Minnie and Moskowitz de John Cassavetes: “Os filmes são uma conspiração”

A comédia dramática Tempo de Amar é uma das obras mais otimistas e românticas de Cassavetes. Aqui, o realizador demonstra o seu génio ao retratar a vida de pessoas comuns, os seus conflitos e problemas, de modo humorístico mas profundo. Trabalhando para a Universal e dispondo de um orçamento reduzido, o cineasta fez justiça à frase de Jack Lemmon, ator que disse, certa vez: “É suficientemente difícil escrever um grande drama, é muito mais difícil escrever uma boa comédia. E o mais difícil é escrever uma comédia dramática. Pois a vida é isso.”

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Ele sentia-se atraído pela necessidade de amar do homem. Precisamos de amor como da comida, da água e do ar, mas não sabemos como obtê-lo. Mas é essa a nossa luta. E o que é que se intromete no nosso caminho? Ignorância, superstição, avareza, medo, autodefesa… Quem raios saberá do que se trata? Mas tudo isto se intromete naquilo de que todos precisamos. E ele interessava-se por isso.

O John dizia para descobrirmos quem somos e para continuarmos à procura do que somos. E só o poderemos fazer se corrermos alguns riscos e se nos entregarmos aos outros. Não conheço ninguém que amasse tanto as pessoas como ele, e com uma verdadeira e sincera paixão e compaixão.

Peter Falk e Seymour Cassel em A Constant Forge, 2000.

Depois de A Child is Waiting, em 1963, John Cassavetes enfrentou alguns problemas de contratação, mas nunca deixou de escrever os seus argumentos e, quando obteve papéis, fazia-o para financiar os seus próprios filmes. Rosemary’s Baby (A Semente do Diabo), de Roman Polanski, foi um dos que ficou na memória dos espectadores, embora Polanski e Cassavetes não pudessem um com o outro e John tivesse detestado o filme.

Seymour Cassel e Gena Rowlands.
Seymour Cassel e Gena Rowlands.

Em 1965, Cassavetes realiza o inovador Faces (Rostos), que só seria lançado em 1968. Entretanto, em 1967, John é nomeado para o Óscar de Melhor Ator Secundário por The Dirty Dozen (Doze Indomáveis Patifes); no ano seguinte, é nomeado novamente, desta vez para o galardão de Melhor Argumentista por Faces, mas não comparece na cerimónia com o intuito de não ofuscar as nomeações de Seymour Cassel e Lynn Carlin, nas categorias de Melhor Ator e Atriz Secundários. A receção da crítica e do público foi a melhor que John alguma vez obteve e obteria como realizador.

Sem perder tempo, dedica-se a Husbands (Maridos) de 1970 e, no ano seguinte, a Minnie and Moskowitz, editado em Portugal com o título Tempo de Amar: ‘Seymour Moskowitz’ é um romântico aventureiro que adora mulheres e trabalha num parque de estacionamento em Nova Iorque. Vai ao cinema ver filmes com Humphrey Bogart. Um dia, a mãe empresta-lhe dinheiro e ele parte impetuosamente para a Califórnia.

Rowlands e Cassavetes nas filmagens de Minnie and Moskowitz (1971).
Rowlands e Cassavetes nas filmagens de Minnie and Moskowitz (1971).

‘Minnie Moore’, culta, inteligente e bonita, vive em Los Angeles, trabalha num museu e também ela vai ver filmes com Bogart. A romântica mas solitária ‘Minnie’ acaba de se separar do seu amante (John Cassavetes num pequeno papel) e acredita que está destinada a passar o resto da vida sozinha. Um dia, depois de um almoço desastroso com ‘Zelmo Swift’, ‘Minnie’ conhece ‘Seymour’, que a defende do obsessivo ‘Zelmo’ (excelente atuação de Val Avery).

Os dois saem uma vez, duas… e o resultado é desastroso. ‘Seymour’ sente-se obviamente atraído por ela, embora o explicite de modo… original. Naquela que é, talvez, uma das frases mais românticas da História do cinema, diz-lhe: “Gosto tanto de ti… que até me esqueço de ir à casa de banho!” ‘Minnie’, apesar de repelida pelas atitudes de ‘Seymour’, adivinha nele bom coração e começa a desabafar com o nova-iorquino. Dá-se uma reviravolta e, quatro dias depois, já ambos telefonam às respetivas mães, anunciando o noivado. Vivem felizes para sempre.

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Minnie and Moskowitz é um filme divertido, uma screwball comedy, mas contém várias verdades acerca do envolvimento romântico, da solidão e das dúvidas que enfrentam os que já não acreditam na existência do amor. O argumento foi escrito por John em apenas duas semanas e meia, durante um dos períodos mais criativos da sua vida.

cassavetes minnie (4)Humphrey Bogart é o único gosto que ‘Minnie’ e ‘Moskowitz’ têm em comum, e esta alusão não é coincidência, visto que John Cassavetes, apesar de outsider e de achar que o cinema americano perdera o rumo, nunca rejeitou Hollywood nem deixou de respeitar e admirar o idealismo de Capra ou Lubitsch. Um dos temas de Minnie and Moskowitz é a obrigação quase moral de dar prioridade aos sentimentos, num mundo que, muitas vezes, os renega.

No final dos anos 60 e início dos anos 70, Hollywood, sempre com a mira no lucro, nem quis entender o enorme sucesso de Easy Rider, de Dennis Hopper. A Universal criou um departamento dedicado a cineastas mais jovens e arrojados, prometendo-lhes controlo criativo. Foi assim que Peter Fonda, Milos Forman e o próprio Hopper conseguiram realizar obras que conquistaram a crítica, mas não obtiveram o sucesso comercial desejado. Esta “youth unit”, chefiada pelo executivo Ned Tanen, foi, portanto, sol de pouca dura. O único sucesso em grande escala foi justamente o último filme a ser produzido, American Graffiti de George Lucas. É neste contexto que surge Minnie and Moskowitz.

Tanen queria Jack Nicholson para interpretar ‘Seymour’, mas Cassavetes recusou com veemência, já que escrevera o papel propositadamente para o seu amigo Seymour Cassel. ‘Minnie’ seria interpretada pela esposa de Cassavetes, Gena. O casal não se revia nas noções mais comuns do matrimónio, achando que a maioria das pessoas só casa porque todos o fazem, e não pelo único motivo importante.

Gena considerava que, “o amor é uma escravidão. É o exato oposto da liberdade. Mas a coisa mais importante consiste em dedicarmo-nos a alguém. E chega uma altura, na vida, em que queremos dar tudo”. Portanto, Minnie and Moskowitz tem raízes na realidade com que se debatem as pessoas comuns: A principal preocupação do realizador.

Uma delas, ‘Morgan Morgan’, é representada por Tim Carey, ator que já trabalhara com Brando, Kazan e Kubrick e também ia realizando os seus projetos independentes. ‘Seymour’ encontra esta personagem num restaurante de Nova Iorque, no início do filme. Embora não houvesse grande forma de fugir ao argumento, cujos diálogos continham a fluidez característica de Cassavetes, este deixou que Carey falasse durante horas, tendo escrito esta cena com ele em mente. Quando o ator terminou, John abraçou-o e disse-lhe, “fizeste o filme, Tim”.

John e Seymour Cassel.
John e Seymour Cassel.

Segundo Carey, “não havia um único traço de negativismo em John. Podíamos telefonar-lhe em qualquer altura, ele estava sempre pronto a ajudar-nos”. ‘Seymour’ ouve esta figura que simboliza a solidão, e o seu discurso cómico/desiludido, depois de ter ido ver um filme com Bogart, o seu ídolo. E ‘Morgan’ discursa durante uns minutos sobre “esta gente banal… o mal do mundo é esse!” ou “não gosto de cinema. Os solitários vão lá e põem-se a olhar para cima… Esqueça!…” “Às vezes penso: ‘Morgan, queres um milhão de dólares?’ Nem pensar! Com os impostos como estão! Eu sou esperto.”

Enquanto ‘Seymour’ ouve estas pérolas, ‘Minnie’, na Costa Oeste, também acabou de ver um filme com Bogart, acompanhada pela amiga ‘Florence’. Em casa desta, e depois de alguns copos que a desinibem, ‘Minnie’ faz um dos discursos mais memoráveis do filme:

“Acho que os filmes são uma conspiração. A sério. Desde que somos pequenos, enganam-nos, levam-nos a acreditar em tudo; a acreditar em ideais, na força, em tipos honestos e no romance. E, é claro, no amor. No amor, Florence. Por isso, acreditamos, não é? Andamos por aí à procura, não se passa nada, e continuamos à procura. Arranjas um emprego, como nós, e passas muito tempo a cuidar do apartamento, a arranjar coisas e toda essa treta. E aprendes a ser… feminina. Aprendes a cozinhar. Mas não há nenhum Charles Boyer na minha vida, Florence. Nunca conheci o Clark Gable. Nem o Humphrey Bogart. Nunca os conheci. Entendes? Não existem, Florence, a verdade é essa. Mas os filmes enganam-nos. Por muito espertos que sejamos, enganam-nos, percebes?”

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Minnie and Moskowitz não era, para John Cassavetes, o filme ligeiro que pode parecer, nem é um que “engane”, à luz do discurso de ‘Minnie’. Na sua introdução ao argumento publicado, o realizador escreveu:

“‘Seymour’ é o novo sinal de esperança da América. Quando a vida se torna repetitiva, ele fica aborrecido e segue em frente. É um sonhador americano, prático, sem complicações, que vê o romance numa chávena de café e nuns olhos bonitos. Um ‘Seymour Moskowitz’ tem o seu próprio estilo. Foi empurrado e puxado de um lado para o outro, como a maioria de nós, e tornou-se em algo que todos gostaríamos de ser – um tipo consciente de que o romance é melhor que a solidão.”

Um 'Seymour Moskowitz' tem o seu próprio estilo.
Um ‘Seymour Moskowitz’ tem o seu próprio estilo.

A obra é também uma prova do afeto de Cassavetes por Seymour Cassel e Gena Rowlands. O ator que interpretou ‘Seymour’, e que com ele partilha o nome próprio, adorou a experiência. Primeiro, John disse-lhe para deixar crescer o bigode, porque o queria para o papel principal de uma comédia romântica que estava a escrever, e na qual iria contracenar com Gena Rowlands. “Isso quer dizer que posso beijar a Gena?”, foi a primeira preocupação de Cassel. “Claro, estúpido, é uma comédia romântica”, respondeu Cassavetes. Hoje, Seymour Cassel graceja, “era algo que já queria fazer há 12 anos”.

“John encorajava a imprevisibilidade”, relata Seymour Cassel. “É o que nos torna interessantes na vida. Eu adorava isso no John, e acho que ele também o adorava em mim. As coisas não são muito complicadas para ‘Seymour Moskowitz’, ele sabe que esta é a mulher. Adoro isso no personagem: A simplicidade na forma como aborda a vida. Ele gosta de carros. Não é preciso termos gigantescas ambições. A que mais nos realiza é um relacionamento duradouro.”

Quatro dias depois de se conhecerem, ‘Minnie’ e ‘Seymour’ decidem casar, e telefonam de imediato às respetivas mães. “Estas ‘pessoas’ são fantásticas”, comentou um entusiasmado John Cassavetes. “Vão casar, portanto telefonam às mães. Acho esse simples facto tão puro e tão incrível e emocionalmente realista. E elas querem proteger os filhos, não se mostram muito agradadas, embora eles estejam nos 30 e tais e queiram curar a sua solidão. Adoro ‘Seymour’ e ‘Minnie’ porque eles aceitam estas pessoas e compreendem por que procedem assim. E podemos olhá-las com alegria, não com desconfiança.”

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Numa das cenas mais insólitas e divertidas do filme, os quatro encontram-se num restaurante para se conhecerem. A mãe de ‘Minnie’ é interpretada pela mãe verdadeira da atriz, Lady Rowlands, e a mãe de ‘Seymour’ é interpretada pela mãe de Cassavetes, Katherine. Não eram atrizes profissionais, mas Gena afirma que deram uma lição a ela própria e ao colega.

‘Georgia Moore’ (Lady Rowlands) começa por contar uma história da sua filha que tinha caracóis louros, “como eles crescem depressa”, etc., sob o olhar sarcástico de ‘Sheba Moskowitz’ (Katherine Cassavetes), que, por fim, exclama: “Ele não é nenhum Albert Einstein. O rapaz não tem ambição. Não é bonito… Olhem para ele! Não tem classe nenhuma, come de lado, enfia sempre a comida na boca assim! É surdo!”

A cena do casamento é também hilariante, já que, quando o padre (representado por David, irmão de Gena) não se recorda do apelido da noiva, tem de tirar com dificuldade o papel onde ele está escrito, de um bolso, debaixo das vestes de sacerdote. Quando finalmente o encontra e começa o discurso, “Minnie… Moore’, aceita…”, Gena Rowlands não contém um ataque de riso que ficou no filme. Além disso, John Cassavetes filmou a cena à imagem do seu próprio casamento com Gena: Foi uma cerimónia com poucas pessoas, e o padre não se lembrou do apelido da noiva, pelo que ambos desataram a rir.

A família de Cassel e Cassavetes também participou.
A família de Cassel e Cassavetes também participou.

Minnie and Moskowitz foi, até então, o projeto que John Cassavetes concretizou mais rapidamente. O guião foi escrito em janeiro de 1971, Ned Tanen deu o OK para avançarem quase de imediato. A 23 de março, já estavam em filmagens. John quis também provar que conseguia filmar rapidamente, por estar farto que lhe dissessem que demorava muito tempo. Como disse, na época, ao produtor Al Ruban: “Quero provar-lhes que consigo existir no mundo deles. Que consigo realizar o meu tipo de filme dentro dos horários deles.”

Al Ruban: “Tínhamos um orçamento de 900 mil dólares e conseguimos poupar 100 mil, terminando as filmagens três dias antes do previsto, entregando o filme três meses antes do prazo. E o estúdio não quis saber disso. Para eles, não passava de um filme de baixo orçamento que competia com os grandes produtos deles.”

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John Cassavetes fotografando os seus protagonistas.

Foi uma espécie de filme realizado em família. Além das mães verdadeiras de Cassavetes e Rowlands, e do irmão desta, participou também a esposa de Seymour Cassel, Elizabeth Deering, e a mãe da atriz, Elsie Ames. Até os filhos que surgem na cena final “eram pequenos Cassavetes e Cassels”. “Acredito totalmente no nepotismo”, brincou John. “Impressiona muito a minha família e amigos.”

O ambiente familiar originou algumas situações humorísticas durante a rodagem. Quando o amante de ‘Minnie’ (Cassavetes) surge pela primeira vez, dá-lhe um violento estalo. Nesse dia, Gena quis pregar uma partida ao marido; usou um velho truque do teatro, bateu palmas atrás das costas em sincronia com o estalo. Apesar de a mão de John estar a uns 20 centímetros de distância (como é hábito no cinema), o realismo iludiu a equipa, que foi acudir Rowlands, erguendo-a do chão, e manietou John enquanto este protestava, “mas eu nem lhe toquei!”

Também impressionado ficou o executivo e magnata de Hollywood, Lew Wasserman, achando o filme “fantástico”, mas lamentando: “Foi pena não o terem feito com estrelas.” A Universal cortou uma única cena, cumprindo a promessa de liberdade criativa. Contudo, a campanha promocional não agradou a John Cassavetes, já que o cartaz mostrava os rostos dos dois protagonistas virados ao contrário e unidos pelas cabeças. Não se resignando, Cassavetes criou o seu próprio poster e, acompanhado por Seymour Cassel, andou por Manhattan numa das limusines do estúdio. Os dois divertiram-se bastante a arrancar os cartazes da Universal, substituindo-os pelo de John.

cassavetes minnie (17)Al Ruban recorda-se de ter ido com John Cassavetes a um cinema de Nova Iorque, verificar como corria a estreia. “Quando chegámos lá, a rua estava repleta de gente. Ficámos em delírio e achámos que seria um êxito enorme. Não nos conseguimos aproximar, embora a sala estivesse vazia. Aquelas filas todas eram formadas por pessoas que iam assistir a Laranja Mecânica, em exibição no cinema ao lado. Em parte, foi uma derrota. A Universal não gastou nenhum dinheiro em promovê-lo. Argumentaram que a promoção devia ser equiparável ao orçamento despendido.”

Em jeito de compensação, a maioria da crítica elogiou Minnie and Moskowitz, embora algumas vozes discordantes o considerassem o pior filme de Cassavetes. John encolheu os ombros: “Não interessa se eles gostam ou não, importa é se eles sentem alguma coisa”, afirmou. “Só dispomos de duas horas para mudarmos a vida das pessoas.”

David Furtado

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