Os Spaghettis da minha vida

Comecei por ver a trilogia dos dólares, na adolescência, por ser fã de Clint Eastwood. Estes filmes eram encarados com desprezo. É uma “italianada”, é “esparguete”. Era uma advertência. “Vai levar isso? É italiano.” “Porquê, não posso?” “Estou só a avisar…” Coisas que se ouviam nos videoclubes. Eram difíceis de arranjar e, quando se arranjavam, a imagem era tão desfocada que parecia vista através de gaze, o pan & scan era horrendo e as editoras eram obscuras, tendo-se empenhado pouco em tais edições. Pelo menos, é a memória que tenho. Isso desmotivou-me.

Giovanna Ralli em Il mercenario (1968).
Giovanna Ralli em Il mercenario (1968). No spaghetti também há mulheres de armas.

Muitos anos depois, um bocado saturado do cinema americano feito a metro, ainda ouvia os clichés (atuais) do “só os americanos é que sabem fazer cinema” ou “realmente, são os melhores”. Agora, havia mais oferta e surgira o DVD. Explorei outros cinemas e descobri o italiano, especialmente o terror e os seus mestres. Seguiu-se o giallo, o western spaghetti e o euro-crime.

No que toca aos westerns, já tinha visto imensos de John Wayne, John Ford, Eastwood, dos clássicos aos desconhecidos. A partir de certa altura, a fórmula tornou-se cansativa. Recordo um, Forty Guns, de Samuel Fuller, que quebrou os estereótipos em 1957. Nos EUA foi condenado pela brutalidade, na Europa, elogiado pelo “vigor estilístico”. E é aqui que entra o western spaghetti.

Estes filmes começaram por ser uma imitação dos americanos, como sabemos, e muitos realizadores eram fãs. Mas, no processo, tornaram-se um género à parte, com um humor próprio, uma brutalidade que nunca se veria nos EUA, e um modo operático de contar as histórias, já que o enredo de uma ópera não é um exemplo de pacifismo, refira-se. Ao passo que, nos westerns americanos, as coisas se tornam previsíveis, excetuando casos como Forty Guns ou Monte Walsh (1970), nos italianos, há aspetos tão inesperados que se tornam tragicómicos ou hilariantes; a abordagem é mais baseada na criatividade do que no orçamento, o que originou obras-primas.

Acho difícil ordenar a trilogia dos dólares. Como é óbvio, vários filmes ficaram de fora.

Bronson em C'era una volta il West.
Bronson em C’era una volta il West.

1 C’ERA UNA VOLTA IL WEST (Sergio Leone, 1968)

Por um lado, transcendeu o género, por outro, é uma obra-prima com temas mais abrangentes. Se houvesse uma ordem cronológica nas histórias dos diversos westerns (spaghetti ou não), este viria em último. Um dos coargumentistas foi Dario Argento, outro dos meus realizadores favoritos.

2 PER QUALCHE DOLLARO IN PIÙ (Sergio Leone, 1965)

O primeiro filme em que Leone aprimora o seu estilo. Tem o grande ator Gian Maria Volonté como vilão. (Já o vi em papéis totalmente opostos, com igual brilhantismo.) Lee Van Cleef finalmente mostra que pode protagonizar um filme, depois de inúmeros papéis secundários nos EUA. Apesar de inseguro nas filmagens, não deixa que isso transpareça. Clint é o “árbitro” de uma história de vingança, mas o ‘Coronel’ é a personagem mais humana e Van Cleef tornar-se-ia um ator de culto.

Os métodos pouco ortodoxos de filmagem de Sergio Leone.
Os métodos pouco ortodoxos de filmagem de Sergio Leone.

3 IL BUONO, IL BRUTTO, IL CATTIVO (Sergio Leone, 1966)

Eli Wallach (‘Tuco’) é a mais pitoresca das personagens. Clint e Lee tornam-se quase secundários face ao talento de Wallach, mas todos são peças deste “bailado de morte”, como lhe chamava o realizador. O duelo a três, no final, é das minhas cenas favoritas e termina a trilogia de maneira perfeita.

4 PER UN PUGNO DI DOLLARI (Sergio Leone, 1964)

O filme que fundou o género, a par de Django, que, quanto a mim, tem uma importância mais histórica do que cinematográfica. Com um orçamento ínfimo e ainda que baseado em Yojimbo, Leone conseguiu criar uma obra que despoletou centenas, mantendo um estilo identificável. Também fulcral devido ao lançamento de Ennio Morricone e Clint Eastwood.

david furtado spaghettis da minha vida (9)

5 VAMOS A MATAR, COMPAÑEROS (Sergio Corbucci, 1970)

Franco Nero, Jack Palance e Tomas Milian numa aventura imaginativa e divertida, onde a amizade e o companheirismo andam de braço dado com os tiroteios. Nero muito mais expressivo do que em Django, a anterior colaboração com Corbucci. No papel do ‘Sueco’ compõe uma dupla hilariante com Milian, ‘El Vasco’. Outra banda sonora excelente de Morricone, muito diferente da trilogia dos dólares. Quando finalmente apanham o irritante falcão de Jack Palance e o animal roda no espeto, servindo de alimento ao grupo, Fernando Rey lamenta-se: “É um Vultures Loricatus. É bastante raro e tem uma inteligência quase humana.” “É por isso que sabe a m***a!” retribui Tomas Milian. Impagável.

6 LA RESA DEI CONTI (Sergio Sollima, 1966)

O primeiro papel de Lee Van Cleef, sem ser dirigido por Leone. Mostra as qualidades narrativas de Sollima, o carisma de Van Cleef e novamente Milian, o bandido mexicano ‘Cuchillo’. Os protagonistas têm uma química extraordinária e Tomas Milian (outro emigrado para a Europa e que teve um sucesso enorme em Itália) mostra que, se tivesse singrado no mercado americano, seria hoje muito mais conhecido. “Nunca me vais apanhar sozinho! Entendeste? Nunca! Sozinho, nem sequer apanhavas um caracol manco!”, diz ‘Cuchillo’ a Van Cleef. A personagem criada por Milian foi tão marcante que regressaria noutro filme. (O que sucedeu várias vezes na carreira do ator.)

Tomas Milian divertia-se (nem sempre!) nestas filmagens.
Tomas Milian divertia-se (nem sempre!) nestas filmagens.

7 FACCIA A FACCIA (Sergio Sollima, 1967)

Junta-se Gian Maria Volonté a Tomas Milian, (com um visual insólito) e sob a direção de Sollima, com um argumento invulgar, e obtém-se um filme que aprofunda aspetos como a moralidade e nos mostra que nem sempre aqueles que estão do lado certo da lei são os piores. Mais uma atmosférica banda sonora de Moriccone. Lamento que este filme seja tão difícil de encontrar em DVD na versão integral com boa qualidade.

8 EL CHUNCHO, QUIEN SABE? (Damiano Damiani, 1966)

Um “western Zapata” tendo como contexto a Revolução Mexicana, realizado pelo genial Damiano Damiani, que se celebrizaria ao explorar a corrupção policial e política ao longo dos anos 70. Gian Maria Volonté, num papel excelente e totalmente contrastante com outros trabalhos da época, dá-nos um retrato algo cómico mas de moralidade complexa. Houve bastante cuidado na produção, que se nota em pormenores como o uso do tema «La Adelita» (aliás, uma personagem tem este nome), homenagem às mulheres que, durante a Revolução, tanto tratavam dos filhos e cozinhavam, como eram capazes de pegar numa espingarda e abater soldados.

9 KEOMA (Enzo G. Castellari, 1976)

Franco Nero volta a trabalhar com Castellari, tendo ambos recebido o argumento à última da hora. Como lhes desagradou, o guião foi reescrito diariamente, com atores e equipa técnica a darem sugestões. O que podia, consequentemente, cair no descalabro, tornou-se num filme coeso e até brilhante, filmado com imaginação, onde não escapam as metáforas religiosas – recordo a imagem de ‘Keoma’ crucificado pelos irmãos ou a figura do pai. Ainda por cima, foi realizado quando os western spaghetti já não estavam no auge. Alguma influência de Sam Peckinpah nas cenas de ação.

10 I QUATTRO DELL’APOCALISSE (Lucio Fulci, 1975)

Talvez o mais sádico e brutal dos western spaghetti, ou não fosse realizado por Fulci. Uma história de amizade, ensombrada pela personagem devastadora de ‘Chaco’, outra criação de Tomas Milian, em que este se inspirou em Charles Manson. Fabio Testi, Lynne Frederick e Michael J. Pollard completam (bem) o elenco.

Menção especial:

GIÙ LA TESTA (Sergio Leone, 1971)

Só não o inclui na lista para não exagerar a presença de Leone, mas esta obra, algo menosprezada, foi um dos melhores westerns produzidos em Itália durante este período, devido às prestações de James Coburn, Rod Steiger e a um orçamento maior do que o comum. É o primeiro filme em que Leone puxa as rédeas ao estilo e se preocupa mais com os personagens.

CORRI UOMO CORRI (Sergio Sollima, 1968)

O regresso de ‘Cuchillo’ (Milian) numa obra inferior a La Resa dei Conti, mas repleto de momentos de humor. Grande entretenimento. “Señorita Sargeant!!”

TEPEPA (Giulio Petroni, 1969)

Orson Welles e Tomas Milian contracenam neste western Zapata. Milian ficou desiludido com o gigante americano que admirava. Quando lhe perguntou, “Sr. Welles, onde quer que fique nesta cena, aqui ou ali…”, a resposta foi “fica onde não te veja!”. Circula o rumor de que Welles realizou todas as cenas em que participa, o que, a ser verdade, é um total desrespeito para com o realizador. Milian é mais um camponês que combate os “rurales”, em tempo de Revolução, tornando-se líder. Outro papel para a sua galeria de personagens. No elenco, John Steiner, outro ator extremamente versátil.

DA UOMO A UOMO (Giulio Petroni, 1967)

Outra história de vingança protagonizada por Lee Van Cleef e John Philip Law (Diabolik). Van Cleef, infelizmente, entraria em filmes casa vez mais medíocres com o passar dos anos, excetuando Sabata. O seu cachimbo, o nariz de falcão e o olhar malicioso já garantiam ao público um bom filme, pelo que a década de 70 foi uma desilusão.

MANNAJA (Sergio Martino, 1977)

O único western em que participou Maurizio Merli, o “Comissário de Ferro”, mais conhecido pelos policiais anos 70, que aqui surge como um perito em machados. Sergio Martino, também celebrizado pelos gialli realiza com segurança e, para vilão, o inconfundível John Steiner.

LE COLT CANTARONO LA MORTE E FU… TEMPO DI MASSACRO (Lucio Fulci)

Franco Nero e Fulci juntos num filme incomum, com uma atmosfera pesada. Um ‘Django’ ainda mais sinistro, ainda que sem a arrastar o caixão…

A evitar:

UNA PISTOLA PER RINGO (Duccio Tessari, 1965)

Um argumento débil e desinteressante, com uma realização apressada e algumas reviravoltas sem pés nem cabeça. Por que motivo o xerife e a tropa não atacam o rancho mais cedo, já que este está tão desprotegido? Porquê tantas cenas de interiores repletas de diálogos para preencher tempo? O carisma de Giuliano Gemma é inegável e a sequela é superior, pelo que sei (não a vi). Interpretações entre o medíocre e o mediano. Há muito pior, mas não aconselho esta obra a quem se queira iniciar neste (fantástico) género.

David Furtado

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2 Comments Add yours

  1. Marcos Maurício Mendes Lima diz:

    Prezado David, você não queira imaginar o quanto gosto do Tomas Milian ,e, o quanto ele é conhecido no Brasil. Foi no interior de Minas Gerais, que me apaixonei pelo Western Italiano,lá Passa Tempo/MG,no ano de 1971, havia um cinema de nome “Cine Santo Antônio”, foi onde vi pela primeira “LA REZA DEI CONTI”, aqui no Brasil chamou-se “O DIA DA DESFORRA”. Tudo era muito divertido,emocionante e, inesquecível. A presença do Toma Milian como o mexicano Cuchilo,é memorável,os saudosos:Lee Van Cleef,uma fábula, o espanhol Fernando Sancho,que com poucos minutos de sua presença, encanta. Uma verdadeira obra prima do cineasta SERGIO SOLLIMA.Foi a música envolvente de Ennio Morricone, é que despertou minha paixão pelo Cinema. À época, eu tinha apenas 10 anos e eu ganhava dinheiro como engraxate,uma economia, com o objetivo nos finais de semana curtir o grandes Western produzidos na europa,que estavam em voga. Se eu tivesse que escrever um livro sobre os grandes Westerns, com certeza a capa seria cena de “..ERA UMA VEZ NO OESTE” (C’era Una Volta il’Ovest) ,com Charles Bronson e Claudia Cardinale. Adoro os filmes de Tomas Milian,é um grande ator, e, tão pouco reconhecido. A intensão maior dos “filmes” é justamente o entretenimento; penso eu, que Hollywood deveria homenagea-lo pela “Contribuição a Industria do Cinema”, que é nada mais nada menos que uma grande fonte de entretenimento, além de ser um grande veículo de expressão cultural. Parabéns pela página, e, um BEIJO no coração de toda essa gente, que contribuiu para nossa vida fosse mais tolerante, e comprimentos em especial ao querido ator cubano Tomas Milian.

    1. Caro Marcos, obrigado por partilhar aqui a sua história. Não sabia que Tomas Milian era tão conhecido no Brasil. Em Portugal, não será muito. Só conheço outro admirador dele, além de mim! Milian merecia, de facto, mais reconhecimento, mas lembre-se que, em Itália, é uma das grandes figuras lendárias do cinema, com todos aqueles personagens inesquecíveis que representou, em estilos tão diferentes como a comédia, o western, o policial ou o drama histórico.

      Não sei se Hollywood estará disposto a isso, uma vez que Milian não é um ator que lhes convenha homenagear. Ennio Morricone teve de esperar décadas por um Óscar honorário, depois de tantas bandas sonoras geniais que compôs. Mas isso não é o mais importante. O que interessa são as boas recordações que aqui menciona, e já agora, também envio cumprimentos especiais para o grande Tomas Milian…

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