Gloria: De pistola em punho pelas ruas de Nova Iorque

john cassavetes gloria (2)Um dos filmes menos típicos de John Cassavetes, que o descreveu como “nada de especial”, Gloria garantiu a Gena Rowlands a segunda nomeação para o Óscar de Melhor Atriz. É o filme mais mainstream do realizador, uma espécie de road movie passado em Nova Iorque, território emocional do cineasta.

Depois do sucesso do filme independente A Woman Under the Influence, em 1974, John sofrera dois fracassos comerciais consecutivos – The Killing of a Chinese Bookie (1976) e Opening Night (1977). Artisticamente, foram dois dos seus melhores filmes, mas os problemas de distribuição deixaram o realizador, ator e argumentista com a conta bancária em apuros. Ainda por cima, no final dos anos 70, regressou em força, a Hollywood, a mentalidade blockbuster; Star Wars ou Close Encounters Of The Third Kind eram os sucessos da época, tendência que perduraria e, quem quisesse fazer filmes sobre pessoas, enfrentava sérias dificuldades. O cinema independente, cujo “pai” era Cassavetes, praticamente não existia.

“Não podemos vencer o sistema.” – ‘Gloria Swenson’.

A mulher de John, Gena, afirma que o marido não ficou deprimido com esta situação, mas era algo que o enfurecia. Ocupou o tempo e equilibrou as finanças, trabalhando como ator em vários filmes, embora nunca deixasse de escrever argumentos. Um deles foi concebido porque Gena se queixou: “Nunca escreves nada com crianças.” Assim, John escreveu One Summer Night, que viria a chamar-se Gloria. Quando o terminou, recebeu um telefonema da MGM, que procurava um veículo para Ricky Schroder, a criança/ator de O Campeão, êxito inesperado de Franco Zeffirelli. Cassavetes vendeu-lhes Gloria.

“Escrevi esta história para vender, apenas para isso”, confessou John Cassavetes. Entretanto, a MGM perde Schroder para a Disney, e John entrega o guião ao seu agente, Guy McElwaine. A Columbia Pictures interessou-se e contactou Barbra Streisand. Há duas versões: A atriz telefonou a Cassavetes e este, como a detestava, mandou-a a vários sítios, ou a versão em que Barbra apenas recusa. De qualquer forma, John queria evitar realizar o filme e “fez tudo o que pôde” nesse sentido, de acordo com Peter Bogdanovich.

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O tema de Gloria obedecia à fórmula do filme de gangsters – ainda que a heroína fosse uma mulher –, não permitindo, aparentemente, a Cassavetes espaço de manobra para conceber um filme pessoal. Semanas depois, McElwaine telefona a John e diz-lhe que tem boas e más notícias: “A Columbia adora o filme e quer que Gena o protagonize.” “E as más?” “Querem que tu realizes.”

Um realizador relutante no set de Gloria.
Um realizador relutante no set de Gloria.

John estranhou; era um outsider, há 10 anos que não realizava no contexto de um grande estúdio e os seus dois últimos trabalhos tinham sido desastres comerciais. Aceitou a contragosto, pois queria manter-se no jogo, e realizar um projeto mais convencional podia ser benéfico.

Gloria começa com o massacre de uma família. O pai, contabilista da Máfia, tem andado a falar com o FBI. Num prédio do Bronx, estão cercados – há gangsters a caminho para eliminarem o bufo. No meio desta tensão, a vizinha ‘Gloria Swenson’ (não confundir com a atriz de apelido Swanson) vem pedir café. A esposa do contabilista pede-lhe que proteja os seus filhos, e ‘Gloria’, sem se querer envolver, acaba por levar consigo ‘Phil’, de seis anos, que traz consigo o livro do contabilista, onde estão anotadas todas as transações da Máfia. No apartamento vizinho, ouvem-se tiros de caçadeira, a família é assassinada.

Rowlands e John Adames.
Rowlands e John Adames.

Os jornais juntam facilmente as peças, e ‘Gloria’ e ‘Phil’ têm de se manter em fuga constante por Nova Iorque. A mulher mais velha, uma ex-call girl ou assim parece, sabe viver nas ruas, lidar com taxistas e malfeitores, e acaba por se tornar na protetora de ‘Phil’, perante os mafiosos que ela conhece. “Gloria, só queremos o miúdo”, dizem-lhe, mas obedecendo ao seu código de honra, ou instinto maternal, ‘Gloria’ vai até às últimas consequências para defender o rapaz.

O produtor de longa data e amigo de Cassavetes, Al Ruban, foi convocado no início da pré-produção: “John disse-me que não se interessava pelos gangsters nem pela violência. Não concordei com nada do que ele fazia. Disse-lhe que nunca tinha visto gangsters a pedirem sumo de laranja enquanto comem esparguete, que estava a criar personagens de cartão. E também não gostei do miúdo. Achei que não podia fazer muito, e ele concordou.”

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Ruban menciona um aspeto fundamental: John (Juan) Adames não é convincente no papel de ‘Phil’. O jovem porto-riquenho foi escolhido pelo realizador numa audição feita a centenas de crianças. Cassavetes nunca obrigava os atores a lerem cenas, conversava com eles, e Adames não foi exceção.

“De certeza que queres entrar no filme? Pensa bem. Vai ser no Verão, não poderás ir brincar com os teus amigos. Fazer um filme pode ser aborrecido. Se só o fazes porque alguém acha bem, e não achas boa ideia, não vale a pena.” Adames perguntou: “Quantas palavras vou aprender no filme?” “Oh, 300, nas calmas”, disse John. “300! Vou voltar para a escola e saberei mais 300 palavras que os meus colegas!”, disse um empolgado Adames, aceitando de imediato.

Cassavetes com o pequeno Adames e a esposa Gena Rowlands, pela segunda vez nomeada para Melhor Atriz por este filme.
Cassavetes com o pequeno Adames e a esposa Gena Rowlands, pela segunda vez nomeada para Melhor Atriz por este filme.

REALIZADOR EM AÇÃO

Trabalhar para a Columbia permitia a John Cassavetes muita coisa, mas obrigava-o a batalhar ainda mais pelos seus objetivos. A equipa era toda diferente do habitual. John ligou a Fred Schuler, operador de câmara e diretor de fotografia conceituado, que trabalhara em Annie Hall e Manhattan de Woody Allen, The Last Waltz e Taxi Driver de Scorsese, Fingers, Network, The Deer Hunter

john cassavetes gloria (7)Schuler comparou os métodos de trabalho de Scorsese e Cassavetes: “Ele [John] tinha uma noção semelhante de que o conflito e a tensão integram a criatividade; gostava de imbuir na atmosfera uma sensação de pânico, quase. É claro que Cassavetes, enquanto ator, era mais intuitivo. O Marty planeia mais.”

O editor contratado pela Columbia era um homem experiente, John McSweeney, nomeado para um Óscar e reconhecido pelo seu trabalho em Party Girl de Nicholas Ray. Cassavetes recebeu-o efusivamente: “Hei, McSweeney! Ouvi dizer que és um irlandês filho da puta! Bem, eu sou um grego filho da puta, por isso, vamo-nos dar muito bem!” O meticuloso McSweeney encontrou logo defeitos numa filmagem noturna e perguntou a Fred Schuler por que não tinham usado determinada iluminação. Cassavetes não gostou: “Seu filho da mãe! Quem te julgas? Só EU é que falo com o meu cameraman! És um espião dos estúdios. Estás despedido! Volta para a filha da puta de Hollywood!”

A meio da rodagem, Peter Bogdanovich visitou John e recorda-se de o ouvir dizer mal da equipa: “Odeio-os! Malditas equipas sindicalizadas!”

Apesar destas truculências, John Cassavetes em breve estava dedicado ao filme. James Stevenson visitou as filmagens, elaborando uma reportagem para a American Film:

“John Cassavetes está emoldurado pela porta de vidro do átrio do hotel, com um Marlboro entre os dedos e expelindo fumo pelas narinas. De cabelo grisalho e com ligeira barriga, enverga calças de caqui e sapatos gastos. Parece mais um tipo que veio pintar um apartamento do que um realizador conceituado. Mas a sua atitude é intensa; a sua postura, combativa. Inclina-se para a frente, gesticulando, falando, cruza os braços de súbito, ajoelha-se, abaixa-se, ergue-se, gesticula com ar implorativo, aponta, espeta um dedo no ar, dá meia volta. Pára de repente. Olha como um mocho para o rosto de Schuler para ver se a ideia foi compreendida, acena com a cabeça, OK, OK. E afasta-se. Diz a Schuler: ‘Freddie, é tudo teu, querido!’ Senta-se num corrimão. Continua a expirar fumo denso. A cinza do Marlboro está mais perto dos seus dedos.”

john cassavetes gloria (3)CONTRA A MÁFIA, DE SALTOS ALTOS

O realizador conversou com Stevenson e disse-lhe: “Tive as minhas oportunidades e achei que estava tudo acabado há muitos anos [com os grandes estúdios]. Gostaria de pensar que estão todos contra mim, mas não é verdade. Nem todos. De qualquer modo, não tenho problemas com os executivos dos estúdios. Só lá estão para fazer dinheiro. Graças a Deus que estão lá. Precisamos deles. Se és escritor, queres ser publicado.”

John Cassavetes descreveu Gloria como uma “fábula”, e existem várias implausibilidades no argumento, a começar pelo facto de uma mulher elegante e uma criança de seis anos conseguirem fugir à Cosa Nostra pelas ruas de Nova Iorque em pleno Verão, entre tiroteios e perseguições. A obra foi um sucesso comercial e artístico, embora alguns críticos não tenham percebido que se trata de escapismo, além de um filme sobre fugitivos.

‘Gloria’ é uma espécie de Humphrey Bogart ou Lee Marvin no feminino, a personagem foi criada por Cassavetes como um arquétipo. Gena Rowlands adicionou o resto. O modo de andar, por exemplo. “Era como eu caminhava quando cheguei a Nova Iorque”, revela a atriz, “uma espécie de atitude, ‘tenham cuidado comigo’”. A rispidez a falar foi outro pormenor: “Go ahead, punks!” ‘Gloria’ parece saída dos anos 30. É caso para dar graças por Barbra Streisand não se ter interessado pelo papel, alegando que era muito jovem para ele, na época, e que os seus fãs não a quereriam ver a interpretar tal personagem… podia tê-lo feito, mas tornaria o filme numa xaropada, tal como Sharon Stone faria, no remake de 1999.

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“Tentei a todo o custo que ela não parecesse uma prostituta”, afirma Gena Rowlands. “Quanto a mim, o passado dela era o de alguém que transporta dinheiro ilegal, alguém que, se for apanhado, não fala.” ‘Gloria’ também não é uma femme fatale, ainda que passe o filme envergando quimonos e fatos elegantes. “Estou em baixo de forma e com peso a mais”, confessa, a certa altura. A personagem vê-se obrigada a confrontar a complacência e conforto da sua vida, pondo tudo em risco, os amigos, o dinheiro e o seu gato. Ao fazê-lo, assume uma atitude moral perante a própria estrutura que lhe conferiu esse poder: a Máfia. A princípio, quer ver-se livre do miúdo, mas não consegue ficar indiferente. Ele não tem mais ninguém e acaba por encarar Gloria como toda a família que perdeu.

O mafioso ‘Tanzini’ compreende esta situação de forma conservadora, tentando que ‘Gloria’ entregue o miúdo. Mas ela já sabe que isso, provavelmente, também significará o fim dos dois. “Todas as mulheres são mães”, diz ‘Tanzini’. Mas ‘Gloria’ discorda: “Eu sou uma daquelas sensações. Sempre fui uma tipa. Nunca pude ver leite à frente.”

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Na opinião de John Cassavetes, “há muita dor relacionada com o facto de cuidar de crianças no mundo de hoje. É considerado um grande fardo. Por isso, muitas mulheres desenvolveram uma desconfiança em relação às crianças. Quero dizer-lhes que não têm de gostar de crianças, mas que há alguma coisa no íntimo delas que se relaciona com crianças e que isso as distingue dos homens de um modo positivo.”

Gena Rowlands adorou fazer o papel:

“Que fantástica power trip. Enfrentar a Máfia inteira de saltos altos e com uma criança ao ombro. Foi muito divertido.” Nem todos os dias de filmagem foram tão agradáveis. Num deles, Rowlands desmaiou, já que se vivia um Verão invulgarmente quente em Nova Iorque. Não faltaram as habituais discussões com o marido e realizador, que, certa vez, disse, “filmem”, enquanto Rowlands protestava. Quando a esposa saiu do set, esbaforida, Cassavetes rematou, “revelem a película e mandem para a Columbia. Para que eles saibam como trabalhamos no duro por aqui…”

“SEM A GENA, NÃO TERÍAMOS FILME”

Gloria é, talvez, o filme mais acessível para quem não conhece o cinema de John Cassavetes, no sentido em que obedece a mais fórmulas do que o habitual. Não é o típico filme de perseguições e contém vários traços indissociáveis do estilo Cassavetes; planos bem enquadrados, o interesse em filmar pessoas e explicar o que as move. Compreende-se assim a reação de alguns críticos, literalmente à cata de buracos no argumento.

O realizador explicou: “O miúdo não pretende despertar a nossa compaixão ou não a despertar. É apenas um miúdo. Lembra-me eu próprio, sempre em choque, reagindo àquele ambiente insondável… sempre cheio de entusiasmo e maravilhado.”

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Filmando sob as restrições da Columbia, John conseguiu conceber uma obra a seu gosto, o que só tinha acontecido em Husbands (1970). As duas tentativas anteriores, Too Late Blues (1961) e A Child Is Waiting (1963), tinham sido experiências insatisfatórias.

Sem pretensiosismos, como era seu apanágio, Cassavetes explicou:

“Estes personagens assentam na base de que há certas emoções e regras que vão para além de palavras e garantias. Eles apenas sabem. Gosto dessa parte do filme. Eles ficam unidos incidentalmente, não fingem gostar um do outro. Por isso, no fim, quando realmente gostam um do outro, isso deve-se à sua confiança e respeito pessoal. E é belo ver uma coisa dessas.”

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O cenário, Nova Iorque, era o território de John por excelência, pelo menos no que toca à sua sensibilidade, pois já não filmava lá uma obra inteira desde o seu primeiro filme, Shadows, em 1959. Deste modo, Gloria é uma viagem pela Big Apple, onde podemos ver alguns locais que mais diziam a John: O estádio dos Yankees, a grande via que atravessa o Bronx – a Grand Concourse -, Riverside Drive, a baixa do Bronx e a zona alta de Manhattan, onde John Cassavetes vivia quando tinha a idade do miúdo de Gloria.

O genérico de abertura é composto por pinturas da cidade, da autoria de Romare Bearden, que se assemelham tanto a grafitis como a desenhos infantis; tal como o filme, movimentado, urbano, repleto de luz natural, no meio do trânsito, no metropolitano. A banda sonora com sonoridades latinas, de Bill Conti, acentua a característica multiétnica de Nova Iorque, incluindo flamenco e saxofones.

Gloria venceu o Leão de Ouro do Festival de Veneza, em 1981, tornando-se muito popular internacionalmente. “Sem a Gena, não teríamos filme”, disse John perante a aclamação. Cassavetes gostava dos personagens e até escreveu uma sequela que nunca seria produzida.

“É um conto de fadas adulto”, resumiu o realizador. “Nunca pretendi que fosse outra coisa além de ficção. Pensei sempre que o compreendia. E maçou-me porque sabia a resposta àquele filme no minuto em que começámos. E foi por isso que nunca pude sentir um entusiasmo sem freios pelo filme. Por ser tão simples.”

David Furtado

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