O Cowboy da Meia-Noite: Da mitologia ao fim das ilusões

O galã e o trapaceiro fizeram história no grande ecrã: A dupla Dustin Hoffman/Jon Voight, com a sua química e talento, ajudou a tornar Midnight Cowboy num clássico adorado por várias gerações. A obra mostra-nos uma cidade onde as aparências e a indiferença predominam, e as pessoas têm um preço, mas a amizade não.

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Depois do sucesso de The Graduate (A Primeira Noite), em 1967, Dustin Hoffman recusou vários papéis de colegial, evitando que o conotassem com o jovem ao qual chamou de “prancha de surf ambulante”. Estava consciente, no entanto, de que muitas pessoas esperavam vê-lo fracassar noutros papéis, diferentes do protagonista romântico ‘Benjamin’. O ator pretendia regressar a personagens exigentes do ponto de vista emocional e físico, com que ganhara reputação nos palcos. Tais listas são subjetivas, mas, para que conste, a revista Premiere classificou em sétimo lugar a atuação de Dustin Hoffman em O Cowboy da Meia-Noite na lista das 100 Maiores Performances de Sempre.

midnight cowboyA recusa em cair na armadilha do typecasting, fez insolitamente de Dustin Hoffman um ator a receber cheques do subsídio de desemprego. Quando surgiu o argumento de Midnight Cowboy, que finalmente lhe agradou, os seus “conselheiros” disseram-lhe que seria “um suicídio profissional”. O Cowboy da Meia-Noite era a adaptação do aclamado romance de James Leo Herlihy, e Hoffman interessou-se pelo papel de ‘Enrico «Ratso» Rizzo’, a figura secundária no enredo.

Teimosamente, Dustin não cedeu ao lema de Hollywood: “Somos julgados pelo nosso último filme.” A casmurrice deu frutos: O Cowboy da Meia-Noite, apesar de obter a classificação X, venceu o Óscar de Melhor Filme e tornou-se num clássico. Em 1969, a indústria do cinema entrava numa fase e numa década diferente, mais arrojada. A referência ao termo “cowboy” no título induziu muitos espectadores em erro – julgaram tratar-se de um western. O início do filme separa as águas: Vemos aquilo que se vai tornando um ecrã de cinema dentro do ecrã; os tiros e os cascos dos cavalos são ecos de cowboys do passado.

A iconografia do western é usada como modo de desmistificar as ilusões de ‘Joe Buck’ (Jon Voight), com a cabeça repleta de fantasias: Em Nova Iorque, vão achá-lo um galã e um homem a sério. Estes mitos são desfeitos perante a crua realidade da grande metrópole. Uma cena, em particular, mostra-o a olhar para um homem caído no passeio sem que a multidão se importe. Inesperadamente, ‘Joe’ torna-se amigo de um vigarista de pouca monta, ‘Ratso’, com o qual estabelece uma ligação emocional sólida, forjada em circunstâncias pouco usuais e originada pelo instinto de sobrevivência na selva urbana, como Nova Iorque é retratada: A sujidade de um lado e o mundo Warholiano da arte, do outro.

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‘Joe Buck’ acaba por se tornar num prostituto ao serviço de ambos os sexos, enquanto ‘Ratso’ se debate com a tuberculose. ‘Joe’ quer salvar o amigo que lhe vai ensinando alguns truques da cidade. O final de O Cowboy da Meia-Noite é triste pois não sabemos qual destas duas figuras é mais trágica. Pelo menos, ‘Joe’ abandonou o traje de cowboy e aprendeu lições sobre a vida, ainda que por um preço elevado.

midnight cowboy (4)Muito foi dissertado sobre a relação homossexual platónica entre os dois personagens, e o próprio Dustin Hoffman disse à imprensa, durante a rodagem em Nova Iorque, que o filme era “sobre dois homens que se amam mas que não estabelecem um relacionamento homossexual”. É certo que não se pode excluir este ponto de vista, mas há outros temas na obra, como a amizade ou a incapacidade de distinguir o sexo do amor – uma das tragédias de ‘Joe Buck’.

A certo ponto, ‘Ratso’ diz a ‘Joe’ que a sua vestimenta de cowboy é mais apelativa para homossexuais do que para mulheres. Há implicações dramáticas no filme, mas também lugar para bastante humor, algum inadvertido. ‘Ratso’ e ‘Joe’ desatam a discutir sobre cowboys. ‘Ratso’ diz que “os cowboys são maricas” e ‘Joe’ responde, “John Wayne é um cowboy! Estás a chamar maricas ao John Wayne?” Dustin Hoffman e Jon Voight foram nomeados para o Óscar de Melhor Ator por este filme. Perderam ambos. E quem venceu nesse mesmo ano? John Wayne em A Velha Raposa

Por outro lado, ‘Joe’ expressa repugnância pelos clientes gay que encontra. Numa situação com uma mulher, não consegue concretizar o ato, e esta insinua que ele possa ser homossexual – a reação de Joe é consumar a relação como se quisesse provar que ela está errada. Apesar de tudo, a identidade sexual de ‘Joe Buck’ é confusa para ele mesmo, e John Schlesinger filma os flashbacks da sua vida com ambiguidade: Sugere que houve relacionamentos que o marcaram.

Jon Voight encara ‘Joe Buck’ de modo diferente: “Entendi-o muito cedo. Sabia que a solidão do personagem era a sua base. Ele não se sentia confortável ou aceite em lado nenhum, por isso, tentava, e aquele pavonear era uma máscara, essencialmente. Ele queria pertencer.”

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O filme segue bastante fielmente o enredo do livro. O realizador cometeu contudo um lapso ao integrar cenas que só quem leu a obra poderá entender. Schlesinger era um realizador britânico a lidar com uma história tipicamente americana, o que se revelou vantajoso. O cineasta ficou espantado com o ambiente da 42nd Street, por exemplo: “Uma mistura de violência, desespero e humor, tudo na mesma rua.” Da mesma forma, também vamos descobrindo este mundo sob o ponto de vista de um explorador.

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Esta escolha deveu-se ao produtor Jerome Hellman, que adivinhou em Schlesinger a capacidade de filmar as ruas cruéis e imundas de Nova Iorque. Foi o que fez, mas sem se distanciar da relação entre os protagonistas. Hellman correu mais dois riscos: Contratou Jon Voight devido às suas capacidades, embora fosse um desconhecido. E aceitou Dustin Hoffman, “não por ser uma estrela de cinema, mas por ser um ator”. A aposta não podia ter corrido melhor: A química entre Voight e Hoffman foi um dos elementos que tornou O Cowboy da Meia-Noite num grande sucesso, tal como os críticos salientaram na época.

Hoffman e Voight com o realizador Schlesinger, filmando em Nova Iorque.
Hoffman e Voight com o realizador Schlesinger, filmando em Nova Iorque.

A Time realçou que “Hoffman progrediu ao dar um passo atrás, num papel secundário. É um ato de rara perícia e de uma generosidade ainda mais rara”. Este altruísmo de Dustin teve origem na fase de casting. Jon Voight competia com três atores pelo papel, que foi primeiramente atribuído a Michael Sarrazin, o que deixou Voight desiludido. Porém, os testes de ecrã foram cruciais, segundo Voight. A diretora de casting, Marion Dougherty afirmou, “não há dúvida sobre qual dos dois é o melhor ator: Jon Voight”. Foi então chamado Dustin Hoffman para dar a sua opinião. Terá dito: “Quando vejo a minha cena com Michael Sarrazin, estou a olhar para mim, quando vejo a que filmei com Jon Voight, olho para Jon.” “Foi um grande elogio”, diz o ator.

midnight cowboy (1)O Saturday Review considerou que “Hoffman emerge com honra incomparável, provando que a sua grande estreia em The Graduate não foi fogo-de-vista”. Na Newsweek, Joseph Morgenstern admitiu que o guião conferia mais relevo a Voight mas que “o trabalho de Hoffman não é de modo nenhum inferior”. No The New Republic, Stanley Kaufman escreveu que “Hoffman prova novamente que é versátil e dotado, não é nenhuma criação de Mike Nichols [realizador de The Graduate]”.

Interiormente, Dustin Hoffman também encarou o filme e o papel como uma forma de manter os pés na terra: O perigo de nos julgarmos o centro do Universo foi uma ideia a que aludiu várias vezes em entrevistas, ao longo da carreira. O tema da amizade foi outro fator que o atraiu pois admitiu não ter muitos amigos, mas disse ter uma forte ligação com os poucos que tinha. Tudo isto terá integrado a motivação psicológica de Dustin e tornado o seu trabalho tão genial. Coxear foi mais fácil: Colocou uma pedra no sapato.

Outra característica insólita no desempenho, e em Dustin, é o facto de ‘Ratso’ morrer – era raro interpretar tais personagens. O ator tinha o hábito de escrever longos epitáfios para si mesmo, devido a uma obsessão pela morte. Transferiu assim esses temores para o personagem. Maior “obsessão”, se assim lhe podemos chamar, tinha Hoffman pela sua arte: Levou a sério, quando Schlesinger insistiu que se concentrasse na tosse, importante no papel de um tuberculoso à beira da morte. O ator empenhou-se de tal modo nisto que caiu na rua a vomitar perante um estarrecido Jon Voight. Este mantinha com Dustin uma relação amigável, embora competitiva. Ao assistir, comentou, “caramba… como é que supero isto?”

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Há uma sequência divertida no filme, em que Voight e Hoffman atravessam uma rua movimentada em Nova Iorque e um táxi fá-los parar de súbito. ‘Ratso’ protesta veementemente com o taxista, batendo no capot, e o homem riposta, enquanto Jon Voight assiste, atarantado. Um daqueles momentos raros: Dustin não saiu do personagem: “I’m walking here! Up yours, you sonofabitch!”

Jon Voight não ligou muito à controvérsia gerada: “Adorei o filme, achei que tínhamos feito aquilo a que nos propuséramos. Agradaram-me imenso as afirmações sobre humanidade que contém. Tudo estava tratado, o produtor Jerry Hellman manteve tudo longe do set, para que não sentíssemos os atritos do exterior, e tivemos todo o tempo para o fazer. Se o realizador não obtinha o desejado em certo dia, voltava ao local. Era perfecionista. Estávamos todos ali para dar o nosso melhor.”

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Voight congratula-se por O Cowboy da Meia-Noite ter sido “acolhido por toda a gente. As pessoas adoram esse filme. Todos tiveram o seu momento: Os atores, o realizador, o argumentista Waldo Salt; Adam Holender, um jovem diretor de fotografia polaco que adicionou algo de muito empolgante à maneira como se filmou. Não tinha um ar envernizado, mas sim uma realidade crua que lhe deu outra dimensão”.

Outra curiosidade reside no tema «Everybody’s Talkin’». Cantado por Harry Nilsson, tornou-se num êxito internacional. (A restante banda sonora é assinada por John Barry.) Paul Simon tinha incluído a sua canção «Mrs. Robinson» em The Graduate, com grande sucesso, e composto a música. Foi depois “perseguido”, segundo afirmou e “inundado de ofertas para escrever bandas sonoras de filmes: Escreve o tema para isto ou a música para este papel ou aquela trampa sobre a juventude”.

Simon recusou O Cowboy da Meia-Noite, que continha inúmeros elementos facilmente retratáveis no contexto da sua obra: “Gostei de The Graduate, mas não queria voltar a escrever música para filmes. Não me queria converter no compositor de Dustin Hoffman”, disse Paul, que nunca se sentiu confortável ao escrever por encomenda. Portanto, Harry Nilsson compôs «I Guess the Lord Must Be In New York City» de propósito. Mas John Schlesinger preferiu a canção de Fred Neil, «Everybody’s Talkin’», gravada anteriormente por Nilsson.

midnight cowboy (2)É curioso que, após o sucesso de O Cowboy da Meia-Noite, Dustin Hoffman tenha repensado a sua decisão de participar no filme:

“Costumava dizer a mim próprio que, se alguma vez me tornasse uma estrela, não deixaria de ser artista, iria atrás de determinado papel sem me importar se seria pequeno, desde que fosse mesmo bom. Mas agora vejo que não vai ser assim… agora importo-me com o tamanho do papel. Recentemente, vi O Cowboy da Meia-Noite e gostaria de ter aparecido mais tempo no ecrã. Jon Voight aparece imenso, este filme é, na verdade, sobre ele. Agora, penso que, se surgir um pequeno personagem que me agrade, provavelmente não o desempenharei. Racionalizo-o, dizendo a mim mesmo, ‘prefiro guardar esse personagem para um papel mais relevante, um dia, e não o desperdiçar agora’.”

Como disse Jon Voight, ‘Joe Buck’ quer “pertencer”, mas a sociedade que nos é mostrada em O Cowboy da Meia-Noite não é uma que mereça aceitação. Da maneira que interpreto o filme, ‘Joe Buck’ acaba por encontrar esse “local” na amizade. Talvez por esse motivo, a imagem destes dois outsiders se tenha tornado icónica, pois é isso mesmo que representa.

David Furtado

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