A Woman Under the Influence: Mapas desconhecidos do ser humano

Originalmente, o guião deste filme tinha a grossura de uma lista telefónica. Foi uma afronta para os espectadores, aquando da estreia; saíam passados 20 minutos e vinham cá fora fumar um cigarro ou respirar fundo, incomodados, antes de regressarem à sala. A Woman Under the Influence (Uma Mulher Sob Influência) é como uma experiência, tem de se passar por ela. É tão subtil como um soco no estômago. No fio da navalha entre loucura e sanidade, é uma obra poderosa, nunca fácil e estranhamente familiar. Segue-se uma exploração dos seus bastidores.

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A grande pergunta é se um filme consegue render 100 milhões. O que importa? Se pensamos dessa maneira, não estamos a fazer filmes, estamos a fazer dinheiro. Se foi a isso que chegámos, deixemos que o público olhe para fotos de dinheiro, ponham dinheiro a passar nos ecrãs. Eram capazes de aprovar um filme sobre uma revolução, em que todos os patrões de todos os estúdios seriam mortos, se isso fizesse dinheiro. Não digo que tenha sido um santo a vida toda, mas não conseguia vender a alma por uma coisa em que não acredito. E, se isso significar que não faço mais nenhum filme, então não faço mais nenhum filme.

A Woman Under the Influence foi nomeado para dois Óscares – Melhor Realizador e Melhor Atriz, mas John Cassavetes jurou que nunca mais filmaria nestes moldes. Considerada uma obra “culturalmente significativa” pela Biblioteca do Congresso dos EUA, o filme foi selecionado para preservação no National Film Registry.

Quando as filmagens terminaram, John estimou ter filmado 213 mil metros de celuloide, se bem que o outro cameraman, Mike Ferris, diga que foi um milhão… certo é que foram registadas mais de 100 horas de material – chamar a isto um exagero, no contexto da indústria cinematográfica, é um eufemismo. Pode-se fazer uma ideia de como foi difícil a montagem, a tarefa de reduzir tudo a um filme com cerca de duas horas e meia.

Rowlands e o realizador (e marido) John Cassavetes.
Rowlands e o realizador (e marido) John Cassavetes.

Dois dias antes de começarem as filmagens, Michael Lally, o supervisor da produção, reuniu todos e anunciou que teriam de adiar a data, pois não havia dinheiro nem película. Cassavetes reagiu com fúria, “I don’t give a fuck!” “Daqui a dois dias, vamos estar naquele cenário, os atores estarão diante da lente, nós estaremos atrás dela, e vamos andar com isto!” No dia seguinte, não se sabe como, John arranjara três mil metros de filme, e o trabalho começou mesmo.

cassavetes woman (24)Conhecendo a biografia de John Cassavetes, é-me difícil apontar como conseguiu ir para além da psiquiatria neste filme. Alguns críticos referem que foi além da antropologia! Sensibilidade, pelo que apurei. Total dedicação. Obsessão e fidelidade aos instintos criativos. Persistência para além dos limites do razoável, que o levou a recorrer à manipulação de que era capaz. Há aqui um absoluto desrespeito por regras, mas uma dedicação total ao espectador anónimo, uma consideração extrema. A anos-luz do cinema egocentrista de outros, A Woman Under the Influence não será compreendido por todos, mas, quem o compreender, ainda que em parte, provavelmente dirá que se tratou de um solavanco no cinema e um estudo acerca de estados emocionais indescritíveis.

‘Nick Longhetti’ (Peter Falk) é um tipo comum que trabalha na construção civil. Responsável, casado e pai de três filhos, ‘Nick’ não tem grandes preocupações religiosas ou políticas. É chefe da sua equipa e conta com o respeito dos colegas. Uma pessoa genuína, ‘Nick’ ama a mulher, ‘Mabel’ (Gena Rowlands), mas não entende as suas reações cada vez mais estranhas. ‘Mabel’ também ama o marido. No entanto, confinada ao papel de esposa e mãe, entra num caos mental. ‘Nick’ não tem outro remédio a não ser interná-la. ‘Mabel’ regressa, mas não está “curada”.

“Ela não é doida, apenas invulgar!”, insiste ‘Nick’. ‘Mabel’ adora os filhos, mas é uma “mulher sob influência”, desafia este papel, as relações familiares, e, embora, a princípio, a possamos achar “doida”, começamos a perceber que ‘Mabel’ não é mais do que uma mulher num mundo de “doidos”, regidos por sistemas de aceitação e aprovação, que podem levar à neurose. ‘Mabel’ é uma das grandes personagens ficcionais do cinema. É a preferida de Cécile De France, por exemplo. John Cassavetes leva a situação ao extremo, filmando de modo quase documental a desagregação interior de alguém, e mostrando quais as “influências”.

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Há muitas coisas que não compreendo. Sou uma pessoa totalmente intuitiva. Ou seja, penso em coisas que os seres humanos fariam, mas estou apenas a adivinhar… por isso, não tenho uma visão pré-concebida sobre o modo como um ator deve representar. O personagem, entre aspas. Não acredito no “personagem”. Quando o ator faz determinado papel, ele é essa pessoa. E essa pessoa deve fazer tudo ao seu alcance. Podem alterar o argumento, e deixo que o façam. Isso deve-se ao facto de eu ser mais um ator do que um realizador. E aprecio que as pessoas possam ter alguns segredos. E isso pode ser mais interessante do que um “argumento”. Todas as pessoas são muito resguardadas… como argumentistas e realizadores, entendemos que essa é a regra básica: As pessoas são resguardadas.

A Woman Under the Influence começou por ser uma peça de teatro. Gena Rowlands afirmou que, como habitualmente, falava com o marido sobre “histórias, ideias, sobre a vida”. “Gostaria de entrar numa peça, e John mostrou interesse em escrever uma, coisa que nunca fizera. Perguntou-me que tipo de peça. Disse-lhe que não sabia; qualquer coisa que se relacionasse com as mulheres dos dias de hoje, um problema moderno com que as pessoas se debatessem. E, ao mesmo tempo, intemporal.”

Durante a rodagem, os desentendimentos entre protagonista e realizador foram desgastantes, devido ao material difícil com que lidavam.
Durante a rodagem, os desentendimentos entre protagonista e realizador foram desgastantes, devido ao material difícil com que lidavam.

Cassavetes escreveu o texto e mostrou-o a Gena, que, se apercebeu da profundidade e do alcance do trabalho: “Eu não aguentaria duas noites a representar aquilo. Ao fim de uma semana, teria de ser internada”, refere a atriz. John teve outra ideia e foi trabalhando em outras duas peças, acabando por admitir que o melhor seria concentrar-se num único guião.

Peter Falk arranjou um papel para John em Columbo e investiu dinheiro do seu próprio bolso.
Peter Falk arranjou um papel para John em Columbo e investiu dinheiro do seu próprio bolso.

Depois de Husbands, no início dos anos 70, a relação entre o realizador e a Universal azedou outra vez. Disseram-lhe que ninguém queria ver “uma mulher doida, de meia-idade”, no grande ecrã. O filme, pouco a pouco, tornou-se um dos seus projetos mais pessoais, tinha de o fazer, independentemente dos custos financeiros ou emocionais.

Cassavetes reuniu-se com o amigo e colaborador Sam Shaw, tendo ambos achado que o conseguiam produzir por 800 mil dólares. John decidiu hipotecar a sua casa e contou com a ajuda de Peter Falk, que lhe sugeriu uma participação como ator na série de sucesso Columbo, que então protagonizava – já fora distribuída em 35 países. O salário de John seria todo aplicado no filme.

Falk foi entretanto convidado para trabalhar numa obra de Mike Nichols – proposta tentadora – mas recusou por já ser tarde: “Este tipo, o Cassavetes, parecia ter qualquer ideia boa, e eu não sabia o que era”, disse Falk. Foi ter com o amigo e disse-lhe que investiria a mesma quantia de dinheiro que ele no projeto.

O termo “under the influence” não assume o significado comum de embriaguez. Peter Falk sublinha que a obra é sobre “uma mulher que tenta agradar”. O ator nunca se esqueceu de uns certos sete minutos de filmagem contínua em A Woman Under the Influence:

“Eu participava, mas não estava envolvido. Tinha uma ou duas falas, talvez. Ela está sob a influência do seu pai, do marido, até dos filhos. Uma mulher que, no mínimo, precisaria de mais autoconfiança. E Gena dominou a cena desde o início.” Peter Falk observou, estupefacto, enquanto “Gena descia até à loucura”. “Ia tirando uma camada de normalidade, de cada vez. Com cada novo pensamento, parecia ligeiramente mais louca do que antes. Foi orquestrado de maneira belíssima. Totalmente imprevisível. Hipnótico. Entre os sete minutos de representação mais brilhantes que alguma vez testemunhei.”

Peter Falk lendo a revista Mad num momento mais descontraído.
Peter Falk lendo a revista Mad num momento mais descontraído.

John Cassavetes decidiu que as filmagens começariam no outono seguinte, daí a dois meses. Reuniu o elenco, operadores de câmara e técnicos, mesmo sem ter dinheiro. A maior parte da ação centrar-se-ia no lar de ‘Nick’ e ‘Mabel Longhetti’, um casal de classe trabalhadora. “Visitámos 150 casas até encontrarmos uma dentro do orçamento, que nos desse a sensação de estarmos numa casa verdadeira, e que pudesse também mostrar o tipo de existência comum que queríamos retratar”, afirmou John.

Foi nesta casa, em Taft, Hollywood, que a equipa se instalou, com o segundo andar a servir de escritório para a produção. O lugar precisava de pintura e limpezas, e Cassavetes, consciente de que atraía o entusiasmo dos colaboradores, também os quis pôr à prova – elenco e técnicos, todos participaram nas obras. Ia dedicar-se durante quatro ou cinco meses, e exigia o mesmo de todos.

Cassavetes com elenco e equipa. (Falk à esquerda.)
Cassavetes com elenco e equipa. (Falk à esquerda.)

O realizador declarou: “A natureza da vida não se define pelo dinheiro, pelo poder político ou coisas desse género, mas sim, pelo facto de sermos todos seres sociais.” Esta filosofia explica o trabalho de equipa durante as suas rodagens, envolvendo, muitas vezes, a família e amigos, como sucede em A Woman Under the Influence. Mas aqui Cassavetes teve violentos ataques de fúria com técnicos, despediu pessoas e descompunha com regularidade a esposa, Gena, originando vários desacatos.

É curioso constatar a reação das feministas ao filme. Por um lado, aplaudiram a crítica implícita de que uma dona de casa tem um papel restrito na sociedade. Mas não apreciaram a fragilidade emocional de ‘Mabel’ e a sua falta de autossuficiência. “John não realizou um filme sobre a emancipação feminina”, comentou Peter Falk. “Todas as suas histórias lidam basicamente com a mesma coisa: O amor é difícil, o amor é necessário.”

O realizador com Rowlands e Falk.
O realizador com Rowlands e Falk.

Cassavetes explicou: “Mulheres como ‘Mabel’ podem enlouquecer apenas por estarem isoladas nos seus lares. ‘Mabel’ tem de descobrir o que os outros pensam, para reconquistar o gosto pela vida. Só se sente viva através dessa interação, uma espécie de competitividade que ela própria cria e estabelece.”

cassavetes woman (43)Quando o filme foi exibido no Columbia College de Chicago, o realizador compareceu e falou aos estudantes: “O problema de ‘Mabel’ é que ela tentava fazer tudo para agradar a outra pessoa. Quando ‘Nick’ queria que ela fosse para a cama, ela ia. Se ele queria que ela pedisse desculpa, ela pedia. Ele queria que ela fosse simpática para 10 tipos que aparecem às oito da manhã, 10 tipos, para comer esparguete. É o sonho de um homem. Ela está realmente sob a influência da família e de ‘Nick’.”

Esta sequência, conhecida como “a cena do esparguete”, é bastante longa e parece documental e improvisada; ao estilo da cena do bar em Husbands. Há uma aparente naturalidade nas atuações, se bem que John tenha dito a um entrevistador que foi filmada 30 vezes, excluindo ensaios.

A Woman Under the Influence foi filmado em continuidade, como John Cassavetes geralmente fazia, outro pormenor que contraria os procedimentos habituais em cinema. Os takes foram longos, ininterruptos, até a câmara ficar sem película; as lentes foram usadas com o intuito de impedir que a câmara (quase sempre, uma Mitchell de 35mm) se “intrometesse” no espaço reservado aos atores. Cassavetes sempre tentara seguir esta filosofia, e aqui pôde fazê-lo em pleno.

Além disto, o realizador filmou, muitas vezes, ele próprio, recorrendo à câmara à mão, neste caso, uma Arriflex de 35mm: “Isto faz com que os atores reajam muito mais depressa. Quando filmo, não me inibo de lhes dizer, ‘sai daí para fora, mexe-te, mexe-te!’” Esta técnica era considerada intrusiva e indisciplinada, de acordo com os padrões de Hollywood, e só era empregue em cenas rápidas de ação ou tiroteios.

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A maioria das vezes, Cassavetes filmou 12 takes integrais de uma cena, sob ângulos diferentes. “Regra geral, os atores não sabem o que está a ser filmado”, adiantou o realizador. “Nunca sabem quando a câmara os vai focar e, assim, todos têm de estar sempre atentos. Se montamos uma cena formal, os atores têm tendência para descontrair quando estão fora do ecrã. Por isso, a fluidez da câmara mantém tudo vivo e permite ao operador fazer ‘seleções emocionais’.”

Tal método conferiu ao “estilo Cassavetes” o aspeto documental, como o próprio admitiu. Não agradou, porém, aos cameramen. Caleb Deschanel, justificadamente orgulhoso da estética com que filmava, como qualquer operador de câmara, entrou em conflito com o realizador, que o despediu.

Jeremy Kagan era um aspirante a realizador que visitou as filmagens. Na sua opinião, “John encorajava a liberdade, mas sabia o que pretendia. Aquilo não era amorfo; ele sabia onde colocar a câmara e podia entrar em grandes discussões sobre isso. Houve grandes desavenças com o jovem diretor de fotografia, no início. Ele compreendia o medium muito bem.”

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Embora as origens de A Woman Under the Influence possam ser teatrais (e há teatralidade no filme, no sentido em que certas partes se assemelham a teatro filmado), a obra quebrou o estilo retórico de alguns cineastas, há uma rutura com as regras, como é lugar-comum dizer-se ao falar de John Cassavetes. Neste filme, o homem disparou com toda a fúria, sem pensar em reféns…

Nos filmes do realizador, a música fora empregue de modo discreto, a maioria das vezes, utilizava jazz. Em A Woman Under the Influence, John pediu a Bo Harwood que compusesse a banda sonora. Harwood era guitarrista, mas, por insistência de John, criou um belo tema ao piano. Os ambientes sonoros são complementados por excertos de ópera, Puccini, para dar um exemplo, ou O Lago dos Cisnes, que evoca a situação de ‘Mabel’ e também se enquadra na etnia italo-americana dos ‘Longhetti’.

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Bo Harwood afirma que John adorou a música: “Ele achou que era a melhor que já ouvira, mas não concordo. O que se ouve no filme são gravações experimentais, tentativas que gravei no meu escritório. Era suposto regravarmos e reorquestramos, só que não havia tempo nem dinheiro, e John apaixonou-se por aquele som, quis que fosse cru e inocente.”

No centro desta obra está a extraordinária representação de Gena Rowlands, um “trabalho” complexo, que atriz explica assim: “Eu só sabia que a mulher não conseguia falar. Quando não podemos falar, quando desempenhamos este tipo de papel e nos envolvemos nele, começam a acontecer coisas ao nosso corpo. O espírito humano não suporta as coisas em silêncio. Se não conseguimos expressar algo verbalmente, expressamos de outro modo qualquer e, no caso dela, isso saiu naqueles gestos bizarros. Mas não o planeei. Não planeei nada de físico para este filme.”

Refira-se que Rowlands, ao contrário do marido, não gostava de improvisos e seguia o argumento à risca. Cassavetes sentiu-se “culpado” quando, uma vez, lhe surripiou a cópia do guião. Estava repleto de anotações e parecia um diário. Estavam anotados todos os sentimentos de ‘Mabel’ relativamente a todos os personagens, em todas as cenas. Tratava-se do papel mais exigente que John escrevera para ela e tornou-se numa das grandes atuações da Sétima Arte.

A diferença de interpretações provocou discussões conjugais no set. Mike Ferris assistiu: “Gena era uma senhora, nunca dizia palavrões, mas aquilo levou-a ao limite. Dizia-lhe, ‘se tivesse uma faca, arrancava-te o coração agora!’ Ela queria orientações, mas ele recusava-se a dar-lhas. John usou isso.”

A famosa cena dos "cinco pontos". Falk diria que raramente viu semelhante atuação por parte de uma atriz, em toda a sua carreira.
A famosa cena dos “cinco pontos”. Falk diria que raramente viu semelhante atuação por parte de uma atriz, em toda a sua carreira.

Um exemplo é a cena dos “cinco pontos”, que deixou todos de rastos – uma situação em que ‘Mabel’ diz ao marido quais os cinco motivos pelos quais ele precisa dela: “Tenho cinco pontos, Nick. Já percebi tudo. Um, o amor. Dois, a amizade. O terceiro é o conforto. O quarto é… sou uma boa mãe, Nick. E pertenço-te, é isso, cinco pontos.”

Bo Harwood: “Nunca esquecerei essa noite. O John enervou tanto a Gena. Humilhou-a, gritou-lhe. Toda a equipa estava atónita. Havia fricção, tensão, insanidade no ar. Ela filmava a cena dos ‘cinco pontos’ e John fazia-lhe coisas terríveis. ‘Que porcaria, corta.’ Até que ela explodiu: ‘Como te atreves!’ A câmara oscila um pouco, a certa altura, porque ele deixou de espreitar pela lente e gritou-lhe qualquer insulto.”

Elaine Goran, responsável pela continuidade, concorda: “Meu Deus, filmámos isso sem parar, pensei que íamos morrer todos e nos nossos túmulos ficaria escrito, ‘tenho cinco pontos, Nick’! Foi horrível, quase tivemos de arrastar a Gena dali para fora.”

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John Cassavetes admitiu que as emoções turbulentas que o filme analisava, tornaram as filmagens problemáticas. “Foi um inferno. À noite, estávamos exaustos, fazíamos café, e começávamos a falar do trabalho do dia, da semana passada, do mês passado, da semana seguinte, do mês seguinte. Acordávamos a meio da noite e continuávamos a falar. Foi esse o tipo de dedicação. No set, discutíamos e alguém dizia, ‘não, essa cena não é realista, não é honesta, vamos repetir’.”

Noutra cena, verdadeiramente horrível, o médico que vem acalmar ‘Mabel’, ‘Dr. Zepp’ foi interpretado pelo irmão de Sam Shaw, Eddie. Ficou tão transtornado depois da sequência em que ‘Mabel’ o repele, faz o sinal da cruz, é afastada das crianças e drogada à força, que foi até uma janela e começou a chorar. O compositor Bo Harwood foi acalmá-lo, e Eddie disse, “pensei que ela estivesse mesmo louca”. “Quando o vemos sem saber o que fazer, no filme, era mesmo assim que ele estava. Foi esse o tipo de set em que se filmou. A maioria de nós era jovem. Pensávamos que os filmes se faziam assim”, acrescenta Bo Harwood.

cassavetes woman (22)Durante anos, Gena Rowlands recusou-se a assistir ao filme, pois sofreu das dificuldades que já atormentaram muitos atores – os problemas de ‘Mabel’ começaram a tornar-se nos dela. Quando a rodagem terminou, a atriz compreendera tão bem a personagem que tinha de se esforçar por sair dela.

A fase de montagem arrastou-se. John Cassavetes foi convidado pelo American Film Institute para se instalar nas Greystone Mansions durante seis meses, onde podia usar as instalações. Os seis meses tornaram-se em ano e meio, já que o realizador não abandonava o trabalho, montando e remontando, cortando cenas e adicionando outras. O dinheiro ainda era escasso, pelo que John e os seus colaboradores arrombavam as máquinas de cigarros. Todas as pessoas viraram as costas a Cassavetes, recusando-lhe crédito; desde os distribuidores aos laboratórios – estava por conta própria.

O realizador já não conseguia esconder a frustração. Numa entrevista, em 1974, desabafou: “Acho que nunca mais conseguiria fazer um filme assim. O tipo de filme em que fazemos tudo. Preciso de mais calma e descontração. Assim é demasiado difícil. Valerá a pena matarmo-nos para fazer o filme?”

John falou então dos distribuidores, chamando-lhes cínicos e gananciosos. Não estavam terminados os problemas. John Cassavetes decidiu distribuir, ele próprio, a obra, através da sua companhia, a Faces Distribution. As críticas variaram entre o muito bom e o muito mau. Pauline Kael, em tom elogioso, chamou a ‘Mabel’ “o bode expiatório de uma sociedade repressiva, a vítima de um casamento”. Cassavetes foi recompensado por tanto empenho e bateu Hollywood sem jogar pelas regras. A Woman Under the Influence foi um sucesso comercial.

Quando foram anunciadas as nomeações para os Óscares, a companhia instalara-se na Wilshire Boulevard, por cima do Mann’s Theatre, que exibia A Woman Under the Influence. Bo Harwood recorda uma situação que lá sucedeu:

“Por volta das seis da tarde, fui ao escritório do John, que ficava numa esquina do prédio e dava acesso a uma escada de incêndio. Lá em baixo, via-se o teatro. John foi buscar uma garrafa de conhaque, dois copos e alguns cobertores, que colocou na escada de incêndio, para que ficássemos confortáveis. Olhámos para baixo e vimos as pessoas a fazerem fila para virem assistir ao nosso filme. Ele encheu um copo de conhaque e deu-mo, e encheu outro para ele, olhou para Hollywood, fez uma espécie de brinde, olhou para mim e disse, ‘fuck ‘em’.”

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Peter Falk: “É engraçado aquilo que recordamos. Lembro-me da primeira cena do filme. Não tem nada de especial. Sem dificuldades. Eu conduzia uma carrinha e, atrás, estavam sete tipos – a minha equipa de construção. Não havia diálogo, nada. Eu ligo a ignição, viro à direita e entro na estrada. Alguém grita, ‘estamos prontos… câmara… luzes…’ e então, John aparece a correr diante da câmara, dirigindo-se à carrinha. O vidro do lado do condutor estava aberto, e John meteu lá o braço, enfiou-me na cabeça um chapéu de construtor civil, gritou ‘ação’ e desapareceu.”

Falk começou a conduzir, tentando ver se o novo chapéu lhe ficava bem, através do retrovisor. “Não gostei muito do visual, só depois de filmarmos, quando tive oportunidade para me examinar. Que divertido! Adorei o que vi. Aquele chapéu fez o personagem. Eu não era só um construtor civil, era também o chefe.”

David Furtado

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