Laranja Mecânica: O diabólico Alex

“Welly, welly, welly, welly, welly, welly, well. To what do I owe the extreme pleasure of this surprising visit?” Obra-prima do cinema, A Clockwork Orange não é de análise fácil. Procurei descrever a génese do filme, os temas que explora, as filmagens, os bastidores e a controvérsia que ainda o rodeia. Tudo começa com ‘Alex’ no Korova Milk Bar, bebendo leite vitaminado com os seus “droogs”, preparando-se para a ultraviolência. O filme originou casos verídicos de violência, Kubrick retirou-o de circulação depois de ter recebido ameaças de morte. O que faz mover o mecanismo do fenómeno?

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Kubrick era um camaleão. Todos os seus filmes são de um género diferente, desenrolam-se num período diferente, têm uma história diferente e assumem um risco diferente. – Steven Spielberg.

Foi o escritor Terry Southern que deu ao realizador uma cópia da novela de Anthony Burgess, quando ambos se encontravam no set de Dr. Strangelove, filme inspirado por uma obra de Southern: “Devias ler isto, é muito bom.” Kubrick leu, mas não percebeu, devido à linguagem inventada por Burgess, um calão futurista dos gangs de Londres, ao qual chamou “nadsat”, termo equivalente a “adolescente” em russo. Este dialeto misturava russo, calão cockney, coloquialismos romanos e ciganos. A solução encontrada pelo realizador foi a de não empregar tanto esta linguagem como no livro, e de a suportar sempre de modo visual, para que o espectador não ficasse perdido.

a clockwork orange (7)O projeto ficaria adiado, mas não esquecido, uma vez que o cineasta se interessava pelo invulgar, e Laranja Mecânica certamente continha todos os ingredientes para fugir à banalidade.

Quando finalmente leu a novela, Kubrick achou que daria um excelente filme, declarando que possuía, já de si, “densidade”; não era necessário fazer um “esqueleto” da história. Só depois de terminar 2001: Odisseia no Espaço (1968), Stanley Kubrick se interessou a sério pela adaptação, por conter bastante ação e, sobretudo, por incluir uma forte personagem central, ‘Alex’. Contratou Anthony Burgess para escrever o argumento, ideia que pôs de parte ao ver o resultado. Optou por utilizar o próprio livro como guião. Num dia determinado, Kubrick escolhia uma página e reunia atores e técnicos, perguntando como iriam conceber “aquilo”.

O aspeto visual do filme ainda hoje é notável, conjugado com o som. Inovador. O designer de produção, John Barry, foi crucial, bem como o diretor de fotografia, John Alcott. E, é claro, Wendy (Walter) Carlos e Rachel Elkind, responsáveis pela sonoridade aterradora e eletrónica de Laranja Mecânica. Kubrick insistiu em incluir a peça de Purcell, Music for the Funeral of Queen Mary, que Carlos transformou em música eletrónica. A banda sonora de Laranja Mecânica inclui um dos usos primordiais do Vocoder, sintetizador que produz um som aproximado da voz humana e seria empregue no rock/pop, posteriormente, como aconteceu com os Pink Floyd em Animals.

Kubrick e o protagonista que sabiamente escolheu: Malcolm McDowell.
Kubrick e o protagonista que sabiamente escolheu: Malcolm McDowell.

Kubrick tinha visto Malcolm McDowell em If de Lindsay Anderson e identificou no jovem ator as qualidades indispensáveis para representar ‘Alex’; um ar quase infantil misturado com um potencial para o diabólico. Um antigo executivo da Warner, John Calley, comenta que McDowell “representa muito bem distúrbios extremos de personalidade”. Antes de Kubrick se envolver no projeto, a única pessoa considerada para o papel foi Mick Jagger, numa versão em que os restantes elementos dos Rolling Stones representariam os membros do gang, os “droogs”. Kubrick viria a afirmar que, se McDowell não participasse, provavelmente não realizaria o filme.

Um dos biógrafos de Kubrick, John Baxter, comenta que “de certa forma, McDowell nunca mais representou outro papel. Fez o mesmo para sempre, visto que lhe assentava tão bem”.

Tal como Anthony Perkins em Psycho, Malcolm McDowell foi vítima do typecasting.
Tal como Anthony Perkins em Psycho, Malcolm McDowell foi vítima do typecasting.

DOIS LADOS DA MOEDA

Orçamento reduzido: O produtor Bernard Williams espantou-se quando o realizador lhe revelou a quantia. “Estás a brincar? És “O” Stanley Kubrick. Mas ele disse, ‘eu sei, eu sei, mas quero mostrar-lhes que consigo realizar um filme de baixo orçamento’.” A situação é frequente. Como não havia libras para construir grandes cenários, a criatividade era a resposta. Através de revistas de arquitetura, Kubrick encontrou grandes locais que poderiam conferir uma atmosfera futurista, sem ser no sentido tradicional, a Laranja Mecânica.

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Muitos destes locais (que existem) tiveram de ser alterados significativamente. Um deles foi o apartamento de ‘Alex’. Segundo Clive Francis, que representa o inquilino que assume o lugar de ‘Alex’, “Kubrick varreu Londres inteira à procura do apartamento certo. Finalmente, encontrou um em Elstree. Pagou ao casal que lá vivia e pô-lo fora. Trouxe o seu designer e redecorou-o, tarefa na qual gastou 5.000 libras. Terminadas as filmagens, o apartamento foi restaurado e devolvido ao casal. Kubrick ligou-me, dizendo que queria filmar dois close-ups. Regressou ao apartamento, o casal foi novamente expulso e voltaram a redecorar”.

Sydney Pollack confirma: “Era um perfecionista a 100 por cento, o maior com quem trabalhei.” Várias vezes, os ensaios começavam às 6:00 e, só às 14:00 se filmava. “Mas depois ele queria filmar até à meia-noite. E fazia-o”, acrescenta o produtor Bernard Williams.

John Baxter refere que o décor do Korova Milk Bar (os manequins em poses eróticas) foi inspirado pelo artista pop londrino, Allen Jones, que recusou o uso do seu trabalho no filme. Era difícil deter Kubrick: Contratou Liz Moore, com quem já trabalhara em 2001, e foi ela que criou as esculturas do sinistro bar.

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Embora existam inúmeros websites, blogs e artigos glorificando o visual, o estilo e até a suposta ideologia de Laranja Mecânica, uma das opiniões mais acertadas que li nem sequer veio da Internet. Vivian Sobchak escreveu no Literature/Film Quarterly:

“Kubrick usou propositadamente o décor para dizer cinematicamente o que a novela apenas sugere: A arte e a violência são dois lados da mesma moeda, ambas expressam esse impulso antissocial que procura a autodefinição, que também caracteriza o artista e o criminoso. A arte e a violência jorram da mesma fonte, são ambas expressões do indivíduo, egotista, vital e não-institucionalizado.”

“AMANHÃ, HOJE, PRÓXIMO”

Milena Canonero foi a responsável pelo inventivo guarda-roupa: “Stanley Kubrick queria um ar de ‘amanhã’, de ‘hoje’, de ‘próximo’. Pretendia que o filme fosse intemporal.” Por isso, Canonero adicionou pormenores que fossem “imitáveis”, visto que os gangs desse tempo, tal como os de hoje, incorporam vários elementos imaginativos na indumentária, que podem ser facilmente adquiridos. O chapéu de coco de ‘Alex’ provocou o seguinte comentário Bernard Williams: “‘Stanley, és americano, mas eu sou inglês e, se pões um chapéu desses no tipo, vai parecer um ataque aos políticos.’ Ele adorou…”

"Se pões um chapéu de coco nesse tipo, vai parecer um ataque aos políticos."
“Se pões um chapéu desses no tipo, vai parecer um ataque aos políticos.”

Outras ideias que marcaram o visual do filme, surgiram quase por acaso. Barbara Daly, responsável pela maquilhagem:

“Era quase uma decoração tribal. Estávamos no início dos anos 70, e eu tinha umas pestanas falsas. Provavelmente até eram minhas. Pensei, ‘pode ser que isto resulte… se experimentar só com uma pestana’. Chamámos o Stanley, que disse, ‘é isso’. Foi uma ideia simples, mas foi a ideia certa na altura certa, e tinha tudo o que procurávamos.”

De acordo com Daly, independentemente da área específica de cada colaborador, Kubrick gostava de ouvir opiniões sobre determinado aspeto do filme. “Podia até ser um empregado de limpeza. Teria uma opinião certeira, quem sabe? Por isso era tão bom realizador. Era uma esponja enorme que absorvia toda a informação e a estruturava.” Jay Cocks, amigo e colaborador de Martin Scorsese, concorda que Kubrick não se sentia “ameaçado”, pois não tinha dúvidas sobre quem controlava.

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Este controlo sobre todas as áreas de conceção torna o filme inconfundível e coeso. É meticuloso, com algumas sequências complexas filmadas num só take, com toda a iluminação afinada, posições, posturas. O que também torna o filme algo frio, quase gélido. Assemelha-se a uma equação visual, o que não é necessariamente um defeito.

UM POUCO DE ULTRAVIOLÊNCIA NO TRABALHO

O editor, Bill Butler, já não via os filhos, tamanha a carga horária. “Não havia tempo para beber uma cerveja e conversar sobre o filme, era sempre bang, bang, bang.” A pressão constante começou a cansar o protagonista, Malcolm McDowell.

John Baxter afirma que Kubrick estava determinado em tornar realista a terapia que gera em ‘Alex’ a aversão pela violência e pelo sexo. Teve a ideia de arranjar uns “lid locks”, aparelho que mantém as pálpebras abertas, usado na famosa cena em que ‘Alex’ é obrigado a assistir continuamente a cenas de violência, preso num colete-de-forças. Um médico teve de lhe colocar gotas de 10 em 10 segundos, para que os olhos não secassem, o que provocaria a cegueira. McDowell passou um mau bocado. Após 30 takes, o ator não aguentou mais: Entrou em pânico e começou aos gritos.

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“Tentou-se libertar do colete-de-forças e bateu num daqueles clips”, recorda Bernard Williams. “Ficou cheio de dores, claro.” Teve de ser injetado com morfina. O ator recorda:

“Quando ele apareceu com uma fotografia daquilo, eu disse, ‘está bem… que horror’. Então, disse-me, ‘não, não, quero que olhes bem e me digas o que achas’. Eu disse… sim, era horroroso, ‘mas certamente não estás a pensar que vou fazer isso…’ E ele disse, ‘sim, estou’. ‘Stanley, isto parece perigoso.’ ‘Amanhã, vem cá um oftalmologista falar contigo sobre isto.’ E respondi, ‘não vou fazer isso, nem pensar! Sou um ator… isso é tortura medieval!’” O médico assegurou-lhe que não doeria – “mentiroso”, acrescenta McDowell, que ficou com as córneas “arranhadas” devido ao aparelho. Pior ainda, tiveram de repetir um close-up. “Fazemos isso no fim”, implorou Malcolm, esperando que ficasse esquecido. Não ficou.

Noutra cena, os antigos compinchas de ‘Alex’, agora agentes da lei, apanham-no e enfiam-lhe a cabeça numa gamela enquanto o espancam. A sequência é longa, o frio era muito, e McDowell ficou com a cabeça lá enfiada. Repare-se que o plano não tem cortes. 27 takes depois, McDowell estava repugnado com os extratos de carne contidos na água…

Kubrick filmando Patrick Magee.
Kubrick filmando Patrick Magee.

Um episódio mais divertido que McDowell conta, ocorreu com o ator Patrick Magee, que se queixava por não haver cerveja no set, incluindo no discurso vários palavrões.

“Que set é este? Não há uma maldita Guinness! Qual é o problema deste homem?” “Fui ter com Stanley e disse-lhe que o Pat Magee queria beber uma Guinness ao almoço. ‘Ah, não quero lidar com álcool’, disse ele. E eu disse, ‘não é álcool, ele é irlandês!’” Kubrick acedeu e encomendou uma grade. Três dias depois, abordou McDowell: “Estive a ver o camião. Ele bebeu todas as 24 garrafas, em três dias. Queres-me dizer que não é alcoólico?” “Sei lá”, disse McDowell, “talvez tenha partilhado com os amigos”.

A sequência da violação, em que Patrick Magee participa, repugnou espectadores que ainda hoje se recusam a rever o filme. William Friedkin (realizador de O Exorcista) concorda que “embora houvesse pouco sangue, essa cena em que o gang espanca o marido e viola a mulher é uma das situações mais perturbadoras que se podem colocar num ecrã. Todas as noites, vemos na TV alguém a ser apunhalado, mas a ideia de que o nosso lar não é seguro, torna-se muito mais inquietante. Todos os espetáculos televisivos se tornaram muitíssimo mais violentos, graficamente, do que Laranja Mecânica. Mas por que não perturbam tanto? Porque este filme aborda os medos mais profundos do ser humano”.

Alguma descontração por parte da atriz Adrienne Corri, numa cena que ainda hoje provoca arrepios.
Alguma descontração por parte da atriz Adrienne Corri, numa cena que ainda hoje provoca arrepios.

Depois de três dias de filmagem, Kubrick ainda não estava satisfeito com a cena, pelo que recorreu a Malcolm McDowell:

“Eu estava sentado e ele veio ter comigo e perguntou, ‘sabes dançar?’ ‘Claro…’ Obviamente, não sabia, mas levantei-me e comecei a cantar o «Singin’ in the Rain», deslizando de um lado para o outro… ele ficou tão espantado e riu-se tanto que até chorou. Meteu-me no carro, fomos até casa dele, comprou os direitos da canção. Voltámos e demorámos uma semana a reconstruir tudo aquilo! Eu não me lembrava do que tinha feito!” Para McDowell, “resultou na perfeição, pois o personagem estava no seu ponto mais eufórico quando se envolvia em violência, violações e pilhagens”.

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“Depois de tantos dias de ensaios, começo a ouvir o «Singin’ in the Rain» e perguntei, ‘o que é isto agora? Um musical?’”, recapitula Bernard Williams. “Resultou. Mas imagino que Gene Kelly tão tenha ficado muito satisfeito com aquilo!”

William Friedkin comenta que o uso da canção numa cena tão violenta “destrambelha os circuitos mentais do espectador”.

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“É um clássico porque… não fica datado”, diz Malcolm McDowell. “É esse o meu critério. Podemos vê-lo vezes sem conta, não envelhece, os temas são universais, tão poderosos agora como na época em que foi realizado. Até hoje parece futurístico. Era esse o brilhantismo de Stanley.”

A violência é intensa – apenas “suavizada” (pouco!) pelo modo estilizado com que é filmada. Sydney Pollack considera que “é mais fácil assistirmos a este tipo de violência sem ficarmos tão afetados por ela”. Não foi o que sucedeu na vida real, com consequências trágicas.

KUBRICK RETIRA O FILME DE CIRCULAÇÃO

Quando estreou, Laranja Mecânica foi considerado “extremamente desagradável”, comenta o biógrafo John Baxter. “Para além de questões de moralidade, torcemos por ‘Alex’”, considera J. David Slocum, autor de Violence and American Cinema. “Porque a atuação de McDowell é uma tour de force. Os críticos não gostaram disso e viraram esse fator contra Laranja Mecânica.” Kubrick, por seu turno, ficou desagradado com pré-visualizações da obra em que o público adorou a violência. Achou (corretamente) que não tinham percebido.

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A obra não reuniu consenso, mas à distância de mais de 40 anos, pode dizer-se que a receção foi bastante positiva. Na época, Luis Buñuel fez-lhe um grande elogio: “É o único filme sobre o que o mundo moderno realmente significa.” No Saturday Review, Hollis Alpert apelidou Kubrick de “maior cineasta do país”, exaltando o brilhantismo da adaptação da novela de Burgess. Na New York Magazine, Judith Christ aplaudiu a “originalidade espantosa” da obra que, a seu ver, não deixou de ser uma adaptação fiel do livro. Outros críticos conhecidos na época, como Rex Reed ou Vincent Canby, não contiveram os elogios. Reed: “Um dos poucos filmes perfeitos que vi na minha vida.” Como sempre, Pauline Kael detestou e lamuriou-se. Disse até que Kubrick “pretende que gostemos dos espancamentos e violações”…

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O autor da novela, Anthony Burgess, emitiu um comunicado de imprensa em 1973: “Julgo que é uma obra notável. A interpretação mais autêntica do meu trabalho que alguma vez poderia ambicionar. Em 1987, mudara radicalmente de opinião, afirmando que “a natureza muito visual” do filme não fazia justiça às qualidades verbais do texto.

O filme recebeu a classificação X, o que equivalia a “pornográfico”, “violento” ou de “natureza sexual”. Este fator X limitava muitíssimo o potencial nas bilheteiras. Kubrick protestou, sem sucesso, o que é irónico, visto que ele próprio censuraria o seu trabalho, em 1974, ocorrência rara ou até única. O realizador cortou 30 segundos, após nove meses de exibição nos EUA. Laranja Mecânica bateu recordes de bilheteira em várias cidades como Nova Iorque, Toronto ou San Francisco, em grande parte, porque Kubrick recolheu dados sobre o mercado e trabalhou com a Warner, escolhendo as salas mais propícias para exibir o filme.

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Na Grã-Bretanha, país adotivo de Kubrick, Laranja Mecânica foi um grande sucesso, sendo exibido durante mais de um ano no West End. Mas transformou-se também num bode-expiatório para justificar diversos crimes cometidos na época, bem como casos extremos de delinquência juvenil.

Depois da estreia, adolescentes começaram a dizer a juízes que tinham sido influenciados por Laranja Mecânica como modo de justificarem os seus atos. Houve vários casos verídicos – um gang imitou a cena da violação, indo ao ponto de cantar «Singin’ in the Rain». A vítima foi uma jovem de Lancashire. Um magistrado, num julgamento, falou em “erradicar a terrível moda iniciada por este filme horrível”.

Na América, surgiu um artigo de um prisioneiro que descrevia o tratamento de eletrochoques aplicado a presidiários como forma de lhes reduzir “a força de vontade”.

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Bernard Williams sublinha que Kubrick ficou seriamente afetado quando o começaram a acusar de ser responsável por atos de “violência desumana” que ocorreram em Inglaterra. Dois anos após o lançamento, não querendo carregar tal fardo, o realizador retirou anonimamente o filme de circulação. Laranja Mecânica não seria exibido no Reino Unido durante os 25 anos seguintes. A filha do realizador, Katharina, viria a revelar que Kubrick procedeu assim devido às ameaças de morte que recebeu à custa do filme, e que também abrangiam a sua família. O assistente do realizador confirmou esta tese.

George Lucas põe o dedo na ferida e separa as águas, dizendo que “um criminoso vai tirar ideias aos noticiários e copia determinado crime. Eles inspiram-se em filmes, notícias ou nos atos das pessoas. Quem trabalha no cinema, tem um altifalante”.

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O filme condena veementemente o fascismo; quando ‘Alex’ se torna num peão do poder político, por exemplo, ou é vitimizado por quem vitimizou, ficamos com sérias dúvidas sobre quem será mais doente, ele ou o status quo, o mecanismo a que o título alude. Cínico e sarcástico, o final, em que ‘Alex’ diz, “pois, eu estava mesmo curado” enquanto imagina uma cena de sexo, parece ser um modo de Stanley Kubrick afirmar que ‘Alex’ não é o produto de um ambiente muito são. Será melhor termos um homem diabólico ou um robô sem capacidade de escolha? A obra vai muito para além destes temas e já tanto foi escrito sobre ele que prefiro dar a palavra ao próprio realizador, num momento raro em que falou especificamente sobre Laranja Mecânica.

“Claro que a história funciona a vários níveis, o sociológico, o filosófico e, acima de tudo, numa espécie de nível sonhador de simbologia psicológica. Considerando-o a nível lógico e racional, ‘Alex’ é um personagem que deveria ser encarado como uma aberração pelo público. Mas, tal como Ricardo III, ele vai minando a desaprovação com que vemos a sua maldade. ‘Alex’ faz isto e puxa o público para a sua visão da vida. É este o fenómeno da história que origina a iluminação artística mais agradável e surpreendente nas mentes do público.”

“‘Alex’ simboliza o Homem no seu estado natural, como seria se a sociedade não lhe impusesse os seus processos ‘civilizacionais’. O Homem não é um selvagem nobre. É um selvagem ignóbil. É irracional, brutal, fraco, estúpido, incapaz de ser objetivo quando os seus interesses estão em jogo. E qualquer tentativa de criar instituições sociais baseadas numa visão falsa do Homem está provavelmente destinada ao fracasso.”

Apesar desta visão negra, se assim podemos dizer, Kubrick termina Laranja Mecânica de um modo positivo. “Penso que é mais otimista aceitar que provimos dos macacos, não de anjos caídos. O milagre do Homem não consiste no modo profundo como se afundou, mas na magnificência com que ascendeu. Somos conhecidos entre as estrelas pelos nossos poemas, não pelos nossos cadáveres”, conclui o realizador.

Malcolm McDowell considera que Laranja Mecânica é sobre “o direito a escolher”. “Tão simples como isso. O direito de escolhermos como viver as nossas vidas. Bom… podemos decidir sermos cidadãos bons ou antissociais. Mas será que o Governo tem o direito de intervir e mexer com a nossa química e físico? Acho que não, e é isso que o filme diz.”

David Furtado

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One Comment Add yours

  1. André diz:

    Ja li o livro e vi o filme e gostei muito de ambos. O Kubrick não e dos meus realizadores favoritos, mas dos 5 filmes que vi dele foi este e o Shining os que mais gostei.

Comentários:

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