Peter Falk, as campanhas pelo Óscar e a hora negra de Hollywood Inc.

Estão de regresso os Óscares e, com eles, as notícias que começam pelo glamour das estrelas na passadeira vermelha, o vestido de Nicole Kidman, os mais elegantes, os mais bonitos, o penteado de Ben Affleck, e espero bem que não digam que tem o melhor penteado do ano, pois o homem usa capacho. Mas, por acaso, até respeito Affleck, quando mais não seja por Good Will Hunting e The Town. Mas este texto não tem a ver com tais futilidades. E esqueçamos, por momentos, que Helen Mirren foi empurrada à bruta por um segurança para abrir caminho a qualquer Pitt, Cruise, Hanks ou Clooney, nesta fogueira das vaidades.

Falk no papel de 'Abe Reles' em Murder, Inc. (1960).
Falk no papel de ‘Abe Reles’ em Murder, Inc. (1960).

Hollywood anda de cabeça perdida. Mas isso não justifica que Zero Dark Thirty (00:30 A Hora Negra), de Kathryn Bigelow, esteja nomeado para cinco estatuetas. Este filme, sobre a caça ao terrorista Osama bin Laden, é de uma absoluta irresponsabilidade; o produto de alguém que vive da publicidade e para a publicidade, da pior forma possível.

Não vi o filme, e ninguém me conseguirá arrastar para um cinema. Mas vi o filme de Bigelow que venceu seis Óscares, The Hurt Locker (Estado de Guerra), de 2008. Isto foi já depois da entrega dos Óscares, e recordo-me de sair da sala a abanar a cabeça… como é que semelhante parvoíce recebe tanta aclamação? A primeira mulher a ganhar um Óscar de Melhor Realizadora?… Melhor Filme? Estão loucos?

Se The Hurt Locker, com o seu casting estapafúrdio, realização amadora, representações sofríveis e, no global, o protótipo de quem não sabe patavina sobre a guerra, foi tão aclamado, a situação tinha de ter outro ângulo. Se havia realizadora que merecesse ser a primeira mulher a vencer um Óscar… ocorre-me de imediato o nome de Elaine May, que foi nomeada unicamente para dois. Mikey and Nicky (1976) mete Bigelow num bungalow, que é onde pertence e donde nunca devia ter saído.

Os EUA possuem um trágico historial de tiroteios em escolas e semelhantes horrores. Há dias, o presidente Obama colocou mais restrições a quem pretende adquirir armamento. Quem gosta de atirar pedras aos Estados Unidos, engoliu em seco. Achei a atitude sóbria e responsável.

Espero não ser profeta da desgraça e imaginar o tumulto que o filme de Bigelow vai originar. Repito, é de uma irresponsabilidade total. Presumo que o próximo projeto desta aspirante a cineasta seja algo relacionado com o conflito no Médio Oriente. Israel e Palestina, que tal para uma cabeça oca, Bigelow? Fazias dinheiro. Pensa nisso.

Bigelow não é Oliver Stone nem Samuel Fuller, não consegue explorar as dolorosas feridas da América; não passa de uma fraude que tenta olhar para a cicatriz e elaborar um qualquer filme gung ho, uma espécie de «Born in the USA» deturpado. Mas, tinha de haver outro ângulo em The Hurt Locker. Tinha de haver. E neste também. A campanha.

Peter Falk

“CAMPANHA? ISSO NÃO É PARA OS POLÍTICOS?”

Já aqui escrevi outro texto sobre as incongruências dos Óscares. Valem o que valem. São como os likes do Facebook, até podem ser comprados por políticos, como alguém me elucidou recentemente. Não sei se alguém se recorda de Peter Falk (o famoso Columbo), mas deixo aqui a sua história, pois esclarece-nos sobre o modo como funciona este esquema.

“Estávamos em 1955. Eu tinha 28 anos e decidi ser ator. Revelei-o ao meu pai, e ele disse, ‘vais pintar a cara e fazer figura de parvo durante o resto da vida?’ Eu disse, ‘isso mesmo’. Ele apertou-me a mão e desejou-me boa sorte.”

Falk mudou-se para Nova Iorque e foi ganhando experiência nos palcos. Passaram cinco anos. Em 1960, a Twentieth Century Fox quis produzir um filme chamado Murder Inc. (O Sindicato do Crime) na Big Apple. “Trouxeram as duas estrelas e contrataram atores nova-iorquinos para interpretarem os mafiosos”, diz Peter Falk. “Eu obtive o papel do líder dos malfeitores, ‘Abe «Kid Twist» Reles’. Isto era em grande. Era mesmo em grande. O meu primeiro filme em Hollywood.”

“O filme estreou e eu tive críticas excelentes. A tarde era melancólica e cinzenta nas entranhas do saloon de Greenwich Village onde estava sentado com Sal Mineo e Ben Gazzara. As críticas do jornal estavam na mesa, diante de nós.”

“Sal disse: ‘Devias fazer campanha por um Óscar.’ Campanha!!! O que é isso? Não me soava bem. Fazemos campanha quando queremos ser presidente da câmara, mas os atores não fazem campanha. Sal disse que faziam. Disse que punham anúncios. Anúncios! Onde? ‘Nos jornais comerciais de Hollywood’, disse Sal. Era outra coisa da qual eu nunca ouvira falar. Sal disse que isso acontecia. Ele fora ator, na infância, em Hollywood, por isso acreditei nele, mas parecia-me absolutamente ridículo. Hollywood, estrelas de cinema, Óscares, mulheres deslumbrantes, é outro mundo. Sal estava apenas a ser simpático, mas eu não o conseguia levar a sério.”

“Nesse mesmo ano, tive um trabalho em The Untouchables, uma série de TV filmada em Los Angeles. A minha primeira viagem até HOLLYWOOD. No motel, estava uma mensagem do meu agente. O seu patrão, Abe Lastfogel, o lendário chefe da William Morris, a maior agência de talentos do mundo, queria ver-me. Porquê? Não fazia ideia.”

“Mr. Lastfogel não perdeu tempo. Depois de uma cordial saudação, disse, ‘você devia fazer campanha para um Óscar’.

– Isso foi o que me disse Sal Mineo.
– Então, faça-o!
– Faço o quê?
– Ponha anúncios, contrate um assessor de imprensa, gaste dinheiro!

“Foi isso que fiz e, sabem que mais… fui nomeado.”

“Estávamos agora na grande noite. Os Óscares. O assessor e eu estamos nos nossos lugares. Chegamos à minha categoria e ouço uma voz dizer, ‘o vencedor é Peter…’, soergui-me na minha cadeira… ‘Ustinov’. Voltei a sentar-me. Foi então que me virei para o assessor e disse, ‘estás despedido’. Não queria que ele me cobrasse serviços nem mais um dia.”

Só mais uma coisa… não vou assistir aos Óscares.

David Furtado

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