Chuck Norris – Terceiro Round e K.O.

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Good Guys Wear Black (1978).

“Quando protagonizei o meu primeiro filme de sucesso, O Comando dos Tigres Negros (Good Guys Wear Black, 1978), os críticos crucificaram-me. Disseram que eu era o pior ator que tinham visto desde os tempos do cinema mudo. Fiquei muito magoado e falei com Steve McQueen sobre isso. Steve disse-me: ‘Não te preocupes com os críticos. O que importa é o que o público pensa. Se as pessoas vão ver os teus filmes, não importa o que os críticos dizem.’ Steve estava absolutamente certo e, durante mais de 30 anos, tenho seguido o seu conselho.”

“As relações interpessoais são a única coisa que importa no mundo. O resto é poeira no vento.”

Outra sugestão importante que McQueen deu a Norris – e que este nunca esqueceu – foi a seguinte: “Sugiro que encurtes todos os teus diálogos. Deixa que os outros atores se encarreguem dos diálogos triviais e, quando houver algo de importante a dizer, serás tu a dizê-lo. Foi o que fiz no meu filme Bullitt. Tinha uma cena com Robert Vaughn, em que lhe devia responder. Eram três parágrafos. Risquei tudo e disse apenas: ‘Você trabalha no seu lado da rua, eu trabalho no meu.’ As pessoas ainda se recordam disso. Lembra-te que, às vezes, menos é mais.”

O medo de aranhas chama-se aracnofobia, o medo de espaços fechados chama-se claustrofobia, o medo de Chuck Norris chama-se Lógica.

Chuck Norris destaca um filme entre todos os que protagonizou: A Fortaleza Secreta (The Octagon, 1980):

“Foi o maior e melhor filme de artes marciais da minha carreira. Havia muitas cenas de combate, mas lembro-me de uma em particular. Filmávamos dentro de uma estrutura fechada, o quartel-general dos ninjas. Começávamos as cenas às 18:00 e, às quatro da manhã, estavam todos exaustos, incluindo eu.”

“O realizador disse ao coordenador dos combates, que era o meu irmão Aaron, que terminaríamos no dia seguinte. Por isso, Aaron mandou para casa quatro duplos com os quais eu iria combater. Cinco minutos depois, o realizador mudou de ideias e decidiu prosseguir a rodagem. Aaron protestou, dizendo que os duplos já tinham ido embora, mas o realizador disse-lhe para resolver o assunto.”

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Problemas na rodagem de The Octagon, em 1980…

“Havia mais dois duplos”, continua Norris, “que não pertenciam ao elenco original, mas ainda estavam no set, pelo que Aaron os recrutou. As suas identidades ficariam ocultas pelas máscaras e fatos de ninja, e assim não havia problemas de continuidade com as cenas filmadas previamente. Aaron decidiu interpretar o terceiro ninja, mas ainda nos faltava um”.

“Nessa altura, um dos figurantes, jovem e bem constituído, voluntariou-se. Aaron perguntou-lhe se já trabalhara como duplo, e ele disse, ‘não, mas estou em grande forma e acho que o consigo fazer’. Aaron disse-lhe, ‘o Chuck faz algum contacto quanto executa um golpe, tens a certeza?’” O jovem repetiu que não havia problema.

“Aaron deu ao jovem um fato de ninja e organizou a cena em que eu deveria entrar num labirinto e ser atacado pelos quatro. O inexperiente devia tentar agarrar-me pelas costas, eu dar-lhe-ia um pontapé na barriga e ele cairia. Após o ensaio, disse a Aaron para colocar uma proteção sob as vestes do rapaz para não estar preocupado com a hipótese de o magoar. Mas ele recusou, dizendo, ‘os outros não usam proteção, eu também não tenho de usar’.”

As câmaras começaram a filmar, o realizador Eric Karson gritou “ação” e “quando o jovem me tentou agarrar, dei-lhe o pontapé na barriga. Ele revirou os olhos e caiu no chão, a gemer. ‘Oh, não’, pensei eu, ‘magoei-o!’, mas as câmaras ainda filmavam, e o segundo ninja atacou-me. Voltei-me para ele, mas esqueci-me do que devia fazer na cena. Por isso, virei-me de lado, acertei-lhe na têmpora e pu-lo K.O. Aaron, o terceiro ninja, apercebeu-se, mas atacou-me, de qualquer forma. Virei-me instintivamente e dei-lhe um pontapé rotativo na cabeça, pondo-o K.O. também. O quarto ninja estava no cimo de um edifício e devia saltar sobre mim, mas olhou para os corpos inertes e gritou, ‘eu não vou aí para baixo!’”

chuck norris The Octagon 1980 3“Felizmente, todos recuperaram e voltámos a filmar a cena no dia seguinte, com os duplos originais. Que noite!”

Chuck Norris consegue comer apenas uma batata frita da Lay’s.

O ator admite que não é fácil estar à altura deste desafio. “Tento manter bons hábitos alimentares, mas, se estou a assistir a um jogo de futebol com um pacote de batatas fritas, no intervalo, pergunto a mim mesmo por que razão o pacote está vazio. E nem vos conto com que rapidez uma taça de gelado pode desaparecer na segunda parte!” Defensor de novos começos e da firmeza de resoluções, Chuck Norris aconselha-nos que, se lhes formos fiéis, também nós teremos o poder de comer apenas uma batata frita da Lay’s…

“Na dieta da minha família, tentamos viver pela regra de Hipócrates: ‘A nossa comida deve ser o nosso remédio, e o nosso remédio deve ser a nossa comida.’ É óbvio que alguém tem de fugir ostentosamente à regra, de vez em quando”, revela Norris. “Tal como os meus miúdos, adoro gelado Blue Bell e tenho de confessar que, sempre que Gena e eu assistimos a um filme, não consigo vê-lo sem um pacote de pipocas. (Sem manteiga, claro).”

No final dos anos 80, Chuck Norris foi assistir a um jogo de hóquei com um casal amigo. Depois disso, o trio foi comprar alguns hambúrgueres a uma loja ali perto. No parque de estacionamento, estavam dois gangs rivais cada um com a sua carrinha, e o rádio com o volume alto. O amigo de Chuck sabia que tinha ocorrido um assassínio relacionado com gangs naquele mesmo local, um mês antes, mas Chuck aconselhou-o a estacionar e propôs que caminhassem os três entre os grupos antagonistas, como se nada se passasse.

Quando chegaram ao balcão, a música baixou, e Norris ouviu mencionarem o seu nome.

“Um deles, veio perguntar-me se eu era o Chuck Norris, disse-lhe que sim, e ele disse aos outros, ‘é mesmo o Chuck Norris!’” Os grupos acabaram por se juntar em redor do ator, fazendo-lhe perguntas sobre a sua carreira nas artes marciais e no cinema. “Quando recebemos a comida, apertei as mãos a todos os elementos. Depois, cada um dos gangs entrou na sua carrinha e partiu.”

Para Norris, a lição a retirar daqui é a de lutar contra preconceitos, não contra os outros, e de vencermos os nossos temores.

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Nas filmagens de Silent Rage (1982).

Chuck Norris tem um tapete de um urso Grizzly no quarto. O urso não está morto. Tem apenas medo de se mexer.

Em 2007, Chuck Norris visitou as tropas americanas no Iraque, em bases e acampamentos. Em Fallujah, passou algum tempo com os Navy Seals. Dois dos homens tinham-se realistado e pediram ao comandante que fosse Norris a ler o seu juramento. Com o acordo do superior, Norris leu-o, enquanto os soldados repetiam o que ele lhes dizia. “Quando cheguei ao final do juramento, disse ‘que Deus me ajude’ e eles repetiram, ‘que Chuck Norris me ajude’.” O ator sentiu-se embaraçado e corou, ao olhar para o capelão, mas os dois Seals corrigiram para o salvar do constrangimento, “que Deus me ajude”. “Todos se riram da minha expressão chocada”, revela Chuck.

As tropas pregar-lhe-iam mais partidas. Na Base Aérea de Al Asad, por exemplo, o ator viu um grande letreiro com as palavras, “Chuck Norris está aqui”. No dia seguinte, já depois da sua visita, tinham acrescentado o seguinte à placa: “Chuck Norris sempre esteve aqui, mas só agora decidiu mostrar-se.”

Honrado e comovido por ter sido motivo de humor e encorajamento, entre homens numa situação tão difícil, Chuck adquiriu um hábito, sempre que está no estrangeiro e encontra lá um militar do seu país: Quando pode, aborda-o, olha-o nos olhos, aperta-lhe a mão e diz, “obrigado pelo seu serviço”. E aconselha-nos a fazer o mesmo.

Quando Chuck Norris era criança, os pais deram-lhe um martelo de brincar. E ele deu ao mundo Stonehenge.

Norris e Sheree J. Wilson em Walker, o Ranger do Texas.
Norris e Sheree J. Wilson em Walker, o Ranger do Texas.

O fenómeno dos “Chuck Norris Facts”, em vez de tornar o ator num alvo de troça, fez com que adquirisse uma nova legião de fãs, e são aos milhares as pessoas que o contactam, no mundo inteiro, pedindo-lhe conselhos ou opiniões. Honrado, Norris tenta responder a todas as solicitações e, mais do que isso, tenta dar voz às preocupações que lhe são transmitidas:

“Vocês cresceram com a tecnologia. Usam-na para tudo, desde ouvir música a arranjar emprego, para encomendar tudo o que queiram, para encontros amorosos e comunicar com todos os que conhecem ou querem conhecer. Estão fartos de guerras, de rumores de guerras e da mentalidade americana, de que este país tem de salvar o mundo. Preferem alimentar os pobres e encorajar os oprimidos. Acreditam que a caridade começa em casa. A vossa luta mais importante é prestar um serviço social consciente. Aos vossos olhos, o Governo é uma gigantesca gárgula numa espiral sem controlo. A vossa geração tem tanto a oferecer ao mundo. Se vamos vencer as nossas guerras culturais, precisamos de vocês, não há volta a dar. Nunca pensem que o vosso contributo é pequeno. Todos contam.”

CRIA O TEU ESTILO

“Não sejas imitador, cria o teu estilo. Não sejas apenas um seguidor, sê um líder. Vai contra a corrente, porque, como sabes, a única coisa que segue a corrente é um peixe morto.”

Numa entrevista televisiva, Norris confessou que, no início dos anos 80, passou por uma fase em que a fama lhe subiu à cabeça, comprou um Cadillac e andou numa vida de festas, até que pediu desculpa à primeira esposa e regressou a casa. Divorciar-se-ia alguns anos depois, e admite as suas culpas. Portanto, não emprega mera retórica quando diz:

“Desde roupas de marca a posições importantes, o mundo tenta forçar-nos a entrar num molde que, no final, subvaloriza ou inferioriza o que realmente valemos – o valor autêntico de cada ser humano.”

A RATAZANA

Nem tudo são palavras de encorajamento no discurso de Norris. O próprio recorda um episódio nas filmagens de Desaparecido em Combate 2 (Missing in Action 2: The Beginning, de 1985), para citar o lema, “olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço”.

“Em St. Kitts, nas Caraíbas, eu interpretava um prisioneiro de guerra. Numa cena, como forma de tortura, penduram-me pelos pés, atam-me as mãos atrás das costas, colocam uma enorme ratazana num saco e apertam-no ao meu pescoço, para que o animal me ataque o rosto. Ora, o responsável pelos adereços devia ter arranjado uma ratazana empalhada, o que não sucedeu. Percebi que a cena era importante, pelo que disse para matarem uma das ratazanas vivas e usá-la, mas tinha de arranjar forma de a prender entre os dentes sem apanhar qualquer doença horrível.”

“Tentei fita-cola, mas não a segurava, além de outros truques, sem sucesso. Por fim, frustrado, irritei-me e gritei, ‘esqueçam! Pendurem-me e, quando eu tiver a ratazana na boca, ponham o saco e filmem’. Quando o fizeram, contorci-me, como se o animal atacasse o meu rosto; deitaram sangue falso pela corda, para que ela pingasse do saco. Dois minutos depois, parei de me mexer e retiraram o saco. E eu tinha a ratazana morta na boca. Ambos estávamos cobertos de sangue. Felizmente, correu bem ao primeiro take, pois eu não queria fazer um segundo!”

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NUNCA SUBESTIMES O OPONENTE

Muitas pessoas procuram as artes marciais devido aos filmes e como forma de autodefesa. Ao fim de poucas aulas, adquirem uma sensação falsa de segurança, desconhecendo que só com muito esforço e disciplina interiorizarão a forma e conteúdo. E nem os melhores escapam. O “infalível” Norris relata-nos que, em 1967, era considerado o lutador número um dos EUA. “Fui convidado para um torneio em Maryland e aceitei. Nestas competições, os lutadores alinhavam-se e combatiam com quem estivesse ao seu lado.”

“O jovem ao meu lado acabara de se graduar com o cinto negro, e eu era o seu primeiro oponente. Ele conhecia a minha reputação e estava tão nervoso que teve de ir a correr à casa de banho. Quando saiu, pus-lhe um braço sobre o ombro e disse-lhe, ‘não te preocupes. Vais-te sair muito bem’. Quando entrámos no ringue, eu ainda sentia pena dele e planeei mentalmente facilitar-lhe a tarefa. Resultado: Ele venceu-me! E a culpa foi minha – subestimei o meu oponente.”

Moral da história, para Chuck: “Os verdadeiros campeões conseguem lidar com os seus fracassos e também com os sucessos, e aprendem com ambos.”

Norris foi instrutor de artes marciais durante 15 anos, antes de entrar no mundo do cinema. “Percebi como ensinar crianças as ajudava a superar muitas das suas inseguranças. Mas eram miúdos cujos pais podiam pagar as aulas. E os milhões que não podiam?”

Em 1992, o ator lançou o programa Kickstart, que graduou 60 mil jovens. O programa tornar-se-ia na missão de vida de Chuck Norris e da sua esposa.

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Good Guys Wear Black (1978).

O Kickstart, explica Norris, pretende dar às crianças noções de autoconhecimento e força interior, “para que sejam capazes de resistir às pressões de grupo, ao uso de álcool e drogas, e não se envolverem em gangs”. Além disso, sublinha o ator, “o treino de artes marciais dá aos jovens valores essenciais e filosofias associadas a uma vida produtiva, permitindo decisões saudáveis e a possibilidade de atingirem os seus objetivos”.

Este programa foi um sucesso, e Chuck Norris apontado como principal responsável, mas o criador refuta esse “título”: “Os verdadeiros heróis são os instrutores do Kickstart que, altruístas, investem o seu tempo e energia nas vidas da nossa juventude, diariamente. Considero-os os meus heróis, também.”

CHUCK E ELVIS

“Depois de receber algumas lições particulares de Karaté dadas por mim, Priscilla Presley convidou-me a ir até Las Vegas, assistir ao espetáculo de Elvis no Hilton, e aceitei com satisfação. Foi a primeira vez que o conheci pessoalmente. Depois, Elvis, convidou-nos para a sua suite, onde conversámos até às 4:00. De início, pensei, ‘de que iremos falar?’ Eu não percebia nada de música, mas poderíamos falar sobre artes marciais a noite toda. E foi o que fizemos.”

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Breaker! Breaker! (1977).

Chuck Norris ficou espantado com os conhecimentos e a devoção de Elvis às artes marciais. Tal como Norris, o cantor teve contacto com tais artes durante o serviço militar.

“Durante a sua vida, estudou muitos estilos com diversos instrutores. Começou em 1958, no estilo Shotokan, com Juergen Seydel, estudou depois com Tetsugio Murakami, com Kangh Rhee, no Sa-Ryu Tae Kwon Do, e com os americanos Ed Parker (fundador do Kenpo americano e o instrutor com quem mais treinou) e Henry Slomanski, quando foi graduado com o cinto negro.”

Consciente de que a aprendizagem de artes marciais não tem fim, Elvis Presley continuaria a praticar com Dan Inosanto (que mais tarde seria aluno de Bruce Lee) e, nos 15 anos seguintes, foi avançando nos graus ou dans de cinto negro até atingir o 7º dan honorário. Presley até abriu uma escola em Memphis, o Tennessee Karate Institute.

Quando dizemos, “ninguém é perfeito”, Chuck Norris toma isto como uma ofensa pessoal.

“Pode espantar muitos”, afirma o ator, “mas ninguém é perfeito, muito menos, eu. Mas a vida não tem por objetivo a perfeição; é sobre descobrirmos quem somos e não permitir que outros nos retirem o nosso devido valor”.

K.O., acrescento eu…

David Furtado

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