A Child Is Waiting de John Cassavetes: A normalidade é relativa

Embora não tenha sido um dos projetos pessoais de John Cassavetes, o ator e realizador não perdeu a oportunidade de trabalhar com Burt Lancaster em A Child Is Waiting, de 1963. John já realizara Shadows (1959) – esse sim, um filme que idealizou – e Too Late Blues (1961), uma obra, mais ou menos, de encomenda e que não foi bem-sucedida nas bilheteiras. A Paramount ficou impressionada, contudo, e ofereceu a Cassavetes um contrato para cinco filmes, pagando a soma de 125 mil dólares por cada um.

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O argumento de A Child Is Waiting é bastante simples. ‘Jean Hanson’ (Judy Garland) chega à escola do ‘Dr. Clark’ (Burt Lancaster). Uma ex-estudante de piano na Julliard, sem o talento necessário para se tornar pianista, acabou por perder o rumo. ‘Jean’ quer auxiliar as crianças porque, segundo diz, “procura um significado na sua vida”. À medida que vai conhecendo a instituição, ‘Jean’ apercebe-se da fé inabalável que o ‘Dr. Clark’ tem nas crianças, a quem trata como alunos e não como deficientes. Apesar disso, fica retraída perante a austeridade de ‘Clark’, no que toca a uma criança em particular, ‘Reuben’, um rapaz aparentemente normal, mas que tem a idade mental de cinco anos e insiste em não socializar.

Gena Rowlands e Judy Garland.
Gena Rowlands e Judy Garland.

‘Jean’ torna-se amiga de ‘Reuben’ e percebe que o seu estado foi diagnosticado tardiamente. Os seus pais divorciaram-se por causa dele e não o visitam há dois anos. ‘Clark’, de resto, opõe-se a que o façam e tenta afastar ‘Jean’ da criança por considerar que não será benéfico para ‘Reuben’. Insistente, ‘Jean’ contacta a mãe do rapaz, ‘Sophie’ (Gena Rowlands), para que o venha visitar, com o subterfúgio de que ‘Reuben’ está doente. ‘Sophie’ aparece, a visita corre mal, mas a mãe afirma que ama demasiado o filho para ter a coragem de o visitar.

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Face a esta insubordinação, ‘Dr Clark’ explica a ‘Jean’ que estas crianças crescem com amor, mas não são educadas, que são totalmente dependentes de terceiros e não têm vestígios de autoestima ou respeito por si próprias. É esta situação que ‘Clark’ tenta combater.

cassavetes a child is waiting (8)“Eu tornara-me um tipo requisitado, ainda que só tivesse feito um filme péssimo em Hollywood”, disse John, a quem foi prometido controlo criativo. O ator queria realizar uma obra sobre o Sonho Americano, em que o lema era “a confusão substituiu o patriotismo, o intelecto substituiu o amor”. Mas, na época, só tinha completado um guião intitulado The Iron Men. Este filme de guerra seria protagonizado por Sidney Poitier e Burt Lancaster. 

Cassavetes encontrou-se com Burt Lancaster e, entre ambos, estabeleceu-se uma boa relação. Lancaster, porém, disse-lhe que já se comprometera a liderar o elenco de outro filme para a United Artists, produzido por Stanley Kramer: A Child Is Waiting. E foi Kramer que telefonou a John Cassavetes, pouco tempo depois, perguntando-lhe se estaria interessado em realizar. Como estava preocupado quanto aos progressos de The Iron Men (o estúdio já lhe cortara várias passagens do argumento), John aceitou a proposta de Kramer: “Eu queria trabalhar com Lancaster, e ambos estávamos convencidos de que seria um grande filme”, comentaria Cassavetes.

O argumento era de Abby Mann, que já conhecera John em Nova Iorque. De acordo com Stanley Kramer, “era a hipótese de concretizar uma grande produção sobre um tema importante, que era negligenciado por toda a gente”. Kramer terá visto em Cassavetes a pessoa ideal para o trabalho: “Uma vez que o assunto era muito difícil e lidava com crianças que sofrem de atraso mental, tinha de se realizar um trabalho maravilhoso para conquistar o público. Por isso, deixei que John Cassavetes, representante de uma nova escola de realizadores, se expressasse de um modo mais moderno.”

A Child Is Waiting não era um dos projetos a que John Cassavetes ficaria mais associado, mas enquadrava-se nas suas preocupações. Acima de tudo, John era um profissional e, desde logo, dedicou-se a uma pesquisa de mais de três meses – acompanhado por Mann, visitou famílias com crianças que sofriam de atraso mental e passou bastante tempo no Pacific State Hospital for the Retarded, em Pomona, local onde grande parte das filmagens decorreu. Cassavetes descreveu que “conhecer aquelas crianças foi uma experiência bela e comovente”.

A difícil relação entre Garland e o realizador.
A difícil relação entre Garland e o realizador.

O sempre fiável Burt Lancaster demonstrou idêntica dedicação e, para ele, o assunto era mais pessoal, já que o seu filho mais velho, James, sofria de problemas de socialização e frequentava uma escola particular para crianças com distúrbios emocionais. Para desempenhar melhor o papel de ‘Dr. Clark’, psiquiatra e diretor do Crawthorne State Mental Hospital, Lancaster fez o mesmo que Cassavetes – passou várias semanas em Pomona.

Mais problemática foi a contratação de Judy Garland, feita antes do envolvimento de John no projeto. Aos 39 anos, a atriz debatia-se com sérios problemas de álcool e comprimidos. Muitas vezes, atrasava-se ou não aparecia, o que provocou atrasos nas filmagens – das 10 semanas previstas, passou para 14. Durante todo este tempo, Cassavetes e Garland andaram de candeias às avessas. Anos depois, John arrependeu-se de ter sido tão duro com a atriz, especialmente tendo em conta o estado emocional de Garland.

A rodagem teve início a 16 de janeiro de 1962. E Garland começou com o pé esquerdo, ao trazer o seu diretor de fotografia favorito, Joseph La Shelle. Logo no primeiro dia, Cassavetes disse a La Shelle o que pretendia da iluminação, regressando ao escritório até que o técnico seguisse as suas instruções. Quando John voltou ao set, descobriu que La Shelle fizera tudo como lhe apetecera. Cassavetes nada disse e filmou a cena. Ao final do dia, virou-se para o técnico e disse-lhe que estava despedido, antes de lhe virar as costas. Garland intercedeu junto de John, e La Shelle recebeu uma repreensão. Daí em diante, as instruções de John Cassavetes foram seguidas à letra.

A equipa mostrava-se algo desconfiada perante aquele realizador novato, natural de Nova Iorque, mas os atores gostaram da atenção que John lhes dedicou. Cassavetes conseguiu integrar no elenco a sua esposa, Gena Rowlands, e outros amigos que surgiriam futuramente nos seus filmes, como John Marley, Mario Gallo e Paul Stewart.

Sublinhe-se que o pequeno Bruce Ritchey, que interpreta ‘Reuben’, era o único ator profissional. Todas as outras 42 crianças, entre os nove e os 12 anos, eram provenientes do Pacific State Hospital e sofriam realmente de deficiência mental. John contratou o grande amigo e cúmplice Seymour Cassel para os treinar e lhes ensinar as poucas falas que tinham. Segundo Cassel, “eles eram incríveis. Adorei-os. Ramona era uma menina mongoloide muito tímida, que só olhava para nós quando nos conhecia bem. E depois começava a abraçar-nos”.

Cassavetes estava determinado em não retratar as crianças como
Cassavetes estava determinado em não retratar as crianças como “anormais”, o que levou a um diferendo grave com o produtor Stanley Kramer.

Apesar do profissionalismo de Cassavetes, A Child Is Waiting não é um dos exemplos mais típicos da sua obra. Filmado com sensibilidade e contando com excelentes desempenhos de todo o elenco (miúdos e graúdos incluídos), a obra não foi escrita nem produzida por Cassavetes. Notam-se vários traços do seu estilo, uma tendência para fugir ao óbvio e à lágrima fácil. Além disso, é notória a sua dedicação.

A mim, emocionou-me, até porque o tema não é nada fácil de abordar. Li críticas de espectadores que têm filhos ou familiares com estes problemas, e dizem ser o filme que melhor aborda estas questões. John Cassavetes não quis continuar no studio system de Hollywood, apesar deste magnífico trabalho. E isso justifica-se, tendo em conta o que lhe fizeram depois.

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Os problemas vieram após a rodagem, durante a pós-produção, e tornaram-se lendários. Stanley Kramer perdeu a confiança em John Cassavetes e decidiu reeditar A Child Is Waiting. O confronto com o realizador foi violento, apesar das versões divergentes sobre o que sucedeu ao certo. Seymour Cassel assistiu a um pré-visionamento da versão de Kramer, juntamente com Cassavetes nos estúdios da Universal:

“Vimo-lo, e percebi logo que John ficou pior que estragado. Estava lá Kramer, além de uns oito executivos dele. Todos aplaudiram, mas John disse, ‘tirem o meu nome disto’. Levantou-se, e eu estava mesmo a seu lado, e disse-me, ‘vamos embora’. Foi o que fiz, mas também quis ver a reação de Kramer e ‘atrasei-me’ um pouco. John agarrou-o pelo pescoço e empurrou-o contra a parede. Eu sabia que John apenas o estava a assustar, ele era demasiado esperto para lhe bater! Fiz um grande esforço por conter o riso. John tinha aquelas sobrancelhas e, quando se zangava, adquiria uma expressão intensa e ameaçadora. Depois disto, disse-lhe, ‘John, não lhe bateste. Eu sabia que não o farias’. E ele virou-se para mim e disse, ‘pois não, mas assustei-o, não foi?’”

Nas palavras de John Cassavetes, “houve muita amargura, hostilidade, gritos, insultos e até empurrões”. “Eu queria que ele sentisse a minha dor e o meu ódio por ele, e tenho a certeza que ele o sentiu.”

O produtor Kramer viria a admitir que John tinha razão, mas só muitas décadas depois, na sua autobiografia.
O produtor Kramer viria a admitir que John tinha razão, mas só muitas décadas depois, na sua autobiografia.

O editor do filme, Gene Fowler Jr., comenta que “o estilo New Wave de John não agradou a Kramer”. “Nem a mim. Ele tentou algumas coisas das quais eu discordei; achei que estava a interferir no filme, sobrepondo a técnica à mensagem.”

Fowler recorda-se de um momento nas filmagens em que a câmara passou por cima de um cabo, provocando um solavanco na imagem. Quando o editor procurou outro take, devido a isto, Cassavetes indignou-se: “Meu Deus, maldito pessoal de Hollywood. Só pensam na suavidade da câmara. Queremos incluir aqui algumas arestas por limar.”

O cerne da questão era outro: As crianças com atraso mental. Kramer cortou as cenas que as incluíam. De acordo com Seymour Cassel, “John encontrou uma espécie de mina naqueles miúdos, já que eles eram tão intuitivos e criativos. Por isso, deu-lhes liberdade, quando eles desempenharam aquela peça do Dia de Ação de Graças, por exemplo. Uma das crianças tinha dificuldades em recordar-se das falas, mas isso não fugia à personagem, pois ele era quem era, e o miúdo atrás dele disse-lhe o que tinha de dizer, até que o da frente se virou e bateu-lhe. Foi um comportamento natural. E é isso que se pretende. Muitos atores não possuem esta característica porque estão demasiado ocupados a representar”.

John Cassavetes sentiu-se ultrajado:

“Os miúdos eram engraçados e humanos e tristes. Mas, acima de tudo, eram engraçados. E eu queria mostrar essa vertente, para que se visse que eram humanos e calorosos; que não eram ‘casos’, mas sim, miúdos. Stanley Kramer é um homem mesquinho e de mente fechada. Não compreende que nos podemos rir de alguém que amamos. Por isso, quando viu o filme, ficou furibundo; eu fui despedido, o filme foi reeditado e, por fim, nada dizia sobre as pessoas de quem falávamos. A diferença entre as duas versões é que a de Stanley afirma que as crianças com atraso mental pertencem a instituições. O filme que realizei afirma que as crianças com atrasos mentais são melhores, à sua maneira, do que adultos supostamente saudáveis.”

cassavetes a child is waiting (9)Compreende-se a irritação de John Cassavetes, mas A Child Is Waiting, na versão final, contém esta mensagem. E há muitos grandes planos das crianças e autenticidade no seu desempenho. E o que dizer de Burt Lancaster, Garland, Rowlands e Bruce Ritchey? Extraordinárias atuações. O filme é até educacional.

Preocupado, Burt Lancaster ofereceu-se para mediar o conflito entre as duas versões, mas teve de partir para Roma, para filmar O Leopardo, de Visconti. Em 1997, na sua autobiografia, Stanley Kramer mostrou arrependimento: “Eu disse que ele não fez um bom trabalho. Pareceu-me que lhe faltou alguma compaixão pelas crianças. Já não penso assim. Ele era um realizador excelente e sensível que só queria obter as melhores representações dos atores.”

Cassavetes recordaria assim a experiência de filmar A Child is Waiting:

“Descobri algo sobre mim mesmo. Já não podia fazer compromissos. Não ia realizar outro filme em que não disséssemos algo de verdadeiro. A Child Is Waiting não era sobre um mundo fictício; é uma realidade para muitas pessoas. Eu vi a grande dificuldade que os adultos têm ao enfrentar esse problema nos seus filhos. Mas os problemas das crianças são muito diferentes. A sua dificuldade reside em encontrar a aceitação, a aceitação para fazerem as mesmas coisas que os adultos normais fazem.”

“O filme, tal como foi lançado, pareceu-me uma traição àqueles miúdos e também aos seus pais, que nos deixaram filmar com eles. De início, eu não quis provocar ondas, pois não queria magoar ninguém. Mas depois percebi que a verdade é importante; eu precisava de saber uma coisa: Se realizara um filme sobre um tema tão sensível como atrasos mentais, queria que as pessoas acerca das quais fiz o filme, soubessem que eu o realizara o melhor que pude, sem concessões. Por isso, deixei que Kramer levasse a melhor. E, por esse motivo, fiquei dois anos desempregado. Depois da barulheira toda que fiz, não conseguia arranjar emprego nem nos Looney Tunes.”

David Furtado

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2 Comments Add yours

  1. Lena diz:

    gostei!muitíssimo.está muito bem .explica as diversas diferenças :afectos ,atraso mental,( inteligência e amor) para tornar felizes estas crianças menos infelizes.

    1. Obrigado, mjhelenaa. Embora eu esteja agradecer “em nome” de John Cassavetes, que teve (tinha) essa sensibilidade para temas tão delicados. Infelizmente, o produtor tirou-lhe o controlo do filme e tentou mudar o teor. Podia ter sido melhor do que é. Apesar disso, gostei.

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