O último dia de Natalie Wood: Os gritos ainda se ouvem

Na noite de 28 de novembro de 1981, três homens e uma mulher embarcaram no Valiant, um barco de borracha a motor que os levaria ao Splendour, um iate ancorado ao largo de Santa Catalina Island, na Califórnia. A mulher, de 43 anos, tinha, desde os quatro, a fobia de morrer afogada. Uma vez chegados ao iate, houve uma discussão e a mulher desapareceu.

Só várias horas depois, a Baywatch de Santa Catalina Island foi alertada e iniciou as buscas. Era já manhã quando um voluntário, num barco de resgate, avistou uma espécie de balão vermelho, que, na verdade, era o casaco da afogada, que “enfunou e serviu como um colete salva-vidas, mantendo-a à tona”.

Ao recuperar o cadáver, que se encontrava na vertical, com a cabeça tombada para a frente e de olhos abertos, um mergulhador que entretanto se aproximara, sentiu-se revoltado, pois sabia que aquela tragédia podia ter sido evitada.

Nas suas mãos, estava o cadáver de Natalia Nikolaevna Zakharenko, a quem alguns chamavam Natasha e que o mundo conhecia pelo nome de Natalie Wood. Os outros três homens no iate eram o capitão Dennis Davern, Robert Wagner e Christopher Walken, que sentenciaria com alguma frieza, em 1983, “ninguém sabe por que morreu Natalie, a não ser ela, e nunca ninguém saberá o que aconteceu”.

Este caso, cujas circunstâncias nunca foram apuradas, foi reaberto em novembro de 2012, exatamente 30 anos após o sucedido. Walken pôs o seu advogado de sobreaviso. Mas, afinal, o que se passou no último dia de Natasha?

A morte de Natalie deixou Hollywood em choque, já que era uma pessoa admirada e respeitada por colegas, equipas técnicas, realizadores e produtores. No seu funeral, estiveram presentes grandes nomes com quem a atriz crescera e trabalhara, Rock Hudson, Laurence Olivier, Elia Kazan, Gregory Peck, David Niven, Fred Astaire. Natalie era daqueles ícones do grande ecrã que cultivava a sua imagem pública, separando-a da sua verdadeira personalidade.

No início da sua carreira, aos 16 anos, foi violada por uma conhecida estrela de Hollywood, cuja identidade nunca foi revelada já que lhe podia destruir a carreira. (Especula-se que terá sido Kirk Douglas, mas só se sabe que ainda é vivo.) Durante os anos 60, embora já casada com Robert Wagner, Natalie tinha como compromisso de honra seduzir os protagonistas com quem contracenava. E só foi mal sucedida com um, justamente o mulherengo, rebelde e paradoxal Steve McQueen. Chegou a estender-lhe a perna à porta do camarim, enquanto ele passava. Mas McQueen tinha o seu código: Era amigo pessoal de Robert Wagner e não cedeu, por isso e por pressentir que este lado sedutor mascarava a grande vulnerabilidade de uma atriz que respeitava.

Embora fosse uma das três divas de Hollywood, a par de Marilyn e Elizabeth Taylor, Natalie Wood tornou-se ainda mais frágil quando viu a sua beleza decair, no final da década de 70, e os papéis que anteriormente lhe eram oferecidos, agora dados a mulheres mais jovens. Nada de novo, mas que a afundou ainda mais nos excessos do álcool. E o seu casamento não era estável, em parte, devido à bissexualidade do marido.

No início dos anos 80, aceitou um papel em Brainstorm, onde contracenava com o promissor Christopher Walken. Trata-se de boato, mas muitos acreditavam que ambos tinham um caso. Uma expressão comum no set era “só não vê quem não quer”. Mas, ao contrário do que era seu hábito, Wood nunca falou disso às suas melhores amigas.

Seja como for, é neste contexto que encontramos Wagner, Walken e Wood juntos num triângulo amoroso bastante estranho, em Santa Catalina Island, no último dia da sua vida, que passo a relatar de modo muito resumido, já que as testemunhas foram imensas num caso repleto de especulações, que inexplicavelmente foi concluído à pressa. Uma das testemunhas disse, aquando da reabertura do caso, na imprensa americana, tal como relatou numa biografia publicada há 10 anos, indignada:

“Ouvi aquela mulher gritar por socorro, em desespero, e as vozes de um ou dois homens embriagados a dizerem, ‘nós já vamos, tem calma’.” Até que os gritos acabaram.

UMA NOITE TEMPESTUOSA      

A 28 de novembro, um sábado, o Splendour ancorou junto de 50 barcos, em frente a Two Harbors, no lado mais remoto da ilha. Durante a tarde, o tempo piorou. Enquanto Davern e Wagner dormiam, Christopher Walken sugeriu a Natalie que fossem até à ilha, no Valiant, deixando uma nota a R.J. (como Wagner era chamado). O par foi até ao único restaurante da pequena vila, o Doug’s Harbor Reef. Às 16:00, R.J. acordou e leu a nota, desagradado. Por isso mesmo, juntou-se aos dois atores. Ao vê-los tão alegres no bar, a sua disposição não melhorou.

A atriz foi reconhecida pela empregada, que viria a declarar que, desde meio da tarde até à hora em que serviu o jantar, Natalie estava completamente embriagada. O capitão Davern juntou-se ao grupo e reparou na raiva contida de R.J., prestes a ter um ataque de ciúmes, perante a animada conversa que Walken e Wood mantinham, deixando os outros à parte. De acordo com o gerente, quando os quatro se sentaram para jantar, estavam “bêbedos”. Testemunharia mais tarde que Wagner parecia “bastante irritado com a esposa”.

A empregada que os atendeu pediu para ser substituída por outra, visto que o grupo se estava a comportar de modo desagradável. Ambas testemunharam que entre as 19:00 e as 22:00, o grupo, que já estava ébrio, consumiu duas garrafas de vinho, duas de champanhe, cocktails oferecidos por pessoas que os reconheceram; Walken pediu daiquiris, R.J. e Davern pediram conhaque. Um casal que jantava na mesa ao lado reparou na total embriaguez de Robert Wagner, que estaria prestes “a estender-se ao comprido”.

No seu depoimento, as duas empregadas afirmaram que, a certa altura, Natalie levantou-se e atirou um copo de vinho contra a parede. Walken diria à polícia que era um costume russo, uma forma de brindar, e que ele próprio fizera o mesmo, algo que aparentemente ninguém viu. Na verdade, Natalie partiu um segundo copo, segundo testemunhas que também repararam no ambiente pesado que por ali pairava.

Às 22:00, Robert Wagner quis regressar ao Splendour, mas Natalie recusou-se. Acabaram por sair aos ziguezagues, e foi então que uma das empregadas, preocupada com o estado do grupo, bem como o tempo agitado que entretanto se levantara, telefonou para a Patrulha do Porto: “Eles estão a sair e estão completamente toldados. Por favor, estejam atentos.” No bote em que regressaram, Natalie estava a namoriscar com Walken, e Wagner assistia, prestes a explodir.

Já no salão do Splendour, o capitão recorda-se que Natalie e Robert Wagner beberam whisky e abriram uma nova garrafa de vinho. E foi então que começou uma fatídica sequência de acontecimentos.

A DISCUSSÃO

Christopher Walken relatou às autoridades que teve um pequeno desentendimento com Robert Wagner, o que deixou Natalie Wood perturbada. Wagner alegava que a mulher passava muito tempo fora de casa, e Walken achava que, “sendo ela uma pessoa famosa, tinha esse direito”. Aqui, as versões começam a contradizer-se. Walken terá saído para apanhar ar. O capitão Davern, na presença de advogados contratados por Robert Wagner, confirmou esta versão. Nos anos seguintes, em várias entrevistas que deu, o mesmo capitão revelaria que a discussão entre Walken e Wagner foi bem pior. Robert Wagner terá partido uma garrafa de vinho na mesa, apontando-a a Chris Walken e dizendo: “O que queres fazer? Queres foder a minha mulher?”

Walken apercebeu-se que a tensão chegara ao limite e abandonou o salão. Natalie, por seu turno, afirmou-se desgostada com o comportamento do marido e foi dormir para o seu camarote. Mais tarde, a polícia encontrou os vestígios da garrafa. Robert Wagner disse apenas que o “mar estava turbulento”.

Contudo, no espaço de 45 minutos a seguir à discussão, Natalie Wood desapareceu do barco.

Tendo em conta os depoimentos dos dois atores e do capitão, sabe-se que, entre as 22:45 e a meia-noite, Robert Wagner apercebeu-se da ausência da mulher. Walken estava cá fora, “a apanhar ar”. Conversou mais calmamente com Wagner e ambos decidiram ver como estava Natalie, encontrando o camarote vazio e o bote desaparecido. O capitão afirma que foi o primeiro a alertar para o desaparecimento do bote, só depois se lembraram de Natalie.

OS GRITOS

Pouco depois das 23:00, John Payne, dono de um outro iate, o Capricorn, ancorado a cerca de 25 metros do Splendour, ouviu os gritos de uma mulher pedindo ajuda. Acordou a sua noiva, Marilyn Wayne, que também ouviu o grito, “por favor ajudem-me, estou-me a afogar!”, repetido vezes sem conta. Foi esta mesma testemunha que disse à ABC News, a 21 de novembro último, exatamente o mesmo, acrescentando que os gritos duraram cerca de 25 minutos. (A única discrepância é a distância a que se encontrava o Capricorn, que agora diz ser metade do que na altura afirmou.)

O casal tentou contactar a Polícia Marítima. O capitão Davern também viria a revelar, anos depois, que sugeriu a Robert Wagner que ligassem um holofote, mas este recusou. Wagner sempre disse que a mulher escorregara, mas a irmã da atriz nunca acreditou: “Acho que ela foi empurrada”, disse à CNN. A polícia declarou entretanto que Wagner não é suspeito e que apoia a nova investigação.

O dono do Capricorn contactou Avalon, no extremo oposto da ilha, e foi-lhe dito que enviariam um helicóptero. Ligou um holofote para localizar a vítima, mas com o vento forte, o frio e o mar encrespado, apenas percebeu que os gritos vinham do Splendour. O helicóptero nunca chegou e a Patrulha do Porto nunca atendeu.

Quando os gritos pararam, o casal ainda tentava contactar as autoridades, via rádio. Ao saberem da morte de Natalie Wood, comunicaram o sucedido aos investigadores. O dono do Capricorn disse, em 2001, não entender como as pessoas do outro barco não ouviam os gritos, se eles, que estavam mais longe, os ouviam nitidamente.

À 1:30 da madrugada, o gerente do restaurante onde o grupo tinha jantado, ouvia a frequência da patrulha marítima em VHF. Reconheceu a voz completamente ébria de Robert Wagner, alertando para a ausência da mulher e suspeitando que ela regressara ao restaurante.

A pergunta que nunca foi respondida é por que motivo Wagner esperou até à 1:30 para pedir ajuda, uma vez que reparou na ausência de Natalie entre as 22:45 e a meia-noite. Também não se percebe por que Natalie Wood, má nadadora, com a sua conhecida fobia a tubarões, ao afogamento e a águas escuras e profundas, teria entrado num bote, com um mar tempestuoso e numa zona de tubarões, para regressar a terra, à meia-noite, com um frio de rachar, para ir a um restaurante que já fechara.

RESGATE TARDIO

Os serviços da Patrulha do Porto já estavam encerrados, pelo que o gerente do restaurante respondeu aos apelos incoerentes de Wagner, sugerindo a Guarda Costeira, o que este recusou por “temer a publicidade”. Por mero acaso, o vigilante de um parque de campismo também se encontrava a ouvir a mesma frequência, entrando em contacto com o gerente e oferecendo-se para ajudar. Ironicamente, foram estes dois homens que despoletaram o resgate.

Sem sucesso, o vigilante procurou, na costa, sinais de Natalie ou do Valiant, o bote. Este homem, chamado Wintler, pegou num barco da Patrulha do Porto e foi até ao Splendour, onde encontrou Robert Wagner bêbedo e em pânico. Eram cerca das 2:30, quando o cozinheiro do restaurante e residentes de Two Harbors começaram a patrulhar as águas. Decidiram também acordar Doug Oudin, o Capitão de Porto, responsável pela autoridade marítima. Este deslocou-se de imediato ao Splendour, onde encontrou o capitão do barco e Wagner embriagados e ainda a beber. “Mal se conseguiam levantar ou formular uma frase. Walken estava no camarote.” Mais uma vez, Wagner insistiu para que não se chamasse a Guarda Costeira, mas Oudin não teve outra alternativa, prometendo que manteria o nome de Natalie em sigilo.

O alerta foi finalmente dado às 3:30 da madrugada. Os voluntários continuavam as buscas. Só seis horas após o desaparecimento da atriz, às 5:15 da manhã de domingo, dois mergulhadores experientes da Baywatch começaram o resgate. O Xerife de Avalon foi também informado.

Os voluntários avistaram então o Valiant numa pequena gruta em Blue Cavern Point, a pouco mais de uma milha de distância. O mergulhador Roger Smith puxou-o para a enseada e notou que estava tudo em desalinho e que havia arranhões, como se alguém tivesse tentado trepar para bordo. Em sua opinião, “foram cometidos vários erros. O primeiro foi não nos terem chamado logo!”

DESFECHO?

Já amanhecia, quando profissionais e voluntários esperavam encontrar Natalie agarrada às rochas ou sã e salva numa praia. A noite de pesadelo terminou quando o proprietário do restaurante, Doug Bombard, também envolvido nas buscas, avistou uma “coisa vermelha”, pelas 7:45, a mais de 100 metros da enseada de Blue Cavern Point. “Era o casaco da atriz. Enfunou e tinha ar suficiente para a manter à tona.” Bombard alertou de imediato a Baywatch. O mergulhador Roger Smith respondeu, ressalvando para que não tocasse no cadáver, já que se podia tratar de homicídio.

Bombard aproximou-se e as suas piores expectativas confirmaram-se. “Ela estava pendurada por baixo. Muitas vezes, quando uma pessoa se afoga, se não tem muita gordura, vai ao fundo. Só aquele casaco a manteve à tona. Ela não flutuava, estava literalmente pendurada.”

Por baixo do casaco, Natalie envergava apenas uma camisa de dormir e meias.

Smith chegou pouco depois e ajudou Bombard a retirar o corpo da água, ficando espantado com a beleza da atriz. “Só me lembro dos olhos dela.” Segundo o mergulhador, “ela não se devia ter afogado… se nos tivessem alertado a nós, salva-vidas profissionais, teríamos seguido as correntes, localizado aquele estúpido barco com ela lá agarrada. Foi a única pessoa que perdi desta maneira. E num conjunto de circunstâncias bastante triste.”

A autópsia revelou que a atriz tinha 14 % de álcool no sangue, o que o médico legista disse ser equivalente a sete ou oito copos de vinho.

A 11 de dezembro de 1981, menos de duas semanas depois da morte de Natalie Wood, o Gabinete do Xerife deu a investigação por terminada. Conclusão: Afogamento acidental.

Passados 30 anos, o caso foi reaberto e teve grande cobertura na imprensa mundial. Desde novembro até agora, silêncio. Mas os gritos daquela longínqua noite ainda se ouvem.

David Furtado

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