Valentina: Da BD para o cinema

No ano em que Valentina, a personagem criada por Guido Crepax, faz 70 anos – a sua “data de nascimento” é 25 de dezembro de 1942 –, recordo a banda desenhada (os fumetti) e o filme Baba Yaga, de 1973. Isabelle De Funès foi, no grande ecrã, a sensual heroína de Crepax, numa obra estranha, mas original. Com sete edições em DVD e uma em Blu-ray, este filme obscuro conquistou estatuto de culto, sendo indispensável para os admiradores da sexy Valentina.

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Guido Crepax, mais do que simples desenhador, era um artista, e os livros de Valentina comprovam o seu talento; em muitos aspectos são precursores das graphic novels. O talentoso arquitecto, autor de outros álbuns e cartazes de cinema, como Amarcord de Fellini, tornar-se-ia famoso devido à personagem ‘Valentina Rosselli’.

Uma das poucas figuras da BD a possuir uma data precisa de nascimento e um local (Milão, tal como Crepax), esta fotógrafa de moda foi criada em 1965 e surgiu como personagem secundária na série Neutron, enquanto noiva do protagonista homónimo, na história «La curva di Lesmo», publicada em maio de 1965 na popular revista Linus. O desenhador até criou um bilhete de identidade para Valentina, onde constam outros pormenores.

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O “bilhete de identidade” de Valentina.

O sucesso junto do público foi tal, que Crepax abandonou ‘Neutron’ para se dedicar a Valentina, originando um fenómeno internacional que fascinou leitores e obcecou o seu próprio criador, como se adquirisse uma existência própria.

Seguir-se-iam 30 histórias, editadas em nove álbuns. Guido Crepax começou por enquadrar Valentina em ambientes de ficção científica e mistério, passando a integrar o erotismo, o psicadelismo, a bissexualidade, o sadomasoquismo, entre outros temas adultos.

Louise Brooks
A atriz Louise Brooks, que inspirou Crepax e a personagem.

O visual de Valentina, com o seu penteado de flapper e curvas bem delineadas, foi inspirado pela atriz de cinema mudo Louise Brooks, (célebre por Die Büchse der Pandora, de 1929) com quem Crepax manteve uma longa “relação por correspondência”. A admiração era mútua.

Quase sempre acompanhada pela sua Nikon, Valentina tornou-se um estandarte da emancipação feminina, justamente na época em que este movimento surgia.

Crepax estava longe de imaginar que esta figura determinada, curiosa, intuitiva e sem tabus, teria tanta projecção, sendo traduzida em vários idiomas. É talvez a personagem mais conhecida dos fumetti italianos, juntamente com Diabolik, o pioneiro do género, também criado nos anos 60, e que seria levado ao grande ecrã com a maestria e imaginação de Mario Bava, numa obra manifestamente superior a Baba Yaga: Danger: Diabolik (1968). Os resultados foram divergentes. Contudo, Mario Bava e Corrado Farina foram os realizadores que melhor apreenderam o poder visual dos fumetti.

Guido Crepax ilustraria outras obras de conteúdo adulto como Justine (Marquês De Sade), Histoire d’O’ de Pauline Réage (pseudónimo de Anne Desclos) e Venus in Furs de Sacher-Masoch. Curiosamente, estes três livros foram adaptados para o cinema com resultados variáveis, mas com uma criatividade quase surrealista.

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A elegância, sofisticação e genialidade de Crepax, bem como a personalidade de Valentina, nunca deixaram que a série caísse no vulgar, embora algumas pranchetas sejam sexualmente explícitas. Explorando o inconsciente e o sexo, Crepax passou para o campo da psicanálise, explorando o teor das fantasias sexuais.

As adaptações de banda desenhada para o cinema, tão em voga e tão estúpidas e fúteis, diga-se, foram a minha inspiração para este texto: Valentina só foi explorada em Baba Yaga (história de Crepax, publicada em 1971) e numa série televisiva italiana, ambas aquém das expectativas. Por outro lado, na banda desenhada deste estilo pode-se aprender bastante sobre cinema – planos médios, próximos, etc. Falo aqui de cinema, não de produtos de pacotilha como os inúmeros Batmans, Homens-Aranha, Wolverines e X-Men com que Hollywood decidiu bombardear o Universo a certa altura.

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Crepax e a sua mais famosa criação.

Os fumetti foram uma resposta aos comics americanos, impondo-se por mérito próprio e influenciando os americanos, uma reacção com resultado inverso e que também sucedeu no cinema – um dos motivos por que acho este tema interessante. A última graphic novel que li tinha como argumentista Neil Gaiman – ‘The Sandman’. A cores, sim, mas Crepax era um artista com objectivos, ao passo que ‘Sandman’ se perde em divagações à Lars Von Trier e a qualidade do desenho é muito menor.

A última história de Valentina foi publicada em 1995, e o autor faleceu em 2003. Em Setembro  de 2012, foi realizada uma grande exposição em Roma dedicada a Valentina e a Crepax.

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O FILME

Transpor Valentina para o grande ecrã nunca seria tarefa fácil… Anne Heywood, que deveria interpretar a personagem ‘Baba Yaga’, desistiu à última hora, preferindo um papel num filme obscuro, Trader Horn. (Ainda bem, a meu ver, pois deu assim lugar a Carroll Baker.) O realizador, Corrado Farina, que era amigo de Guido Crepax, partiu de férias depois de concluído o trabalho e, ao regressar, descobriu que o filme fora cortado e reeditado. 20 minutos tinham desaparecido para, supostamente, tornar Baba Yaga mais atractivo junto das plateias.

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Farina enfureceu-se, tornando o caso público na imprensa italiana, e o estúdio entregou-lhe o negativo, embora com alguns pedaços de película danificados. Depois veio o cutelo da censura, que cortou a cena de nudez de Carroll Baker e outros excertos. A versão integral e aprovada por Farina foi já editada, com excelente qualidade, salvo uma ou outra sequência, devido às razões que referi. Circulou o boato de que existia uma versão hardcore do filme. Bem, os nus frontais são incluídos na versão da Shameless, ainda que alguns durem uma fracção de segundo!

No papel crucial de protagonista, Isabelle De Funès foi uma escolha perfeita. (Sobrinha de Louis de Funès, ator celebrizado pelos filmes de ‘Fantômas’.) A sua fisionomia compensa a inexperiência, e a principal lacuna é o facto de, no filme, a personagem de Crepax não ser dotada da autoconfiança da Valentina original. De Funès mal se despe, mas não nos esqueçamos que, a nível cinematográfico, viviam-se os tempos de O Último Tango em Paris, lançado no ano anterior. Tratando-se de uma produção italo-francesa, a escolha da actriz fez-se apenas para agradar aos produtores franceses. A situação não agradou inicialmente a Corrado Farina, mas Isabelle De Funès superou as suas expectativas, tornando-se numa excelente ‘Valentina’.

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Isabelle De Funès.

George Eastman (Luigi Montefiori), no papel de namorado, foi outra boa escolha, ainda que insólita, dado o tipo de papéis com que era mais conotado. Ely Galleani, uma das atrizes mais belas do cinema de género italiano dos anos 70, interpreta a boneca dominatrix que ganha vida: ‘Annette’. O teor S&M do original marca presença através de Galleani.

Baba Yaga é um filme intrigante, mas deixa algo a desejar, comparado com a banda desenhada. Não há, nem de longe, tanta sexualidade como na BD original; o erotismo, se assim lhe podemos chamar, é muito soft. Se tivesse sido realizado depois de Emmanuelle, talvez os criadores tivessem sido mais atrevidos, como conviria. Os flasbacks e sequências de sonhos tornam-se confusas. Além disso, o título não dá o destaque devido à diva de Crepax. Os fumetti, por vezes, seguiam a linha hardcore e eram suficientemente pequenos para serem transportados no bolso.

Julgo que já vivemos uma Era em que a provocante Valentina pode ser adaptada convenientemente, ainda que para maiores de 18, num filme semi-mainstream.

Na obra de 1973, Valentina conhece ‘Baba Yaga’ uma misteriosa mulher mais velha, que lhe dá boleia para casa, certa noite. A sua máquina fotográfica parece adquirir qualquer maldição, que se vem juntar aos seus sonhos bizarros. Numa visita à casa de ‘Baba Yaga’, Valentina descobre relíquias estranhas, como uma boneca dominatrix e um poço sem fundo na sala. Valentina apercebe-se que ‘Baba Yaga’ pretende possuir o seu corpo e alma. Em traços gerais, é este o… argumento. Valentina é levada por ele, em vez de ser a força motriz.

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O genérico inicial dá relevo aos fumetti e à música de Piero Umiliani, que trabalhou imenso no género exploitation italiano, chegando a ser quase tão prolífico como Ennio Morricone; desde os ripoffs de Django a obras de Mario Bava. Carroll Baker interpreta uma personagem de uma das histórias de Valentina, ainda que de modo bastante diferente. A atriz (cujo nome verdadeiro é Karolina Piekarski) estava habituada ao giallo e às máscaras maléficas, tendo trabalhado com Umberto Lenzi em Orgazmo e Paranoia, e participara, antes disso, em clássicos americanos como O Gigante ou A Conquista do Oeste.

valentina crepax (8)Há quem classifique Baba Yaga de giallo, mas não vejo qualquer relação. É certo que há algum mistério e comentários políticos na obra, introduzidos pelo realizador e um reflexo dos tempos – a tendência de esquerda a contrariar a enfraquecida direita, apontamentos que enfraquecem o tom geral, embora pretendam retratar os tempos vividos em Itália, com as Brigate Rosse e a inquietação juvenil. As alusões à liberdade sexual deveriam ser mais acentuadas, no seguimento da visão de Guido Crepax.

Nalguns momentos, Farina tentou recriar os fumetti de Valentina literalmente, como no caso da boneca bondage, o que causou muitos problemas com a censura. O realizador, que deu os primeiros passos no cinema ao filmar em 8 mm, na Escola de Cinema de Turim, como tentativa de fuga a um curso de Direito, acabou por ser contratado pelo Studio Testa e considerado uma espécie de prodígio, realizando filmes publicitários.

Baba Yaga tornar-se-ia o ápice da sua criatividade, apesar de ser uma obra quase desconhecida. O seu esforço não é perfeito, nem o que o realizador pretendia, mas é hoje reconhecido. A obra tornou-se obrigatória para os admiradores de Valentina. E quem não conhece “o cartoonista mais sensual de sempre”, como em tempos lhe chamaram? A personagem continua a pedir a adaptação extraordinária que lhe é devida.

David Furtado

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