Anne Sexton: Quatro poemas

À imagem do que publiquei aqui há algum tempo, no caso de Sylvia Plath, optei agora por partilhar algumas traduções de Anne Sexton, que permanece um caso de negligência no que toca à língua portuguesa. Esta “pintora da psique”, como lhe chamaram, sempre foi a voz mais persistente da poesia confessional, falando diretamente aos leitores. Arriscou como poucos poetas e muitas vezes fracassou, mas as suas confissões no papel não eram apenas um exercício egocêntrico. Desta vez, escolhi quatro poemas de To Bedlam and Part Way Back (1960): «Her Kind», «You, Doctor Martin», «Music Swims Back to Me» e «Said the Poet to the Analyst».

anne-sexton-4-poemas

Numa carta, Franz Kafka escreveu: “Os livros de que precisamos são aqueles que agem em nós como uma desventura, os que nos fazem sofrer como a morte de alguém que amamos mais do que a nós mesmos… um livro deve ser um machado perante o mar congelado dentro de nós.” Esta citação aplica-se ao trabalho de Anne Sexton, cujos poemas são instrumentos de descoberta para muitos leitores. Até para ela própria. Certa vez, afirmou que apenas e só a poesia a mantinha viva.

Ao traduzir estes textos, deparei-me com as dificuldades habituais… há uma musicalidade na forma como Sexton ordena as palavras que não pode ser transposta para português. Antes de passar às traduções, reafirmo o meu espanto: Como é que uma das escritoras mais influentes da poesia norte-americana consegue ser tão ignorada?

Sexton 1

Um texto biográfico sobre a autora pode ser lido aqui: «Anne Sexton: A poetisa favorita de quem não gosta de poesia».

“Gostaria de ser uma fotógrafa, se a câmara pudesse funcionar do mesmo modo que os dedos. Gosto de capturar um momento. Uma fotografia é coisa de um segundo – um instante frágil no tempo. Tento fazê-lo com palavras.”

COMO ELA

Parti, uma feiticeira possuída,
assombrando o ar negro, de noite, mais ousada;
sonhando o mal, pairei furtiva
sobre as casas singelas, pela calada:
coisa solitária, doze dedos, fora dela.
Uma mulher destas não é bem uma mulher, na verdade.
Eu fui como ela.

Encontrei as amenas cavernas no arvoredo,
enchi-as de caçarolas, esculturas, prateleiras,
inúmeros bens, armários, sedas;
para os vermes e os duendes, fiz ceias:
lastimando-me, corrigindo o desarrumado.
Uma mulher destas é mal interpretada.
Eu fui como ela.

Andei na tua carruagem, cocheiro,
passando por aldeias, os meus braços nus acenaram,
aprendi os derradeiros rumos radiosos e a sobreviver
ao que ainda sinto nas coxas – as tuas labaredas a morder,
e onde as tuas rodas giram, estalam-me as costelas.
Uma mulher destas não tem vergonha de morrer.
Eu fui como ela.

 O SENHOR, DOUTOR MARTIN

O senhor, Doutor Martin, termina
o pequeno-almoço e entra na loucura. Agosto tardio,
apresso-me pelo túnel antisséptico
onde cada morto móvel ainda fala
em empurrar os ossos contra o poderio
da cura. E eu sou rainha deste hotel de Estio
ou a abelha a rir num caule

de morte. Dispomo-nos em linhas descompassadas
e aguardamos que eles descerrem
a porta e nos contem aos portões gelados
do jantar. A senha é pronunciada
e avançamos para o caldo nas nossas batas
de sorrisos. Mastigamos em fila, os nossos pratos
rangem e chiam como giz

na escola. Não há facas
para cortarmos a garganta. Faço
mocassins a manhã toda. De início, as minhas mãos
mantinham-se vazias, desenredadas das vidas
para as quais trabalhavam. Agora reaprendo
a usá-las, cada dedo irado ordena
que eu remende o que outro irá quebrar

amanhã. É claro, eu amo-o;
o doutor debruça-se sobre o céu de plástico,
príncipe de todas as raposas, deus do nosso quarteirão.
As coroas quebradas são novas,
estas coroas de zé-ninguém. A sua terceira visão
move-se entre nós, iluminando as caixas isoladas
onde dormimos ou choramos.

Que crianças grandes nós somos
aqui. Por todo o lado eu cresço com fulgor
na melhor enfermaria. A sua profissão são as pessoas,
faz visitas no asilo, um olho oracular
no nosso ninho. Lá fora no corredor
o intercomunicador chama-o. O doutor vira costas
às crianças matreiras que o puxam e caem com o vigor

diluvial de vida em geada.
E somos magia falando para si própria,
ruidosa e só. Sou rainha de todos os meus pecados,
esquecida. Ainda estarei desnorteada?
Outrora era bonita. Sou eu mesma, agora,
contando estes mocassins, esta fiada e aquela fiada
aguardando na estante silenciosa. 

“É isso que tento caçar, já que, quando trabalho num poema, tento caçar a verdade. Pode ser uma espécie de verdade poética, e não apenas uma factual, porque, por detrás de tudo que nos acontece, todos os atos, existe outra verdade, uma vida secreta.”

anne sexton (1)

MÚSICA FLUI DE NOVO ATÉ MIM

Espere, senhor. Qual é o caminho para casa?
Eles apagaram as luzes
e as trevas movem-se ao canto.
Não há placas de sinalização neste quarto,
quatro senhoras, com mais de oitenta anos,
de fraldas, todas elas.
La la la, Oh, a música flui de novo até mim
e consigo sentir a canção que eles tocavam
na noite em que me deixaram
nesta clínica privada numa colina.

Imaginem só. Um rádio a tocar
e toda a gente aqui estava doida.
Eu gostei e dancei em círculo.
A música derrama-se nos sentidos
e de modo engraçado
a música vê mais do que eu.
Quero dizer, lembra-se melhor;
lembra-se da primeira noite aqui.
Foi no frio sufocante de novembro;
até as estrelas se enfaixavam no céu
e aquela lua demasiado cintilante
forçava as barras com um tridente, picando-me
uma canção na cabeça.
Esqueci tudo o resto.

Eles prendem-me nesta cadeira às oito da manhã
e não há sinais a indicar o caminho,
apenas o rádio pulsando sozinho
e a canção que se lembra
melhor do que eu. Oh, la la la,
esta música flui de novo até mim.
Na noite em que vim, dancei num círculo
E não temi.
Senhor?

sexton 2DISSE A POETISA AO PSICANALISTA

O meu trabalho são as palavras. As palavras são como etiquetas,
ou moedas, ou melhor, como enxames de abelhas.
Confesso que apenas me amargura a origem das coisas;
como se as palavras fossem contadas como abelhas mortas no sótão,
despojadas dos seus olhos amarelos e das asas secas.
Tenho sempre de esquecer como uma palavra é capaz
de escolher outra, de educar outra, até eu conseguir
algo que poderia ter dito…
mas não disse.

O seu trabalho é vigiar-me as palavras. Mas eu
nada admito. Por exemplo, trabalho melhor
quando consigo escrever o meu elogio a uma slot-machine,
naquela única noite no Nevada: relatando como o jackpot encantador
saiu com um tinido de três campainhas no sortudo mostrador.
Mas se porventura me disser que isto é algo que não é,
então enfraqueço, recordando como senti as mãos esquisitas
e ridículas e repletas com todo aquele
dinheiro crédulo.

David Furtado

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8 Comments Add yours

  1. Lena diz:

    A tradução tem a cadência e a harmonia de um poema! Parabéns. São poemas que nos fazem reflectir sobre o sentido da vida. A poesia “fala” sempre ou a maior parte das vezes de Amor ou da falta dele. Ao ler o que Kafka escreveu numa carta faz-me pensar naquela frase “o amor é mais forte que a morte”. Obrigada pelos teus artigos.

    1. Ainda bem que reparaste – a cadência é essencial, especialmente no «Her Kind». Manter esse ritmo sem modificar o sentido é um puzzle. Já não sei quanto tempo demorou a traduzir isso, mas foram vários dias e jurei que não me metia noutra… concordo com a interpretação da frase de Kafka.

      Anne Sexton tem outros poemas mais “exuberantes”, menos “negros” do que estes. Mas o «Her Kind» continua a ser um dos mais conhecidos dela. Conto escrever novamente sobre ela em breve. Reparo que ela suscita o interesse na língua portuguesa, mas não adianto mais para não dar ideias a editores sem escrúpulos, que por aqui passam como voyeurs. Pena é que poucos comentem o que aqui mais lêem, mas faz parte da Internet. Ossos do ofício. Tirar o mais possível sem não dar nada em troca, a não ser quando se quer comentar de maneira estapafúrdia e apontar o dedinho recriminador. Não foi o teu caso, claro. E, felizmente, não é o caso de 95 por cento das pessoas que têm dito o que pensam sobre estes trabalhos, ao longo de um mais de um ano.

      Obrigado eu pelos comentários.

  2. André diz:

    Eu ja tinha lido alguns poemas da Anne Sexton e tinha gostado muito! Confesso que nao sou muito conhecer de poesia, mas adoro o trabalho da Sylvia Plath e tambem gosto dos poemas de Fernando Pessoa (principalmente de Alvaro de Campos). Penso que a Anne Sexton pode vir a juntar-se a estes dois como uma poeta que eu admiro e estimo. Acho que ela tem bastantes parecenças com a Sylvia Plath, pelo menos a nivel biografico e nos temas abordados.

    Enfim, confesso que ao ler um poema nao consigo propriamente descortinar o significado dele. Muitas vezes fico-me apenas pela superficie, mas gosto de os ler, e de sentir as emoçoes que eles transmitem.

    Muito obrigado por mais um excelente artigo e pelo seu trabalho!

    1. Olá, André. Ótimo. Álvaro de Campos também está no topo da minha “lista”, bem como Sylvia Plath. As duas têm parecenças, é verdade, como refere. Alguns poemas são difíceis de interpretar. Houve um livro de Sexton que li mas tive de ir ler a explicação a outro lado… Alguns são mesmo “herméticos”. Tem aqui outro trabalho que talvez ajude a explicar estes textos. Obrigado eu. E um abraço. David.

  3. luiz alberto diz:

    estou lendo novamente a biografia Anne sexton a morte não é a vida de diane wood middlebrook. É uma biografia honesta sobre esta grande poeta.

    1. É verdade. Acho que continua a ser o melhor livro sobre ela.

  4. André diz:

    Esse livro esta disponivel numa ediçao portuguesa?

Comentários:

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