Shining de Stanley Kubrick: “Heeeeeeeere’s Johnny…”

Numa das sequências finais de Shining, Jack Nicholson persegue a mulher, de machado na mão, e começa a tentar deitar a porta abaixo, abrindo um buraco por onde espreita e diz, “heeeeeeeere’s Johnny…”, cena que ficaria na História. A frase foi um improviso de Nicholson e uma paródia ao The Tonight Show, o célebre programa de TV norte-americano apresentado por Johnny Carson. Em Shining (ou The Shining, no original), o ambiente alucinatório não podia estar mais distante de um talk-show. Não é um filme para descontrair – quase não nos dá um minuto de tranquilidade e não se esquece facilmente.

jack nicholson shining (3)

Stanley Kubrick, por vezes criticado por ser um realizador frio, é arrepiante, aqui, no único filme de terror que realizou. Neste universo paralelo, as cenas sucedem-se, raras vezes dando-nos hipótese de respirar fundo. Até as sequências que poderiam servir de calmaria, ou de contraste na dinâmica do enredo, são filmadas com tanta estranheza e agoiro que não são meros interlúdios entre erupções de violência, como geralmente sucede no terror.

Em Shining, uma família assume a responsabilidade de tomar conta de um hotel isolado durante o inverno. No início, é explicado que o isolamento e a solidão podem conduzir a atos de violência, e que tal já sucedeu no Hotel Overlook. É aqui que uma presença espiritual maléfica conduz um escritor com bloqueio criativo, ‘Jack Torrance’ (Nicholson), à loucura. A família fica presa entre o passado e o futuro, algo que o filho, ‘Danny’ (Danny Lloyd) consegue vislumbrar, devido à sua perceção extrassensorial, a capacidade de “resplandecer”, o dom do shining. A única personagem que sustém este precário equilíbrio é a mulher de ‘Jack’, ‘Wendy’, interpretada por Shelley Duvall, cujo desempenho também não é de menosprezar. O pequeno Danny Lloyd foi outra excelente escolha de casting.

Nicholson e Shelley Duvall.
Nicholson e Shelley Duvall.

Ao filmar a sequência em que ‘Jack’ tenta escrever e é interrompido por ‘Wendy’, dirigindo-lhe um violento discurso para que não o desconcentre, Nicholson ter-se-á inspirado no seu casamento com Sandra Knight. O ator representava de dia e escrevia durante a noite, ou estudava um guião. Ao ser interrompido por Sandra, a reação era semelhante à que vemos em Shining.

Podemos cair no facilitismo de encarar o filme como tendo três pilares: O romance de Stephen King, o desempenho de Jack Nicholson e a realização de Stanley Kubrick. Mas há, contudo, outros elementos que elevam Shining a um nível superior, provando que o terror não é um género menor; situação que recorda Psycho. Como convém, foi ignorado pela Academia, sendo até nomeado para dois Razzies, (Kubrick e Duvall); o passar dos anos permitiu a sua reavaliação, sendo hoje considerado uma obra-prima.

O cineasta provoca-nos uma sensação de claustrofobia através da composição, nos corredores enclausurados do hotel, empregando as cores, imagens perturbadoras, as gémeas, a casa-de-banho verde do quarto 237 e a sua enganadora beldade, o dilúvio de sangue a transbordar pelo poço do elevador; a sequência de ‘Danny’ a repetir e escrever a palavra “redrum” (que faz sentido lida ao contrário).

"Redrum..."
“Redrum…”

A nível técnico, sobressai o uso da relativamente inédita steadicam, operada com uma fluidez sem defeitos pelo seu próprio inventor, Garrett Brown… este pormenor torna o espectador num voyeur, como se interviesse na ação a que assiste. O zoom é utilizado com astúcia e os planos fixos são igualmente rigorosos. Shining provoca a sensação de ouvir qualquer sinfonia composta para provocar o máximo efeito.

jack nicholson shining (10)
Um exemplo do uso perturbador da steadicam por parte de Kubrick.

O ordenamento das cenas e a montagem são de tal eficácia que Kubrick parece passar do teor claustrofóbico à agorafobia dos grandes salões do hotel, contrastando dois estados de espírito como duas faces de uma moeda. Até os simples ecrãs a negro, reportando o dia da semana e dividindo o filme em capítulos, surgem em alturas agoirentas. O labiríntico hotel, por onde ‘Danny’ circula de triciclo, seguido pela câmara, com as rodas a ressoarem nos pavimentos de madeira e abafadas pelos tapetes, é um espaço paralelo ao enorme labirinto de sebes no exterior, onde se desenrolará o clímax do filme.

Labirinto de sebes ou labirinto da psique?
Labirinto de sebes ou labirinto da psique?

Importantíssima, e envolvendo todos estes elementos, impõe-se a música empregue magistralmente por Kubrick, que varia entre Bartók, Ligeti, Penderecki e outros compositores, sem que as diferenças se façam notar, tal é a coesão entre som e imagem.

ESPELHO DA PSIQUE

Stephen King escreveu o livro em 1975, mas só numa noite, no início da década de 80, se apercebeu de um estranho pormenor: “‘Raios, sou um alcoólico’, pensei, e não havia uma opinião discordante dentro da minha cabeça… eu era, afinal, o tipo que escrevera Shining sem sequer me aperceber (até essa noite) que escrevi sobre mim mesmo”, relata King na sua obra On Writing.

Por muitos esforços de negação que fizesse, o autor confessa: “A parte de mim que escreve as histórias, a parte profunda que sabia que eu era alcoólico desde 1975, quando escrevi Shining, não os aceitava.”

Este aspeto não é explorado de modo explícito por Stanley Kubrick no filme, mas, tendo em conta as palavras de King, Shining pode metaforicamente ser encarado de modo menos sobrenatural do que aparenta.

Repare-se em pormenores como o labirinto gigante fora do hotel e as visitas que ‘Jack Torrance’ faz ao bar, ansiando desesperadamente por uma bebida, até que aparece diante dele um sinistro barman. Podem-se fazer outras leituras do filme; que vão desde a identidade de ‘Jack’ à sua desconexão emocional. Até a simbologia do labirinto é desconcertante e análoga à loucura, tendo em conta o final da obra. Ou pode ser uma simples história de fantasmas.

Antes de ser convidado para interpretar o escritor de Shining, Jack Nicholson sentia-se deprimido com a reação a A Caminho do Sul (Goin’ South), filme que realizou em 1978. O ator estava ansioso por seguir em frente e trabalhar, e as suas escolhas eram geralmente despoletadas por um personagem que o intrigava ou por um guião que exprimisse o seu estado de espírito. Foi também uma fase em que Nicholson, conhecido por denunciar a violência gratuita no cinema americano, começou a declarar publicamente que pretendia “erguer um espelho perante a perturbadora psique americana”.

Shining foi também a oportunidade de Jack trabalhar com Kubrick, algo de que já falavam desde os tempos de Easy Rider, 10 anos antes. Nicholson reverenciava o autor de clássicos como Doutor Estranhoamor, Laranja Mecânica ou 2001: Odisseia no Espaço. Durante algum tempo, pretenderam empenhar-se num épico histórico sobre Napoleão, tal não foi em diante, mas Kubrick não desistiu de procurar um projeto para ambos.

Kubrick estava determinado em trabalhar com Nicholson.
Kubrick estava determinado em trabalhar com Nicholson.

MAIS DE 40 TAKES…

Conhecendo o interesse de Kubrick pelo paranormal, um executivo da Warner enviou uma cópia do argumento ao realizador, que vivia em Inglaterra. Kubrick achou-a “uma das histórias mais empolgantes e engenhosas” que já lera. Jack Nicholson, por seu turno, já trabalhara em terror (ainda que a um nível inferior) com Roger Corman e conhecia bem o bloqueio criativo dos escritores. Era uma escolha perfeita para interpretar ‘Jack Torrance’, isolado com a mulher e o filho num hotel em Nova Inglaterra durante a época baixa.

Uma das cenas mais perturbadoras.
Uma das cenas mais perturbadoras, a do quarto 237.

Stanley Kubrick descreveu, numa entrevista:

“Acho que ele [Jack] é a primeira escolha de quase todos para qualquer papel que lhe seja apropriado. O seu trabalho é sempre interessante, elaborado com clareza, e possui o fator X, a magia. Jack é especialmente adequado para papéis que requeiram inteligência. É um homem inteligente e literato, e estas qualidades são quase impossíveis de representar. Em Shining, acreditamos que é um escritor, fracassado ou não.”

O próprio Kubrick, juntamente com a biógrafa e romancista Diane Johnson, adaptou o best-seller de Stephen King, trabalho que foi sendo reescrito durante as filmagens. O guião simplificou o enredo, com elementos originais de terror adicionados. Muitas cenas memoráveis foram sendo criadas, como a sequência em que ‘Wendy’ encontra o manuscrito do marido e descobre que este apenas escreveu em dezenas de páginas, durante meses, “tanto trabalho e nenhuma brincadeira… fazem de Jack um rapazinho triste”.

Pouco depois do lançamento de A Caminho do Sul, a produção de Shining começou, no inverno de 1978. O exterior do hotel foi filmado em Timberline Lodge, perto de Mount Hood, no Oregon. Os interiores e os exteriores repletos de neve foram criados nos Estúdios de Elstree, da EMI, em Londres. Kubrick preferia filmar em cenários, para ter controlo absoluto dos procedimentos. Como já era hábito nas suas rodagens, os outsiders não puderam entrar, e o segredo envolvia a produção. O perfecionismo do realizador era também conhecido, assim como o tempo que demorava até obter precisamente o que queria. A versão oficial relata que a rodagem durou 10 meses, mas o mais certo é que tenha durado 13, um método de trabalho impraticável e demasiado meticuloso na indústria.

Esta abordagem de Stanley Kubrick deixou todos os envolvidos de nervos em franja, no set de Shining. Tendo sido fotógrafo na juventude, o realizador era particularmente obcecado com a iluminação, que, por vezes, demorava dias infinitos a ser ajustada. Noutras alturas, o cineasta pedia inúmeros takes, ajustando a composição.

Scatman Crothers e Shelley Duvall.
Scatman Crothers, Danny Lloyd e Shelley Duvall.

Kubrick exigiu que Scatman Crothers (que desempenha o cozinheiro do hotel) se submetesse a cerca de 40 takes, na cena em que é atingido pelo machado de ‘Jack’, uma sequência brevíssima no filme. O ator tinha 70 anos e era um velho colaborador de Jack Nicholson, integrando o seu círculo mais próximo. Crothers já estaria exausto de tantas repetições, mas não se queixava; foi Jack que se apercebeu e falou com o implacável Kubrick, conseguindo que terminassem a filmagem da cena.

Quanto ao próprio Jack Nicholson, a repetição de takes não lhe era estranha. Entre um e 40, repetia as cenas, raramente de modo idêntico, satisfazendo o perfecionismo de Kubrick, que apelidava esta prática de “ensaios de câmara”, além de achar que fazia sobressair o talento de Nicholson. Por exemplo, na cena do salão de baile, em que Jack fala com o fantasmagórico barman, o realizador exigiu mais de 36 takes do ator.

Os elogios à paciência e profissionalismo de Jack não tardariam:

“A atuação de Jack nesta cena é incrivelmente intrincada”, comentou Stanley Kubrick. “Com mudanças súbitas de pensamento e humor… todas elas, notas graciosas. É um tipo de cena muito difícil, já que o fluxo de emoções é tão mercurial. Exige aguçadas alterações de direção e uma tremenda concentração para que tudo fique acutilante e sintetizado. Nesta cena, em particular, Jack concretizou os seus melhores takes e também o número mais elevado.”

jack nicholson shining (9)

STILL SHINING

Depois do lançamento de Shining, Jack Nicholson revelou o modo como se envolvia nos diferentes projetos, incluindo esta obra, e a relação entre o casal e o filho.

“Se olharmos para a última década sob um ponto de vista sociológico, veremos que o elemento mais volátil da nossa cultura é a pressão dentro do núcleo familiar.”

Completamente talhado para o papel de ‘Jack Torrance’, Nicholson demonstra a sua genialidade, personificando um indivíduo que enlouquece progressivamente (aliás, nunca parece muito equilibrado desde o começo). Se compararmos este desempenho ao de ‘McMurphy’, em Voando Sobre Um Ninho de Cucos (One Flew Over the Cuckoo’s Nest), reparamos que, embora haja traços em comum, como o humor negro e a expressão maliciosa típica de Jack, o seu trabalho é muito diferente. Aquilo que poderia, nas mãos de outro ator menos talentoso, originar uma série de papéis idênticos, o typecasting, não acontece com Nicholson, apesar dos traços inconfundíveis da sua fisionomia.

jack nicholson shining (11)

O ator prossegue: “Quando o material é tão invulgar como o de Shining, e envolve fantasmas e espíritos, a representação tem de ser maior que a vida”, comentou, frisando a “atração patológica” que determinado papel exercia nele e como procurava extrair do material os seus elementos-chave.

“Desempenho o personagem como um tipo profundamente patológico nas relações conjugais. Isso já está no livro, e eu simplesmente aumentei-o. Este tipo de atuação é quase como um ballet. Um ator tem de preencher o espaço e encontrar um local em que o estilo se funde com o realismo da obra em questão, é uma espécie de design simbólico.”

A reação da crítica a Shining foi ambivalente, aquando da estreia, no verão de 1980. Os comentadores não tinham esquecido o filme anterior de Nicholson, A Caminho do Sul, e a tendência geral consistia em denunciar nos seus desempenhos um excesso tremendo. Muitos críticos acharam que Kubrick ultrapassara todas as fronteiras da discrição e do mau gosto. A Variety detestou-o, mas Shining acabaria ironicamente por constar da sua lista, entre os 10 filmes mais rentáveis de 1980. O público, felizmente, ignorou esta sapiência e acorreu em massa aos cinemas.

Refira-se que existem três versões do filme, a “original”, de 146’, a “cortada” de 142’ e a “europeia” de 119’. Esta última inclui cortes que pouco ou nada acrescentavam ao fluir do filme, embora haja sempre quem defenda os méritos do material excluído, devido à reputação de Kubrick e da obra.

Com o passar dos anos, Shining provou ser um filme extraordinário, um dos melhores de Stanley Kubrick, e também uma das melhores adaptações cinematográficas de obras de Stephen King. Não li o texto original, mas o estilo visual é indiscutivelmente de Kubrick. Em 1993, Vincent Canby escreveria no New York Times que “Shining, de modo inquietante e misterioso, se torna melhor a cada ano que passa”. 20 anos depois desta frase e 32 após o seu lançamento, sentimo-nos tentados a dizer o mesmo.

David Furtado

Anúncios

Comentários:

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s