Gena Rowlands e os mistérios da representação

gena rowlands mistérios (11)Hoje, 24 anos após a morte de John Cassavetes, importa celebrá-lo. E celebrar a obra de Cassavetes não é matéria para um só texto. John foi casado com Gena Rowlands durante 30 anos e colaborou com ela em 10 filmes. Rowlands foi a única atriz a ser nomeada duas vezes para o Óscar num filme realizado pelo marido: A Woman Under the Influence (Uma Mulher Sob Influência) de 1974 e Gloria em 1980. Após um visionamento recente de Opening Night (Noite de Estreia), de 1977, Gena Rowlands respondeu a várias perguntas de estudantes de cinema. O que achei tão importante nas suas respostas foi a frontalidade e simplicidade com que tentou explicar o processo da representação. A conversa, inevitavelmente, focou-se em Cassavetes, e também neste caso, Rowlands foi espontânea e simpática.

Virginia Cathryn Rowlands nasceu a 19 de junho de 1930. Com 83 anos, podemos chamar-lhe uma lenda viva, sem que soe forçado. E continua em atividade. Independentemente do realizador em questão, sempre achei Rowlands uma atriz fabulosa; li vários comentários de espectadores que dizem, em tom indignado, “como nunca ganhou um Óscar?” Esse é o eterno mistério. Mas, ao vermos o seu trabalho… não há mistérios. 

John Cassavetes, por seu lado, foi o “pai do cinema independente”, o criador do “cinema de guerrilha”, como disse Martin Scorsese, de uma ferocidade invulgar. A minha intenção é celebrar o cinema de John Cassavetes, reunindo os cúmplices do costume: Gena, Peter Falk, Ben Gazzara e outros, e são imensos os que o admiram. Segue-se um excerto da sessão de perguntas e respostas com Gena Rowlands, em que a veterana atriz nos esclarece sobre como encara a representação, como conheceu John Cassavetes e o que admirava nele.

Em Opening Night com Cassavetes.
Em Opening Night com Cassavetes.

O filme Opening Night aborda duas facetas de Rowlands: Representar em palco e no grande ecrã.

Há grandes vantagens em ambos. Nos palcos, começamos no princípio e prosseguimos, o que faz muito sentido. Nos filmes, normalmente eles filmam… nós não o fizemos aqui, mas é uma coisa financeira – se há seis cenas na fábrica, filmamos as seis seguidas e depois andamos para a frente e para trás. Portanto, temos de estar intensamente concentrados para nos recordarmos disto. Porque… lembro-me de Bette Davis me dizer, “tenho de estar tão bêbeda numa cena e depois eles cortam… e tive de me lembrar de como estava bêbeda no dia anterior e foi mesmo difícil!”

Em Opening Night, filmámos sequencialmente, pelo que não tivemos esse problema, a cena em que a minha personagem está embriagada durou dois dias, mas achei que não podia [a personagem] estar humanamente mais bêbeda, por isso, fui em frente com aquilo…

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Numa cena, a personagem diz que perdeu o contacto com a realidade… alguma vez perdeu a realidade de uma personagem na sua atuação?

Sim… quando fazia Middle of the Night com Edward G. Robinson, foi nos palcos, nos anos 50. Houve uma mudança de atriz, num dos papéis, e a substituta era uma grande amiga minha, mas infelizmente, ela ria-se bastante… e, numa cena, ela dizia-me, “Betty, sabes, o problema é…” e eu sussurrava-lhe , “são as crianças…” Eu sabia os diálogos, já que fazia aquilo há meses. E ela começava a rir-se baixinho… isto não me desconcentrava, eu não me ia rir, era uma cena séria. Por isso, disse-lhe, “talvez sejam as crianças”. E ela dizia, “sim, sim, é isso!” E isso tirava-nos do sério e começávamos as duas a estremecer, a tentar conter o riso, numa situação completamente inapropriada. Até que ela começou a rir tanto que eu me apercebi de que não conseguiria resistir muito mais. Por isso, entrei para um armário que estava no palco, era um adereço para pendurar coisas… fechei a porta e esbofeteei-me… isso fez com que me dominasse. Depois saí e continuámos a cena. Mas acho que isso foi uma perda de realidade da qual não me posso orgulhar, mas, às vezes, é difícil…

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Alguma vez achou que não conseguia representar determinada personagem? Alguém com quem não se identificasse?

[Depois de pensar uns segundos.] Não. Representei algumas de quem não gostei tanto, mas foram muito desafiadoras, porque, se não gostamos de alguém…

Uma coisa maravilhosa sobre a representação é que temos de mergulhar tão profundamente… para descobrirmos o que move essa pessoa. Porque toda a gente acha que está a fazer a coisa certa. Há muito poucas pessoas que são malévolas até à medula e dizem “ah, sou tão mau”. Acham que estão certas e que os outros estão errados. Por isso, temos de descobrir por que motivo acham que estão certas, as coisas que, no seu passado, as fizeram pensar assim… e isso faz-nos compreender muito melhor muitas pessoas.

Representar ou… os filmes, na verdade, podem mudar-nos, afetar o público, no sentido em que conseguimos perceber um personagem que, normalmente, nem sequer aturaríamos. Quando os compreendemos realmente, ganhamos muita compaixão. E penso que, num cinema às escuras, rodeados por pessoas… sentimos vibrações a emanar das pessoas, o que é maravilhoso. Mas representei personagens de que não gostei particularmente e procurei gostar delas tanto quanto possível, e depois percebi que, provavelmente, essas pessoas também não gostavam muito de si próprias. Por isso, é um pouco complicado, mas divertido.

Acha que houve alguma personagem que a mudou mais do que qualquer outra?

[Rowlands pensa durante alguns segundos.] O papel em A Woman Under the Influence abriu-me muitos horizontes. É engraçado, porque muitas pessoas pensaram que eu devia ser assim em casa e… vinham ter comigo na rua a dizer, “a culpa não foi sua, se ele não veio para casa? Ele disse que vinha!” Foi muito interessante. E Opening Night lida com tantas coisas que fiz em palco, e que todos fizemos, que me senti muito à vontade nesse filme.

Uma Mulher Sob Influência (1974).
Uma Mulher Sob Influência (1974).

Mas todos os papéis nos mudam um pouco. Não podemos andar com os seus sapatos, como dizem os índios, sem os compreendermos e, à medida que os anos passam, adquirimos bastante compreensão acerca dos outros.

Há outra altura em Opening Night, em que a sua personagem diz, “quando tinha 18, podia representar tudo, sentia as minhas emoções tão perto”. Talvez, na juventude, as nossas emoções estejam mais perto, à superfície, e talvez lhes falte alguma profundidade. À medida que envelheceu, como acha que o acesso às emoções mudou as suas representações?

Penso que as pessoas são mais emocionais na juventude. Ou… não sabem esconder tão bem. Por isso, são muito vulneráveis ao “momento”. Podem desatar a chorar. Uma pessoa mais velha podia reprimir isso. Portanto, quando somos novos e temos todas essas emoções, como a rapariga de Opening Night, e depois envelhecemos, como sucede à personagem, percebemos que não podemos agarrar essas emoções tão facilmente. Demora-nos mais tempo a chegar lá. É um problema próprio da representação.

Ele aprendera a primeira regra da independência, mantém o teu orçamento reduzido para que não precises dos malditos dólares graúdos dos grandes estúdios para fazeres o teu filme. Como um malabarista, ele jogava com tudo, argumentos, técnicos, atores, dinheiro, homens da massa, para conseguir concretizar aqueles filmes. E que filmes! Faces (1968), A Woman Under the Influence (1974), The Killing of a Chinese Bookie (1976), Opening Night (1977), Gloria (1980) e Love Streams (1984). Era magnífico o que John conseguira à força do seu trabalho ininterrupto, talento feroz e encanto rebelde.

Samuel Fuller

Perguntas do público a Gena Rowlands:

Gostava de saber quando e como conheceu Mr. Cassavetes e qual era a natureza da vossa relação, pessoal e profissionalmente.

Bom… conheci-o na Academia Americana de Arte Dramática, saímos durante dois anos e casámos. Sempre admirei a ferocidade na crença que ele tinha, de que… as pessoas comuns são interessantes. Gostava do modo como ele via isso. Dávamo-nos muito bem. E, na época, ele era ator. Eu não fazia ideia que se ia interessar pela realização, mas foi o que sucedeu! E, enquanto eu fazia uma peça, aquela de que falei há pouco, Middle of the Night, ele não tinha nada para fazer à noite, pois trabalhava na televisão em direto, durante o dia. E, já que a TV em direto era tão estranha para toda a gente, atores… havia tantos papéis, era difícil, na verdade.

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Mas todos levavam aquilo muito a sério e adaptavam coisas de Faulkner, Hemingway e todo o tipo de coisas de escritores de grande talento… portanto, todos o queriam fazer, mas não sabiam muito bem o que teriam de enfrentar. E, como o John já fizera tantos trabalhos desses, perguntaram-lhe se queria dar uma pequena aula… não era bem isso, era só um grupo de amigos que vinham fazer perguntas sobre os aspetos que lhes interessavam. Mas foi daí que surgiu Shadows [Sombras, o primeiro filme de Cassavetes], porque começaram a improvisar, ficaram fascinados com isso e começaram a filmar.

gena rowlands mistérios (1)Eu ainda estava no teatro, visto que aquela peça manteve-se em cena 18 meses, muito tempo. Por isso, ele tinha imenso tempo livre e interessou-se muito pela realização. E, de súbito, perdeu interesse pela representação, no caso pessoal dele. Isso desapontou-me um pouco, porque eu o achava um ator maravilhoso. E tive pena que não tivesse trabalhado muito mais como ator. Representávamos quando fazíamos os nossos filmes. Ou seja, representávamos para outras pessoas, já que pagávamos os nossos filmes, e estávamos sempre a ficar sem dinheiro.

Mas tínhamos ambos a vantagem de termos sido atores profissionais durante uns oito ou nove anos, antes disto acontecer. Por isso, tínhamos a quem recorrer quando precisávamos de dinheiro. E, enquanto eu lamentava ver que ele não representava e tenho pena que não tenha feito mais, e também lamento não ter contracenado mais vezes com ele, também percebi que escrever e realizar se tornaram a coisa mais importante para ele. E fiquei feliz por ele…

Ms. Rowlands, pode dizer-nos qual a origem de Opening Night? Presumo que esteja enraizado no seu passado e no de Mr. Cassavetes, enquanto atores de teatro.

Todos nós, que entrámos no filme, éramos atores de teatro e amávamos o teatro. E foi, não só uma forma de mostrar como são as pessoas que acham que estão certas; os atores, encenador, etc., como todos os envolvidos se comportam nos bastidores, mas… sim, veio das nossas experiências, simplesmente quisemos fazê-lo. Pelo que… John escreveu-o e fizemo-lo!

gena rowlands mistérios (8)Ms. Rowlands, olá… os filmes de John Cassavetes foram muito influentes para muitas pessoas, parecem-me diferentes de tudo, há uma autêntica paixão ali. Julgo que terá sido diferente trabalhar neles. Pode-me dizer qual a diferença entre trabalhar num filme dele e num dos muitos outros em que trabalhou?

Bom, era muito diferente no set de John. Em primeiro lugar, ele era muito rigoroso com os atores, sobre não falarem uns com os outros acerca das personagens que representavam. Ou sobre o que pensavam fazer na cena… ele dizia, “deixem que aconteça e seja filmado. Façam o que fizerem, é o vosso papel, é o vosso personagem; na vida, acontecem coisas que nunca esperamos. Por isso, vão para lá e, às vezes, o que acontece, acontece”. Não que não seguíssemos o guião, mas acontecem realmente coisas… entornávamos uma chávena de café e tínhamos de seguir em frente. Ele nunca dizia, “corta”.

Outra coisa: Ele adorava atores. Adorava-os. E isso nem sempre acontece… noutras situações, noutros filmes. Muitos realizadores simplesmente odeiam atores… [risos] se os pudessem estrangular, era o que fariam. Mas também nos habituamos a isso. Contudo, em termos de liberdade, não há sequer comparação. Não nos dão muita, na maioria dos filmes. Porque é algo que demora tempo, o qual custa dinheiro… e é mais fácil fazê-los do outro modo. Por isso, havia uma grande diferença na atitude, e também filmávamos em sequência. O que é caro, mas faz uma grande diferença, quando representamos.

Havia imensos detalhes como este, mas, acima de tudo, penso que John escrevia argumentos com uma linguagem tão natural que… muitos argumentistas escrevem com demasiada perfeição, o que provoca alguma rigidez. Ele escrevia como as pessoas falam na rua. Isso era muito fácil de representar. Havia, de facto, muito pouco em comum nos filmes convencionais e nos filmes de John.

É… maravilhoso sentirmo-nos amados. E todos os atores se sentiam amados, porque ele realmente os adorava. Sabem, saímo-nos sempre melhor em qualquer coisa quando alguém adora tudo o que fazemos. Acho que é só…

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Como se prepara para um papel?

Pego no argumento e leio-o umas 20 vezes, sem tentar fazer juízos de valor sobre a minha personagem. Depois, é claro, presto mais atenção à minha personagem do que ao resto do guião. E começamos a pensar nisso. Grande parte do processo de representar reside em “pensar nisso”. Pensamos nas experiências que tivemos na nossa vida que se possam relacionar com o papel, ou em alguém que conhecemos, que tenha enfrentado problemas semelhantes… ou observamos completos estranhos a fazerem coisas e imaginamos aquilo em que estarão a pensar. Tentamos meter-nos dentro das cabeças deles. E, pouco depois, as coisas começam a ocorrer naturalmente. Não sei, é bastante misterioso, porque começa-se a ver e a ouvir coisas e a observar as pessoas e começamos a compreender melhor a nossa personagem, bem como as pessoas que nos rodeiam… personalizamo-lo e continuamos a trabalhar nesse sentido.

Depois, interagimos com outros atores, e é claro que o que eles fazem nos afeta, e vice-versa… é realmente algo de misterioso. Mas funciona.

Obrigado por estar aqui…

Obrigada, eu.

Quando um ator está num dia mau, como consegue transformar a atuação dele?

Quando o ator com quem contracenamos está num dia mau? Não podemos fazer muito! Esperamos pelo dia seguinte… os dias maus existem. Também depende do que eles estão a fazer. Se se esqueceram das falas… isso é muito comum e é fácil de acontecer. Às vezes, sabemos que se segue uma grande cena que assenta nessa fala. É muito difícil, porque não podemos dizer essa fala por ele e, quando somos o outro ator, sabemos sempre o que ele vai dizer, por isso… o que fazemos é tentar transmitir o que ele ia dizer. De qualquer forma possível. Dizemos, “és tão esperto, suponho que achas, blá, blá, blá…” Um truque desses. Não é preciso muito para que eles retomem a concentração. É apenas algo que todos fazemos uns pelos outros…

Qual foi o seu papel preferido de sempre e porquê?

Julgo que foi A Woman Under the Influence. Não sei bem porquê. Só que… foi-me difícil entendê-la. E, quando consegui, senti-me muito próxima dela e dos seus problemas. Foi um dos primeiros filmes que fizemos por nossa conta, sem que os homens de fato viessem até ao set. Senti-me apenas libertada com a rédea solta que me deram. Por isso, encaro-o como se fosse o meu primeiro filme, embora não tenha sido. Foi algo que nunca experimentara antes, e que, em grande medida, experimentei depois.

Tenho de lhe perguntar… é uma bêbeda tão credível [risos], que toda a gente sente compaixão. Como se prepara uma cena dessas?

Que cena?

Aquela em que estava mesmo bêbeda?

[Risos.] Uma vez, estava a falar com outro ator e um homem japonês veio ter comigo e disse, “desculpe, estava bêbeda naquela cena?” Eu disse, “quer dizer, se eu estava a fazer de bêbeda?” Ele disse que não. “Você estava mesmo bêbeda naquela cena.” Eu disse, “não, na verdade, estava a representar”. Voltei-me para continuar a falar com o meu amigo e ele agarrou-me o braço e disse, “está-me a dizer que não estava bêbeda nessa cena?” E respondi, “sim, isso mesmo”. E ele pergunta, “como é que sabe fazer de bêbeda… se não estava bêbeda?” E eu disse, “pesquisei!”

David Furtado

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