High Sierra por Marilyn Ann Moss

Mesmo nos filmes menos conhecidos de Raoul Walsh, nota-se algo de equiparável ao que Hemingway disse quando acabou de escrever um livro: “Só falta aquele pequeno milagre que temos de fazer no fim”, ou seja, rever e transformar uma narrativa numa obra intemporal. A impressão que me fica sempre é a seguinte: A montagem pode não ser exímia, o ritmo pode ter sido quebrado por qualquer interferência dos estúdios, mas Raoul Walsh fazia sempre esse pequeno milagre: Imprimia no seu trabalho uma marca pessoal, duradoura.

Bogart High Sierra publicity shot

Dos poucos filmes de Walsh que vi (realizou mais de 100), o meu favorito talvez seja High Sierra (O Último Refúgio) e, quando referi isso a Marilyn Ann Moss, a biógrafa de Walsh disse-me o mesmo. Perguntei-lhe por que motivo um leigo, no que toca a Walsh, acaba por ter a mesma opinião de alguém que estudou a fundo a obra do realizador e a ensina.

Seguem-se as opiniões de Marilyn Ann Moss, que novamente colaborou com o Wand’rin’ Star.

High Sierra (2)Certa vez, disse-me que High Sierra era o seu filme favorito de Walsh. Porquê? Recorda-se de quando o viu pela primeira vez? Qual foi a sua reação nessa altura?

White Heat (Fúria Sanguinária) continua a ser um favorito meu devido à sua energia imparável, à sua masculinidade e ao facto de Cagney parecer estar a divertir-se com o género com o qual é tão associado. Mas High Sierra é, sem comparação possível, o filme mais comovente de Walsh, excetuando Regeneration (Regeneração) e What Price Glory? (O Preço da Glória), que andam muito perto, num segundo lugar.

High Sierra está repleto do tipo de personagens que Walsh melhor conhecia: Os rejeitados, os que têm pouco tempo, os desesperados, os sombrios, os amaldiçoados. E são personagens sentidas, é tão fácil identificarmo-nos com elas. Quando o vi, pela primeira vez, fiquei estupefacta com a atuação de Ida Lupino, tão íntima… desesperada, mas, apesar disso, generosa.

O filme sobreviveu ao teste do tempo. Acha que foi uma combinação de fatores? Argumento, o ator certo?…

Sim, suportou o teste do tempo. E sim, deve-se à combinação de um argumento duro mas emotivo, guiado pelos personagens, em vez de ser conduzido pela ação, quase. Os atores foram as escolhas certas para representarem pessoas vulneráveis mas duras, em simultâneo.

Bogart and Ida Lupino.
Bogart and Ida Lupino.

Mostrou este filme aos seus alunos. Em que disciplina? Relatou-me que foi o filme que mais lhes agradou, de longe. Porquê? O que disseram sobre ele?

high sierra marilyn mossEnsino História do Cinema a jovens em início da faculdade. Muitos deles estudam para seguirem o caminho das artes e espetáculos. Portanto, é particularmente gratificante vê-los reagir de modo tão positivo a High Sierra. Disseram-me que ficaram muito tocados pelos sentimentos que os personagens demonstram uns pelos outros, pelo grande coração de ‘Roy’ (apesar da sua fachada rude) e pelo modo como os personagens os atraíram, e também pelo facto de não parecerem bidimensionais, mas muito mais desenvolvidos.

Concorda com esta afirmação de Richard Schickel (não sei se concordo…) “oficialmente falando, Raoul Walsh foi o homem esquecido de Hollywood”?

Não, não concordo com essa afirmação de Richard Schickel. Muitos dos seus pares não estão familiarizados com o público que vai aos cinemas, mas, para os amantes de cinema e historiadores de cinema, Walsh é tão lembrado e reverenciado como Ford, Hawks, Huston e todos eles.

David Furtado

Um agradecimento especial a Marilyn Ann Moss.

Anúncios

Comentários:

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s