Harrison Ford e O Fugitivo: O regresso do filho pródigo

O filme baseado na famosa série televisiva surgiu numa altura importante da carreira de Harrison Ford. O ator ainda não conseguira impor-se como herói de ação, fora dos universos de ‘Han Solo’ e ‘Indiana Jones’. Harrison regressou à sua terra natal, Chicago, para as filmagens de O Fugitivo, um grande sucesso com alguns custos. Sugiro que exploremos a lendária série de TV, os bastidores do filme, seguindo o rasto… do homem perseguido por um crime que não cometeu.

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“Nome: Richard Kimble. Profissão: Médico. Destino: Corredor da morte, prisão estadual. Richard Kimble foi julgado e condenado pela morte da sua esposa. Mas as leis são feitas pelos homens, são os homens que zelam pelo seu cumprimento. E os homens são imperfeitos. Richard Kimble é inocente. Pondera o seu destino ao ver o mundo pela última vez. E apenas vê trevas. Mas, nessas trevas, o destino move a sua gigantesca mão.”

Narrador da série de TV, O Fugitivo.

Há 20 anos, em dezembro de 1992, o Dr. Jim McKinsey fazia as suas visitas matinais no Centro Médico da Universidade de Chicago, apresentando aos pacientes um acompanhante que primava pela discrição. Era uma figura alta de óculos e barba por fazer, que provocava sorrisos surpreendidos nalgumas pessoas. “Alguns dos nossos doentes mais idosos não o reconheceram”, afirma o Dr. McKinsey. “Mais tarde, diziam aos filhos que tinham sido visitados por um ator qualquer chamado Harrison Ford.”

Era já um hábito. Esquadras de polícia, salas de tribunal… fazia parte da preparação, observar os hábitos e peculiaridades de polícias ou advogados, para os integrar no personagem. Harrison conseguia passar, muitas vezes, despercebido em tais situações. Contudo, um mês depois, estava de regresso a Chicago, desta vez para filmar, e já se espalhara a notícia de que ia trabalhar, pela primeira vez, na cidade onde nascera.

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Quando foi anunciada, esta nova produção da Warner Brothers causou sensação. Era a adaptação cinematográfica da clássica série de TV dos anos 60, O Fugitivo, uma das mais bem-sucedidas da década. O mayor de Chicago aproveitou para fazer da presença de Harrison um evento e, durante os quatro meses de rodagem que se seguiram, havia multidões e barreiras de segurança em toda a parte. Ford não era visitante habitual de Chicago, apesar de lá ter nascido, a mãe já se mudara para Los Angeles, tal como alguns amigos do liceu com quem ainda contactava, mas o ator ainda mantinha a afinidade com a ética do trabalho que lá assimilara na adolescência.

Acerca disto, Harrison explicou, uma vez:

“Talvez seja por não haver oportunidades de sucesso fácil por lá, o trabalho acaba por se tornar numa finalidade, e as pessoas sentem-se realizadas pelo seu trabalho. Talvez não tenham grandes aspirações, as esperanças vãs que, às vezes, encontramos em pessoas que vivem nas áreas costeiras.”

Chicago já não era a cidade da sua juventude, e Harrison Ford apercebeu-se disso quando andou às voltas, de automóvel, tentando localizar a sua antiga casa, em Morton Grove. O que anteriormente fora um subúrbio, era agora o prolongamento de uma grande metrópole. “Já não conhecia as ruas, fiquei mesmo perdido”, admitiu. “Continuei a conduzir até encontrar a minha casa, quase instintivamente.” Pareceu-lhe minúscula, quando, na juventude, lhe parecera enorme.

O Fugitivo foi produzido por Arnold Kopelson, um ex-advogado que vencera o Óscar por Platoon de Oliver Stone em 1986. Kopelson era tenaz, e não desistiu de adquirir os direitos de O Fugitivo, mesmo quando surgiram obstáculos. Já o tentava desde o início da década de 70! Houve outros nomes célebres associados ao projeto, como o realizador Walter Hill e o ator Alec Baldwin. Seis argumentos tinham já sido rejeitados por serem demasiado parecidos com a série televisiva.

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Kopelson, mérito lhe seja dado, telefonou a Patricia McQueeney, agente de Harrison Ford, em 1992, propondo o sétimo guião de O Fugitivo, escrito por Jeb Stuart e David Twohy. Foi com surpresa que ouviu a resposta de McQueeney:

“Sabe, Arnold, já lemos todos os argumentos anteriores, e Harrison gosta imenso do papel.” Uma semana depois, a agente de Ford telefonou-lhe, dizendo que o ator aceitara.

Numa questão de dias, a Warner aprovou o orçamento e marcou a data de início das filmagens, provocando ainda mais perplexidade em Kopelson. Este procedimento não era comum, mas Harrison Ford também não era comum…

“EL FUGITIVO”

the fugitive david janssenO Fugitivo tornou-se parte do imaginário de milhões de telespectadores em todo o mundo. Foram produzidos 120 episódios, com o último a bater recordes de audiência. Em Portugal, os cafés estavam à pinha, as ruas, desertas. No resto do mundo não foi diferente. A 29 de agosto de 1967, toda a gente estava presa ao ecrã para ver se, finalmente, o médico acusado do assassínio da mulher conseguia encontrar o homem de um só braço e provar a sua inocência.

Esta caça ao homem, em que ‘Richard Kimble’ é perseguido sem tréguas pelo detetive ‘Sam Gerard’ (Barry Morse), transformou o introspetivo ator David Janssen numa estrela mundial. O argumentista Roy Huggins concebeu a história, que até é bastante simples: O médico, em constante fuga, de cidade em cidade, encontra pessoas que tenta ajudar, sempre em busca do homem que lhe matou a esposa, e com o omnipresente ‘Gerard’ no seu encalço.

No auge da fama devido a este papel, David Janssen assistia a uma tourada em Madrid, durante as férias. A multidão inteira virou costas à arena, ignorando a morte do touro: Todos a aplaudir um homem mais importante que o toureiro: “El fugitivo.”

Alguns sucessos custam caro, e quem mais sofreu com isto foi o próprio David Janssen, que não conseguiu escapar a um horário de filmagens infernal, sete dias por semana. No final da série, Janssen desenvolvera uma úlcera no estômago e coxeava. Além disso, abusava do álcool, fatores que terão contribuído para a sua morte prematura aos 50 anos, vítima de ataque cardíaco.

“O NOSSO HARRISON DE SEMPRE…”

O personagem era descrito como uma espécie de rebelde entre a comunidade médica, e o ator decidiu usar uma barba comprida no início do filme, o que não obteve consenso junto da Warner. Outra característica foi o corte de cabelo pelo qual Harrison optou, para este começo, o que provocou celeuma como já sucedera no passado, com o corte quase “romano” de Presumível Inocente. O realizador Andrew Davis concordou com isto, realçando a “qualidade camaleónica” do médico em fuga.

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Houve várias situações complicadas na rodagem, como na cena em que ‘Richard Kimble’ salta de uma barragem e nada em águas geladas para fugir de ‘Gerard’. Esta sequência foi filmada na Barragem de Cheoah, na Carolina do Norte, e Harrison teve de superar as suas vertigens. Teve de nadar durante horas. Já em terra firme, três semanas após o início dos trabalhos, Ford lesionou-se no joelho direito. Recorde-se que já ficara ferido na perna esquerda durante a filmagem de Os Salteadores da Arca Perdida. E, no papel do fugitivo, na Carolina do Norte, ao correr pelo matagal, virou-se bruscamente para trás e lesionou com gravidade um ligamento do joelho.

Com o joelho inchado e sofrendo de fortes dores, Ford teve de caminhar em águas gélidas, mergulhado até à cintura. Quando não se filmava, havia banheiras de água quente para evitar a hipotermia do ator. O realizador Andrew Davis comenta que Harrison passou bastante. “Foi muito duro. Rodávamos a meio do inverno, ele estava cheio de dores e a tremer de frio. Comportou-se como um autêntico soldado.”

Seguiram-se as filmagens em Chicago. Ao correr escada abaixo no edifício da Câmara Municipal, outro movimento brusco e… agravou a situação do joelho, o que o deixou furibundo. O seu assistente de maquilhagem afirma que nunca o vira tão irritado. Quando vemos Harrison Ford a coxear durante grande parte de O Fugitivo… há uma séria explicação para tal.

the fugitive harrison ford (4)O facto de sofrer de dores constantes, não o tornou menos perfecionista, tornou-o mais teimoso. E imaginativo. Sugeriu que ‘Kimble’ gritasse “há um homem armado a perseguir uma mulher”, na cena do hospital. Gera-se o caos e ‘Kimble’ escapa. A cena resultou na perfeição.

Harrison Ford recorreu ao improviso, inúmeras vezes, espantando o realizador Andrew Davis. Numa das cenas iniciais, em que é interrogado sobre a morte da mulher, Harrison preferiu não saber quais as perguntas que a polícia lhe iria fazer, para que a sua reação fosse espontânea e mais credível. “E essa cena estava muito elaborada no guião”, acrescenta Davis. O ar confuso de ‘Richard Kimble’ e as suas respostas baralhadas foram, mais uma vez, mérito de Harrison, num dia de filmagens cansativo.

O ator teve outra atitude pouco comum para uma estrela de cinema. Certo dia, o realizador decidiu filmar alguns planos adicionais do ator Ron Dean, que conduz o interrogatório e, como Ford já trabalhara o dia inteiro, mandou-o para casa. Quando entrava no carro, porém, Harrison apercebeu-se das movimentações:

“O que estamos a filmar? Pensei que tivéssemos acabado por hoje…” Regressou ao set, e Davis explicou-lhe. Harrison ficou, mantendo-se fora da focagem, para que o olhar de Ron Dean ficasse exatamente ao seu nível durante o diálogo. (Geralmente, nestas cenas, usam-se substitutos.)

Noutras situações, Ford discutiu com o realizador, insistindo que a câmara não estava a enquadrar a sua cabeça convenientemente. Andrew Davis retorquiu que estava ótimo, mas, quando as câmaras começaram a filmar, Harrison moveu-se uns centímetros para baixo, enquadrando-se no plano. A sua esposa na época, Melissa Mathison, observava, sorrindo serenamente. “O nosso Harrison de sempre”, murmurou.

PARADOXOS

3 de fevereiro a 3 de agosto – era esse o prazo para filmar e montar um dos maiores filmes do ano. Seis meses à justa. A pressão inerente não apaziguou a teimosia de Harrison Ford:

“As pessoas recordam-se do meu rosto e não gosto de desapontar os meus clientes.” Recusou filmar certas cenas, alegando, “fabuloso, sem dúvida, mas entraria no território de ‘Indiana Jones’.”

O ator questionava em voz alta as motivações de ‘Richard Kimble’: “Será que eu entraria num restaurante cheio de pessoas? Por que razão pintaria o cabelo?” Nada lhe escapava. Mas… supostamente, era ele o fugitivo!

Harrison Ford fez desta adaptação um êxito enorme, mas não podemos esquecer Tommy Lee Jones que o persegue como um cão de caça. É um desempenho extraordinário e valeu ao ator o Óscar de Melhor Ator Secundário.

Tommy Lee Jones, o implacável 'Gerard'.
Tommy Lee Jones, o implacável ‘Gerard’.

Ford chegou até a questionar se ‘Kimble’ seria condenado à pena capital no começo do filme. Encontrou-se com o seu amigo Scott Turow (advogado e autor de Presumível Inocente), regressou e comentou: “O Scott diz que ‘Kimble’ nunca seria sentenciado com a pena de morte. Teria prisão perpétua sem possibilidade de liberdade condicional. Um médico rico conseguiria dar a volta a isso.”

O produtor, Kopelson, visitou um juiz especializado em casos de crime e apurou que ‘Kimble’ teria mesmo pena de morte, caso houvesse grande malícia no assassínio. Para não aborrecer Harrison, filmaram a cena dos dois modos. A da pena capital é a que podemos ver no filme… Kopelson compreendeu que Harrison não estava a ser desafiador como muitas estrelas – apenas queria o melhor para o filme. Kopelson achou também que Ford, tendo subido a muito custo, queria manter a sua posição, o que é muito difícil para um ator.

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Harrison Ford foi operado poucos dias depois do fim das filmagens. Ignorara a dor e poderia ter arranjado um sério problema de saúde. Os médicos reconstruíram a cartilagem do joelho. No ano seguinte, foi novamente operado pelo mesmo motivo.

Quando se livrou das muletas, regressou ao hospital: O seu pai, de 87 anos, sofrera um aneurisma cerebral. Um enfermeiro disse que o ator nem ia a casa dormir, permanecendo sempre no quarto, ao lado do pai. O cinema era o seu trabalho. A família sempre fora e seria a fonte da sua estabilidade. Meses depois, Harrison regressou ao hospital, por motivos mais felizes: Nascera o seu primeiro neto.

Quanto a O Fugitivo foi um dos maiores êxitos cinematográficos dos anos 90, fazendo justiça à clássica série.

David Furtado

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2 Comments Add yours

  1. Excelente matéria! Poxa, mais completo impossível.
    Sem dúvida, um dos melhores filmes que eu já vi.

    1. É sempre possível ficar mais completo, Arildo… Mas obrigado!

Comentários:

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