The Killing of a Chinese Bookie de John Cassavetes: O anti-herói Cosmo Vitelli

Em 1975, John Cassavetes já se aventurara quatro vezes a romper o sistema e a realizar fora de Hollywood. Escreveu os filmes, financiou-os, editou-os, atuou neles, foi diretor de fotografia não creditado e até se responsabilizou pela distribuição. Esta jornada foi repleta de altos e baixos, chegando a um ponto em que o próprio John se cansou, farto de hipotecar a casa e de tanto empenho, muitas vezes, não reconhecido. O cineasta focou as energias e transformou as frustrações em The Killing of a Chinese Bookie, um filme de gangsters pouco convencional, que muitos dizem ser o seu melhor trabalho.

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O modo pioneiro e iconoclasta com que John Cassavetes abordava a sua arte não passava despercebido aos seus “pares”; sabia-se perfeitamente que o seu talento era enorme. Por exemplo, em 1975, o produtor Jon Peters telefonou-lhe, propondo-lhe que realizasse um remake de A Star Is Born com Barbra Streisand. Pagar-lhe-iam 300 mil dólares. Cassavetes pousou o telefone e riu-se, transmitindo a notícia ao seu produtor e colaborador de longa data, Al Ruban. “E o que respondeste?” “Disse-lhe que não o faria por menos de 500 mil.” O telefone voltou a tocar. Era Peters a insistir. “Ouça, lamento; simplesmente não o posso fazer. E, honestamente, não sei por que motivo o faria!”

John acabara de lançar A Woman Under The Influence, um sucesso que calou muitos dos seus detratores, uma obra que simbolizou o culminar de ideias e conceitos artísticos. Mas também foi uma fase em que John reconheceu o cansaço de escrever, realizar e distribuir um filme. Ser um cineasta independente era um conceito atrativo, quem não gostaria de ter o controlo artístico de todas as fases da criação de um filme? Ao mesmo tempo, as dificuldades eram enormes. A sua mulher, Gena Rowlands, já dizia, “por favor, John, não hipoteques a casa outra vez, a casa, não…”

cassavetes bookie (6)“Fizemos The Killing of a Chinese Bookie só para sairmos do negócio da distribuição”, admitiu Cassavetes. “Estava a conversar com Martin Scorsese e, numa noite, inventámos uma história de gangsters. Anos depois, quando eu não sabia o que fazer, ocorreu-me desenvolver esta história sobre o dono de um clube noturno que deve muito dinheiro, e convencem-no de que tem de assassinar alguém.”

O ator favorito de Cassavetes era James Cagney, figura muito conotada com os filmes de gangsters. Mas o realizador admitiu, em conversa com Ben Gazzara, que não gostava de gangsters e que nunca conhecera nenhum. “Todos eles são bárbaros, deixam-me desconfortável, não por me intimidarem, mas porque nada tenho a dizer-lhes… tudo o que tomam por verdadeiro é falso.” Apesar disso, John interessou-se pelo tema, expressando publicamente:

“Os filmes de gangsters são importantes… gostaria de realizar um. Teria de conceber puro entretenimento. É o que esperamos desse género específico. Não sei se sou capaz.”

‘Cosmo Vitelli’ (Ben Gazzara) é o dono de um clube noturno na baixa de Los Angeles, o Crazy Horse West. ‘Cosmo’ domina todos os aspetos do clube, desde escolher os números a dirigir as performances das estrelas residentes, ‘Mr. Sophistication’ (Meade Roberts) e as suas Delovelies. É também ele que anuncia as atrações. Para celebrar o último pagamento, que o torna proprietário do clube, ‘Cosmo’ vai, com três das suas raparigas, a um casino gerido pela Máfia, onde perde 23 mil dólares numa noite.

'Cosmo Vitelli' e os simpáticos mafiosos.
‘Cosmo Vitelli’ e os simpáticos mafiosos.

Os gangsters fazem-lhe então uma proposta: Há um certo mafioso chinês, muito protegido, que querem eliminar. Se ‘Cosmo’ assassinar este corretor de apostas, os gangsters esquecem a dívida. Encurralado, ‘Cosmo’ ouve os marginais, que lhe põem uma arma na mão e fazem um ultimato. Sozinho, ‘Vitelli’ põe em prática o plano, mas os acontecimentos precipitam-se e não correm como o previsto.

É claro que John Cassavetes teria de conceber o filme à sua maneira. Assim, The Killing of a Chinese Bookie funciona a vários níveis e permite diversas interpretações. Pela oitava vez, John assumiu a realização numa obra em que mostrou armas, cujo cenário é uma espelunca de striptease e a nudez é considerável; traços que não eram típicos do seu estilo. Alguns especularam que Cassavetes se rendera finalmente a Hollywood, embora nos seus próprios termos, e que tinha um grande sucesso no horizonte.

Gazzara e Cassavetes.
Gazzara e Cassavetes.

O realizador até incluiu, como figurantes, alguns executivos dos estúdios, os seus grandes oponentes, as únicas pessoas que realmente detestava. O amigo Sam Shaw, que os convidou, recorda: “John filmou essa cena com câmara à mão, e passou diante deles, de modo a que nunca ficassem focados, exceto como silhuetas nas sombras. Eles estavam todos contentes por aparecerem num filme de Cassavetes, mas nunca produziriam um, e John sabia-o.”

Há um problema de tradução no título que deram ao filme em português: A Morte de um Apostador Chinês. “Bookie” é um corretor de apostas, em suma, alguém que enriquece à custa das apostas falhadas dos outros. É lamentável que não tenha havido o bom senso de traduzir acertadamente. E é um “assassínio” que está em causa, não uma vaga “morte”.

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O empenho e ponderação do realizador não mudaram. Ben Gazzara lembra-se que, quando chegaram à cena em que o seu personagem, ‘Cosmo’, devia matar o corretor de apostas, o jantar durou mais do que devia. “John estava a beber vinho como todos nós, e a pensar. Passou uma hora. E perguntou-me se eu achava que o devíamos matar. Eu disse-lhe, ‘claro, John. Isso está no título. Se eu não matar o tipo, não há filme!’ A equipa aguardava, entretanto. Veio alguém dizer que estava tudo a postos e à espera. Mas ele estava realmente a refletir se havia de mostrar a morte de um ser humano. Acabou por achar isso inevitável, e lá fomos filmar a cena, mas John não estava muito seguro. Custou-lhe.”

O ator Seymour Cassel conta um episódio que lhe aconteceu a ele e a John. Refira-se que Cassavetes não era estranho à vida dura nas ruas de Nova Iorque.

Um assaltante apontou-lhe uma arma e John protestou que não tinha dinheiro, explicando que ambos tinham estado a jogar softball. O ladrão disse, “sei que tens dinheiro, és ator, vi-te na televisão”. John respondeu, “olha, tenho 20 dólares. Vou comprar gelados para o ‘Se’ [Seymour] e para mim. Também queres? Para que andas a roubar pessoas? Por que não arranjas um emprego?” 

“O tipo disse que não conseguia arranjar emprego, e John retorquiu, ‘eu dou-te um!’ E foi o que fez, em Chinese Bookie”, diz Seymour Cassel. “Hoje, esse tipo é ator e é um amigo. Quando demos por isso, estávamos a comer gelados, e ele não tinha balas na arma, mas nós não sabíamos. John até lhe deu o troco do dinheiro dos gelados. Eu não podia acreditar: Deu-lhe uma gorjeta por não nos ter assaltado! John acreditava que conseguia convencer toda a gente a fazer qualquer coisa… e geralmente conseguia.”

'Cosmo' em apuros.
‘Cosmo’ em apuros.

Cassavetes gabou-se de que escrevera o guião em duas semanas, mas era uma história que já relatava há muito tempo à sua família e amigos. Há quem chame neo noir a The Killing of a Chinese Bookie, e certos elementos estão presentes. John parece ter-se inspirado num filme que rodara com Peter Falk em 1973, Mikey and Nicky de Elaine May. (E que só seria lançado em 1976 devido a problemas de distribuição.) Seja como for, divertiu-se quase tanto como na filmagem de uma das suas próprias obras, embora tivesse sido uma produção árdua.

Por um lado, ‘Cosmo Vitelli’ personifica uma espécie de fantasia masculina, o dono do nightclub rodeado de mulheres apetecíveis, o que fica bem vincado numa das sequências iniciais, em que se dirige ao casino; champanhe, limusines, viver à grande. Mas ‘Cosmo’ acaba por se tornar prisioneiro do mundo que construiu, o Crazy Horse West, a sua vida é fútil, quando se vê a sós com a namorada (a playmate Azizi Johari), não tem muito para lhe dizer.

Azizi Johari e Cassavetes.
Azizi Johari e Cassavetes.

‘Cosmo’ odeia que os gangsters invadam o seu território e o obriguem a cometer um ato que considera violento e repugnante. Há uma sequência  insólita – quando vai a caminho da sua missão, ‘Cosmo’ pára numa cabine telefónica e faz uma chamada para o clube, para saber se tudo corre como previsto, se está em palco o “Paris number”. A breve cena foi escrita numa questão de minutos por Cassavetes e incluída no guião, para espanto de Ben Gazzara.

‘Cosmo Vitelli’ é também o anti-herói, quando damos por isso, estamos do seu lado, esperando que consiga saldar a dívida com os mafiosos, ainda que o faça através de um crime. Os anos 70, como assinalou certa vez Jodie Foster, foram a década do anti-herói, uma figura que já não é tão popular no cinema mainstream, hoje em dia.

Se sobrepusermos The Killing of a Chinese Bookie à situação do independente John Cassavetes, com os seus filmes, ou o seu clube; e se virmos, nos gangsters, a interferência dos executivos dos grandes estúdios, que lhe querem tirar a independência, obtemos outra interpretação. Uma metáfora. E foi o que acharam, quanto a mim, acertadamente, vários críticos e estudiosos da obra do cineasta.

Esta linha de pensamento faz sentido; ainda por cima, se tivermos em conta um episódio ocorrido durante as filmagens:

Ben Gazzara estava na limusine, e John no chão, segurava a câmara. O ator reparou que Cassavetes chorava e perguntou-lhe o que tinha. Entre takes, o realizador disse, “these petty people who eat at you…” “Esta gente mesquinha que se alimenta de ti… esta gente que destrói a arte, que te persegue, que te obriga a fazer coisas e nunca te deixa em paz.” Gazzara pensou, “meu Deus, isto é mesmo pessoal para ele!”

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Ben, que também era amigo de John, inspirou-se nesta situação para melhor interpretar ‘Cosmo’, uma vez que se sentia algo perdido quanto às implicações do filme e insatisfeito com o personagem: “Os gangsters eram metafóricos, e ‘Cosmo’ era John, certamente. O clube era o local onde ‘Vitelli’ criava magia, com as suas raparigas, a música, as piadas, o espetáculo… esse era o melhor lado de ‘Cosmo’. O jogo, a bebida, isso era o lado negro do artista, e os gangsters eram o sistema, que era tão duro para com John.”

O produtor Al Ruban achou o mesmo.

“Na minha opinião, era autobiográfico. O clube foi o mundo que ele criou e que valorizava mais do que tudo, muito à semelhança dos filmes que John fez e que tanto protegia; e os gangsters eram os homens de fato, as pressões que surgem e implicam contratações, fatores que o queriam mudar. Acho que havia qualquer coisa acerca da sua vida enquanto realizador, que conseguiu cristalizar e incluir neste filme em especial.”

Esta metáfora não deve, porém, ser interpretada de modo demasiado literal, uma vez que John Cassavetes não considerava a bebida e o jogo como “lados negros” e, embora gostasse de jogar, não apostava para lá dos seus meios nem era viciado. Gazzara apercebeu-se disto e não tentou fazer uma imitação pessoal de John. ‘Cosmo’ é um homem presunçoso e fechado, ao passo que Cassavetes era inquieto e extrovertido. Há outras dissemelhanças. ‘Cosmo Vitelli’ é um personagem que não conhece bem o seu próprio íntimo, é um mistério até para si próprio. John tinha uma personalidade forte e convicções inabaláveis.

Duas das Delovelies.
Duas das Delovelies.

Outra dualidade: O número de ‘Mr. Sophistication’ e das Delovelies. É um teatro burlesco e tragicómico, as raparigas exibem uma sensualidade forçada, com o único intuito de atiçar as fantasias masculinas. Há um excesso de coreografia, a maquilhagem é carregada, tudo parece demasiado ensaiado. Isto é o completo oposto das intenções do cinema de Cassavetes – espontâneo, de confronto, original, com uma abordagem pura e desprovida de artifícios.

Por todas estas razões, The Killing of a Chinese Bookie não é um filme convencional de gangsters. Podemos aludir ao discurso de ‘Cosmo’, após uma atuação de ‘Mr. Sophistication’ que não correu bem. ‘Cosmo’ tenta animá-lo com a sua filosofia:

“As únicas pessoas felizes são as que se sentem confortáveis. Olha para mim. Só estou feliz quando estou zangado, quando estou triste, quando posso passar por tolo, quando posso ser o que as pessoas querem que eu seja, e não eu próprio. Compreendes? Isso demora tempo. Até fazemos horas extraordinárias para isso. Não interessa quem tu és ou qual a personalidade que escolhes. Anda lá, querido, escolhe uma personalidade! Vamos até ali, vamos dar um grande espetáculo, vamos sorrir, vamos chorar grandes e reluzentes lágrimas que caiam no palco, e vamos tornar as vidas deles um pouco mais felizes, para que não tenham de se enfrentar a si próprios, para que possam fingir ser outras pessoas.”

O espetáculo tem de continuar.

Visualmente, The Killing of a Chinese Bookie é também uma obra notável: Temos os néons coloridos do interior do clube em contraste com a radiosa Sunset Strip de Los Angeles. Há diversas cenas filmadas de noite, e uma das mais importantes, em que ‘Cosmo’ recebe a arma e é pressionado pelos mafiosos, ocorre dentro de um automóvel, com o mínimo de iluminação.

Antes da estreia, o produtor Al Ruban estava confiante no sucesso de Bookie. Como era hábito, foi com John a um cinema nova-iorquino, ver como corriam as coisas, mas o cenário não foi o esperado. “Conseguíamos contar as pessoas que entravam, uma a uma. E as que saíam a meio, vinham tão irritadas! Mesmo irritadas! E diziam a quem estava na bilheteira para não ver o filme!” The Killing of a Chinese Bookie manteve-se em exibição apenas uma semana.

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Em Los Angeles, ainda ficou menos tempo. Outro colaborador de Cassavetes, Mike Ferris, afirmou-se entusiasmado aquando da estreia no Mann National em Westwood. O cartaz era enorme, mas as pessoas assobiaram e abandonaram a sala. Perante isto, John Cassavetes disse, “vamos retirá-lo do circuito, antes que nos matem ainda mais”. Al Ruban viria a explicar o fracasso da obra:

“O filme mostra-nos o que não fazer, mostra um homem numa encruzilhada, a enveredar pelo caminho errado. Obriga claramente o público a dizer que ele não tinha de matar aquela pessoa. Talvez por isso não tenham gostado. Acho que exige muito do público. É um dos aspetos que mais me agrada no filme.”

John viria a fazer uma nova montagem de The Killing of a Chinese Bookie em 1978, por achar que ‘Cosmo’ era demasiado conformista. O filme ficou com 109 minutos. A mais longa, de 1976, com 135′, foi descrita pelos críticos como “desleixada”, “catastrófica”, etc. Ambas são fascinantes, a meu ver. Ruban encolheu os ombros, ao saber da nova montagem. “Ele disse-me que o fez porque lhe apeteceu.”

Durante a montagem de Chinese Bookie.
Durante a montagem de Chinese Bookie.

O “problema” é que os filmes de Cassavetes não são para públicos passivos. Não nos dão aquilo que estamos à espera. O realizador tinha o hábito de assistir aos visionamentos para o público, antes da estreia e, se a reação era positiva e entusiástica, achava que algo tinha corrido mal. Tinha de dar mais um passo, de deixar o público a questionar-se, tinha de lhe exigir mais, de o desafiar a ver-se ao espelho. Parecia-lhe demasiado fácil, pelo que regressava à sala de montagem e reeditava a película em causa.

O filme tem muitos admiradores, um dos quais é o ator Gary Oldman, que se inspirou nele, quando decidiu realizar, chegando até a procurar o tipo de celuloide com que Bookie foi filmado. Oldman revelou que tinha uma das citações favoritas de Cassavetes colada acima da sua secretária. “Está lá como uma chamada de atenção e diz: ‘Comprometer uma ideia significa suavizá-la, arranjar uma desculpa para ela, traí-la.’ Bom, ele não o fez. E nota-se.”

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Dando a palavra a John:

“Compreendo que certas pessoas prefiram uma forma mais convencional, como o filme de gangsters. Conseguimos apreendê-lo pois é algo que já conhecemos. As pessoas preferem que nós condensemos, querem a vida condensada nos filmes. Preferem isso, pois captam os significados e mantêm-se um passo à frente do filme. Mas isso é maçador. Recuso-me a fazer filmes abreviados. Nos meus, há uma competição com o público, quero manter os filmes à frente dele. Quero quebrar esses padrões do público. Quero abanar as pessoas e livrá-las dessas verdades rápidas e manufaturadas.”

Não surpreende que, nos últimos 20 anos, The Killing of a Chinese Bookie tenha sido reapreciado. Na Europa, em especial, é considerada uma das grandes obras do cineasta. O filme foi também responsável pelo nome do novo cão da família Cassavetes, que se tornou o favorito: ‘Cosmo’, o amigo que acompanharia John em muitos passeios matinais para ir buscar o jornal, ao longo de mais de 10 anos.

David Furtado

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