John Cassavetes: Diz o que és, sê o que és, isso basta

john cassavetes diz o que ésEste “discurso” de John Cassavetes foi proferido numa conferência de imprensa televisiva destinada a promover Opening Night (Noite de Estreia) em 1977. Começa com serenidade e rapidamente descamba numa diatribe. Uma das verdadeiras figuras do cinema, que “não tinha um só osso de copycat no seu corpo”, segundo Peter Falk, Cassavetes, ao lado dos atores do filme – como a sua esposa, Gena Rowlands –, dispara em todas as direções. Este segmento foi cortado. O discurso do ator/realizador é tão certeiro, genuíno, cortante e politicamente incorreto… Além disso, Opening Night é, tal como ele diz, um filme fantástico. Admiro este homem pela sua brutal coragem artística e pelo que ele aqui afirma. E lembro-me dele quando vejo “os filmes em cartaz”.

Diz o que és. Não aquilo que gostarias de ser. Não aquilo que tens de ser. Diz apenas o que és. E o que és é suficientemente bom.

O filme chama-se Opening Night. Na verdade, uma das coisas que me agradou acerca do filme, além das representações maravilhosas, é o facto de a outra personagem na peça, a personagem mais importante da peça, ser o público. E… quando o filme está cheio de pessoas e elas começam a reagir, e eu estava sentado na fila de trás do cinema, a observar o público… e, quando o cinema esta cheio, a reação do público no teatro, que surge no filme, foi exatamente a mesma reação do público no dia em que filmámos.

E é tão emocionante para mim ver que não o fingimos, e um público pode reagir por si mesmo, neste filme. Eles não estão bloqueados, não são tratados como crianças de dois anos. É-lhes permitido ver a mecânica das pessoas do teatro tal como são, não como foram retratadas anteriormente.

Esta é uma atriz e artista [apontando para Gena Rowlands], que está, talvez mais obcecada com o processo criativo do que outra pessoa qualquer no filme. Ben [Gazzara] interpreta o encenador, Paul é o produtor, Joan Blondell é a dramaturga, e eu sou apenas mais um ator. Seymour [Cassell] surge como si próprio, e Peter Falk é Peter Falk [‘E Bogdanovich’, diz alguém]… sim, e Peter.

john cassavetes diz o que és (7)

E outras pessoas entram. Mas a única pessoa que está obcecada e errada é uma profissional, que diz, ‘quero fazer o meu trabalho, o melhor que puder’. E dizem-lhe que não, por causa da sociedade, dizem-lhe que será despedida, que é demasiado velha… surge o tema da idade. E é uma verdade, a idade é uma verdade. E ela fica confundida, e examina isso, e é uma das melhores pessoas que vi na minha vida.

john cassavetes diz o que és (6)E andamos de um lado para o outro entre as nossas vidas no ecrã, a teatralidade envolvida… e a bênção de nos expressarmos a nós mesmos. Não me envergonho disso, acho que é maravilhoso expressarmo-nos.

Quando começámos este filme, eu tinha medo dele, porque pensava que ninguém está realmente interessado nos atores e por aquilo que passam realmente, se o expusermos de modo certeiro.

Olho para o público que se interessa por este filme e não me interessa donde vem; a audiência está interessada neste filme porque se interessa pela teatralidade, porque quase toda a gente quer ser engraçada… quase todos querem ser dramáticos, quase todos querem ser melhores do que os outros.

Para mim, é o melhor filme em que estive envolvido. Adoro este filme e acho que todos o deviam ver e não virão pessoas suficientes. Digo-vos que não irão ver algo estúpido, irão ver algo que desafia a sua própria inteligência e que lhes desperta as emoções. E gosto, gosto desse filme, e nunca pedi a ninguém para ir ver um filme, mas quero ver filas à volta do quarteirão amanhã! A sério.

Porque esta cidade é estúpida! No sentido em que é, talvez, uma das maiores cidades do mundo, é preguiçosa, é malcriada, é tão mariquinhas na sua mentalidade; alinha tanto com tudo aquilo que está na berra, é propriedade de corporações, é uma cidade cuja dona é Hollywood… e é altura de crescer! É altura de pegar na Arte e dizer, ‘anda lá, querida, mostra-me alguma coisa!’

E nós estamos a mostrar-lhe alguma coisa. E não há muita gente que mostre algo de jeito. E não há muita gente que arrisque a pele, hoje em dia, porque todos têm medo.

john cassavetes diz o que és (1)
O que todos querem é viver e amar com algum sentimento de paz. (…) O resto não me interessa. Tenho uma ideia fixa, só isso me interessa, o amor.

Fazemo-lo por vocês! E digo-vos que vão assistir às maiores atuações… e falo de Paul, Gena, Seymour, eu, todos. E estou farto! Estou farto que isto seja uma cidade tão mariquinhas que só vai ver algo que será um sucesso, algo que as corporações dizem ser fantástico. E digo que temos uma coisa muito melhor. Tão maravilhosa! Que será um privilégio para vós, verem este filme.

Estou farto! Por haver semelhante bando de mariquinhas neste mundo, que não vão ver algo de maravilhoso. E eles ouvem dizer que é maravilhoso! E outras pessoas dizem-lhes que é maravilhoso, mas [com ironia] ‘será que vai ser um sucesso?’ Eu não quero saber se vai ser um sucesso, quero que esses imbecis vão lá para verem este filme, porque verão o que sempre quiseram ser, ou seja, serem teatrais, serem fantásticos, serem amados… serem amigos de alguém. Terem algo de mais caloroso nas suas vidas. E verem alguém que tem mais coragem que eles. E serem inspirados por pessoas.

John Cassavetes at Beverly Hill Hotel - February 17, 1977E não me envergonho, realmente odeio este disparate, ‘mata alguém, dá-lhe um tiro na cabeça’, o sangue esguicha, que maravilha, não? Odeio isso! Odeio-o! E sinto-me triste por toda a juventude que tem de ser obrigada a ver essas coisas, sinto-me enojado e triste, pois eles não têm para onde se virar.

E vamos mostrar-lhes… não digo que somos sobre-humanos… mas somos apenas pessoas fantásticas, fantásticas! Somos sensacionais, somos melhores que todos esses tipos que roubam às corporações, que assumem e dizem ‘vamos roubar’, não me interessa, pá! Não me interessa, é nojento! Estou farto desses disparates!

Preocupo-me mais com os jovens deste mundo, acredito realmente neles, acho que são fabulosos quando ninguém lhes aponta o caminho! E são um rebanho de ovelhas. E digo-vos… eles vão para aqui, ‘não presta’, vão para ali, ‘não presta’, ‘é maravilhoso’, ‘vamos para aqui’!

Este filme é extraordinário, toda a gente o devia ver, e todas as mães deviam levar o seu filho… e todos deviam ver este filme! Porque é melhor que tudo o que está em cartaz! E é assim mesmo. Desculpem, queridos, é assim mesmo.

[Pergunta inaudível.]

Tenho muito orgulho, consigo assistir a este filme 500 vezes porque estou a assistir a algo absolutamente belo e inspirador. E acho isso importante. E todos fizeram… um amor, deus, religião, a revista Time teve a audácia de matar Deus, essa gente anda a chafurdar, e caminham por todo o mundo sem nada nas suas vidas, apenas porque… não são liderados por alguém com o mínimo de responsabilidade. E eu não quero liderar ninguém, ele lidera, ela lidera, vamos todos e arriscamos ao expressarmo-nos a nós próprios… esperando que alguém reconheça essa expressão. E não quero saber da CBS, da NBC, da ABC, a televisão é um lodo!

john cassavetes diz o que és (5)

[Risos e gargalhadas, embora Cassavetes permaneça sério. “Essa frase vai ficar para sempre!” “Já sabia que ias ficar sem fôlego.” “O fôlego, pois…”, diz John, mais descontraído.]

Chega? Já acabámos?…

David Furtado

Anúncios

Comentários:

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s