Charles Chaplin morreu há 35 anos: A Bengala que Afastava a Melancolia

O dia de Natal de 1977 foi triste para o cinema. Charles Chaplin morreu em Vevey, na Suíça. Génio multifacetado, equiparado a Shakespeare e admirado por Freud e Einstein, criou a imagem mais identificável do século XX; deu o nome a cinemas, vemos a imagem do vagabundo que criou em posters, t-shirts, na Internet; está omnipresente. Chaplin perdurou porque nos faz chorar enquanto nos faz rir e nos mostra as nossas contradições. Acima de tudo, parece dizer-nos que não estamos sozinhos nos nossos problemas nem nas nossas alegrias.

City Lights chaplin

As palavras são baratas. A maior coisa que conseguimos dizer é ‘elefante’.

É comovente sem ser xaroposo, é crítico sem ser político. É amargurado mas cheio de esperança. Ao contrário do que se poderia supor, Charles Chaplin não era um homem divertido. Marlon Brando chegou a apelidá-lo de cruel, relembrando que um artista tem de ser visto a uma luz diferente da sua obra. Possuía um feitio reservado e teve uma infância miserável.

Chaplin era uma pessoa curiosa – percebia o que fazia as pessoas rir e o que as fazia chorar; misturava as duas coisas e o resultado era um vagabundo digno, como um gato que tropeça acidentalmente e ergue a cabeça. Foi sobretudo a dignidade que tornou a personagem de ‘Charlot’ (The Tramp, o Vagabundo) num ícone.

Resistia à autoridade, apaixonava-se e desiludia-se, dava um pontapé no traseiro aos agentes da autoridade e baloiçava a bengala seguindo o seu caminho, rumo a dias melhores. Nos “tempos modernos”, os seus filmes mudos parecem tão antigos como a natureza humana, daí a sua intemporalidade. O vagabundo dá-nos um espelho e rimo-nos porque identificamos as nossas fraquezas dissimuladas e os paradoxos da nossa natureza.

“ACREDITO NO DESCONHECIDO”

Na sua autobiografia, Chaplin analisa os mecanismos da comédia e do drama, estabelecendo um paralelo com a situação trágica da humanidade. Não é de estranhar, para quem dizia estar em paz com Deus. “O meu conflito é com o Homem.”:

“Na criação da comédia, é paradoxal que a tragédia estimule o espírito do ridículo; já que o ridículo, penso eu, é uma atitude de desafio: Temos de rir face ao nosso desamparo à mercê das leis da Natureza, ou enlouquecemos.”

Intercalando as alegrias e desilusões da sua vida com reflexões de teor filosófico, são várias as passagens acerca da vida e da morte:

“Uma vez, numa campa no Sul de França, vi a fotografia de uma rapariga sorridente e, por baixo, a palavra ‘porquê?’. Perante a confusão de tanta angústia, é fútil procurar uma resposta. Só conduz a falsos moralismos e ao tormento. Mas não quer dizer que não haja resposta. Não posso acreditar que a nossa existência seja fútil ou acidental, como alguns cientistas nos dirão. A vida e a morte são demasiado resolutas, demasiado implacáveis para serem acidentais.”

Assim, Chaplin dizia ter fé no desconhecido, em tudo o que não apreendemos através da razão. “Acredito que aquilo que está além da nossa compreensão, consiste num facto simples, noutras dimensões, e que, no reino do desconhecido, existe uma capacidade infinita para o bem.”

Chaplin achava que o drama e o humor são praticamente a mesma coisa: “O meu conceito de humor reside na subtil discrepância que discernimos no que parece ser um comportamento normal. Por outras palavras, através do humor, vemos, no que parece racional, o irracional; no que parece importante, o que é frívolo. Também eleva o nosso instinto de sobrevivência e preserva a nossa sanidade. Devido ao humor, ficamos menos oprimidos pelas adversidades da vida. Ativa o nosso sentido das proporções e revela-nos que, numa afirmação exagerada de seriedade, se esconde o absurdo.”

O ator e realizador considerava o comportamento humano tão inexplicável como a própria vida.

“Não tive de ler livros para saber que o tema da vida é o conflito e a dor. Instintivamente, toda a minha pantomina se baseou nisto. A minha forma de desencantar enredos cómicos era simples. Consistia no processo de meter e tirar pessoas de sarilhos.”

(A forma como Chaplin criou o personagem foi descrita noutro artigo deste site.)

Charles ChaplinA VIAGEM PARA O SUCESSO

O vagabundo tornou-o extremamente popular numa das épocas mais solitárias da sua vida. “A solidão é repelente. Possui uma aura subtil de tristeza, uma incapacidade de atrair ou interessar; sentimo-nos vagamente envergonhados dela. Mas, ao mesmo tempo, é a situação com que todos nos confrontamos. Mas a minha solidão era frustrante porque eu tinha todos os requisitos para fazer amigos; era jovem, rico e célebre e, no entanto, vagueava por Nova Iorque sozinho e embaraçado.”

Quando Josie Collins, uma estrela dos musicais, o encontrou na Quinta Avenida, surpreendeu-se ao ver o famoso Charlie Chaplin com um ar tão tristonho e desamparado. Este, sentindo-se como se tivesse cometido um delito menor, sorriu, disfarçou e disse que ia almoçar com uns amigos. “Mas gostaria de lhe ter dito a verdade. Que me sentia sozinho e que adorava ir almoçar com ela. A minha timidez impediu-o.”

O sucesso deixou-o completamente desconcertado. Quando fez uma viagem de comboio entre Los Angeles e Nova Iorque, espalhou-se a notícia de que viajava a bordo. Em todas as estações, barreiras policiais tentavam controlar a multidão que esperava ver Charlie em pessoa. Gritavam o seu nome e, em cada paragem, o ator tinha de trepar para o cimo de um dos vagões para ser aclamado.

Entre Kansas City e Chicago, as pessoas reuniram-se nos campos, nas intersecções da via-férrea, e Chaplin, cada vez mais tenso, já não sabia lidar com a situação.

“Queria usufruir de tudo aquilo sem reservas, mas não parava de pensar que o mundo enlouquecera! Se meia dúzia de comédias baratas geravam tanto frenesim, não havia algo de falso na celebridade? Sempre achara que ia apreciar a atenção do público, e cá estava ela… isolando-me, paradoxalmente, numa sensação deprimente de solidão.”

Quando chegou a Nova Iorque, uma multidão aguardava-o na Grand Central Station. Eram umas amargas luzes da ribalta:

“Como disse Hamlet: ‘Agora estou só.’ Nessa tarde, passeei pelas ruas, fiquei a olhar para montras e parei abstraído em esquinas. E agora, o que me acontece? Aqui estava eu no apogeu da minha carreira… todo bem vestido e sem ter para onde ir. Como é que conhecemos pessoas, pessoas interessantes? Parecia que todos me conheciam, mas eu não conhecia ninguém; tornei-me introspetivo, cheio de autocomiseração, e fiquei dominado pela melancolia.”

“Lembro-me de um comediante da Keystone me ter dito, ‘agora que chegámos, Charlie, o que faremos?’ ‘Chegámos onde?’ respondi eu.” Chaplin tentou ir tomar um café a Columbus Circle e correu tudo muito bem até que a empregada o reconheceu. Gerou-se uma reação em cadeia e o ator acabou por sair do café, abrindo caminho através de uma multidão assustadora, fugindo de táxi.

UM POETA NO EXÍLIO

Apesar de a criação de ‘Charlot’ ter sido aparentemente tão espontânea, a personagem está enraizada no passado traumático de Chaplin, que nasceu a 16 de abril de 1889, na East Street, em Walworth, Londres. Os pais eram ambos artistas do music-hall, e separaram-se antes de o filho fazer três anos. O pai viria a morrer de alcoolismo aos 37, e a mãe sofria de distúrbios psíquicos.

Charles e o seu irmão, Sidney, passaram grande parte da infância em orfanatos. Aos 10 anos, Charles dá início à sua carreira, atuando em representações teatrais de Sherlock Holmes. Torna-se membro da companhia de artistas de music-hall de Fred Karno, com quem faz digressões pelos Estados Unidos, entre 1910 e 1912. Em 1913, é recrutado pela Keystone Film Company e, na segunda das comédias que interpretou para a companhia, criou a personagem que o viria a tornar numa das personalidades mais amadas do cinema.

Chaplin and kid

Chaplin começou a realizar e a interpretar os seus próprios filmes. Em busca de maior independência e liberdade criativa, e de um salário melhor, transita para a Essanay, a Mutual e a First National. São desta época algumas das suas obras-primas, como O Garoto de Charlot (1921) ou curtas-metragens como No Ringue de Patinagem e O Imigrante. Em 1919, une esforços com Douglas Fairbanks, Mary Pickford e D.W. Griffith para fundar a United Artists, através da qual lançou muitos dos seus sucessos posteriores, como Opinião Pública, A Quimera do Ouro, O Circo, Luzes da Cidade, Tempos Modernos, O Grande Ditador e Luzes da Ribalta.

No final dos anos 40, Chaplin começa a ser importunado, devido a suspeições de que era um radical de esquerda. Vivia-se a Era de McCarthy e da “caça às bruxas”, durante a qual muitas personalidades do cinema foram perseguidas devido às suas opções políticas. Havia invejas e politiquices de Hollywood por detrás do assédio, e Chaplin teve de defender-se deste modo de um estranho interrogatório do Departamento de Imigração:

– Diz que nunca foi comunista?
– Nunca. Nunca me juntei a uma organização política em toda a vida.
– Fez um discurso em que empregou a palavra ‘camaradas’. O que quis dizer com isso?
– Exactamente isso. Veja no dicionário. Os comunistas não têm prioridade sobre a palavra.
– Alguma vez cometeu adultério?
– Se procura um pormenor técnico para me manter fora do país, diga-me, que trato dos meus assuntos, já que não quero ser persona non grata em lado nenhum.

UM HOMEM MONSTRUOSO

A partir de 1952, o actor estabelece-se na Europa, onde realiza o seu último filme, A Condessa de Hong Kong, com Marlon Brando, ator que mais tarde relembraria:

“Tentei fazer o papel, mas era um fantoche, uma marioneta. Não podia ser mais nada, porque Chaplin era um homem de considerável talento e não ia discutir com ele o que era ou não era engraçado. Não começámos muito bem. Fui a Londres para uma leitura do argumento, e Chaplin leu-o para nós. Eu estava com jet lag e adormeci durante a leitura. Foi terrível [risos]. Chaplin era um homem mau, era sádico. Vi-o a torturar o seu filho, a humilhá-lo, a insultá-lo, fazendo-o sentir-se ridículo e incompetente.”

Brando perguntou a Sidney (o filho) por que aturava aquilo. “Ele disse, ‘o pai está velho e nervoso, não faz mal.’ Mas isso não é desculpa.”

“Chaplin lembrava-me o que Churchill disse dos alemães, ou estão aos nossos pés ou a apertar-nos o pescoço. Ele tentou fazer o mesmo comigo e disse-lhe para não me falar em semelhante tom. Mas, com o talento de Chaplin, tínhamos de lhe dar o benefício da dúvida. Ainda assim, temos sempre de separar um homem talentoso da sua personalidade, não existe qualquer relação. Um talento notável, mas um homem monstruoso. Nem sequer gosto de pensar nisto.”

Em 1943, Chaplin casa com Oona O’Neill (filha do dramaturgo Eugene O’Neill) Era 36 anos mais velho do que ela, mas a união, nas palavras do próprio Chaplin, foi muito feliz e deu origem a oito filhos. A vida sentimental do actor tinha sido, até então, bastante atribulada, afligida por divórcios, processos de paternidade e tantos problemas que o seu cabelo ficou prematuramente branco.

A atitude dos Estados Unidos provocara nele uma grande amargura. A diferença de idades no seu casamento (Oona tinha 17 anos quando casou com Chaplin) terá sido outro motivo das perseguições que sofreu.

“Se regressava ou não àquele país infeliz, pouco me importava. Mais valia ter-lhes dito que, quanto mais depressa me livrasse daquela atmosfera carregada de ódio, melhor. Estava farto dos insultos e da pompa moral da América.”

Em 1972, regressa por algum tempo aos EUA para receber um Óscar honorário que tornou a cerimónia de entrega dos galardões num momento histórico: Hollywood e os Estados Unidos “pediram desculpa” a Chaplin pelo que lhe tinham feito. Perante uma plateia tão ou mais emocionada do que ele, o ator comentou apenas: “As palavras são tão fúteis, tão frágeis. Gostaria apenas de dizer obrigado pela honra do convite.” Recebeu a mais longa ovação numa entrega de Óscares, com o público a aplaudir de pé durante cinco minutos.

AMADO E ODIADO

Charles Chaplin (2)Em 1979, Chaplin foi recordado por Lou Reed na canção «City Lights». “A bengala de Charlie Chaplin dava um piparote na chuva/As coisas não foram bem as mesmas depois dele ter vindo para cá/Mas, quando foi embora, a nosso pedido/as coisas também mudaram/Somos supostamente uma terra da liberdade/Com aquelas luzes da cidade a flamejarem eternamente/Mas aquele vagabundo, encostado ao candeeiro da esquina/Quando ele nos deixou/O seu humor deixou-nos para sempre.”

Embora percebamos a ideia de Reed e a revolta que sentiu ao ver Chaplin expulso da América depois de ter feito tanto pela sua cultura, podemos dizer que as coisas, de facto, nunca mais foram as mesmas depois de Charlie Chaplin.

Morreu no dia de Natal de 1977, aos 88 anos. Numa ocorrência mórbida, em março de 1978, o seu cadáver foi roubado com o objetivo de extorquir dinheiro à família. Depois de capturados os ladrões, o corpo foi novamente enterrado debaixo de dois metros de cimento, para evitar futuras tentativas.

Chaplin confessava que gostava mais das suas comédias do que os espectadores. Sentiu-se comovido ao assistir ao seu filme Luzes da Ribalta.

“Não é narcisismo, já que aprecio certas sequências e detesto outras. Mas nunca chorei, como um repórter malicioso referiu… e, se tivesse chorado, qual era o problema? Se o autor não se emociona com o seu trabalho, não pode esperar que o mesmo aconteça com o público.” Luzes da Ribalta foi boicotado na América e não recebeu grandes críticas. Tornou-se, no entanto, um êxito de bilheteira e é hoje considerado um clássico. Até a música se tornou intemporal.

limelight chaplin
Luzes da Ribalta (Limelight), 1952.

“Vou acabar esta minha odisseia”, conclui Charles Chaplin:

“Percebo que o tempo e as circunstâncias me favoreceram. Recebi os afetos do mundo, fui amado e fui odiado. Sim, o mundo deu-me o seu melhor e um pouco do seu pior. Não importam as minhas vicissitudes, acredito que a sorte e o azar caem sobre mim, acidentalmente como a chuva. Tendo consciência disso, nunca fico muito chocado com as coisas más que me acontecem, e sinto-me agradavelmente surpreendido com as boas. Não tenho forma de definir a vida, não há filosofias… sejamos sábios ou tolos, todos temos de nos debater com ela.”

David Furtado

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4 Comments Add yours

  1. mjhelenac diz:

    optimo,optimo´e tb uma liçÃO DE VIDA!

    1. Pois é, também acho. Foi por aí que tentei “pegar” no assunto. Obrigado, mjhelenac.

  2. ingrid diz:

    eu adorei sua historia,seus filmes e etc

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