Verboten! de Samuel Fuller: “Amanhã, o mundo”

François Truffaut considerou-o um dos filmes da sua vida. Quando o viu, Godard quis deixar de escrever sobre cinema e começar a realizar. Verboten! retrata um capítulo da História que só não é arrancado dos livros para que as pessoas não esqueçam. E foi essa a intenção de Fuller. A obra critica e expõe o regime nazi no final da II Guerra Mundial, os gangs clandestinos que surgiram, mas traça uma linha nítida, que, na época, ia contra a opinião geral: Os alemães não são todos nazis. O público, confrontado com as terríveis imagens do Holocausto, não conseguia dissociar uma coisa da outra, mas Samuel Fuller, tendo combatido na guerra, possuía uma visão diferente. Foi isso que nos mostrou.

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Vou rever este filme, porque saio sempre dos filmes de Samuel Fuller com um sentimento de admiração e inveja. Gosto de receber lições sobre realizar.

François Truffaut, Les films de ma vie.

A obra de Samuel Fuller, lançada em 1959, baseia-se num conceito simples – após o fim da II Guerra Mundial, ‘Brent’, um soldado americano, apaixona-se por uma alemã, ‘Helga’. O sentimento é verdadeiro e mútuo, mas condicionado pela humilhação da derrota dos alemães e o exaspero e ódio à flor da pele dos americanos. Os soldados tentam manter a ordem possível num país devastado, do qual querem sair o mais depressa possível, embora confrontados com dilemas de obrigação militar.

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Contrastando o sentimento mais profundo com o ódio mais profundo, Fuller consegue – e isto não é tarefa nada fácil – afirmar que os alemães não eram todos nazis, que o amor não é verboten (proibido), sejam quais forem os fatores, mas que o fundamentalismo demencial de Hitler era, esse sim, verboten, e sempre será.

Desde jovem, ainda antes de combater na II Guerra Mundial, o realizador já era fascinado pela cultura alemã: “Fausto de Goethe comoveu-me imenso. Quando ouvia Beethoven, um milhão de imagens surgia na minha cabeça, um milhão de ideias para histórias. Outros compositores não exerciam em mim esse efeito cósmico. Era como se uma montanha chamasse outra, um oceano convidasse outro para se juntar a ele. Beethoven fazia o meu sangue correr pelas veias. Nas suas majestosas sinfonias, eu ouvia ecos de pessoas reais que conhecera, e vozes de personagens imaginárias.”

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A influência do compositor, em cuja casa Fuller pernoitou por mero acaso do destino, durante a guerra, quando um superior disse aos soldados para escolherem uma casa onde descansar, era, de facto, profunda: “Ele até estava nos meus sonhos. À noite, surgia para me reassegurar, como se fossemos da mesma família. Também aparecia nos meus pesadelos, com palavras rudes. Agitando a sua grande cabeleira, dizia, ‘vai escrever as tuas histórias, Fuller, mas por favor, por favor, não toques na minha música.”

Um dos filmes da vida de François Truffaut.
Um dos filmes da vida de François Truffaut.

O realizador não seguiu o conselho. Para quem sofreu na pele os terrores de lutar contra os nazis e testemunhou as atrocidades dos campos de concentração, Fuller dá-nos uma lição de História que não vem nos livros. Outro realizador reconheceu o espírito indomável de Verboten!, incluindo as suas impressões na obra Les films de ma vie. François Truffaut começou assim o capítulo dedicado ao filme: “Bom… bom… bom… bom… Bomm… bom… bom… bommm…” Difícil de reconhecer em prosa, talvez, o início da Quinta Sinfonia de Beethoven.

Samuel Fuller (que também incluiu excertos de Wagner em Verboten!) recordava-se de estar estendido no deserto da Tunísia, durante a guerra, “sonhando que conseguia ouvir Beethoven”.

“Então, Axis Sally começou a cantar «Lili Marleen» nos altifalantes alemães. Era uma canção extraordinária, mas era usada com fins de propaganda, promovendo mentiras fascistas e condenações. Beethoven compunha música que nos dava vida, abrindo portas, nunca as fechando.”

Truffaut: “Quatro ou cinco soldados americanos libertam uma aldeia alemã, empunhando apenas armas. ‘Ludwig von Fuller’, que não brinca quando faz filmes, transmite-nos a ilusão de que observamos todo o exército americano. Um soldado ferido é tratado por uma jovem alemã, ‘Helga’, um toque idílico, amor. Samuel Fuller, que maneja a sua câmara com grande estilo, leva os seus amantes proibidos numa lua-de-mel no Reno, diretamente retirada de Guillaume Apollinaire.”

Sam Fuller planeava realizar um filme sobre a vida de Herman Ullstein, o magnata da imprensa alemã que se opusera a Hitler e fora destruído pelos nazis. Nesta época, em final dos anos 30, “a guerra parecia iminente, e nenhum estúdio estava disposto a apoiar uma obra sobre um alemão que era anti-Hitler. Para Hollywood, todos os alemães eram nazis”, explica Fuller.

Em Verboten!, ‘Helga’ tem um irmão, fascinado pelo cadáver de Hitler. Decidida a mostrar-lhe o que foi o horror do nazismo, leva-o aos Julgamentos de Nuremberga. O jovem, fisicamente (e simbolicamente) mutilado, reconhece o erro terrível de ressuscitar o nazismo e repete, “eu não sabia!” Como Samuel Fuller sublinha, em voz off, as primeiras vítimas de Hitler foram os próprios alemães.

As primeiras vítimas de Hitler foram os próprios alemães, na opinião de Fuller.
As primeiras vítimas de Hitler foram os próprios alemães, na opinião de Fuller.

No banco dos réus, estão sentados 20 homens desiludidos. Censurados pela humilhação daqueles que lideraram, quase tão amargamente quanto pela desolação daqueles que atacaram. O que torna significativo este inquérito é o facto de estes prisioneiros representarem influências sinistras, que ficarão latentes no mundo até muito depois dos seus corpos se terem convertido em pó. São os símbolos vivos da arrogância, crueldade, poder, ódio racial, terrorismo e violência.

Esta narração foi gravada apressadamente, já depois de concluída a rodagem. O realizador não encontrava um ator que a fizesse a seu gosto. Achava que tinha de ser lida ao “estilo de um repórter, serenamente e sem emoção”. “Eu testemunhara aquela enorme agonia, por isso, usei a minha própria voz. Foi difícil, acreditem.”

Durante a cena final dos Julgamentos, Samuel Fuller intercala com engenho cenas verídicas e cenas filmadas por si. Para Truffaut, o contraste é “atroz”. Dito isto, Verboten! não é um filme pesado (autêntico milagre); o “dispositivo” do argumento não é invulgar: O drama íntimo de pessoas numa situação que legítima e humanamente as ultrapassa.

Devido às suas experiências na guerra, Samuel Fuller sabia que o povo alemão não podia ser rotulado. “Mesmo assim, os estúdios evitavam qualquer filme que decorresse na Alemanha contemporânea. Os americanos tinham ficado arrasados com as imagens do Holocausto, a prova da monstruosa Solução Final de Hitler. Os civis alemães apanhados no meio da loucura nazi não despertavam empatia no público. A opinião popular era que, se não envergavam suásticas, então todos tinham olhado para o lado durante o reinado de Hitler.”

Fuller mostrou o argumento de Verboten! ao produtor William Dozier, da RKO, que gostou, embora achasse arriscado. Especialmente a secção final, em que é exibido um excerto dos Julgamentos de Nuremberga. Dozier perguntou ao realizador como conseguiria tornar essa parte autêntica.

– Vou utilizar filmagens da guerra e dos Julgamentos.
– Como vais arranjar esse material, Sam?
– As coisas da guerra, através de amigos do exército em Washington. O material de Nuremberga, peço-o a Ray Kellogg, o meu homem dos efeitos especiais. Ray foi operador de câmara em Nuremberga. Deu-me 20 bobinas de filme a preto e branco, de 16mm, que filmou nessa altura.

samuel fuller verboten (3)Dozier assentiu, mas o orçamento que lhe concedeu era ínfimo. O casting e as filmagens foram, portanto rápidos – Verboten! foi rodado em 10 dias. ‘Bruno’ o líder dos Werewolves foi interpretado por um estreante, Tom Pittman. Samuel Fuller achou que o ator possuía a intensidade e espontaneidade de Gary Cooper. “Um diretor de casting da Warner Brothers visionou algumas das minhas filmagens diárias com Pittman e achou que o jovem ator tinha potencial para se tornar numa estrela. O estúdio ofereceu a Tom um contrato de sete anos, o ponto de partida para uma grande carreira”, considerou Fuller.

Depois de terminadas as filmagens, Tom Pittman disse ao realizador que ia tirar férias e desapareceu no seu carro desportivo. Dias depois, o seu cadáver foi encontrado numa das estradas repletas de curvas nos canyons de Los Angeles. Toda a equipa ficou chocada com a tragédia.

O trabalho de Pittman ficou imortalizado em Verboten!: A primeira vez que o vemos, ele carrega uma pesada mochila”, descreve Samuel Fuller. “Este soldado derrotado simboliza o que restou da Alemanha após o Terceiro Reich. Vi uma data de homens como ‘Bruno’ no fim da guerra. Milhares deles caminhavam como robôs por estradas bombardeadas, de expressões vazias e olhos mortiços. Fustigados por morteiros, fatigados pela guerra, carregavam às costas, além de tudo o que tinham no mundo, o esmagador peso da derrota. Era uma visão triste, que tornava a futilidade da guerra espantosamente nítida.”

Uma das candidatas para o papel de ‘Helga’ foi Anne Bancroft, atriz que o realizador adorava. Bancroft confessou-lhe que não se sentia feliz com a sua carreira em Hollywood. No entanto, o cineasta achou que, embora Anne tivesse uma forte presença, não se enquadrava fisicamente no que pretendia. “Oxalá tivesse escrito um papel que lhe assentasse tão bem como a célebre ‘Mrs Robinson’ em The Graduate”, lamentou o realizador.

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Samuel Fuller optou por Susan Cummings. Os estúdios acharam que a atriz tinha um ar demasiado “europeu”, mas o realizador contratou-a, visto que coincidia com o que tinha em mente. “Cummings era uma pessoa doce e fez um ótimo trabalho”, comentou Fuller. O realizador teria de ceder noutro aspeto. Impuseram-lhe uma música xaroposa para acompanhar os créditos iniciais, cantada por Paul Anka, no sentido de conferir apelo comercial a Verboten!

A distribuição do filme foi assegurada pela Columbia, e as receitas de bilheteira foram bastante boas. Sam Fuller já se habituara, contudo, às opiniões contraditórias da crítica. Um jornalista escreveu que o filme pretendia “minimizar o movimento nazi”. O realizador achou que o reparo “não tinha pés nem cabeça”: “Merda, depois de ter passado quase quatro anos a esquivar-me a balas nazis na infantaria! Comentários destes soavam a má-fé, estupidez total ou ambas. As pessoas não entendiam que, entre os 12 milhões de prisioneiros nos campos, havia imensos alemães que não eram judeus, aprisionados por não apoiarem o regime de Hitler.”

As reações ao filme, em França, foram mais consensuais e até entusiásticas. Jean-Luc Godard afirmou que Verboten! lhe dera vontade de parar de escrever sobre filmes e começar a realizá-los. Na época, François Truffaut era um jovem crítico que elogiou Verboten! na Cahiers du Cinéma:

“Fazer um filme de completo sucesso significa imbuí-lo de qualidades variadas e quase contraditórias, uma conquista difícil e rara. É dito com frequência que um filme é cinema ou não é cinema, sem que se explicite ao certo porquê. Para mim, um cineasta tem de saber fazer ou tem de mostrar alguma coisa de um modo melhor do que os outros. Aquele tipo, por exemplo, não é bom contador de histórias, mas dirige atores melhor do que qualquer outro; há alguém que estraga cenas, mas todos os planos são perfeitos; um terceiro exemplo é o de quem amontoa 300 planos prosaicos que, somados, compõem um filme poderoso. O quarto move a câmara de modo maravilhoso; o quinto permite que haja confusão, mas sabe criar personagens verdadeiros, e assim por diante.”

Truffaut, então crítico de cinema, percebeu que tinha muito a aprender para conseguir realizar um filme.
Truffaut, então crítico de cinema, percebeu que tinha muito a aprender para conseguir realizar um filme.

“Em suma, nenhum filme é um sucesso absoluto, e é terrivelmente difícil criticar por que não o é. O nosso trabalho é tentar descobrir o que ele é. Ao assistir a Verboten!, percebi que tenho muito a aprender até dominar um filme na perfeição, dar-lhe ritmo e estilo, trazer à superfície a beleza de cada cena sem me refugiar em efeitos extrínsecos, dar relevo à poesia de modo tão simples quanto possível sem nunca a forçar.”

François Truffaut assinala aqui um ponto importante. Podemos identificá-lo no seguinte diálogo entre ‘Helga’ e ‘Brent’:

Helga: A minha família vive de mentiras desde 1933.
Brent: O que tem isso a ver com isto?
Helga: Foi nesse ano que a Alemanha foi assassinada por Der Führer.
Brent: Mas vocês andavam todos atrás dele, quando ele vencia, não foi?
Helga: Acreditávamos nele, até ser tarde de mais para compreendermos que só estava interessado em Adolf Hitler.
Brent: Então por que é que vocês, os alemães, não abriram as vossas grandes bocas quando ele começou a atirar pessoas para as câmaras de gás?
Helga: Somos todos culpados por não termos aberto as nossas “grandes bocas”!

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Depois de se apaixonar por ‘Helga’, ‘Brent’, que mal terminou uma guerra, entra noutra, a dos preconceitos. Os superiores desencorajam a união, afirmando que “eles tiveram uma educação fascista”. Além disso, as frauleins são verboten. Como se não bastasse, grupos obcecados por ressuscitar as ideias nazis eram um grave problema, difundido pela imprensa mundial.

“Jovens extremistas hitlerianos fundavam gangs secretos. O nazismo estava fora da lei, pelo que esses gangs se tornaram clandestinos. Eram controlados por veteranos que se recusavam a admitir a derrota. Estes lunáticos filhos da mãe ainda existem hoje, na América. Ainda lá estão, décadas depois, com as suas ideias fascistas e acampamentos secretos, o seu treino de guerrilha e as suas suásticas. É uma insanidade absoluta, mas verdadeira.”

Fuller filma a zona ocupada e as sabotagens dos Werewolves, que destroem cargas de medicamentos e comida para a sua própria população. O cineasta quis ir mais além desta temática, pretendendo que Verboten! “abrangesse a luta generalizada dos povos em países devastados pela guerra, em toda a parte, tentando sobreviver sem futuro, à mercê de extremistas que lhes prometem comida e esperança. Em tempos destes, um déspota pode facilmente subir ao poder”.

Além de recorrer a esta justaposição brilhante de conceitos e à sua experiência no terreno, o realizador preparou-se para o projeto, lendo Little Man, What Now? de Hans Fallada. “De acordo com Fallada, se não tivesse havido uma depressão após os kaisers, não teria havido um Hitler. Apelando aos estômagos vazios das pessoas, Hitler prometeu aos alemães uma vida melhor, se apenas lhe dessem poder absoluto.”

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Um filme que lida com semelhantes matérias não pode ser ligeiro, mas, em Verboten!, encontro um contador de histórias em ação, não um moralista a dar sermões. Truffaut expressa algo nestas linhas, referindo-se à obra:

“A situação de um cineasta dedicado, arrasado pelo poder dos documentos dos Julgamentos de Nuremberga sobre os horrores do nazismo e dos campos, que consegue imaginar uma história ficcional em torno deles, a ponto de os inserir na vida, removendo-os da cruel objetividade com o intuito de retirar uma lição de moral, é uma ideia portentosa e bela no cinema. O facto de o trabalho deste cineasta conseguir igualar a força, crueza e verdade desses documentos, tal como Balzac fez com a Guerra Civil, é o que encontro de fabuloso em Verboten!

Para Truffaut, “Samuel Fuller não é um principiante, é primitivo; a sua mente não é rudimentar, é rude; os seus filmes não são simplórios, são simples, e é esta simplicidade que mais admiro. Não podemos aprender nada com um Eisenstein ou um Orson Welles, porque o seu génio os torna inimitáveis, e só nos tornamos ridículos quando os tentamos imitar, posicionando a câmara no chão ou no teto. Por outro lado, temos tudo a aprender com estes talentosos realizadores americanos como Samuel Fuller, que colocam as suas câmaras ‘à altura do olho humano’ (Howard Hawks), que não procuram, encontram (Picasso)”.

“É impossível dizermos a nós mesmos, quando nos deparamos com um filme de Samuel Fuller, ‘devia ter sido feito de outro modo, mais rápido, de uma forma ou doutra’. As coisas são como são, filmadas da maneira que devem ser; isto é um cinema direto, sem margem para críticas, irrepreensível, um cinema/dado adquirido, em vez de assimilado, digerido ou sobre o qual se reflita. Fuller não perde tempo a pensar; é óbvio que o seu momento de glória é quando filma.”

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Tendo faltado aos Julgamentos no final da Guerra e arrependendo-se disso, Fuller narrou, como um repórter radiofónico, a sequência arrepiante em que imagens de arquivo surgem no ecrã, uma vez que testemunhara o ocorrido no campo de batalha: “Mil anos passarão, e a culpa de Hitler e do seu gang não terá sido apagada… o ódio era a religião nazi. O ódio era o seu grito de guerra. O ódio era o seu Deus.”

Passados 54 anos, vemos que Samuel Fuller cumpriu aquilo a que se propôs – mostrar às pessoas a crua realidade e nunca as deixar esquecer o que realmente sucedeu durante o Holocausto.

David Furtado

Um agradecimento especial a Christa Fuller.

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