Wand’rin’ Stars: António Furtado da Rosa: “Cinema: Memória sem limites”

Desde que me lembro, o Cinema sempre fez parte integrante da minha vida e, possivelmente, sempre fará. Segundo os meus pais, fui pela primeira vez ao cinema com poucos dias de vida – segundo parece, o meu pai chegou a casa e decidiu levar a família toda ao cinema, podia ser pior – e, segundo consta, terá sido um western. Acredito piamente que sim…

Os Sete Magníficos (1960).
Os Sete Magníficos (1960).

Ilhéu por desígnio do destino e hoje ilhéu convicto, ainda recordo com agrado as minhas primeiras idas ao saudoso Cine Teatro Açor na Vila de Capelas, terra que me viu nascer, na ilha de São Miguel. De início, como morava perto, adorava passar pelo cinema para ver os sugestivos cartazes, na sua maioria de filmes de aventuras, westerns ou dramalhões de fazer chorar as pedras da calçada. Melodramas provenientes essencialmente do México, como por exemplo o filme de 1952 O Direito de Nascer, realizado por Zacarias Gómez Urquiza, ou italianos como Anjo Branco e Os Filhos de Ninguém, ambos realizados por Raffaello Matarazzo em 1955 e 1952 respetivamente, e que foram êxitos estrondosos e muito populares nas décadas seguintes.

Sim, os filmes, naquela época antes do aparecimento do vídeo, e mais recentemente do DVD, perduravam por décadas e eram repostos com alguma regularidade. A única de forma de revê-los era mesmo no cinema. Por isso nos anos de 1970 e 1980, vi e revi êxitos de outrora, como Ben-Hur, Os Dez Mandamentos, O Pirata Vermelho, O Facho e a Flecha, E Tudo o Vento Levou ou A Túnica. Mas foi em meados dos anos 70 que vi um dos primeiros grandes filmes da minha vida. Os atores eram Yul Brynner e Steve McQueen, e o filme chamava-se Os Sete Magníficos.

Pouco a pouco fui-me tornando cada vez mais assíduo do cinema local e muitas vezes não almoçava na escola para guardar o dinheiro para pagar o bilhete. Devorei cinema de aventura italiano, os filmes de gladiadores ou baseados na mitologia grega – vulgo pepluns –, westerns americanos ou europeus, policiais, dramas, musicais, terror, enfim, marchava tudo. Mas o meu género de eleição, como devem calcular, é o western à italiana, ou western spaghetti.

Tive a sorte de ver muitos destes filmes no cinema e, segundo creio, o primeiro que vi foi Arizona Colt com Giuliano Gemma. Dia de Western Spaghetti era dia de festa e foi aí que começaram a aparecer os grandes filmes da minha vida: os westerns de Sergio Leone, em primeiro lugar, o hiperviolento e gótico Django de Corbucci, o manifesto político com muita ação e aventura O Grande Pistoleiro de Sollima ou o dia em que vi o verdadeiro vilão de um filme ser uma cidade, Gigantes em Duelo de Valerii.

Gigantes em Duelo (I giorni dell'ira") de 1967, com Lee Van Cleef e Giuliano Gemma.
Gigantes em Duelo (I giorni dell’ira) de 1967, com Lee Van Cleef e Giuliano Gemma.

Claro que os anos foram passando, e ainda continuam a passar, e fui-me envolvendo com os outros géneros que foram aparecendo, como os filmes de artes marciais, com o devido realce para o famigerado Bruce Lee com filmes como O Invencível, o meu favorito dele, Big Boss, o Implacável, A Fúria do Dragão, no qual luta com Chuck Norris, ou O Dragão Ataca. Mas realço ainda o ator do género da minha preferência como Wang Yu que interpretou êxitos como A Raiva do Tigre ou o Boxeur Chinês. Contudo, não resisto a destacar O Homem de Ferro (Man of Iron de 1972, realizado por Chang Cheh e Pao Hsueh Li), protagonizado por Kuan Tai Chen, um dos meus filmes preferidos da companhia Shaw Brothers, filme com ação trepidante, um anti-herói virtualmente invencível, com um código de honra muito peculiar, e sangue a rodos que pinta de vermelho as ruas de Xangai. Um mimo.

Franco Nero e Susan George em Enter the Ninja (1981).
Franco Nero e Susan George em Enter the Ninja (1981).

Depois vieram os violentos policiais italianos com Maurizio Merli e afins, os policiais franceses com Belmondo e Delon, a comédia brejeira italiana e tantos outros géneros e subgéneros. Chegaram os meados dos anos 1980 e o meu cinema paraíso agoniava perante a falta de público e a concorrência do vídeo e da televisão.

Vi o meu último filme no Cine Teatro Açor em 1985 e, por coincidência, protagonizado por Franco Nero, o verdadeiro Django. O filme era Ninja, o Imbatível (Enter the Ninja) que, por via disto, apesar de (muito) artisticamente discutível, elegi como um dos filmes da minha vida. O “meu” Cine Teatro Açor, hoje tristemente transformado em bar, merece-o…

O Cine Teatro Açor. O "Cinema Paraíso" de António Furtado da Rosa.
O Cine Teatro Açor. O “Cinema Paraíso” de António Furtado da Rosa.

Depois, ao longo dos anos, através do vídeo e do DVD, principalmente, fui descobrindo outros filmes da minha vida, como A Desaparecida (The Searchers, de John Ford), na minha opinião a melhor interpretação de sempre de John Wayne, ou Os Profissionais, O Padrinho, Cinema Paraíso, a saga Indiana Jones e tantos outros que seria fastidioso enumerar.

Porém, mantenho, apesar de tudo, uma relação de cortesia, mas não de encanto, com o cinema atualmente produzido, sobretudo porque faltar-lhe-á, na minha opinião, alguma alma, alguma substância. O cinema atual faz-se, na sua maioria, para ser consumido com sofreguidão.

Há exceções, claro, e consigo, no meio de tanto CGI (imagens geradas por computador), descobrir filmes que me conseguem arrebatar e elevá-los a filmes da minha vida, como por exemplo, entre muitos outros, Gran Torino, Million Dollar Baby, O Gladiador ou O Resgate do Soldado Ryan.

E aqui estou eu, sempre pronto a descobrir novos “filmes da minha vida”, porque, como disse um dia Orson Welles: “O Cinema não tem fronteiras nem limites. É um fluxo constante de sonho.”

António Furtado da Rosa(17/05/2013)

António Furtado da Rosa, natural de Capelas, na Ilha de São Miguel. Dedica os seus tempos livres ao Cinema, ao Futebol, à Leitura e à Escrita. Há alguns anos aventurou-se na tradução de filmes nunca lançados em Portugal, para consumo próprio, e escreve crónicas de futebol para o jornal Correio dos Açores. O seu blog/website é http://westerneuropeu.blogspot.pt/.

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