Wand’rin’ Stars: Pedro Pereira: Antenas apontadas a Espanha e o precioso leitor de VHS

Crescer nos anos noventa permitiu-me ter na minha opinião duas vantagens essenciais sobre os meus amigos mais velhos. Vi o grunge enterrar as prima-donas do hard-rock e a escumalha do pop sintetizado e tive a oportunidade de crescer numa época em que ainda se via muito cinema nas televisões. Era também uma época em que os videoclubes eram mais do que locais onde se podiam alugar filmes. Eram antes locais de culto. E eu, como bom crente, também tinha o meu ritual. Durante anos, sempre às sextas, repetia o caminho, primeiro da escola Cristóvão Falcão (e depois do Liceu Mouzinho da Silveira), em Portalegre, em direcção às minhas paróquias favoritas: o videoclube Mora e o Trinitá.

Gianni Garko ou "Sartana".
Gianni Garko ou “Sartana”.

Muitas vezes encontrava-me com os meus pais a meio caminho e lá íamos dedilhar as prateleiras do videoclube. Com o tempo obtive a “autorização” para ir eu próprio alugar material para os fins-de-semana. Uma responsabilidade que muito me orgulhei de obter. As regras eram claras, alugar sempre dois filmes no máximo e conferir a secção western antes de passar ao corredor dos filmes de porrada e afins. E cedo decorei os nomes que realmente me interessavam.

Nessa época não sonhava que existiam duas vertentes do western mas curiosamente tinha já bem presente quais os que mais agradavam à pandilha lá de casa. Clint Eastwood, Lee Van Cleef, Giuliano Gemma, Gianni Garko, Terence Hill, Bud Spencer, George Hilton, Richard Harrison eram os nomes que peneirava, só passava à segunda linha se por azar não encontrasse nada de novo destes. Está portanto claro, que já então se denotava uma cabazada a favor do western-spaghetti, um género que de algum modo ficaria como uma espécie de viga mestra nas minhas preferências cinematográficas.

Alguns desses filmes que alugávamos ficaram perpetuados na minha memória e ainda hoje adoro revê-los. Alguns são realmente clássicos do western europeu – Gigantes em Duelo, Trinitá, Cowboy Insolente, O Bom, o Mau e o Vilão, Sartana está de volta – outros são normalmente alvo de chacota entre os conhecedores do género, mas pensar no western-spaghetti sem pensar neles não me faz sentido.

Se calhar aquele que mais me marcou foi Aleluia é o meu nome (Testa t’ammazzo, croce… sei morto… Mi chiamano Alleluja), um individuo com as mesmas características de outro herói do género – Sartana – mas com uns gadgets ainda mais estapafúrdios. Nove em cada dez pessoas que viram o filme consideram-no lixo. Nesta estatística eu sou o outlier, o tipo que se escavaca a rir das piadas omnipresentes e que vibra com cada uma das entradas em cena da máquina de costura artilhada.

A máquina de costura em ação: Testa t'ammazzo, croce... sei morto... Mi chiamano Alleluja.
A máquina de costura em ação: Testa t’ammazzo, croce… sei morto… Mi chiamano Alleluja.

O meio privilegiado para ver estas coisas sempre foi a TV e o aluguer, mas curiosamente o primeiro contacto que me recordo ter tido com o tal western-spaghetti foi numa sala de cinema. Nos anos oitenta ainda abundavam os cinemas itinerantes e na aldeia de Caia (onde frequentei o ensino primário) era habitual fazerem-se sessões no centro popular. Tive sorte e numa dessas exibições o meu pai levou-me com ele. Vi nesse dia em grande ecrã, Um Dólar Furado (Un dollaro bucato), com Giuliano Gemma no papel principal. O filme pareceu-me óptimo e a experiência de vê-lo num ecrã tão grande, inesquecível.

Depois disso tentei colar-me sempre que podia e consegui ver mais algumas coisinhas nesse espaço. Percebia-se que alguns nomes puxavam mais gente do balcão do bar para dentro da sala improvisada. Ninguém queria perder os tabefes de Bud Spencer n’O Xerife Quebra-Ossos, mas diziam “espera aí que já vou” a qualquer thriller hollywoodesco.

O bichinho foi crescendo e ganhou ainda maior volume quando se investiu numa antena extra lá para casa. “É para apanhar os espanhóis”, diziam. Realmente se o leitor de videocassetes já era uma maravilha, poder contar com mais uma série de canais tornar-se-ia um sonho.

Muita gente não saberá mas em meados de noventa a televisão espanhola exibia muitos, mas mesmo muitos filmes. À tarde, à hora de jantar, à noite, de madrugada. Com esse novo meio tive a oportunidade de consumir centos de filmes. Muitos westerns, muitos policiais; e via Canal Sur, comecei também a consumir avidamente cinema de terror de qualidade suspeita: Piranha, Critters e tralha desse nível. Este canal que alguns conhecerão por “Bacanal Sur” era também conhecido pelas suas sessões duplas, acção/terror primeiro, erótico-esquisito depois. Que obviamente também segui com grande interesse.

Com o passar dos anos consumi muito mais cinema, desenvolvi o gosto pela ficção-cientifica e pelo fantástico, abri a porta aos dramalhões, mas foi o bichinho pelos «série b» que sempre esteve presente. A acção à moda da Cannon abriu caminho para as artes marciais dos Shaw Brothers e ao ninjasploitation rasca. O western-spaghetti despertou o interesse sobre o poliziotteschi, o giallo e os macarroni-combat. E por aí adiante…

Piranha (1978).
Piranha (1978).

Ao contrário de muito boa gente, não me envergonho de afirmá-lo: hoje como dantes não dispenso um bom série b! E pese embora me custe ver ao estado de degradação a que nomes como Dolph Lundgren ou Jean-Claude Van Damme chegaram, não deixo de conferir cada uma das suas novas entradas.

Mas, porque na maioria dos casos têm sido filmes penosos, volto amiúde ao conforto daqueles que continuam a ser para mim os grandes pilares do cinema de acção, atrevo-me a listar meia dúzia deles mas, se me dessem tempo, apontava uma centena: O Legionário (Lionheart), Fúria Silenciosa (The Punisher), Desaparecido em Combate (Missing in Action), O Dragão Ataca (Enter the Dragon), Cobra, o Braço Forte da Lei (Cobra) ou A Fúria do Último Escuteiro (The Last Boy Scout). Quem não viu todos é menino!

Pedro PereiraO Pedro Pereira nasceu e cresceu nos arredores de Portalegre. É um ávido coleccionador de westerns-spaghetti e também um melómano inveterado. Começou por escrever resenhas de discos no defunto Pheel Music mas foi em 2009 que se lançou num projecto que realmente o interessava – o blogue Por Um Punhado de Euros – que mantém em pareceria com Emanuel Neto. Actualmente vive em Alcochete onde exerce a sua formação em Engenharia. Usa a blogosfera como catarse para os imbróglios que a sua vida profissional lhe causam!
http://letterboxd.com/pedropereira/

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