Os 12 do indomável: Os melhores filmes de Lee Marvin

Hoje, dia em que o Wand’rin’ Star completa um ano de existência, justifica-se uma homenagem ao ator que deu o nome ao site. Deste modo, elaborei uma lista de 12 filmes que, para mim, são os melhores. Lee Marvin participou noutros, como ator secundário, e nalguns em que a sua presença no ecrã é breve, mas importante. Estes são também citados.

O primeiro filme de Lee Marvin foi também a obra de estreia de Charles Bronson, You’re in the Navy Now (Marinheiros de Água Doce), em 1951. Os dois atores viriam a cruzar-se mais vezes ao longo das suas carreiras. Lee participou em 11 filmes, sempre como secundário, até chegar o 12º, realizado por Fritz Lang:

The Big Heat (Corrupção), de 1953, foi o primeiro clássico em que Lee Marvin esteve envolvido. Fritz Lang notou em Marvin potencial para a violência súbita e brutal e usou-o, ao contrário de outros realizadores no passado. Diga-se que Lang foi o único a querer Lee para o papel, e a sua escolha prevaleceu.

Lee Marvin estava nervoso no primeiro dia de rodagem. Não só devido à fama de tirano de Fritz Lang mas também ao facto de ter sido contratado à revelia. Marvin dirigiu-se ao realizador, no set, e Lang ofereceu-lhe champanhe. “Não, obrigado, Mr. Lang. Não sei se me quer dizer alguma coisa sobre o papel, antes de começarmos…”

“Você é o que eu quero”, respondeu o cineasta. “Não me preocupo com tipos como você. Você é muito bom. Estou preocupado é com eles”, afirmou o realizador, apontando para Glenn Ford e Gloria Grahame. Dois meses depois, Fritz Lang ofereceu champanhe a outro ator, e Lee viu-o apontar para ele. E pensou, “oh, oh, agora está preocupado comigo!”

Vestindo a pele de ‘Vince Stone’, Marvin é o braço direito de um mafioso. Com o cabelo (ainda) escuro, alto e ameaçador, astuto e mortífero, Lee é um autêntico animal, um sádico e um psicopata que, numa discussão com a namorada ‘Debby’, lhe atira café a ferver para o rosto, uma cena violenta ainda hoje, até porque só vemos a mão de Marvin pegando na cafeteira e o grito de Gloria Grahame.

Um dos melhores papéis de vilão (e foram às dezenas): The Big Heat.
Um dos melhores papéis de vilão (e foram às dezenas): The Big Heat.

Lee Marvin é soberbo como ‘Vince’. Além da brilhante participação de Grahame, temos um excelente Glenn Ford, que ao envolver-se demasiado na investigação de um crime, vê a mulher assassinada por uma bomba que lhe era destinada a ele. A questão passa a ser uma vingança pessoal. Este thriller policial, cujo tema é a justiça, conserva a vitalidade, apesar de já ter 60 anos. Muito se deve a Lang e a este trio de protagonistas. No contexto da carreira de Marvin, é um dos seus melhores desempenhos e um dos melhores filmes em que participou.

No ano seguinte, Lee surge noutro filme importante e que transformou Marlon Brando numa superestrela cultural: The Wild One (O Selvagem). Quem não recorda o casaco de cabedal negro, a Triumph e o boné? Enquanto contraponto de Brando, Lee é o vilão, um motoqueiro chamado ‘Chino’. Cinematograficamente, esta obra de Laslo Benedek ficou um pouco datada. A título de curiosidade, refira-se que Lee Marvin guiava motos com grande facilidade e entrava em corridas, pelo que se torna mais realista do que Brando, neste aspeto. Aliás, foi assim que conseguiu o papel, visto que o realizador sabia que Lee se dava bem com atores fanáticos por motorizadas.

lee marvin wandrin star (33)

Circulava o rumor que, a nível de representação, Brando ia “cortar Lee às fatias”. Marvin disse que “Marlon tinha o hábito de fingir concentrar-se durante 15 ou 20 minutos antes de filmar. Na verdade, estava a dormir uma soneca, mas aquilo deixava-nos a todos inseguros. É claro que ser associado a ele, nesse ponto da minha carreira, foi e é uma honra.”

Certo dia, encontraram-se num bar, e Marvin disse a Brando: “Estou a pensar em mudar de nome.” “Ai sim, para qual?” perguntou Brando. “Para Marlo Brandy”, respondeu Lee. “Eu também estou a pensar mudar de nome”, retorquiu Marlon. “Para Lee Moron [retardado].” Tratou-se de uma troca de galhardetes motivada pela competitividade, que em nada afetou o respeito mútuo entre ambos. 

Seguem-se 10 filmes, de variado nível, alguns deles, para esquecer. Uma vez, Lee foi abordado por um homem em Londres, que lhe pediu para apertar a mão da esposa. “Sabe, ela viu todos os seus filmes.” “Todos?”, respondeu Lee, franzindo o sobrolho e acrescentando, “quer um pedido de desculpas?”   

Seven Men from Now (1956).
Seven Men from Now (1956).

Em 1956, Lee Marvin, ainda como secundário, participa em Seven Men From Now, um western de Budd Boetticher, concebido como um veículo para Randolph Scott. Nos anos anteriores, Marvin já se especializara em personagens vilanescas. No papel de ‘Big Masters’, teve mais uma oportunidade e não a desperdiçou. Era o terceiro filme de Lee com Randolph Scott, e seguramente o melhor. Produzido pela Batjac, companhia de John Wayne, a obra é um western convencional, mas bem realizado, com personagens mais desenvolvidas do que o costume, e um dos melhores westerns desta época.

Marvin é o arrogante e ganancioso ‘Masters’. Quando lhe dizem, “odiava ter de te matar”, Lee responde, “odiava que tentasses”. Já era altura de alguém reparar no talento fulgurante deste ator secundário. Contudo, o filme teve poucas críticas, o título não ajudou, embora se tenha tornado, ao longo das décadas, num pequeno clássico para os apreciadores do western.

Mas Lee Marvin ia consolidando a sua reputação. Os seis filmes seguintes não lhe deram protagonismo, mas era convidado para projetos de prestígio. Attack (Ataque) de 1956, protagonizado por Jack Palance e realizado por Robert Aldrich, uma pequena participação em The Rack (Suplício) com Paul Newman e, em 1957, Raintree County (A Árvore da Vida), com Elizabeth Taylor e Montgomery Clift.

A argumentista, Millard Kauffman, afirma que Lee veio ter com ela, certo dia e perguntou por que motivo Montgomery Clift olhava para a sua testa e não para os olhos. “Alguns achavam que Clift tentava ignorar Marvin. Mas Lee percebeu que Clift era um homem atormentado e procurou ajudá-lo. Durante a cena da corrida entre ambos… Clift era muitas coisas, mas não tinha grande coordenação de movimentos. Cinco metros e tropeçava. Foram filmados muitos takes, e Lee conseguiu dar a entender que Monty o ultrapassava. Foi fenomenal.”

O ator disse, certa vez que “o trabalho de um ator que representa o ‘número dois’ é fazer com que o ´número um’ se saia muito melhor do que ele”. Por esta altura, a crítica começava a elogiá-lo com alguma frequência, pelo que Marvin aceita protagonizar… uma série de TV, M Squad, entre 1957 e 1960. O profissionalismo e companheirismo fazia-se notar, mas a sua tendência para abusar do álcool também, o que o tornava rude, intratável e agressivo.

Em O Homem Que Matou Liberty Valance (1962) com James Stewart e John Wayne.
Em O Homem Que Matou Liberty Valance (1962) com James Stewart e John Wayne.

Em 1961, regressa ao grande ecrã ao lado de John Wayne, num pequeno mas curioso papel em The Comancheros (Os Comancheros), o último filme do realizador Michael Curtiz. Marvin está perfeitamente à altura do Duke e filmaria com ele mais duas vezes. No ano seguinte, a dupla reencontra-se em The Man Who Shot Liberty Valance (O Homem Que Matou Liberty Valance), o western de John Ford em que ‘Valance’ é desempenhado por Marvin. Não sendo uma obra típica de Ford, o filme é um dos seus últimos grandes trabalhos. John Wayne provou que não era só uma estrela de cinema, mas também um grande ator, e James Stewart está à sua altura, sem esquecer Vera Miles, outra atriz, muitas vezes – e injustamente – relegada para segundo plano.

Novamente na pele do vilão, Lee Marvin interpreta um dos personagens mais desprezíveis da sua carreira, um carrasco violento e cruel, auxiliado por Lee Van Cleef e Strother Martin. ‘Liberty Valance’ é quase o apogeu de todos os vilões representados por Marvin. Recebido com pouco entusiasmo, aquando da sua estreia, The Man Who Shot Liberty Valance tornou-se num clássico e num ponto alto da carreira de todos os envolvidos.

No ano seguinte, Lee junta-se de novo a John Ford e John Wayne no semifracassado Donovan’s Reef (A Taberna do Irlandês), obra que apesar das suas falhas, contém algumas cenas cómicas. Por esta altura, Marvin tinha já o cabelo quase todo branco prematuramente, o que lhe dava um ar mais velho. É então que protagoniza…

1. The Killers (Contrato para Matar) de 1964. Realizado por Don Siegel, a obra foi concebida como um telefilme, baseada num conto de Ernest Hemingway. Dois assassinos, ‘Charlie Strom’ (Marvin) e ‘Lee’ (excelente desempenho de Clu Gulager) são contratados para assassinar o ex-piloto de corridas ‘Johnny North’, (John Cassavetes). A sua participação é também notável. O ator e realizador pretendia financiar os seus projetos pessoais e aceitou o papel pelo pagamento. A grande dúvida de ‘Strom’ é por que motivo ‘North’ não tentou fugir nem reagiu quando os dois assassinos apareceram. Esta dúvida faz com que o duo, liderado por Marvin, visite vários personagens para reconstruir o passado de ‘North’.

Em The Killers:
Em The Killers: “Lady, I just don’t have the time…”

Lee Marvin e Clu Gulager (repare-se no modo fiel com que Tarantino se inspirou neles para criar o seu duo de assassinos, um sádico e outro violento mas com preocupações existenciais em Pulp Fiction) seguem o rasto do dinheiro que rapidamente os conduz ao vilão, desempenhado por Ronald Reagan (o seu último papel no cinema, que desempenhou a contragosto antes de se dedicar à política) e à traiçoeira Angie Dickinson.

Don Siegel já quisera realizar a primeira versão de The Killers, lançada em 1946. Siegel foi o responsável pela contratação dos atores, com Marvin a interpretar mais fielmente a personagem de Hemingway. The Killers foi filmado em formato 4:3, já que se destinava à TV, mas os estúdios decidiram lançá-lo no grande ecrã, devido à violência. Foi o 35º filme de Lee Marvin, e o primeiro em que o seu nome surge como ator principal.

Cat Ballou:
Cat Ballou: “Metade deste Óscar pertence a um cavalo…”

2. Cat Ballou (Mulher Felina). Em 1965, Lee aceita um papel de coestrela ao lado de Jane Fonda nesta mistura de comédia e musical com western. No papel duplo de ‘Kid Shelleen’ e ‘Tim Strawn’, o ator prova a sua versatilidade, conseguindo ser cómico, como o pistoleiro que vem em defesa de ‘Catherine Cat Ballou’. O filme parodia os westerns, com a dupla de cantores Nat King Cole e Stubby Kaye a narrarem a história.

Kirk Douglas rejeitou o papel, para satisfação do realizador Elliot Silverstein, que sugeriu Lee. Embora já fosse um ator respeitado, os estúdios não estavam convencidos, até porque Marvin, durante os ensaios, não fazia nada de humorístico, “tomando apontamentos mentais”, segundo Silverstein. “Só que o produtor, que assistia, começou a ficar preocupado. Fui ter com Lee e disse-lhe que tínhamos este problema. Será que ele não podia fazer algo mais animado? Ele disse-me, ‘entendi’.” Mas não fez nada. Limitou-se a olhar por cima do ombro e a fitar o produtor com uma expressão de “que raio estás a fazer aqui? Deixa-me trabalhar”.

Enquanto ‘Tim Strawn’, o pistoleiro cujo nariz foi mordido e arrancado numa luta, Lee apenas transmite ameaça, mas, na pele de ‘Kid Shelleen’, é verdadeiramente engraçado e nada subtil. Deixa cair as calças, cambaleia, ruge as suas deixas, troca os olhos… enfim, ninguém estava preparado para esta excelente performance, e os críticos aplaudiram-na com entusiasmo. Judith Christ escreveu:

“Lee Marvin rouba o filme todo e, se há justiça no faroeste contemporâneo, merece um Óscar.”

 

Em Cat Ballou, a comédia nem sempre funciona, mas a crítica achou interessante a interpretação de Marvin. A Time disse que ele era o melhor do filme, e a Newsweek começou a especular que haveria um Óscar à sua espera, o que se concretizou. Sem esquecer o cavalo cinzento de ‘Kid’: Smoky, galardoado com um prémio Craven.

Neste ano, Lee enfrentou forte concorrência na cerimónia. Os outros nomeados eram Richard Burton, Laurence Olivier, Rod Steiger e Oskar Werner. A 18 de abril de 1966, um espantado Marvin recebia o Óscar – que mais pareceu um prémio de carreira – além de vencer outros prémios, como o Globo de Ouro.

 

Jane Fonda recorda:

“Não conheci Lee bem. Mas houve uma coisa acerca dele que realmente me impressionou e me tocou, numa altura em que eu era tão jovem e entrei em Cat Ballou. Ao ser uma rapariga sem grande autoestima, era fácil que se aproveitassem de mim. Os produtores obrigaram-nos a trabalhar durante muitas horas a fio, com um orçamento muito baixo. Um dia, Lee Marvin veio ter comigo e disse: ‘Olha, Jane, somos as estrelas deste show. Se deixarmos que eles se aproveitem de nós, eles também se aproveitam de toda a equipa que trabalha no filme. Somos nós que temos de tomar uma atitude e recusar isso, não só para nosso benefício, mas também para o bem de todos os tipos que trabalham no filme.’ Acho que isto diz imenso sobre o tipo de pessoa que Lee Marvin era”, conclui Fonda.

E, segundo consta, Lee trabalhou arduamente. A cena em que tem de acertar um tiro no celeiro e não consegue, foi filmada oito vezes – as sete primeiras de modo cómico, a oitava e final, com mordacidade. A equipa toda começou a rir-se. Foi então que o produtor se dirigiu ao realizador, dizendo que Lee era fantástico. “Antes, não fazia nada, agora é fantástico”, respondeu Silverstein, irritado e farto de pressões. Cat Ballou pode não ser o seu melhor filme, mas foi a partir daqui que veio o sucesso. O ator talentoso e profissional transformara-se numa estrela.

“Ele tinha talento para ator principal”, descreve Silverstein. “Criava atmosferas, saía-se muito bem. Foi muito generoso com Jane, que começava a carreira e estava consciente de que tinha de manter a seriedade da sua personagem, enquanto Lee fazia rir. Vários departamentos de produção disseram-me que Lee era um problemático. E depois? Eu já lidara com megalómanos. E ele não era assim. Havia nele uma certa suavidade. Ele sabia que eu estava constantemente a ser pressionado e comportou-se com lealdade. Demorámos apenas 28 dias a filmar.”

Outro sinal de apoio ao realizador traduziu-se num dia de filmagens no Colorado. A presença do namorado de Jane no set, desagradou a Marvin. “Quem é este homem?”, perguntou a um elemento da equipa. “Roger Vadim.” “Que faz ele aqui?” “Veio visitar a Jane.” “É melhor que espere noutro lado. Um realizador no set é suficiente.”

Marvin comentou assim o papel do pistoleiro bêbedo: “Encaremos os factos. Treinei para aquele papel durante anos.”

Em Ship of Fools com Vivien Leigh (1965).
Em Ship of Fools com Vivien Leigh (1965).

Em 1965, Lee integrou o prestigiado elenco de Ship of Fools (A Nave dos Loucos) ao lado de Vivien Leigh, Simone Signoret, José Ferrer (todos já galardoados com um Óscar) e George Segal. A obra de Stanley Kramer foi nomeada para oito estatuetas, vencendo duas. É um filme importante na sua carreira, mas Lee surge pouco tempo no ecrã. Foi no set de Ship of Fools que Marvin conheceu Michelle Triola com quem viveria durante os cinco anos seguintes.

3. The Professionals (Os Profissionais), de 1966, foi o regresso à aventura e à ação, tornando-se no maior sucesso de Lee Marvin até então. Neste grande êxito de bilheteira, Lee interpreta ‘Fardan’, especialista em armamento e líder de um grupo de quatro heróis que aceitam a missão de salvar a esposa de um milionário. Novamente acompanhado por grandes atores como Burt Lancaster (um pouco desiludido com o protagonismo de Marvin), Robert Ryan, Jack Palance, Claudia Cardinale e Ralph Bellamy, Lee parte para o México, no cativante filme de Richard Brooks, bem escrito, interpretado e realizado. The Professionals tornou-se no western mais popular em meados dos anos 60, apesar de a Columbia não achar que fizesse grande sucesso.

The Professionals.
The Professionals.

O primeiro encontro entre Lee Marvin e Richard Brooks correu assim, segundo o realizador: Marvin olhou com rudeza para ele e disse:

“Ouvi dizer que é difícil trabalhar contigo. És uma espécie de duro, é isso?” “Não, mas tenho a minha maneira de trabalhar e se quiseres colaborar, ótimo. Se não quiseres, diz e pára com esses joguinhos, porque não tenho tempo a perder.” “Não, eu quero entrar. O que faço? O papel de um dos fantoches?” “Não”, respondeu Brooks. “Não és fantoche, és o tipo que dá as ordens.” “Gosto disso”, retorquiu Marvin. “E a quem as dou?” “A Burt Lancaster, para começar.”

Brooks comenta: “Isto acalmou-o. Ele tinha aquela voz maravilhosa e uma presença fantástica, mas, no fundo, sentia-se inseguro, como se pensasse, ‘vocês querem mesmo que eu entre no filme?’ Só recentemente deixara de fazer papéis secundários, pelo que encarava a situação com algum cinismo.”

Foi o primeiro western a conter nudez (que mal se vê), e a presença de Cardinale contrasta de modo interessante e sexy com a rudeza dos pistoleiros. A atriz, nervosa, nunca montara a cavalo antes deste filme, e foi Marvin que lhe ensinou a fazê-lo de forma realista e confortável. Lee é quem surge mais tempo no ecrã, mas é o que fala menos, um estilo que seria desenvolvido e supostamente criado por Clint Eastwood.

Roubando o protagonismo a Burt Lancaster e Claudia Cardinale.
Roubando o protagonismo a Burt Lancaster e Claudia Cardinale.

É ‘Fardan’ que toma as decisões estratégicas, com inteligência e argúcia: Quando apontam para uma foto sua num jornal e dizem, “o teu cabelo era mais escuro, nesta altura”, ‘Fardan’ responde, “o meu coração era mais leve”. Quando ‘Grant’ lhe chama “bastardo” no final, ‘Fardan’ riposta polidamente com “no meu caso, foi um infeliz acidente de nascença, mas o senhor é um self-made man”.

Este estilo autoritário mas retraído e distanciado tornar-se-ia a imagem de marca de Lee Marvin nos seus filmes seguintes. Um crítico descreveu-o como “uma cobra enrolada, pronta a atacar, apenas aguardando a provocação”. O filme não obteve críticas consensuais, com a viperina Pauline Kael a escrever que “tem a perícia de uma prostituta velha e fria, com mãos hábeis e sem ideias amorosas”.

Por outro lado, a Newsweek elogiou-o, bem como Phil Hardy, na sua Western Film Encyclopedia: “Um filme mais complexo do que a sua trama aventureira pode insinuar.” Tanto o realizador como o diretor de fotografia foram nomeados pela Academia pelo seu notável trabalho. Em suma, Lee Marvin cinco estrelas. Tal como…

'Major Reisman' em Doze Indomáveis Patifes (1967)..
‘Major Reisman’ em Doze Indomáveis Patifes (1967).

4. The Dirty Dozen (Doze Indomáveis Patifes). Lee soma e segue no papel com o qual mais seria identificado e que é também o mais recordado: O de ‘Major John Reisman’, um oficial rebelde que diz o que pensa, ao qual é dada a missão de treinar 12 prisioneiros militares, condenados à morte ou a longas penas, para seguidamente os liderar numa missão suicida atrás das linhas alemãs.

Hoje, The Dirty Dozen é um dos grandes clássicos de ação dos anos 60 e, no seu elenco, encontramos outros nomes amados pelo público: Ernest Borgnine, Charles Bronson, Jim Brown, John Cassavetes (nomeado para um Óscar por este trabalho), Robert Ryan, Telly Savalas e Donald Sutherland.

“Este plano de usar prisioneiros confirma uma suspeita que já tenho há bastante tempo”, diz ‘Reisman’. “Um dos oficiais ao comando desta operação é um doido varrido”. Para o Major, a autoridade não merece confiança, é estúpida. A missão não lhe agrada. No clima social que se vivia nos EUA, o filme foi um grande sucesso. Travava-se a Guerra do Vietname e havia um sentimento anti-autoridade, pelo que The Dirty Dozen encontrou eco no público. O sofrimento humano, o desprezo pela vida no caos da batalha, à mercê, muitas vezes, de atos da autoridade, é o tema do filme, embora estejamos a falar de entretenimento e não haja grande mensagem social na película.

Lee Marvin afirmou que o papel foi o melhor que lhe pediram para representar. Não iria a tal extremo, mas é o mais memorável para o público em geral. Não há uma única nota de falsidade na sua atuação, isso é certo, o que se deve, provavelmente, ao seu passado militar e desprezo pela autoridade. Doze Indomáveis Patifes foi o êxito cinematográfico do ano e transformou Lee Marvin no ator mais popular dos EUA. Nomeado para quatro Óscares, ainda hoje é adorado por várias gerações de cinéfilos e apreciadores de cinema.

5. Point Blank (À Queima Roupa): Por esta altura, ninguém conseguia travar Lee Marvin. Quando trabalhava em The Dirty Dozen, o ator foi abordado por um jovem realizador britânico, John Boorman, que lhe disse ter em mente um projeto para ele. Deram-se bem, e Marvin concordou de imediato. Tratava-se da adaptação de um romance de Richard Stark, The Hunter. A MGM questionou as credenciais do inexperiente Boorman, alegando que não podia dirigir a maior estrela da América. A personalidade forte de Lee veio novamente à tona. Disse aos executivos que não trabalharia com nenhum outro realizador. Os dois ficaram amigos para toda a vida, e colaborariam novamente logo após Point Blank.

Point Blank seria alvo de um remake bastante original, Payback com Mel Gibson.
Point Blank seria alvo de um remake bastante original, Payback com Mel Gibson.

O filme é uma história de vingança, em que ‘Mal Reese’ (John Vernon) pede ajuda a ‘Walker’ (Marvin), para um simples roubo. Durante o assalto, na Ilha de Alcatraz, ‘Reese’ trai ‘Walker’, alvejando-o, deixando-o moribundo e fugindo com a sua esposa, com a qual já tinha um caso. ‘Walker’ “renasce” do mundo dos mortos e consegue nadar até à costa, pela baía de São Francisco. Depois de recuperado, começa a pensar na vingança e em receber a sua fatia do dinheiro do assalto.

Há quem considere este policial como a busca de um homem pela fonte da sua infelicidade. Um crítico, David Thomson viu, no sonho moribundo de Walker, a sua fantasia vingativa, já que seria difícil para um homem seriamente ferido, vencer as fortes correntes da baía. Seja como for, o frio ‘Walker’ acaba por exterminar vários mafiosos, numa obra filmada com toques de psicadelismo, entre o suspense e o thriller, criando um estilo que seria copiado em filmes subsequentes.

Boorman emprega a música, os silêncios e os efeitos sonoros de maneira invulgar, criando um ambiente de tensão permanente. Uma das críticas mais comuns a Point Blank consiste no facto de ser demasiado estilizado. Para alguns, Boorman abusou nessa parte.

Só a ganância e o instinto de sobrevivência movem os personagens. O tom não é hollywoodesco, mas sim, bastante soturno. Quando vemos Marvin aproximar-se, com apenas o som dos seus passos a ecoar, percebemos que nada irá deter este homem. Neste aspeto, o papel serve a Lee Marvin como uma luva; poucas falas e um contido instinto brutal. O elenco também é excelente: Para além do estreante John Vernon, temos Carroll O’Connor (o ‘Archie Bunker’ de All in the Family) e Angie Dickinson, contracenando com Marvin pela segunda vez e a sobressair pela sua vitalidade e talento, em vez da sua beleza, como costumava suceder.

Lee Marvin gostava de ser um freelancer no meio, sem se comprometer com nenhum estúdio em particular. E também não se queria repetir. Recusou participar em The Wild Bunch (A Quadrilha Selvagem) de Sam Peckinpah, por exemplo, achando-o demasiado parecido com The Professionals. Point Blank conquistou a admiração dos críticos, mas a fraca aceitação do público provocou um passo atrás na carreira de Marvin, embora a sua reputação permanecesse intacta.

6. Hell in the Pacific (Inferno no Pacífico). Em 1968, novamente sob a direção de John Boorman, com quem gostara imenso de trabalhar, Lee aceita o papel de um soldado americano sem nome, na obra mais bizarra da sua filmografia. No filme só participa outro ator, o lendário Toshirô Mifune, como o soldado japonês. O papel obrigou Marvin a enfrentar as suas memórias da II Guerra Mundial.

Marvin com John Boorman e Toshirô Mifune.
Marvin com John Boorman e Toshirô Mifune.

Estes dois soldados vão parar a uma ilha do sul do Pacífico e têm de se confrontar e levar a melhor, embora pertençam a exércitos inimigos. Hell in the Pacific contém muito poucas falas e baseia-se na interação entre Marvin e Mifune, com cada um a falar o seu idioma. Mifune fala em japonês e não foram adicionadas legendas, o que exige ainda mais dos atores. Os seres humanos têm de colaborar para sobreviver, independentemente daquilo que os distingue, seja a nacionalidade, raça ou política, tal como os protagonistas acabam por ter de unir esforços para conseguirem fugir da ilha e da morte certa.

Escolhi este filme por ser intrigante, inteligente e também corajoso. Boorman prestou atenção a todos os detalhes. Filmou nas Ilhas Carolinas, na Micronésia, arquipélago a nordeste da Nova Guiné. Tecnicamente, também é uma obra conseguida, com uma fotografia exemplar.

Mas os estúdios tinham de interferir face ao caráter invulgar de Hell in the Pacific, pelo que foram filmados dois finais. O de Boorman, em que ambos os homens se separam pacificamente, e o que se impôs, infelizmente: Durante uma discussão entre ambos, há uma explosão, vinda sabe-se lá donde, que os mata a ambos. Ora, esta decisão dos estúdios foi atroz e retirou o impacto a uma obra com uma mensagem realmente forte, transmitida de modo original. Como não havia suficiente violência, os executivos acharam que uma bomba seria bom…

Durante as filmagens, Lee Marvin reviveu os seus tempos da guerra, em que combateu no Pacífico Sul, justamente. Eram memórias que não vinham à superfície há 23 anos – as campanhas em Kwajalein, Eniwetok e Saipan, onde foi ferido. A partir desta fase, Marvin interessou-se pela zona, começou a dedicar-se à pesca em alto mar e a viajar com mais frequência. Fisicamente, as filmagens de Hell in the Pacific foram esgotantes, com o ator a perder 10 quilos.

De acordo com John Boorman:

“Reviver essa fase da sua vida despoletou uma crise em Lee. Os produtores queriam que ele matasse Mifune no final. E talvez fosse isso o que o público queria também. Mas eu recusei. Tudo o que Lee era – a sua violência, o seu instinto assassino – faziam com que quisesse matar Mifune. Termos filmado a sequência pacífica que concluiu [originalmente] o filme, foi uma espécie de catarse para ele. Lee disse-me: ‘Estou farto de matar pessoas para satisfazer milhões de espectadores. A partir de agora, eles que se matem uns aos outros.’” O próprio Marvin afirmou publicamente: “A história é acerca de dois homens que não se conseguem matar um ao outro.”

Estreado em novembro de 1968 e relançado, em mais cinemas, em março de 1969, Hell in the Pacific obteve algumas críticas positivas, que realçaram a mensagem alegórica. Infelizmente, nunca encontrou um público devido à sua estrutura; duas personagens, poucos diálogos e fim derrotista. Não era comercialmente viável. Poucos viram o filme. Encontra-se editado em DVD e aconselha-se vivamente.

David Furtado

(Os restantes seis filmes serão analisados no próximo artigo.)

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2 Comments Add yours

  1. José roberto gomes da fonseca diz:

    Lee Marvin was one of the best movie star who I never had seen before when I was a teen. A few amount of actors in the world had, have or will have performances like him.

    1. Same here. He could give most actors lessons nowadays. And he was (almost) always the villain on the screen. Spent about 20 years doing that, and worked with very talented people while he was learning the ropes.

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