Sylvia Plath: Três poemas

Por sugestão de um leitor, o André, admirador de Sylvia Plath, coloco aqui os três poemas que ele me pediu: «Two Views of a Cadaver Room», «Suicide Off Egg Rock» e «The Stones». A tradução para português é da minha autoria, mas não posso publicar o livro inteiro, THE COLOSSUS and other poems. Antes das traduções, há que abrir um parêntesis…

sylvia plath 4

A nível de tradução, a poesia é das tarefas mais complicadas; é ingrata e não faz muito sentido. É como se traduzíssemos a letra de uma canção para português ou ouvíssemos ópera em português. Portanto, antes de me empenhar neste trabalho, li uma biografia de Sylvia Plath e outro livro que analisa a sua obra ao pormenor.

Não me bastou ler os poemas – alguns não compreendi à primeira –, também quis saber em que contexto foi escrito cada um, quais as interpretações que sugere, qual era o estado de espírito de Sylvia Plath. Quanto tempo demorou este? Foi escrito à máquina ou à mão? Caso contrário, estaria a empilhar frases, umas em cima das outras. E, por acaso, vi exemplos disso mesmo; tradutores sem qualquer noção de… nada a empilharem frases. Fiquei espantado: Como é que um editor autoriza a publicação de semelhante atrocidade que até fere os ouvidos?

sylvia plath 5Plath, tal como Anne Sexton, não está sequer no planeta dos indivíduos que amontoam palavras desconexas e, como ninguém percebe, aplaude! Ao traduzi-las, temos de jogar com as rimas, a métrica, a pontuação, todos esses detalhes infindáveis e, muitas vezes, sacrificar a rima em prol do significado; há que conferir uma melodia semelhante ao original. A poesia foi definida como “as melhores palavras na melhor ordem”. Nesse sentido, o tradutor é, real e literalmente, um traidor. Por isso, estas traduções acabam por ser “versões” dos originais. Tem de se pensar em inglês, ler em voz alta em inglês e, repetidamente, pensar em português e ler em voz alta em português para não se desvirtuar o original.

Quando comecei, determinei-me ingenuamente em traduzir um poema por dia. Impossível. Passei dias com frases e foi como desatar um nó cego, juntar as peças de um puzzle. Um desafio. Só traduzi dois livros de poemas, Colossus e outro de Anne Sexton. Não inseri aqui os textos em inglês, mas julgo que poderão ser encontrados na Internet, caso se queira comparar. Por mim, só tenho a dizer que dei o meu melhor. Qualquer crítica é bem-vinda.

(A análise destes poemas e uma pequena biografia da autora: «Sylvia Plath: Lótus entre as labaredas».)

Dois Panoramas de uma Sala de Cadáveres

1

No dia em que ela visitou a sala dos dissecados
Eles tinham estendido quatro homens, negros como peru queimado,
Já meio decompostos. Um vapor avinagrado
Dos tonéis da morte prendia-se a eles;
Os rapazes de bata branca começaram o trabalho.
A cabeça de um cadáver ruiu,
E ela mal distinguiu algo,
naquele cascalho de placas cranianas e cabedal coçado.
Que um pedaço amarelento de corda atava.

Nos seus frascos, os bebés com narizes de caracol brilham, com ar imaginário.
Ele mostra-lhe o coração insensível como um bem fendido e hereditário.

2

No panorama de Brueghel (1), de fumo e carnificina
Há só duas pessoas cegas face à tropa de carne putrefacta:
Ele, boiando no mar da saia de cetim azul
Dela, canta na direção
Do ombro nu dela, enquanto ela se curva,
Folheando uma pauta de música, sobre ele,
Ambos surdos, face ao violino nas mãos
Do crânio que lhes ensombra a canção.
Estes amantes flamengos florescem; mas por muito tempo, não.

Ainda assim, o desalento, atolado em tinta, poupa
a pequena paisagem campestre
Tola, delicada, no canto inferior direito.

(1) O quadro referido é O Triunfo da Morte de Pieter Brueghel (1562):

sylvia plath cape cod
Sylvia Plath em Cape Cod.

Suicídio em Egg Rock

Atrás dele os cachorros quentes abriam-se e crepitavam
Nas grelhas públicas, e os ocreosos andares cor de sal,
Tanques de gasolina, montes de fábricas – aquela paisagem
De imperfeições que as suas entranhas integravam –
Encrespava-se e pulsava no ascendente e vítreo vento.
O sol batia na água como uma maldição.
Nenhum poço de sombras para o qual rastejar,
E o seu sangue emitindo o velho tamborilar
Eu sou, eu sou, eu sou. Crianças
Guinchavam onde vagas ondulantes se desfaziam e a
espuma soprada
Se emaranhava, ripada pelo vento na crista da onda.
Um rafeiro de patas galopantes
Expulsou um bando de gaivotas que esvoaçaram para longe do pontão de areia.

Ele, latente, como se completamente surdo, de olhos vendados,
O seu corpo, uma praia onde dava o lixo do mar,
Uma máquina para respirar e pulsar eternamente.
Moscas entrando em fila pela órbita de uma raia morta
Zumbiam, assaltavam a abobadada câmara cerebral.
As palavras no seu livro rastejaram como vermes das páginas.
Tudo cintilava como papel em branco.

Tudo se encolhia aos raios corrosivos do
Sol, salvo Egg Rock na decadência azul.
Ele ouviu o seu caminhar água adentro

As rebentações quase esquecidas, natas naqueles recifes.

sylvia plath poems

As Pedras

Esta é a cidade onde os homens se consertam.
Repouso num grande leito.
O raso e azul círculo celeste

Voou como o chapéu de uma boneca
Quando abandonei a luz. Entrei
No estômago da indiferença, o armário mudo.

O maior dos almofarizes diminuiu-me.
Tornei-me num seixo imóvel.
As pedras da barriga estavam tranquilas,

A lápide (2) serena, nada a perturbava.
Só a abertura da boca (3) sibilava,
Grilo inoportuno

Numa pedreira de silêncios.
As pessoas da cidade ouviram-no.
Procuraram as pedras, taciturnas e separadas,

A abertura da boca gritava as localizações.
Ébria como um feto
Sugo a polpa das trevas.

Os tubos de alimentação abraçam-me. Esponjas beijam-me e retiram-me os líquenes.
O joalheiro manuseia o cinzel, descerra
E força a abertura de um olho de pedra.

Isto é o pós-inferno: vejo a luz.
Um vento abre a câmara
Do ouvido, esse velho preocupado.

Água apazigua o lábio de sílex,
E a luz do dia derrama a sua monotonia na parede.
Os enxertadores estão alegres,

Aquecendo as tenazes, içando os delicados martelos.
Uma corrente agita os fios
Volt após volt. Pontos remendam-me as fissuras.

Um operário passa trazendo um torso róseo.
Corações enchem os armazéns.
Esta é a cidade das peças sobresselentes.

As minhas pernas e braços enfaixados emanam um doce cheiro a borracha.
Aqui eles recompõem cabeças ou qualquer membro.
Às sextas, as crianças vêm

Trocar os seus ganchos por mãos.
Os mortos deixam olhos para outros.
O amor é o uniforme da minha enfermeira calva.

O amor é o osso e tendão da minha praga.
O vaso, reconstruído, abriga
A rosa esquiva.

Dez dedos moldam uma taça para sombras.
Os meus remendos fazem comichão. Não se pode fazer nada, incomoda, mas
Ficarei como nova.

(2) Trocadilho: head-stone significa lápide e Plath também insinua, “cabeça de pedra”.
(3) Literalmente, é a abertura da boca numa máscara (mouth-hole).

David Furtado

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6 Comments Add yours

  1. André diz:

    Obrigado, gostei muito dos poemas. E gostei das ilustrações que usou. A frase Eu sou, eu sou, eu sou tambem se encontra n’ A Campanula de Vidro.

  2. Ainda bem que gostou. As imagens também não foram escolhidas ao acaso.

  3. Lena diz:

    Gostei muitíssimo da tua tradução. É um Poema!

    1. Obrigado. Fiz o que pude por traduzir o talento de Sylvia Plath para outro idioma. Mas acho o teor destes três bastante mórbido. Não são dos meus preferidos, excetuando «As Pedras». A escolha não foi minha. Mas obrigado pelo comentário!

  4. Lena diz:

    Este comentário foi especialmente para o Poema «As Pedras».Está excelnte!

    1. Obrigado, mjhelenac :). É um grande incentivo que agradeço.

Comentários:

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