Os 12 do indomável: Os melhores filmes de Lee Marvin (7-12)

Depois de Hell in the Pacific, Lee integrou o elenco de Paint Your Wagon (Os Maridos de Elizabeth), a par de Clint Eastwood e Jean Seberg. Esta obra de 1969 (já abordada noutro artigo) não foi um sucesso e mostra-nos os excessos de Hollywood no seu pior, mas, pelo menos, Marvin cantou o tema «Wand’rin’ Star», que se tornou num êxito, e venceu um Disco de Ouro.

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Eram já dois fracassos consecutivos. Todavia, em 1970, o ator encarna o personagem ‘Monte Walsh’, e aqui sim, temos um filme a realçar e o sétimo da lista.

7. Monte Walsh (1970). Depois do musical/western/comédia semi-histérica que foi Paint Your Wagon, Lee Marvin decide protagonizar um western invulgar, no qual interpreta um dos últimos cowboys e demonstra novamente a sua versatilidade, sem se focar nas características violentas que haviam marcado a sua carreira. (O mesmo se pode dizer do coprotagonista, Jack Palance.) Monte Walsh baseia-se no romance de Jack Schaefer, autor do aclamado Shane, e explora temas semelhantes, como o papel da moralidade num território onde os homens são obrigados pelas circunstâncias a fazer escolhas difíceis, sofrendo sérias consequências.

Lee e Jeanne Moreau, que conseguiu domar a fera. Foto promocional de Monte Walsh.
Lee e Jeanne Moreau, que conseguiu domar a fera. Foto promocional de Monte Walsh.

‘Monte Walsh’ e o seu amigo ‘Chet’ passam o inverno longe do rancho onde trabalham e, ao regressarem, descobrem que o rancho foi vendido. Desempregados, são contratados por outro, gerido por uma empresa – o tema principal da obra é a extinção dos cowboys e o destino destes homens, que não sabem fazer outra coisa na vida. ‘Monte’, cada vez mais desiludido, ao assistir aos despedimentos, passa o tempo com a prostituta de coração de ouro, ‘Martine’ (Jeanne Moreau) e encontra alguma paz na companhia do amigo de sempre, ‘Chet’.

‘Monte Walsh’ fica mais sozinho quando ‘Chet’ decide casar e mudar de profissão, antevendo um beco sem saída nas cavalgadas e laço de cowboy. ‘Monte’, por seu lado, decide, retraído, seguir-lhe os passos e casar com ‘Martine’, já que sempre se amaram. Contudo, uma reviravolta de acontecimentos altera tudo: Com o desemprego, surgem mais fora-da-lei, alguns dos quais, antigos colegas de ‘Monte’, desesperados e em busca de sustento. Um deles, tenta assaltar a loja do pacífico e amigável ‘Chet’, alvejando-o mortalmente. ‘Monte’ sabe que terá de vingar o amigo. Um mal nunca vem só, pois ‘Martine’, que também ambicionava mudar de vida, unindo o seu destino ao de ‘Monte Walsh’, morre de tuberculose.

Com Jack Palance no excelente Monte Walsh de William A. Fraker.
Com Jack Palance no excelente Monte Walsh de William A. Fraker.

Desnorteado, ‘Monte Walsh’, leia-se Lee Marvin, acompanhando todas estas peripécias com um brilhante desempenho, também é despedido e quase contratado para um espetáculo grotesco do Velho Oeste selvagem. “Não vou cuspir no meu passado inteiro!”, responde.

‘Monte’ terá de encontrar o colega que matou o seu maior amigo e construir um futuro para si mesmo. Neste sentido, Monte Walsh é um filme melancólico e triste, com o cowboy a partir rumo ao pôr-do-sol, no final. Mas o Velho Oeste já não existe, as aventuras e desventuras ficaram para trás. O íntegro ‘Monte Walsh’ não consegue deixar de seguir a sua natureza.

O realizador, William A. Fraker, era já um reputado diretor de fotografia e esta obra foi o seu primeiro filme. Distanciando-se das sagas heroicas, Fraker não emprega os planos panorâmicos nem a música de tonalidade homérica, recorrendo aos grandes planos e a planos médios, que se adaptam perfeitamente à história. Monte Walsh possui uma autenticidade que não se encontra na maioria dos westerns, chegando a lembrar certos pormenores de Aconteceu no Oeste, de Sergio Leone. Apesar de nos mostrar as realidades da vida de cowboy, não cai no melodramático nem é um filme deprimente.

Jack Palance, também um vilão consumado nos papéis que escolhia, é aqui um bem-disposto e feliz cowboy. Mitchell Ryan (que se estreou nesta obra) faz um trabalho esplêndido no papel do desesperado fora-da-lei. Todo o elenco, incluindo Jeanne Moreau, merece um aplauso, mas o filme pertence a Lee Marvin. Há uma vulnerabilidade e uma humanidade inéditas no seu desempenho.

Pela primeira vez na sua carreira, e apesar de ser mais um western, há emoções profundas, uma pureza de sentimentos que geralmente não associamos à persona dura de Lee Marvin. Se bem que grande parte da crítica, que já catalogara Marvin e declarara o western como um género morto, não tenha gostado, estamos perante aquele que é talvez o melhor papel da carreira do ator. O Óscar de Cat Ballou teria sido mais justificado em Monte Walsh.

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Os produtores já conheciam o feitio, por vezes, truculento do ator e, para que tudo corresse bem, tentaram evitar grandes contactos pessoais com a gentil, talentosa e bonita atriz Jeanne Moreau. Até lhe chamavam o “síndroma Marvin”. Fraker decidiu não manter um único fotograma em que Lee estivesse embriagado e mandou-o para casa, certo dia. A rotina era usual; o ator embebedou-se, foi a festas onde insultou toda a gente, voltando com o seu carisma habitual e a sobriedade necessária para prosseguir o trabalho.

Moreau ficou ainda mais curiosa em relação a Lee. O relacionamento do ator com Michelle Triola já não tinha salvação. E saiu tudo ao contrário. A teoria dos pólos opostos, talvez. Marvin e Moreau tiveram um caso durante a rodagem. Quando a conheceu, Marvin parou imediatamente de beber. A atração foi instantânea, e o realizador William Fraker achou que a metamorfose do ator só podia ter origem numa intervenção divina…

“Eles tinham uma química tremenda. Testemunhei, pela primeira vez, uma ternura e uma gentileza que nunca vira nele. E só Jeanne Moreau parecia ter a capacidade de a despoletar.”

A atriz afirmou: “Lee Marvin é mais másculo do que alguém com quem já contracenei. É “o” Homem com “h” grande, e incluo na lista todas as estrelas europeias com quem já filmei.” Um grande elogio vindo de uma autêntica dama do cinema francês… Moreau ficou tão cativada com Lee que quis assentar com ele na Europa, mas Marvin não pretendia prolongar o relacionamento. Os seus estilos de vida não eram compatíveis.

Monte Walsh não obteve críticas consensuais, mas o público gostou. O perspicaz crítico do London Spectator salientou o “magnetismo palpável” entre Lee e Jeanne e achou-os “fascinantes”. Não foi um grande sucesso, e Lee Marvin viria a revelar-se descontente com os resultados, embora tivesse sido um dos seus projetos favoritos. Sem dúvida alguma, é um dos melhores filmes desta lista de 12, e recomenda-se a quem não goste particularmente de westerns ou do ator.

Em 1972, Lee junta-se a outra grande estrela para filmar Pocket Money (Dinheiro Trocado). É a situação oposta de Monte Walsh – um fracasso tremendo, apenas aconselhável aos fãs de Paul Newman e de Marvin. Pessoalmente, não gostei nada do filme e prefiro não desenvolver o assunto. Lee redime-se no mesmo ano com…

lee marvin wandrin star (5)8. Prime Cut. Confrontando o irritante vilão Gene Hackman, que interpreta o gerente de uma empresa de comércio e distribuição de carnes, chamado insolitamente ‘Mary Ann’ (!), Lee regressa à persona com a qual mais o identificamos: O implacável anti-herói, obstinado e sereno. Até que o irritam. Embora tenha de resolver um assunto que lhe foi confiado pela Máfia de Chicago, e não esteja do lado “certo” da lei, ‘Nick Devlin’ tem a noção do certo e do errado. O filme marcou também a estreia de uma excelente atriz: Sissy Spacek (‘Poppy’).

Há quem o apelide de filme de gangsters asqueroso, um produto (pouco) inspirado por The Godfather. Foi o primeiro filme com a classificação R (Restricted) em que Lee participou e há alguns motivos para isso. O carniceiro ‘Mary Ann’ (Hackman é odioso/excelente no papel) vende, não só carne, mas também adolescentes e jovens como se fossem carne, expondo-as no meio do feno, ao lado de gado.

Quanto aos inimigos, enviados pela Máfia e que vêm obrigá-lo a pagar as dívidas, enfia-os na máquina de fazer salsichas e devolve-os ao remetente, embalados da mesma forma que poderíamos encontrar num talho… O genérico de abertura mostra-nos o processo de confeção dos enchidos, mas desde logo se nota que contêm proteínas humanas. ‘Nick Devlin’ é a panaceia. É enviado para meter ‘Mary Ann’ na ordem e fazê-lo pagar. Ao testemunhar as atitudes grotescas do criminoso, ‘Nick’ acaba por libertar as jovens e proteger a ingénua ‘Poppy’ dos malfeitores, sem ambicionar nenhuma contrapartida. Depois, é altura de ir atrás de ‘Mary Ann’, e não o faz com meias medidas. De metralhadora em punho, ‘Devlin’ vai acabar de vez com o negócio desprezível do talhante.

Os comentários de Hackman são tão repelentes (“carne de vaca e carne de rapariga, é tudo o mesmo para mim”) que um bruto estalo na cara por parte do repugnado Marvin, no início do filme, quase nos faz bater palmas. E não há forquilha, metralhadora, pistola, cutelo ou faca de cortar bifes que apanhe Lee. Nem sequer uma debulhadora!

Marvin e Sissy Spacek em Prime Cut.
Marvin e Sissy Spacek em Prime Cut.

Devido a estes fatores, à violência e à nudez, percebe-se que apelidem Prime Cut de grotesco, mas, a meu ver, tais situações só o tornam hilariante, invulgar e satírico, politicamente incorreto. É um filme de crime/ação realizado com pujança e passado na América rural.

Gene Hackman vencera o Óscar no ano anterior, pelo clássico de William Friedkin, The French Connection (Os Incorruptíveis Contra a Droga). Aqui é um vilão excêntrico. Spacek denota já um talento promissor, além de se despir, e Lee Marvin é mortífero sem precisar de armas. Os críticos atiraram Prime Cut para a máquina de processar salsichas… Richard Schickel, na Life, achou-o “repulsivo”, encontrou nele “hipocrisia através da técnica”, mas, se já estivermos familiarizados com as brilhantes teorias de Schickel, não é nada que incomode. Vincent Canby, do New York Times, achou-o “um filme pateta e muito desequilibrado”. Jay Cocks, da Time, depois de considerações pouco abonatórias acerca do realizador Michael Ritchie, ainda teve o rasgo visionário de chamar a Sissy Spacek “uma jovem e resplandecente atriz sem futuro”.

Lee Marvin, talvez nervoso por constatar que a sua carreira parecia estagnada, descarregou no realizador, numa entrevista à Rolling Stone:

“Cometi erros de que muito me arrependo. Um deles foi trabalhar com Michael Ritchie em Prime Cut. Odeio esse filho da mãe. Ele gosta de usar amadores, porque, deste modo, domina-os totalmente. Nada correu bem com esse tipo, e o filme desabou ainda antes de começarmos a filmar.”

A imprensa quis saber o comentário de Ritchie, que declarou: “Falo sobre Burt Reynolds, Walter Matthau, Robert Redford, ou qualquer outro assunto agradável, mas não estou disposto a falar sobre Lee Marvin. Disse coisas malévolas sobre mim, e não vou responder ao mesmo nível. E também não tenho nada de favorável a dizer.”

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Consta que havia duas versões de Prime Cut, sendo a do realizador bastante melhor. Mas o “problema” acabou por residir noutro filme realizado por Ritchie no mesmo ano, The Candidate (O Candidato), com Robert Redford, um produto mais apelativo e consensual, que obteve excelentes críticas e aceitação do público. Os dois filmes foram comparados, e Prime Cut acabou por se tornar, apropriadamente… carne para canhão. Altamente recomendável e nada enfadonho.

Emperor of the North, em 1973, traz-nos Lee Marvin como ‘A No. 1’, o vagabundo dos comboios, e Ernest Borgnine, o terrível maquinista. Robert Aldrich estava ansioso por trabalhar novamente com Lee, um dos seus atores favoritos. “Se és imperador do Pólo Norte, não és imperador de nada”, referiu Marvin, preferindo o título original do filme. Não é imperdível, mas não é um fracasso.

9.The Iceman Cometh (O Homem de Gelo). Tantos anos de trabalho culminaram num regresso às raízes, o teatro, na peça de Eugene O’Neill, realizada por John Frankenheimer em 1973. Foi o desafio da carreira de Lee; o papel de ‘Hickey’ era mais do que exigente. Jeff Bridges, Fredric March, Robert Ryan, Bradford Dillman e Moses Gunn completavam o elenco. Estreou na TV, o que o impediu de concorrer aos Óscares. O filme dura quatro horas e desenrola-se inteiramente num bar nova-iorquino, durante o verão de 1912.

The Iceman Cometh.
The Iceman Cometh.

A maioria dos clientes encara o espaço como um refúgio, bebendo para conviver com os seus sonhos desfeitos. Temos, por exemplo, um advogado incapaz de lidar com o sistema judicial ou um negro que ambiciona ser aceite no mundo dos brancos. Alguns trocam histórias de guerra, enquanto três prostitutas se encarregam de enfurecer o empregado do bar. Todos eles aguardam a chegada de ‘Hickey’, um caixeiro-viajante que passa pelo bar, duas vezes por ano, animando a clientela com histórias sobre o Homem de Gelo (a morte), anedotas ou relatos.

Um cavalheiro e bom colega. (Quando estava para aí virado...)
Um cavalheiro e bom colega. (Quando estava para aí virado…)

A entrada de ‘Hickey’ é aplaudida, mas os clientes depressa se apercebem de que é um homem diferente, cheio de paz interior, incentivando todos a enfrentarem os sonhos que levam a nenhures, a que saiam do bar e prossigam as suas vidas. A ideia acaba por ser rejeitada. E ‘Hickey’ ainda não lhes revelou o seu segredo. A peça de O’Neill centra-se na ideia de que as ilusões podem ser fatais.

Há pouco movimento e ação em The Iceman Cometh. John Frankenheimer, numa atitude inteligente, move a câmara sem grandes floreados, utilizando a iluminação de modo astuto e concentrando-se na performance dos atores, a matéria-prima. Neste campo, Robert Ryan – que faleceu pouco depois de terminadas as filmagens – sobressai, e a crítica aplaudiu unanimemente o seu derradeiro trabalho.

Quanto a Lee Marvin, os comentários não reuniram consenso, uma vez que o genial Jason Robards desempenhara ‘Hickey’ na Broadway de modo quase perfeito. Mas Frankenheimer não o quis: “Eu já trabalhara com Jason. É um ator maravilhoso e é meu amigo, mas já fizera o papel tantas vezes nos palcos que a ideia de o dirigir não me entusiasmava nada.” O realizador queria Marlon Brando, Gene Hackman ou Lee Marvin. Brando recusou, e Hackman não foi convocado visto que Marvin telefonou ao realizador, revelando o seu interesse.

Alguns dos outros atores não apreciaram a escolha. Bradford Dillman, por exemplo, achou que o filme era fantástico, mas que continha um lapso fatal: O protagonista. “Robards era ‘Hickey’. Não havia ninguém mais apropriado para representar a hostilidade do que Lee. Era um duro de primeira, mas… se fizéssemos o filme com Robards, The Iceman Cometh seria hoje um clássico.” Grande parte da crítica concordou com Dillman, mas a Boxoffice, por exemplo, achou extraordinário o desempenho de Lee. O Los Angeles Times elogiou-o, considerando que era o maior momento de Marvin desde Cat Ballou. O realizador foi aplaudido pela árdua tarefa que concretizou. Frankenheimer também elogiou Lee e disse que The Iceman Cometh era o melhor filme que realizara.

Contendo alguns momentos parados, é certo, e exigindo paciência e concentração, a obra parece ganhar vida sempre que Marvin surge, com a sua voz inconfundível, os seus gestos, o seu timing, mostrando novamente que é um extraordinário ator. Na sequência final, um longo discurso, repare-se no modo como vai alternando entre a agressividade e a candura, explorando o personagem, criando magnetismo e expondo-se, tal como Eugene O’Neill pretendia. Digam os críticos o que disserem, e apesar do filme não ser perfeito, a representação de Lee Marvin é magnífica. Mais uma vez, o ator evitou o caminho seguro e assumiu um risco, saindo vitorioso.

No fiasco The Great Scout and Cathouse Thursday.
No fiasco The Great Scout and Cathouse Thursday.

Ironicamente, pode-se dizer que, à exceção do western The Spikes Gang, de 1974, a década ficou marcada por más escolhas de papéis ou participações em filmes azarados como foi o caso de The Klansman, uma catástrofe de A a Z. Em 1976, Lee regressa à comédia com The Great Scout and Cathouse Thursday, filme que, apesar da presença da bonita Kay Lenz e dos talentosos Oliver Reed e Robert Culp, não tem grande piada. Em Shout at the Devil, partilhou o protagonismo com um Roger Moore que tentava fugir ao estereótipo de James Bond. Moore elogiou o profissionalismo de Lee, mas a obra (que tem os seus méritos) foi mal recebida.

Durante este período, Marvin estava mais interessado na sua vida conjugal com a segunda esposa, Pamela, e nas atividades ao ar livre que tanto adorava. O seu nome surgiu na imprensa, não devido aos filmes, mas por culpa do famoso processo judicial que lhe foi movido por Michelle Triola, com quem vivera cinco anos e que lhe exigia uma pensão. Apesar de ser absolvido, Marvin foi obrigado a pagar-lhe 104 mil dólares. A década acabou com mais um fracasso: Avalanche Express, em 1979. A estrela de Marvin estava nitidamente a esvanecer-se.

10. The Big Red One (O Sargento da Força Um), de 1980, é o 10º da lista. Se o explorasse aqui estaria a repetir-me, pois já o abordei em separado, num trabalho sobre o realizador Samuel Fuller e noutro sobre Marvin.

11. Death Hunt (Caçada Implacável), de 1981, merece destaque. Trata-se da única vez em toda a carreira de Lee Marvin em que este interpreta um personagem real, o ‘Sargento Millen’, que tem de capturar ‘Albert Johnson’ (Charles Bronson) – a terceira vez que as suas carreiras se cruzaram. Só este duelo de titãs mereceria uma referência especial, mas o filme é também um grande exemplo do género ação/aventura.

Choque de titãs: Bronson e Marvin em Death Hunt.
Choque de titãs: Bronson e Marvin em Death Hunt.

Tudo começa com o regresso de ‘Johnson’ à civilização, vindo das terras bravias do Canadá. O caçador interrompe uma repugnante luta entre cães e agride o dono de um deles. Bronson leva consigo o cão ferido, para o tratar. É acusado de roubo, pelo que o ‘Sargento Millen’ é encarregado de o capturar. Mas ‘Johnson’ conhece bem o território e não será presa fácil.

Por estas e por outras, julgo que Charles Bronson deixou uma impressão errada junto de grande parte do público, que apenas o recorda como um brutal e inexpressivo pistoleiro em busca de vingança, na série de filmes Death Wish, desconhecendo este e muitos outros trabalhos do ator. Em Death Hunt, a caçada é mesmo implacável; o cão resgatado e reabilitado por Bronson acaba por ser abatido pela equipa de Marvin, o que enfurece Bronson, que elimina opositores, antes da sua cabana ser dinamitada. No final, Marvin contenta-se ao ver um cadáver, “prova” de que ‘Johnson’ morreu. Mas vê-o afastar-se na distância e deixa-o partir em liberdade, considerando-o uma vítima da justiça.

Charles Bronson superioriza-se um pouco a Marvin, durante o filme. Não diz quase nada, mas o seu olhar de lobo, contrastando com a paisagem natural de Alberta, no Canadá, onde decorreu a rodagem, fala mais alto que palavras. Um ator inteligente (ao contrário do que muitos julgam), Bronson compõe um enigmático personagem, cauteloso e astuto, baseando-se praticamente nos movimentos, nos olhares. É terno quando pega no cão e o leva consigo, gesto que revela a sua natureza pacífica, mas o seu olhar raramente foi tão intenso e hostil quando constata que se tornou num homem a abater e vítima do que considera uma injustiça.

O restante elenco foi bem escolhido e as representações são de qualidade. Também pela terceira vez, Lee cruza-se com Angie Dickinson, que aqui representa ‘Vanessa’, o seu interesse amoroso. Ainda atlético, Lee persegue Bronson até aos confins de um território gelado.

Originalmente, o filme intitulava-se Artic Rampage, denominação mais adequada, e seria realizado por Robert Aldrich. Não quero dizer que Peter Hunt o realizou mal. Contudo, Aldrich tornaria, quem sabe, a compreensão simbólica e silenciosa entre Bronson e Marvin ainda mais interessante.

12. Gorky Park (O Mistério de Gorky Park). Em 1983, Lee Marvin protagoniza o seu último grande filme. Foi um dos lançamentos mais antecipados do Natal de 1983 e baseava-se no best-seller de Martin Cruz Smith. De certa forma, foi o fechar de um ciclo para o ator que começou como vilão e terminou da mesma forma. Inimitável e ameaçador, Lee, desempenhando o papel do temível homem de negócios ‘Jack Osborne’, prova ser um adversário à altura de William Hurt, o agente russo ‘Arkady Renko’, encarregue de solucionar o mistério.

No seu último grande filme, O Mistério de Gorky Park (1983).
No seu último grande filme, O Mistério de Gorky Park (1983).

Quando três cadáveres sem rosto nem impressões digitais são encontrados em Gorky Park, Moscovo, ‘Renko’ é destacado para a missão. Desconfiado, o polícia tenta passar o caso para o KGB, mas depressa se vê enredado numa teia de conspirações que envolve ‘Irina’ (Joanna Pacula) e um agente americano, desempenhado por Brian Dennehy. Suspeitando que ‘Irina’ e ‘Osborne’ têm qualquer ligação, ‘Renko’ vai reunindo as peças do puzzle, apesar da postura simpática/intimidatória de Lee Marvin, que com ele fala através de segundos sentidos.

Nos bastidores, William Hurt, que era então uma jovem promessa, sentia-se nervoso e, ironicamente, foi Lee Marvin, o seu oponente no filme, que o sossegou – o veterano e o iniciante deram-se bem e, mais tarde, Hurt recordaria Lee pela sua personalidade forte e solidariedade. (A relação entre ambos foi já abordada noutro artigo.)

Gorky Park manteve, na passagem para o grande ecrã, os elementos de thriller/mistério do livro, até nos detalhes mais insignificantes, como a cena em que ‘Renko’ aguarda na fila para o pão, em Moscovo. A investigação é também pormenorizada, realista e complexa. O realizador Michael Apted e o argumentista Dennis Potter fizeram um excelente trabalho. A crítica dividiu-se, porém, sendo William Hurt o foco da discórdia. Elogiado por alguns, foi igualmente acusado por outros de ser “todo ele, técnica e nenhum sentimento”, como escreveu o crítico da Playboy. Gorky Park não se tornou no blockbuster que se esperava, mas foi um êxito modesto.

Não compreendo a reação negativa ao trabalho de William Hurt. Preocupado com a camaradagem, o respeito e em ordenar o que o rodeia, procurando verdades interiores bem como as exteriores, Hurt é exemplar num papel que não é para qualquer novato. Em William Hurt, Marvin, enquanto veterano que era, parece ter adivinhado um talento em ascensão, e as cenas em que ambos se confrontam, neste jogo do gato e do rato, constituem alguns dos melhores momentos de Gorky Park.

Astucioso e hábil, ‘Osborne’ trata ‘Renko’ com um cinismo sorridente, no qual se pressagia que se trata de um homem pronto a lançar mão de uma caçadeira, se tal for exigido. Face a isto, William Hurt é o inseguro mas inteligente polícia que vai compreendendo como lidar com o intimidante Marvin, acabando por encurralá-lo e resolver o mistério.

Lee Marvin tinha 59 anos, por esta altura, mas demonstra uma vitalidade que parecia ausente nos seus fracassos dos anos 70.

Em 1984, o ator dá um passo em falso, aceitando participar na produção francesa Canicule (Ventos de Mudança), filme estúpido com um enredo ridículo. A única dignidade que possui, como destacou um crítico, é a presença de Lee, cuja personagem, estranhamente, parece desligada da trama. Em Canicule, Marvin começa a evidenciar sinais de desgaste físico, provocado por décadas a abusar do tabaco e do álcool; as suas rugas são acentuadas e demonstra um óbvio desinteresse pelo papel.

Outro passo em falso, Canicule, em que os sinais de debilidade física do ator já eram evidentes.
Outro passo em falso, Canicule, em que os sinais de debilidade física do ator já eram evidentes.

Seguiu-se outra má escolha, o regresso ao personagem que tanta fama lhe deu, ‘Major Reisman’ em The Dirty Dozen: Next Mission, de 1985. 18 anos depois, Marvin repete o papel, a história é praticamente idêntica e desenrola-se, cronologicamente, após a missão anterior. O problema é que Lee Marvin está notoriamente envelhecido, o argumento é absurdo e a realização apressada de Andrew V. McLagen é a cereja no bolo. As filmagens no clima frio da Baviera pioraram o estado de saúde do ator, que já se encontrava debilitado.

No ano seguinte, o seu último trabalho, The Delta Force (Força Delta), provou ser um eficaz filme de ação, baseado num caso verídico: O sequestro de um avião. Interpretando o ‘Coronel Nick Alexander’, Lee deixa, obviamente, as sequências de ação a cargo de Chuck Norris, que era, na época, uma forte presença neste género de filmes.

Marvin conferiu algum prestígio a Força Delta (1986), em que o inexpressivo Chuck Norris se encarrega da ação.
Marvin conferiu algum prestígio a Força Delta (1986), em que o inexpressivo Chuck Norris se encarrega da ação.

Um dos atores, Robert Vaughn, recorda-se que Marvin estava muito fraco durante as filmagens em Israel. Lee confessou à esposa que não sabia se abandonaria Israel vivo. Ser-lhe-ia oferecido o mesmo papel na sequela, mas Marvin já não o pôde aceitar.

Uma gripe, aliada a asma e problemas respiratórios, provocaram o fatal ataque cardíaco que Lee Marvin sofreu em Tucson, Arizona, a 29 de agosto de 1987. Deixou a esposa, três filhas e um filho. Deixou-nos também um legado cinematográfico inconfundível. A sua atitude honesta de “quero lá saber”, provocou um desabafo, certa vez, ao Daily Mirror:

“Sabes o que magoa? O que realmente me magoa? Não presto. Em 75 filmes, fui um fracasso. Quero dizer, de quantos filmes meus se recordam as pessoas? Tu, por exemplo, de quantos te lembras?”

O jornalista referiu bastantes, mas Lee ripostou: “Foram todos péssimos, e eu também.”

Não concordo com o indomável Lee. A julgar por estes 12, pelo menos.

David Furtado

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