Wand’rin’ Stars: José Carlos Maltez: “Maravilharmo-nos numa sala de cinema”

Quando penso naquilo que, desde a infância, distinguiu em mim a forma quase religiosa com que gosto de me dedicar ao cinema, do simples acto de ver filmes, penso na ida ao Cinema vizinho, na zona onde cresci. Tive a sorte ter por perto um antigo Cine-Teatro, daqueles enormes, com plateia de cadeiras de madeira, e um balcão de cadeiras almofadadas. Tinha até lugar cativo, fila C, número 2 do balcão, bem ao centro, logo a seguir a um pequeno muro que separava as filas A e B, que ficavam bastante apertadas. O Cine-Teatro ainda hoje existe, mas agora apenas com programação musical, e já sem cinema desde o final dos anos 80.

E.T. - O Extra-Terrestre (1982).
E.T. – O Extra-Terrestre (1982).

Essa proximidade levava a que os rituais fossem fáceis de constituir. Cedo eu aprendi que os domingos às 11 horas eram momento de matiné infantil. A palavra matiné, cujo significado eu então não conhecia, mas tinha para mim um efeito quase religioso. E os altares dessa minha peregrinação eram os cartazes que, nas vitrinas, faziam as minhas delícias e aumentavam a antecipação. Não deve ter havido um familiar meu que não tenha tido que me levar a essas matinés. Em breve, com 6 ou 7 anos, era já eu que ia sozinho, com umas moedas de “dois e quinhentos” extra no bolso, para rebuçados.

Dizer qual foi o primeiro filme que vi no cinema é-me impossível, mas recordo em especial o dia que o meu avô me levou a ver Branca de Neve e os Sete Anões da Disney. Mal sabia eu que estava perante um marco do cinema, mas a verdade é que desde esse dia nunca mais aceitei outra versão da história. Os filmes da Disney (animados ou não) constituiam então a minha dieta principal, por vezes quebrada, quando os meus pais, me levavam com eles quando iam ver reposições de My Fair Lady ou Ryan’s Daughter, cujos nomes eu só descobri anos mais tarde.

Branca de Neve e os Sete Anões (1937).
Branca de Neve e os Sete Anões (1937).

À medida que cresci, comecei a privilegiar a aventura e acção, desde os spaghetti cómicos da série Trinitá, ao Superhomem, e Indiana Jones, passando por essa experiência incrível que foi ver ET no grande ecrã, quando tinha 12 anos. Tal como hoje, nunca me deixei limitar por estilos ou géneros, e se a oferta nesse cinema se restringia àquilo que fazia sucesso nas grandes salas de Lisboa, eu tentava aproveitar ao máximo essa “dádiva”. Nem precisava de conhecer o filme. Acabado de jantar olhava o relógio, e pedia uns trocos para o cinema. Corria os 100 metros que me separavam da sala, e comprava o bilhete ao mesmo tempo que lia o nome do filme.

Desde cedo comecei a preferir a noite como momento cinéfilo por natureza. É que aquele fulano que todos conhecemos, que tem a mania de que sabe tudo, que até foi a Lisboa e viu o filme primeiro, e por isso se sente no direito de contar cena a cena o que vai acontecer, ao sábado à tarde ficava sempre ao meu lado. Talvez por isso ainda hoje prefiro sessões tardias, não vá ele aparecer.

Claro que nem todas as escapadelas nocturnas correrram bem, principalmente aquela noite em que fui ver um filme de terror, cujo cartaz dizia “Maiores de 16”, quando eu tinha apenas uns 11 ou 12. O filme era Um Lobisomem Americano em Londres, e levei comigo um primo ainda mais novo que eu. Lembro-me de nos tentarmos esconder um atrás do outro enquando o porteiro nos olhava de cima, e rasgava os bilhetes solenemente. Não questionou a nossa idade, e entrámos num ápice. O pior foi pregar olho nessa noite.

Para além destas histórias, é claro que a televisão teve um papel fundamental para eu perceber que o cinema era um oceano bem mais vasto que as pequenas conchas que chegavam ao Cine-Teatro local. A janela mágica foi realmente uma janela para outros mundos, e devo à minha avó o amor por filmes antigos. Nesse tempo Portugal tinha apenas um canal e meio, não havia corrida à publicidade, e a programação era escolhida com critérios diferentes dos de hoje.

Cinema na televisão era cinema clássico. Recordo o entusiasmo da minha avó a falar dos seus actores preferidos, que em breve ficaram os meus. Custava-nos até perceber porque é que os filmes não incluíam sempre James Cagney, Humphrey Bogart, Elizabeth Taylor e Marilyn Monroe, com quem vivi tantas histórias. Então para mim a aventura era Errol Flynn como Robin dos Bosques, o musical era Gene Kelly a dançar à chuva, e o humor chamava-se Chaplin.

Woody Allen e Mia Farrow nas filmagens de A Rosa Púrpura do Cairo (1985).
Woody Allen e Mia Farrow nas filmagens de A Rosa Púrpura do Cairo (1985).

Porque comecei a gostar de cinema, como é que o meu gosto evoluiu, como passei a ter mais atenção a autores, estilos, escolas, temas, etc. é algo que não sei, nem me preocupo em tentar saber. O que sei é que a magia sentida nesses primeiros tempos se tornou parte de mim. Por isso ainda hoje me vejo como o Salvatore de Cinema Paraíso, boquiaberto sempre que a sala escurece e as luzes tremulantes do projector fazem um novo mundo materializar-se na tela. Ou como a Cecilia de A Rosa Púrpura do Cairo, que mesmo com a vida em destroços, pára para sorrir com um filme. Nesses momentos eu sou eles, e continuo a sentir que há poucas coisas mais incríveis, que maravilharmo-nos numa sala de cinema.

jcO meu nome é José Carlos Maltez, natural de Lisboa, nascido no mesmo ano em que estrearam Midnight Cowboy e Easy Rider. A minha formação é na área das ciências. Presentemente estudo História, e gosto de ocupar os tempos livres com as minhas três artes preferidas: música, escrita e cinema. Procuro neste blog encontrar espaço para duas delas.

Visite também o meu blog de música: In extenso

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Posso ser encontrado em: jc at zm-art dot com

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