Lou Reed – Sally Can’t Dance: Blondes have more fun

Sally foi o álbum mais bem-sucedido de Lou Reed, o único da sua carreira a entrar no top 10 americano, e também considerado por muitos o seu pior. Quando o músico estava no auge da fama, em 1974, e os seus discos vendiam, tinha uma obrigação contratual para com a RCA; deveria entregar dois trabalhos “comerciais”. O primeiro foi este e o segundo foi um álbum duplo inaudível de feedback e ruídos eletrónicos, Metal Machine Music. «Walk on the Wild Side» foi a música de Lou Reed que atingiu o número 16 do top da Billboard. Sally será assim tão mau? Segue-se uma análise, tema a tema, de um álbum que Lou Reed classificou de “desprezível”.

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No início de 1974, Reed atravessava uma fase turbulenta, a nível pessoal e criativo. Divorciado da primeira esposa, Betty, mudou-se para o apartamento da sua nova namorada, Barbara Hodes, em Nova Iorque. O seu último álbum, Rock ‘n’ Roll Animal (gravado ao vivo) fora um grande sucesso e gerara muita publicidade – Reed era, pela primeira vez, elogiado pelo seu material a solo e não só pelos temas dos Velvet Underground. O músico continuava a compor, imerso na vida noturna de Nova Iorque, e o álbum seguinte seria o primeiro em que não utilizaria recauchutagens de músicas antigas dos Velvet.

Aos 32 anos, Lou Reed permanecia inquieto e irreverente. Sentia-se frustrado perante a obrigação de entregar dois “álbuns comerciais” à editora. Steve Katz era novamente o produtor, e a discográfica achou que tal garantiria outro êxito de vendas. Não se enganou, mas não contava com o ressentimento de Lou face à obrigatoriedade. As sessões de gravação de Sally Can’t Dance foram as primeiras da sua carreira a solo a decorrerem nos EUA.

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“Dormi durante Sally Can’t Dance. Gravei todos os vocais num só take, em 20 minutos, e disse adeus. Eles faziam uma sugestão, e eu dizia, ‘oh, está bem’. Simplesmente não consigo escrever canções para as pessoas dançarem. Soo terrível, mas estava a cantar sobre as piores merdas do mundo”, explicou o músico ao Melody Maker em 1977.

lou reed sally can't dance (2)Lou achava que a RCA o colocara entre a espada e a parede, e classificou Sally Can’t Dance de “erro”. Os produtores foram os irmãos Dennis (manager de Reed) e Steve Katz. Ambos queriam supostamente que Reed soasse como Elton John. Lou, que já estava a desentender-se com o manager, fincou pé: “Apesar de toda a porcaria que lá está, ainda é música de Lou Reed”, contestaria de forma contraditória.

Steve Katz caracterizou assim as sessões de gravação, que decorreram nos Electric Lady Studios, concebidos por Jimi Hendrix, em Nova Iorque: “Todos o adorávamos e o compreendíamos e o tentávamos ajudar. Mas ele simplesmente recusava-se a estar ali. As drogas eram demasiadas, eu já não conseguia lidar com isso. Enquanto artista, ele não estava presente a todos os instantes. Tinha de se tratar dele como se fosse um bebé.” Lou passou um fim de semana em casa de Katz, em Westchester. O produtor entrou incidentalmente na casa de banho e deparou-se com Lou a injetar-se com metanfetaminas, estimulantes do sistema nervoso que, entre outras coisas, o mantinham acordado durante dias a fio.

Os dois irmãos respeitavam e gostavam genuinamente de Lou, reconhecendo, em simultâneo, que tais estupefacientes produziam efeitos nefastos no músico. De vez em quando, Reed limpava o sistema e deixava de tomar speeds, seguindo um regime rigoroso de dieta e exercício físico. Não bastava, contudo. Para quem tinha dois álbuns de sucesso internacional e um single nas tabelas de vendas, Reed comportava-se de modo estranho – por detrás da máscara, o divórcio devastara-o, despendia grandes quantias em drogas e, como não tinha contabilista, as suas finanças estavam num caos, nem conseguia pagar uma conta de restaurante.

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Atormentado e sem saber para onde se virar, Lou Reed teve a ideia de produzir um disco com as canções de Nico, a sua antiga musa. Convidou-a para passar três dias no seu apartamento, onde a torturou psicologicamente, desistindo da ideia. John Cale ficou agradado com a noção de revitalizar a carreira de Nico, mas, ao saber do comportamento de Reed, telefonou-lhe, irado. Foi este um dos principais motivos do afastamento entre Cale e Reed durante cerca de 10 anos.

Lou e Barbara Hodes.
Lou e Barbara Hodes.

Depois disto, Reed voltou-se novamente para Barbara Hodes, que vivera com Lou intermitentemente desde o início de 1974 e já o conhecia desde 1966. Era uma mulher sensual e inteligente que trabalhava no negócio da moda. Barbara era leal e um grande apoio; tinha, por exemplo, procurado Reed, incentivando-o regressar à ribalta em 1971, pondo fim ao exílio em que caíra depois do colapso dos Velvet Underground.

Em maio e junho de 1974, Lou, acompanhado por um séquito de 24 pessoas, deu vários concertos na Europa, passando pela Suécia, Dinamarca, Países Baixos, Inglaterra, Bélgica e França. O músico, porém, alienou Barbara; em palco, introduziu um estranho ritual durante «Heroin» – atava o fio do microfone no braço para fazer as vezes de garrote, tirava uma seringa do bolso e injetava-se com uma misteriosa substância, perante a repugnância dos jornalistas e o delírio do público. Alguns já temiam pela sua vida. De cabelo oxigenado e extremamente magro, Reed tornou-se icónico durante este período em que a sua saúde decaiu e o consumo de drogas aumentou.

O seu maior fã era o famoso crítico musical Lester Bangs, que o definiu assim: “Lou foi o tipo que deu dignidade e poesia e rock and roll à droga, ao speed, à homossexualidade, ao sadomasoquismo, ao assassínio, à misoginia, à passividade, ao suicídio, e depois começou a trair o que conquistara, caiu num pântano e transformou tudo numa piada de mau gosto.”

Em agosto, foi lançado Sally Can’t Dance, álbum muito discutido na imprensa, nem sempre pelos melhores motivos. No Village Voice, Robert Christgau escreveu: “Lou gosta de inventar novas maneiras de c***r em cima das pessoas. Poder-se-á dizer outra coisa desta mixórdia grotesca de metais de soul, guitarra exibicionista, canto falado/impassível e rimas indiferentes? Não sei. E é provável que Lou também não saiba.”

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Outros críticos, como Paul Williams, foram mais moderados: “«Billy» é uma balada sobre um velho amigo da escola e o que foi feito dele. E, por associação, sobre o que foi feito de Lou. Funciona. Este disco, contendo «Kill Your Sons» e «Billy» é, entre outras coisas, um reconhecimento das raízes de classe média de Reed, em Long Island.”

Richard Robinson escreveu uma carta aberta ao Hit Parader, apelidando a produção de Katz de “admirável”, referindo que Lou Reed já não era ouvido com tanta atenção há muito tempo, mas lamentando a falta de energia e profundidade do trabalho.

A nível musical, Sally Can’t Dance é um disco bem produzido e melódico, só que… parece, aqui e ali, uma paródia a tudo o que Lou Reed representava. Internacionalmente, foi o seu maior êxito, mantendo-se nas tabelas de vendas durante 14 semanas. Este paradoxo não foi o único. Lou encarou o sucesso de modo pouco comum; concluiu que a sua carreira se tornara numa charada e respondeu com cinismo à imprensa:

“Isto é fantástico… quanto pior sou, mais vendo. Se, para a próxima, eu nem sequer estiver no disco, provavelmente chega a número um.”

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Reed denegriu o álbum, os músicos e os produtores, o que não o impediu de colaborar com alguns deles nos anos seguintes.

As suas declarações nem sempre primaram pela coerência. Três anos depois comentaria: “Sally Can’t Dance não foi uma paródia, falava sobre as coisas que sucediam. Foi produzido da forma mais viscosa possível. Gosto que o som não seja limpo. Oxalá os Dolbys fossem todos arrancados do estúdio. Odeio esse álbum. É entediante. Conseguem imaginar alguém a editar Sally Can’t Dance com o nome em baixo? A oxigenar o cabelo e essas merdas todas? Foi o que eles queriam, foi o que tiveram. Chegou ao Top Ten sem um single, e eu disse, ‘que porcaria absoluta’. Gosto dos velhos discos dos Velvet. Não gosto dos discos de Lou Reed.”

Durante a tournée que se seguiu, o comportamento de Lou foi errático. De acordo com a road manager Barbara Falk, o cantor não conseguia receber convidados nos bastidores após os concertos. O impacto emocional da música tinha sido demasiado forte. Só Barbara era admitida no camarim, perante um Lou Reed a soluçar sem se conter.

A 18 de maio de 1974, Reed atuava no estádio do Charlton em Londres.
A 18 de maio de 1974, Reed atuava no estádio do Charlton em Londres.

“Ele estava ensopado, tremia e, às vezes, chorava, depois de ter libertado toda aquela energia reprimida. Em especial, se o público tivesse sido bom. Caso contrário, ficava incomodado por ninguém ter aparecido.”

Lou Reed nem sempre se apercebeu de quem estava entre os fãs, como relembra Barbara Falk:

“As outras estrelas admiravam-no imenso. Nunca me esquecerei de Mick Jagger, agachado atrás dos amplificadores no Felt Forum, para não prejudicar a atuação de Lou. Mick queria ir ao camarim dizer-lhe como ele era fabuloso.”

Tema a Tema:

lou reed sally can't dance (9)«Ride Sally Ride»: Lou Reed era um grande fã de Al Green e retirou este título de uma das suas canções, embora Green já o tivesse ido buscar a «Mustang Sally», tema de Wilson Pickett. “Não é bom, quando o teu coração é feito de gelo?” Ao receber alguém em casa, o narrador diz, “tira as calças, não sabes que isto é uma festa?”

A produção e os arranjos, com uma sonoridade comercial, provocaram críticas na imprensa, que acusou o músico de se vender ao mercado discográfico, atitude que Lou Reed não levou a bem. Reed pode ter sido passivo durante a gravação do álbum, mas as letras não demonstram qualquer concessão.

«Animal Language»: Originalmente, chamava-se «Mrs O’Riley’s Dog». Uma canção de extremo mau-gosto ou repleta de humor negro, conforme as sensibilidades. Descreve a morte de animais de modo perverso. O cão de ‘Miss Reily’ ladrava, incomodando os vizinhos, até que, certa noite, ela o soltou, e os vizinhos apanharam o animal e… este disse “ooohhh-wow, bow-wow”. Segue-se o gato de ‘Miss Murphy’, um “Cheshire Cat” que parecia sorrir. Também este animal acaba por emitir um “ooohhh-meow, me-meow”. No terceiro verso, cão e gato encontram-se… O arranjo do tema é bastante pop, com metais e coros femininos. Reed canta com estilo.

«Baby Face»: Sem dramatismos e até com frieza, Reed fala sobre o colapso de um romance. Alguns críticos referem que se trata de um relacionamento homossexual, outros acham que é um resquício de Berlin, com o ressurgimento do personagem ‘Jim’.

«N.Y. Stars»: Um tema quase funk, cujo riff de guitarra viria a inspirar «Stay» e Young Americans de David Bowie. Especulou-se que a letra pudesse ser um ataque às figuras da vida noturna de Nova Iorque, a quem visitava a Factory de Andy Warhol, aos antigos colaboradores e amigos de Reed em Greenwich Village, ou aos fãs. Sabe-se que Reed se sentia frustrado ao ver imitadores seus nas primeiras filas dos espetáculos, um desagrado que verbalizava. Lou cita até frases com que o caracterizavam pelas costas: “A máquina amaricada de mímica nunca teve ideias”, ou “eles dizem que sou tão vazio, sem superfície ou profundidade/Por favor, não posso ser tu? A tua personalidade é mesmo fantástica”.

Há uma hostilidade e arrogância terminais no modo como Reed se dirige a estas “estrelas de Nova Iorque”, chama-lhes “vampiros”, “Miss Stupid” ou equipara-os a edifícios recém-construídos, “quadrados, altos e idênticos”. O tom de indiferença ainda torna este discurso mais agressivo.

lou reed sally«Kill Your Sons»: Várias vezes, apontaram erroneamente a Lou Reed um elemento autobiográfico nas suas canções. Em temas que referem a família, o músico afirmou com veemência que se trata de personagens. Não é bem o caso, aqui. Mais de 10 anos antes, os pais tinham enviado Lou para tratamento psiquiátrico, os médicos aconselharam eletrochoques, uma experiência que Reed nunca esqueceu.

No meio de um zumbido de guitarras, Lou critica de forma venenosa a atitude dos progenitores, o estilo de vida de classe média da sua irmã (e do marido), sem esquecer os psiquiatras “two bit” ou da treta, que o tentaram “curar” das suas tendências homossexuais e antissociais. Mais importante é a descrição que Reed faz do seu vazio mental, alegando que “cada vez que tentava ler um livro, não chegava à página 17. Esquecias-te de onde estavas e não conseguias ler”.

«Ennui»: A faixa favorita de Reed:

“Gosto de «Ennui». Quando mencionam essa canção, mudo de opinião relativamente a todo o álbum. Há sempre um momento isolado em todos os discos que me agrada bastante. É a faixa que a maioria das pessoas passa à frente, suspeito. Deve ser, pois é a única de que gosto.”

O termo ennui foi popularizado por Baudelaire e exprime “enfado” ou “inquietude existencial”, pressupondo uma fuga através de sexo ou drogas.

Musicalmente, a canção é serena e agradável, mas a letra é, outra vez, incómoda, expondo e atacando (ironicamente) os promíscuos, os desesperados ou os sofredores: “Apanha os pedaços que compõem a tua vida. Talvez um dia tenhas uma esposa… e uma pensão de alimentos.” No fim de cada verso, a voz indiferente de Reed repete, “it’s the truth”.

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«Sally Can’t Dance»: Vários críticos especularam sobre a identidade de ‘Sally’, no tema-título, dizendo que pode ser Nico ou a diva de Warhol, Edie Sedgwick. Esta última parece merecer a referência, “ela tinha um apartamento onde ia para a cama com cantores de folk” – possivelmente, Reed alude à relação entre Bob Dylan e Sedgwick.

Uma mistura de soul e funk, «Sally Can’t Dance» foi o single do álbum. Conta-nos a história de ‘Sally’, que não consegue dançar por ter tomado demasiadas metanfetaminas e não se conseguir erguer do soalho! Esta triste personagem de St. Mark’s Place é uma rapariga atraente e na moda, descrita com uma misoginia tremenda por Lou.lou reed sally can't dance (20)

30 anos depois, Lou Reed explicou, nas notas da compilação NYC Man: “Foi sobre uma coisa que aconteceu em Nova Iorque, no Lower East Side. Resumindo, é a história de uns tipos que alvejaram uma rapariga, puseram-na na mala de um carro e foram para uma festa a seguir. Menciona todos os clubes diferentes que estavam na moda na altura – foi a única vez que fiz isto, o que torna a canção datada… os clubes em voga, o estilista em voga, o que está na moda, isto, aquilo. É apenas um apontamento sobre a vida noturna nova-iorquina, incluindo o assassínio. É por isso que ‘Sally’ não dança. Encontraram-na na mala de um carro.”

Toda esta ironia não foi entendida, tendo em conta as vendas do álbum.

«Billy»: Neste tema com apenas guitarra acústica, saxofone e baixo, tocado pelo antigo elemento dos Velvet, Doug Yule, o compositor traça, de forma muito sintética, os caminhos dele e de ‘Billy’. Conheciam-se desde os nove anos e, ao passo que ‘Billy’ envereda por caminhos “louváveis” de aceitação social e sucesso académico, o narrador desiste da faculdade; enquanto ‘Billy’ se dedica ao doutoramento em medicina, o narrador passa o tempo a jogar bilhar. Surge a Guerra do Vietname (presume-se, se o tema for autobiográfico) e ‘Billy’ tem de combater. O narrador é considerado mentalmente inapto e não vai. Quando o amigo regressa, já não é o mesmo ‘Billy’ de antigamente, e Lou Reed pondera: “Qual de nós foi o tolo?”

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A capa também não escapou às críticas, já que mostra um oxigenado Reed de óculos escuros e, refletida na lente, uma prostituta negra com aspeto andrógino. Dois anos depois, Lou admitiria que, na época em que o disco foi gravado, tinha por hábito engatar prostitutos na 10ª Avenida, trazê-los para casa e fotografá-los. O design de Sally, tal como consta na capa, “baseia-se numa foto de Lou Reed”.

Lou achava que o público estava a comprar a persona, o “Fantasma do Rock” propagandeado pela sua editora, e não a música. Portanto, Sally Can’t Dance pode ser encarado como um virar de costas ao comercialismo. E Metal Machine Music viria a confirmá-lo. Afirmando que não estava “no jogo por causa do dinheiro ou para ser uma estrela”, Lou considerou: “As minhas canções são pequenas peças, às quais dou a mim mesmo um grande papel, mas [os narradores] são ‘pessoas’ diferentes. Depois de algum tempo, talvez as pessoas se devam aperceber de que tudo aquilo não pode ser a mesma pessoa.”

David Furtado

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