nº 50 do top de vendas americano, embora não seja nenhuma obra-prima…

Se, no primeiro filme, a crítica não foi benevolente, não é difícil imaginar o que sucedeu com a sequela. “Desumana, pirosa, tonta”. “Um filme tão letárgico que nem provoca repulsa”, disse Vincent Canby no The New York Times. Roger Ebert, que classificava de uma a quatro estrelas, (ou meia estrela) nas suas críticas, deu-lhe zero! Chamou-lhe, “artisticamente inapto e moralmente repugnante”.

Foi um morticínio total. Só em Inglaterra surgiram algumas raras críticas positivas, como no Guardian, com Derek Malcolm a exaltar a “ação rápida e furiosa, o entusiasmo e credibilidade”. Abro um parêntesis: Death Wish II não é um filme moralista, é brutal, sim, mas é isso que se pretende. Contudo, a realização de Michael Winner é de um desleixo descarado e condenável.

O filme lucrou 16 milhões de dólares nos EUA, um raro êxito para a produtora Filmways que entrou em colapso financeiro e foi comprada pela Orion. A fatia dos lucros destinada à Cannon foi de apenas dois milhões de dólares, mas, a nível de imagem, a companhia sofreu um grande impulso. Golan ficou em (estranho) êxtase: “Bronson, este tema, o realizador certo e o facto de existir tanta violência no mundo… é timing e também química!”

A popularidade do filme foi imensa, em vídeo, laserdisc e até no canal HBO, cujos subscritores o preferiram ao vencedor do Óscar desse ano, Chariots of Fire. Na Alemanha Ocidental bateu o recorde de venda de cassetes vídeo: 10 mil cópias.

Os produtores do Death Wish original não gostaram, achando tudo um rip-off do personagem, dizendo que era difícil trabalhar com Golan e Globus e criticando a falta de integridade artística. A maioria dos fãs de Charles Bronson considera este filme a mais fraca das sequelas.

Por falar em sequelas, continua no próximo artigo: Death Wish 3.

David Furtado

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