Os Homens do Presidente: “As melhores duas horas e 16 minutos de jornalismo”

1975. O repórter tinha regressado à sua secretária no Washington Post depois de uma semana de trabalho no exterior. A fita da sua máquina de escrever estava completamente ensarilhada. Foi nessa altura que viu um indivíduo de aspeto enxovalhado, com calças de ganga, ali mesmo ao pé, e pensou: ‘É o novo estagiário’, enquanto lhe pedia para mudar a fita estragada. Mas o indivíduo não era o novo estagiário. Era Dustin Hoffman. Noutro dia, jovens do liceu faziam uma visita de estudo ao Post quando viram Robert Redford num dos gabinetes do jornal. Aproximaram-se com as suas máquinas e começaram a tirar fotos. “Esperem”, disse-lhes um dos repórteres. “O verdadeiro Bob Woodward está aqui. Não lhe querem tirar uma fotografia?” “Não”, disse um dos rapazes, enquanto o grupo se afastava.

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Para compreender o papel dos jornalistas no Watergate, uma boa fonte é o filme Os Homens do Presidente (All the President’s Men), realizado em 1976 por Alan J. Pakula. Recebeu oito nomeações para os Óscares e conquistou quatro, entre os quais o de Melhor Ator Secundário (Jason Robards). Embora sofra dos exageros habituais e compreensíveis, a nível de argumento, recebe continuamente os elogios dos profissionais da imprensa escrita que descrevem, por exemplo, Dustin Hoffman como um perfeito Carl Bernstein. O ator Hal Holbrook, sem que o seu rosto se consiga reconhecer, deu vida à enigmática personagem Deep Throat, escondida nas sombras de uma garagem em Washington. 

all the presidents men (9)O escândalo político mais famoso da América foi despoletado por um incidente que, à primeira vista, poderia ser vulgar. Numa manhã de sábado, 17 de junho de 1972, um segurança do hotel e complexo de apartamentos Watergate alerta a polícia quando descobre a porta de uma escadaria aberta. Poucos minutos depois, três agentes chegam ao local e prendem cinco intrusos envergando luvas cirúrgicas, dentro do quartel-general do Comité Nacional dos Democratas. Os indivíduos encontravam-se no edifício com o objetivo de ajustar equipamento de escuta, anteriormente instalado (em maio) e para fotografar secretamente diversos documentos dos Democratas. A investigação resultante do assalto foi desaguar de forma direta à Campanha de Reeleição do Presidente Richard Nixon (CREEP).

Os Homens do Presidente é descrito como “as melhores duas horas e 16 minutos de jornalismo”. No que toca a películas que retratem o papel do jornalista, esta é a mais referida entre repórteres, muitos deles do próprio jornal onde tudo começou. Katharine Graham, a diretora do Washington Post, que se mostrou bastante apreensiva quanto ao facto de ser utilizado o nome do jornal, terá elogiado bastante o filme. Os Homens do Presidente foi também a primeira obra a que Jimmy Carter fez questão de assistir durante o seu próprio mandato presidencial. 

Matt Slovick, do Washington Post, realça que a história é tão emocionante hoje, como há 31 anos. “O que é datado são os telefones de disco, as máquinas de escrever e os cortes de cabelo. A redação do Post tem atualmente computadores e telefones com voice-mail. Naquele tempo, podia-se fumar na sala, o que hoje seria impensável.”

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Antes de começar a rodagem, Redford, Hoffman e os outros atores visitaram a redação. As cenas não foram rodadas no próprio Post, mas sim, num estúdio em Burbank. Os encarregados do cenário trouxeram, da redação, exemplares do jornal, lixo e outros objetos, com o intuito de tornar o filme mais realista, tarefa na qual se despenderam 500 mil dólares.

Segundo Robert Redford, “todo o negócio do jornalismo vive extremamente preocupado com a sua imagem”.

O CANDIDATO

all the presidents menTambém preocupada com a imagem vive uma estrela de cinema (umas mais, outras menos), e Redford não foi exceção. Encontrava-se a promover o seu último filme The Candidate, em que já incorporara as suas opiniões políticas pessoais. O ator ouviu dois jornalistas falarem do caso Watergate, da investigação de Woodward e Bernstein e da impossibilidade de se conseguir chegar a Nixon.

Robert Redford contactou de imediato os dois repórteres, que, numa azáfama diária, ainda investigavam o escândalo. (Ambos creditaram a influência do ator no seu próprio trabalho.) Quando o livro All the President’s Men foi publicado, Dustin Hoffman leu-o e, desconhecendo o interesse de Redford, contactou os dois repórteres, interessado na adaptação ao cinema. Woodward e Bernstein disseram-lhe que Redford já se adiantara, comprando os direitos. Ambos os atores chegaram a acordo num ponto essencial – a autenticidade.

Para a conseguir, Dustin Hoffman observou o trabalho de um jornalista de investigação, Fred Barbash, que trabalhava de forma similar à de Woodward e Bernstein. Hoffman foi quem mais se relacionou pessoalmente com os envolvidos. Falou com jornalistas, misturou-se entre o pessoal da redação e recolheu testemunhos diretos, enquanto Robert Redford apenas agendou almoços com individualidades e altos dirigentes do Post. Isto apesar de ter sido o coprodutor. De acordo com diversos testemunhos, quis salvaguardar o papel de Woodward para si próprio e pouco mais.

Durante a rodagem, os dois atores interrompiam o trabalho e, entre takes, corriam para os telefones, ligando a Woodward e Bernstein em Washington, para se certificarem de que estavam no caminho certo. A produção gerou enorme curiosidade pública, o que não sucedia desde O Padrinho, em 1971; circulavam rumores, as audiências aguardavam com fascínio o filme sobre o Watergate, pressentindo que podia revelar-se um enorme êxito ou uma catástrofe.

No seu livro Personal History, a publisher do Washington Post, Katharine Graham, descreve a atitude do jornal: “Não autorizámos filmagens na redação, foi construída uma réplica perfeita em estúdio, incluindo os autocolantes da secretária de Ben [Bradlee]. Cooperámos, deixando que se filmasse a entrada do edifício, algumas cenas nos elevadores e no parque de estacionamento.”

Hoffman e Redford com Jason Robards, Jack Warden e Martin Balsam.
Hoffman e Redford com Jason Robards, Jack Warden e Martin Balsam.

O editor Barry Sussman, que desempenhou um papel vital ao ajudar os dois repórteres mais novos, não aparece sequer na obra. Ken Ringle, um repórter do Post, afirma que “o filme exagera no glamour com que retrata a profissão; simplifica o papel do editor e faz com que o poder seja o único assunto sobre o qual vale a pena escrever. No entanto, é o melhor filme alguma vez feito sobre jornalistas e evoca bastante bem a psicologia, o ambiente – se bem que falhe nalguns detalhes – da farsa presidencial e da sua investigação”.  

De início, o pessoal do Washington Post apreciou a ideia de ser ver retratado num filme. O projeto, no entanto, nunca deixou Katharine Graham à-vontade. Achava que era uma intrusão de Hollywood no sacrossanto mundo do jornalismo sério, ideia que se propagou na redação. O argumentista William Goldman encarava o filme como entretenimento comercial puro e simples. Os jornalistas do Post, não. Até Carl Bernstein tentou reescrever o argumento, tornando-o numa autopromoção desmesurada, fiel à sua imagem calculista de playboy. Robert Redford tentou uma reescrita, assim como outros argumentistas, mas o realizador Alan J. Pakula acabaria por improvisar muito do que vemos no filme, à medida que a rodagem evoluía.

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A maior lacuna visual consiste nas cenas em que Redford e Hoffman aparecem sozinhos na redação, trabalhando nos artigos. De acordo com depoimentos de repórteres que presenciaram os acontecimentos, diversas pessoas colaboraram nesses mesmos artigos, fizeram horas extraordinárias, aconselharam e ajudaram, do copy-desk aos editores:

“Era como um combate conjunto, todos sabíamos o que se estava a passar e, involuntariamente, contribuíamos, dado que grande parte das pessoas não acreditava em nós. Ninguém fez, é claro, um décimo do trabalho de Woodward e Bernstein, mas a ideia com que fiquei é a de que toda a gente ali dentro contribuiu um pouco, e isso não é mostrado no filme”, comenta Ringle. 

MÉTODOS OPOSTOS 

Pakula, Redford e Hoffman queriam, a todo o custo, evitar dois extremos: Uma diatribe anti-Nixon e uma comédia jornalística, concordando numa espécie de “documentário dramatizado”. Dustin revelou-se frustrado perante o blockout imposto pelo Washington Post e sugeriu que inventassem o nome do jornal, uma vez que o público saberia perfeitamente do que se tratava. Nem o realizador nem Redford aprovaram.

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O filme acabou por ser concebido de acordo com os objetivos de Robert Redford, se bem que a personalidade vincada de Hoffman tenha imposto o ritmo. Isto deveu-se ao método de trabalho muito diferente dos dois atores. Robert funcionava de modo instintivo, encarnando o personagem e desenvolvendo-o através da prática. Dustin sempre apreciou discutir o seu personagem com todos os envolvidos, filmando inúmeros takes – fator que atrasou a produção um mês, e a obrigou a exceder o orçamento em milhões de dólares.

Um dos maiores trunfos de Os Homens do Presidente é o facto de simplificar uma intriga complexa e de ir diretamente ao assunto. O espectador fica a saber apenas os nomes dos intervenientes que tem de saber. Retrata bem o processo de recolha de informação e a pressão sentida pelos dois repórteres enquanto vão descobrindo novos dados. Os Homens do Presidente é uma espécie de história de detetives, perseguições e ameaças invisíveis.

O uso das sombras e dos corredores mal iluminados, por parte do realizador Alan J. Pakula, é particularmente adequado. Uma cena memorável é aquela em que Hoffman e Redford, enquanto autênticos gnomos, se movimentam na Biblioteca do Congresso, investigando os arquivos, antes da Era dos computadores. A câmara afasta-se, numa sequência que demora alguns segundos, tornando-os minúsculos, como se estivessem, (estão efetivamente) no meio de um labirinto de intrigas, procurando uma agulha num palheiro.

Os encontros entre Woodward e o Garganta Funda ocorrem em parques de estacionamento apropriadamente inundados de sombras. Os seus passos ressoam, lembrando uma ameaça omnipresente. A cena inicial também é interessante: as teclas de uma máquina de escrever redigindo a data, soando como se fossem tiros de pistola: As palavras enquanto armas. 

Nixon só aparece fugazmente. O realizador, numa opção inteligente, manteve os vilões fora do ecrã. O facto de aparecerem apenas na televisão ou por detrás de vidros fumados de limusines, só acentua o seu poder e inacessibilidade.

O JORNALISTA E O ATOR

Tinham passado menos de quatro anos desde o assalto ao Edifício Watergate e o lançamento de Os Homens do Presidente, em 1976. Neste lapso de tempo, uma mudança profunda ocorrera nos EUA. Os cidadãos estavam céticos face ao poder, sentiam-se enganados, e Hollywood espelhou este sentimento, produzindo filmes assentes em teorias de conspiração com um alcance muito para além do imaginável à primeira vista. Chinatown de Roman Polanski foi um deles. O filme catástrofe The Towering Inferno foi outro. The Conversation de Coppola é um dos mais referidos. Os Homens do Presidente não foi o primeiro filme sobre o niilismo inerente ao Watergate, apesar de ser o primeiro a examiná-lo frontalmente.

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Hoffman e Redford sentiram-se fascinados com o papel do jornalista; em parte, porque a profissão de ator se debate com matérias semelhantes. O jornalismo de investigação e como funciona, as perguntas, as manipulações, as confirmações de diversas fontes, a autopromoção, a “campanha eleitoral” de um jornalista pela sua história junto dos editores, a ambição pela primeira página, as batalhas de ego, todos estes fatores integram ambos os mundos. Os Homens do Presidente foi, portanto, recebido de maneira curiosa: Ainda hoje é encarado pelos jornalistas como um triunfo. Grande parte do público achou-o uma desilusão, aquando da estreia, pois não se focou no Watergate e pouco diz sobre o escândalo.

Outro ponto de relevo reside nas diferenças entre o livro e o filme. O primeiro retrata Washington como uma cidade sombria, onde o mal se esconde por detrás da normalidade mais comum. Visualmente, o filme é mais ligeiro e colorido, menos pesado. Redford chamou-lhe uma espécie de história de detetives. Ao passo que, nesse formato, encontramos uma caracterização e estudo de personagens vincado (tanto nas principais como nas secundárias), em Os Homens do Presidente não há tempo nem espaço para isso: Os jornalistas são semi-protótipos, a abordagem é quase documental. Uma das críticas que fizeram à obra aludiu aos desempenhos de Redford e Hoffman. Não são maus, de forma nenhuma, mas… os atores quase nem precisam de representar e parecem limitados na construção dos respetivos personagens.

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Dustin Hoffman concordou: “Este não é um filme de atores.”

Os Homens do Presidente não pode ser desligado doutro contexto: Os filmes basados em parcerias, que se encontravam no auge de popularidade, na época. Alguns exemplos: The Sting, Scarecrow, Thunderbolt and Lightfoot, Papillon (com Hoffman e Steve McQueen) ou Butch Cassidy and the Sundance Kid (com Redford e Paul Newman). À luz disto, não há grande hipótese de se desenvolver uma química entre a dupla de protagonistas. Outro fator importante é o papel dos verdadeiros Woodward e Bernstein. Se examinarmos a investigação que os celebrizou, veremos que o seu papel é mais cinzento. Não são arautos da verdade (como nenhum jornalista é, de resto).

Até então, Os Homens do Presidente foi o filme de Dustin Hoffman em que o ator recebeu críticas menos entusiásticas. A sua “energia nervosa e inteligente” foi notada, e partilhou o elogio de “simplicidade e tato” com Robert Redford. Tais comentários são pertinentes e recordam várias cenas, como aquela em que o persistente Hoffman é recebido à força num escritório quando obviamente não é bem-vindo, ou a imagem de Redford a desenhar num bloco ou a fazer de malabarista com dois telefones em simultâneo.

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Durante muitos anos, achei-o o melhor filme sobre jornalismo, opinião que apenas se alterou quando vi Park Row de Samuel Fuller, que funciona em absoluto contraste com Os Homens do Presidente e, noutros aspetos, o complementa.

Muitos atores queixam-se da imprensa e dos jornalistas, e Dustin Hoffman nunca foi exceção. Para ele, eram o inimigo. Neste filme, o ator conseguiu reunir vários objetivos: Sempre quisera participar num filme enquanto colaborador, num projeto global em que não sobressaísse nenhum dos protagonistas, e isso vir-se-ia a notar nalguns dos seus trabalhos posteriores. Vestiu a pele do “inimigo” interpretando um jornalista pouco interessado pela privacidade de terceiros – o que tanto criticara. Hoffman, que sempre se descreveu como um “observador” da vida, pôde, pela primeira vez na sua carreira, colaborar num projeto no qual se revia a nível político. Para terminar, Os Homens do Presidente acabar por ser uma história que assenta numa amizade – baseada no respeito mútuo – entre dois homens de feitios opostos.

David Furtado

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