Wand’rin’ Stars: Jorge Teixeira: De fantasias a realidades

Inverno, fim-de-semana e sossego são provavelmente as três melhores palavras que definem o meu universo cinematográfico de infância. Tal como natal, férias e imaginação seriam também escolhas apropriadas, mas talvez mais específicas e menos abrangentes. O importante a reter é o facto de que a minha relação com a sétima arte começou, na sua maioria, com esta junção de componentes, ou se quisermos, segundo a combinação destes ingredientes, de forma a se puder falar de uma receita saborosa, completa e deliciosamente eficaz.

O Rei Leão (1994).
O Rei Leão (1994).

Não se pode dizer, contudo, que a relação ou a convivência se dava regularmente, bem pelo contrário, a magia de se assistir a um filme era até escassa e talvez por isso sempre envolvida com bastante antecipação e fascínio pelo que se seguiria. Mais uma razão pela qual géneros como a história, a guerra, a fantasia, a aventura, a acção ou a ficção científica se revelavam como predilectos. Tardes inteiras preenchidas e dominadas por universos à parte, mundos antigos ou civilizações ancestrais. Um autêntico regalo para o delírio e para a imaginação, ainda que não restasse depois grande memória ou real e total captação da história, esta mais absorvida com personagens, imagens, sensações e fragmentos musicais. Daí que exemplos de filmes desta altura sejam difíceis de salientar, senão quase impossíveis.

Estas memórias, por outro lado e convém referir, provêm essencialmente dos meios audiovisuais dominantes lá de casa – a Televisão e o VHS – porque, e infelizmente, o verdadeiro veículo e embrião, leia-se sala de cinema, era pouco frequentado, pautado unicamente uma ou outra vez em largos meses. Não existem inclusive muitas recordações de filmes assistidos neste tipo de espaços tão queridos e tão próprios desta arte, excepção feita talvez a Parque Jurássico ou a O Rei Leão (curiosamente dois exemplos que me marcaram e que foram alvos de inúmeras repetições).

Serve como desculpa parcial a única sala que existia na cidade, ou o reduzido número de estreias semanais. Nada, no entanto, que o arrependimento hoje não reclame, apesar de outras artes (literatura e afins) o tenham reivindicado para si mesmas. Na altura compensou e, sobretudo, equilibrou a ânsia de histórias e escapes visuais.

Anos mais tarde, à beira de uma mudança de vida, e após este ritmo anual de pouco cinema (mais em casa e, repito, mais de memórias e de antecipação que propriamente muitos filmes), a situação inverte-se e o que era então curto tornou-se abrangente e, acima de tudo, recheado de vontade e de procura de um suposto tempo perdido. Primeiro, numa fase mais de entretenimento e prolongamento dos gostos pessoais (Braveheart – O Desafio do Guerreiro, A Vida é Bela, Mystic River, Kill Bill e O Labirinto do Fauno constituem aqui exemplos ou descobertas de maior estima), depois por uma captura e exploração de todo um cinema menos comercial e mais artístico, digamos (Kubrick, Hitchcock, Chaplin, Kurosawa, Leone ou até Tarkovsky, Bergman, Fellini, entre tantos outros, são autores ou pedras fulcrais desta fase).

O Labirinto do Fauno (2006).
O Labirinto do Fauno (2006).

A concretização de todos estes desejos deveu-se e muito à dinamização de meios como o DVD e, sobretudo, a Internet, que do pé para a mão, nos forneciam toneladas de informações e, porque não, acesso integral e exclusivo ao que foi, largos anos, tão antecipado.

Listas foram feitas e um novo horizonte se deparava repetida e gradualmente à minha frente. Etapas alcançadas, países descobertos e décadas sugeridas. Depois foi tudo uma questão de paciência, insistência e prazer pelo que a sétima arte, tão altruisticamente, nos oferece. Pelo meio, algumas surpresas, ou melhor, algumas paixões que hoje definem o meu renovado gosto – como o Western (Spaghetti), o Terror ou o Cinema Oriental, nos seus largos espectros e dimensões culturais.

Kill Bill - A Vingança (vol. 1) de 2003.
Kill Bill – A Vingança (vol. 1) de 2003.

No fundo, pode-se dizer, que a maturidade e o estudo conduziu a um aprofundamento e a uma melhor compreensão do que os filmes proporcionam, assim como a um maior leque de opções, ilegitimamente adquiridas muitas vezes, é certo, mas com um respeito e uma intenção que de outro modo nunca seriam saciados. Paralelamente, ainda se foi colmatando talvez a minha maior falha – idas regulares e semanais a uma sala de cinema.

Numa curva ascendente e cada vez mais ponderada, sustentada e equilibrada, a selecção de filmes hoje em dia se dá criteriosamente por década, por país, por autor, por género, entre outros, sem qualquer restrição ou preconceito, e seja numa sala de cinema (que muito prezo regularmente), ou em casa, no conforto do lar. Portanto, o meu percurso por esta arte tem sido em crescendo, pautado de início pela nostalgia, pela magia e pela antecipação de uma boa história, passando por uma fase de maior consumo e de maior risco, até a um actual estado de solidez e de interesse crítico do papel do cinema em si mesmo. De E.T. – O Extra-Terrestre a Metropolis, de Parque Jurássico a O Bom, o Mau e o Vilão, de Titanic a E Tudo o Vento Levou, de O Senhor dos Anéis a Ben-Hur, de Matrix a 2001: Odisseia no Espaço, ou ainda de O Rei Leão a Branca de Neve e os Sete Anões, entre muitos, muitos mais, assim se fez, e se faz, o meu trajecto por este mundo de fantasias e realidades.

Jorge TeixeiraJorge Teixeira, natural de Lagos e residente em Lisboa, nasceu no ano de Full Metal Jacket – Nascido Para Matar e Império do Sol. Formado em Arquitectura, gosta de ocupar os tempos livres com cinema, leitura, música e arte em geral. Interessa-se ainda por desporto e pelas novas tecnologias. É autor, juntamente com Pedro Teixeira, do blogue Caminho Largo. http://caminholargo.blogspot.pt/

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