Aniversário de Stephen Crane – Maggie: Uma Rapariga das Ruas

Um homem nasce neste mundo com os seus próprios olhos e não é de todo responsável pela sua visão – é apenas responsável pela qualidade da sua honestidade pessoal. Manter-me próximo desta honestidade pessoal é a minha ambição suprema. Existe um sublime egoísmo quando se fala de honestidade. Eu, contudo, não digo que sou honesto. Digo apenas que sou tão honesto quanto uma frágil maquinaria mental permite. Este objetivo de vida pareceu-me ser a única coisa que vale a pena.

Carta a John Northern Hillard, janeiro de 1896.

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No dia do aniversário de Stephen Crane, recordo um pouco do percurso do escritor e o seu primeiro romance, Maggie: A Girl of the Streets (A Story of New York). O livro, bem como outros textos que Crane escreveu sobre Nova Iorque, parecem seguir o fio condutor dos filmes de Martin Scorsese, das canções de Lou Reed, Suzanne Vega ou Paul Simon, “cronistas” desta cidade. Bob Dylan confessou-se influenciado por ele. Os Beatles incluíram-no na capa de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band. Quem poderia retratar o lado sórdido, as “mean streets” de Nova Iorque, melhor do que… um pobre jornalista de 21 anos?

Era uma cidade diferente, em crescimento, mas em tudo semelhante a uma grande metrópole, com os seus prédios, a Ponte de Brooklyn (completada quando Stephen Crane tinha 12 anos), as ruas mal-afamadas e as raparigas que por elas caminhavam. ‘Maggie’ era uma delas. A narrativa de Crane é incomparável e, em mais de 100 anos, nada mudou nesta história.

Nova Iorque em finais do século XIX.
Nova Iorque em finais do século XIX.

– E quem são os bons escritores?
– Os bons escritores são Henry James, Stephen Crane e Mark Twain. Esta não é a ordem do seu valor. Os bons escritores não se ordenam.

Ernest Hemingway, As Verdes Colinas de África.

“A rapariga, Maggie, floresceu no meio de uma poça de lama. Tornou-se no produto deveras raro e maravilhoso de um bairro de moradias: Uma rapariga bonita.

Nenhuma da sujidade de Rum Alley parecia correr-lhe nas veias. Os filósofos do andar de cima, do andar de baixo e do mesmo andar, magicavam sobre isso.

Em criança, brincando e lutando com os miúdos da rua, a sujidade disfarçava-a. Ataviada de farrapos e enegrecida com fuligem, passava despercebida.”

“Chegou uma altura, contudo, em que os jovens da vizinhança disseram: ‘Aquela miúda Johnson é muita gira.’ Mais ou menos durante este período, o irmão comentou: ‘Mag, digo-te uma coisa! Percebes? Tens de decidir entre ir p’rò inferno ou ir trabalhar!’ Pelo que ela foi trabalhar, possuindo a aversão feminina de ir para o inferno.”

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Stephen Crane é considerado um dos pioneiros da literatura moderna. Escreveu romances, poemas, e cerca de 90 contos e peças de ficção. Um dos percursores do naturalismo, foi muito para além desta definição; tornou-se num dos primeiros repórteres de guerra, herança que se veio a refletir em Steinbeck e Hemingway; descreveu os conflitos bélicos de uma forma equiparável a Tolstoi, e é o autor de uma das obras-primas do romance psicológico, comparável a Dostoiévski.

Aos dois anos.
Aos dois anos.

Crane nasceu a 1 de novembro de 1871, em Newark, New Jersey. O seu pai, um padre Metodista, faleceu em 1880, deixando Stephen, o mais novo de 14 filhos, aos cuidados da mãe, uma líder clerical. Depois de frequentar o Claverack College – Hudson River Institute, Crane ingressou no Lafayette College, em 1890, mas, no fim do primeiro semestre, já acumulara “deficiências académicas” suficientes para garantir a sua saída. Pouco depois, ingressou na Universidade de Syracuse. Mas a sua estadia também não se prolongou, já que passava a maior parte do tempo a jogar baseball. Apesar de ter conseguido a nota máxima em Literatura Inglesa, reprovou a tudo o resto.

Em Syracuse, escrevera contos e pequenos esboços, continuando a experiência no verão de 1891, em Asbury Park, New Jersey, ao mesmo tempo que começava a colaborar com o New York Tribune e outros jornais. Durante este período, trabalhou numa revisão de Maggie, romance iniciado em Syracuse. Começou a fazer visitas frequentes aos bairros pobres da Bowery, em Nova Iorque, e em Outubro de 1892 acabou por se mudar para a Big Apple, partilhando vários apartamentos da baixa de Manhattan com colegas boémios. Em 1893, é publicado Maggie: A Girl of the Streets, que não ajudou a sua situação de jornalista free-lancer desconhecido, e quase tão pobre como aqueles sobre quem escrevia, mas que lhe valeu a amizade de Hamlin Garland e do influente crítico William Dean Howells.

stephen crane maggie (8)O interesse de Crane pela guerra deu origem a uma obra-prima. Em 1895, surge The Red Badge of Courage, um grande êxito de vendas e de crítica, tanto nos Estados Unidos como em Inglaterra, e que o torna internacionalmente célebre. Stephen Crane, que até essa altura ainda não tinha testemunhado qualquer guerra, foi elogiado por soldados devido ao seu misterioso poder de imaginar e reproduzir a perceção de um combate real.

O espanto foi grande quando se descobriu que o autor não era um veterano grisalho, mas sim um desistente da faculdade, com apenas 23 anos. Este sucesso despoletou a reedição de Maggie.

Em 1896, Crane testemunhou em defesa de uma corista, Dora Clark, em tribunal, contra o agente que a havia prendido por prostituição. Clark era, de facto, prostituta, mas não se prostituía na altura em que foi detida. Crane agiu de boa-fé, Dora Clark foi libertada, e o polícia exonerado do cargo. Este episódio, descrito em «Adventures of a Novelist», valeu-lhe o assédio da polícia nova-iorquina e a constante difamação a que o comissário Teddy Roosevelt o sujeitou.

O retrato de Crane pelo seu amigo e pintor Corwin Knapp Linson (1894).
O retrato de Crane pelo seu amigo e pintor Corwin Knapp Linson (1894).

O incidente, aliado à sua personalidade aventureira e pouco convencional, intensificou os boatos maliciosos e calúnias, que o apontavam como viciado em drogas, alcoólico e, até, praticante de satanismo. A imprensa dividiu-se; alguns defenderam-no, outros aproveitaram para atacá-lo e para fazer uma devassa da sua vida privada. Em 1913, depois da morte de Crane, o agente em questão foi acusado de ter ligações ao submundo, julgado por homicídio e condenado à morte, tornando-se o primeiro polícia de Nova Iorque a ser executado na cadeira elétrica.

Na cidade que fora palco do seu período mais prolífico, tinha-se tornado persona non grata. O episódio pôs fim à sua extraordinária carreira em Nova Iorque e motivou a sua partida para a Florida, em Novembro de 1896, para fazer a cobertura da revolução cubana. Em Jacksonville, Stephen Crane conhece Cora Taylor, dona do bordel Hotel De Dream. Alguns anos mais velha, Cora era uma mulher inteligente e com inclinações literárias, que desafiava a moral vitoriana da época.

A 31 de dezembro, Crane embarca no vapor Commodore, rumo a Cuba. O navio naufraga a 2 de janeiro, ao largo da costa da Florida. O escritor e três outros tripulantes sobrevivem, escapando num bote. Depois de 30 horas à deriva, conseguem chegar à costa, em Daytona Beach. Em junho de 1897, é publicado «The Open Boat», um dos melhores contos de sempre.

Impedido de ir até Cuba, Crane viajou até à Grécia, como correspondente do New York Journal na Guerra Greco-Turca. Foi acompanhado por Cora, que se viria a tornar sua companheira até à morte. Embora fosse apresentada como sua esposa, encontrava-se separada do marido que não lhe concedia o divórcio. No final da guerra, Stephen e Cora instalaram-se em Inglaterra, numa casa de campo no Surrey e, em abril de 1898, Crane partiu para fazer a cobertura da guerra Hispano-Americana em Cuba.

Nove meses depois, regressou até junto de Cora, em Inglaterra, e instalaram-se numa herdade do século XIV, no Sussex. Aqui, frequentaram o círculo literário de Ford Madox Ford, H.G. Wells, Henry James e Joseph Conrad, que se tornaria o amigo mais próximo de Crane na Grã-Bretanha.

Crane no seu escritório, já na fase em que vivia em Inglaterra.
Crane no seu escritório, já na fase em que vivia em Inglaterra.

Nesta época, Crane lutava contra o tempo, a doença e as dívidas. Os seus livros, depois de Red Badge, nunca mais venderam tão bem e as dificuldades financeiras acumulavam-se. A privação dos seus anos na Bowery, o naufrágio do Commodore, o seu modo de vida como correspondente, acrescidos a um completo desleixo pela saúde, aceleraram, provavelmente, a doença que o vitimou. Faleceu a 5 de junho de 1900, aos 28 anos, num sanatório em Badenweiler, na Alemanha, vítima de tuberculose. Foi sepultado em Hillside, New Jersey.

Um dos seus amigos, Yar Woodriff, disse que Crane era uma pessoa tão cheia de vida que a notícia da sua morte pareceu um erro.

Crane explorou as experiências de juventude numa terra pequena em The Monster and Other Stories (1899) e em The Whilomville Stories (1900); revisitou o território da Bowery em George’s Mother (1896); converteu uma viagem ao sudoeste americano e ao México em «The Bride Comes to Yellow Sky»; a Guerra Civil, de novo, em The Little Regiment and Other Episodes of the American Civil War (1896); a guerra Greco-Turca em Active Service, e as experiências como correspondente de guerra em The Open Boat and Other Tales of Adventure (1898) e Wounds in the Rain (1900). Publicou também dois livros de poemas, The Black Riders and Other Lines (1895) e War Is Kind (1899).

MAGGIE: UMA RAPARIGA DAS RUAS

É inevitável que se sinta bastante chocado por este livro, mas continue, por favor, com toda a coragem possível, até ao fim. Ele tenta mostrar que o ambiente é algo de tremendo neste mundo e que molda frequentemente vidas sem olhar a nada. Se conseguirmos provar essa teoria, conseguiremos encontrar espaço no Céu para diversos tipos de almas (especialmente para uma simples rapariga de rua) que muitas pessoas excelentes não esperariam ver por lá, com toda a certeza.

A primeira edição.
A primeira edição.

Grande parte da lenda em redor de Maggie relaciona-se com a receção hostil de que foi alvo. Quando Crane propôs o manuscrito à revista Century disseram-lhe: “Estas criaturas não possuem motivos que justifiquem a sua insensibilidade.” Depois de todos os editores o terem rejeitado, Crane viu-se obrigado a enveredar por uma edição de autor. A pequena tipografia da Sexta Avenida, que executou o trabalho, mostrou-se tão escandalizada com o texto que se recusou a imprimir o logótipo nos exemplares. Na capa cor de mostarda, podia-se ler um título e dois subtítulos. Podia-se também constatar que o autor era “Johnston Smith” e que a obra custava 50 cêntimos. Foram impressas 1.100 cópias.

“Foi o nome mais vulgar que me ocorreu”, disse Crane a um amigo. “Eu conhecia um editor chamado Johnson e acrescentei o ‘t’, e ninguém me conseguiria encontrar no meio do infindável número de Smiths.” Conjeturou-se sobre o facto de Crane ter usado um pseudónimo. Enquanto jovem autor sem público, talvez se acautelasse com a hipótese de ser identificado com uma obra que ele próprio considerava chocante, ao sugerir que a heroína era levada à prostituição pela força das circunstâncias, em vez de ser conduzida por uma natureza pecaminosa e hereditária.

“A galeria ruidosa mostrava-se esmagadoramente do lado dos infortunados e dos oprimidos. Encorajaram o lutador herói com gritos e escarneceram o vilão, apupando e chamando a atenção para as suas suíças. Quando alguém morria nas tempestades de neve verde-pálido, os espectadores carpiam. Tomavam a miséria retratada como análoga à sua.

A marcha errática do herói, da pobreza do primeiro ato à fortuna e triunfo do último, no qual ele perdoa a todos os inimigos que deixou atrás de si, foi aprovada pela assistência, que aplaudiu os seus generosos e nobres sentimentos e condenou os discursos dos adversários, expressando comentários banais mas enérgicos. Os atores que tinham o azar de desempenhar os papéis de vilão eram sistematicamente confrontados pelo público. Se algum deles declamava uma fala contendo as mais subtis distinções entre certo e errado, a galeria apercebia-se logo se o ator estava a ser velhaco e denunciava-o em conformidade.

O último ato foi o triunfo do herói, pobre e das massas, o representante do público, sobre o vilão e o homem rico, com os bolsos a abarrotar de títulos de crédito, o coração cheio de propósitos tirânicos, imperturbável no meio do sofrimento.”

“Maggie ficava sempre mais bem-disposta depois de ter assistido às verdades reveladoras do melodrama. Rejubilava com a maneira como os pobres e virtuosos acabavam por vencer os ricos e malévolos. O teatro fazia-a pensar. Ponderou se a cultura e refinamento que vira imitados, de uma forma um pouco grotesca, talvez, pela heroína do palco, poderiam ser adquiridos por uma rapariga que vivia num bloco de moradias e trabalhava numa fábrica de camisas.”

Quando o livro foi editado, em março de 1893, nenhuma livraria aceitou pô-lo à venda, alegando que o conteúdo era demasiado explícito e controverso. A única que o aceitou, vendeu, nada mais nada menos que duas cópias. As críticas negativas foram abundantes.

Um crítico anónimo, no The Boston Globe, descreveu a leitura do romance como “encostar os ouvidos a uma corneta tocada por pulmões gigantes. Deixa qualquer um exausto e maltratado. É como um pedaço de carne crua. É alimento para feras, não para homens e mulheres”. Ninguém o queria, consideravam-no um livro obsceno. Crane enviou cópias a líderes de ordens religiosas e a reformadores conhecidos, pensando que eles veriam, na obra, a crítica a uma sociedade que permitia tais condições de sobrevivência. Mas eles limitaram-se a ignorá-la.

Incapaz de vender a sua obra, Stephen Crane ofereceu cópias e considerou deixar de escrever. Hoje, um exemplar de Maggie é um dos tesouros mais raros e dispendiosos, entre as primeiras edições da literatura norte-americana.

A foto de uma rapariga, captada em finais do século XIX em Nova Iorque, que corresponde à imagem descrita por Crane.
A foto de uma rapariga, captada em finais do século XIX em Nova Iorque, que corresponde à imagem descrita por Crane.

Os amigos da faculdade recordaram, mais tarde, que, durante a época que passou em Syracuse, Crane frequentava os tribunais de polícia noturnos, falava com vagabundos, entrava e saia de saloons (conhecia-os como a palma da mão) e passava horas em salas de espetáculos, onde raparigas provocantemente vestidas dançavam e cantavam. Já idealizara Maggie, começando a acumular material para a obra. Esta prática tornar-se-ia característica do seu processo de trabalho. Fazia as suas incursões pela vida, pesquisando detalhes que sustentassem o que já idealizara, ao invés de recolher experiências nas quais pudesse alicerçar a sua imaginação.

Os tempos eram de ânsia por uma reforma social. Apenas três anos antes da publicação de Maggie, Jacob Riis editara a sua famosa obra, How the Other Half Lives, que fora bem recebida. Riis escrevia sobre os bairros pobres de Nova Iorque do ponto de vista de um reformador.

Nas últimas décadas do século XIX, os cidadãos mais abastados, alarmando-se com o tamanho e condições de vida da outra metade, implementaram diversos gabinetes de reforma moral, acreditando que a pobreza era provocada pela preguiça e por uma vida de prostituição, escolhida livremente por mulheres depravadas, demasiado errantes para procurar outra forma de sustento. Foi estabelecida uma linha distinta entre os pobres, merecedores de compaixão, e os que eram inerentemente degradados, e a assistência social não era acessível aos que os reformadores julgavam, na sua sapiência, como pertencentes à última categoria. Em Maggie, Crane troça desta distinção, ignorando-a em vez de a atacar, retratando uma realidade completamente diversa dos lugares-comuns descritos pelas legiões da moralidade.

Linson e Crane no telhado do estúdio do amigo, na 42 West 30th Street em Nova Iorque. (1894.)
Linson e Crane no telhado do estúdio do amigo, na 42 West 30th Street em Nova Iorque. (1894.)

Durante a sua breve carreira, Stephen Crane satirizou aquilo que achava ser o desfasamento do cristianismo convencional em relação ao mundo que ele e as suas personagens habitavam. Na cena final do romance, o comportamento da mãe parodia a retórica do perdão. O melodrama, em que os ricos são velhacos e irão sofrer uma derrota, face à retidão dos virtuosos, reflete os ensinamentos religiosos na época de Crane, não só na negação hipócrita de vidas exploradas, mas também ao assegurarem às classes pobres que elas eram melhores, em essência, do que os seus exploradores.

Opondo-se ao idealismo romântico, Crane integra-se no movimento naturalista, que surgiu em França, em meados do século XIX, e que conquistou grande relevo na literatura americana, entre 1890 e 1910, nas obras de Jack London ou Theodore Dreiser, por exemplo. Na literatura, o Naturalismo inspira-se na objetividade científica. A ficção é uma espécie de laboratório, onde são incluídos todos os elementos do mundo socioeconómico, em confronto com uma personagem. Em vez de tratarem a personagem como um escritor romântico faria – um indivíduo solitário capaz de enfrentar todas as adversidades –, os naturalistas mostram o indivíduo com o destino traçado, apesar de todos os seus esforços, pelas forças que o rodeiam.

Émile Zola foi um dos maiores expoentes do naturalismo e é interessante contrapor o seu romance, Nana, a Maggie. Stephen Crane, embora seja, de um modo geral, considerado um dos maiores escritores naturalistas, ultrapassou as fronteiras deste estilo, ao fundir traços impressionistas e poéticos na sua obra.

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Crane, o eterno rebelde disse, certa vez, a Willa Cather:

“Não se pode aprender a escrever por regras, do mesmo modo que não se pode aprender a dançar por regras. Tem de se ter aquele formigueiro nos dedos, e se não se tiver… bom, nesse caso, é uma sorte dos diabos, vive-se uma vida longa e próspera, é só isso.”

“Já no seu primeiro romance, a escrita de Crane surge como uma fusão entre naturalismo e impressionismo. O princípio naturalista da hereditariedade assume um papel importante na decadência de ‘Maggie’; o determinismo social é claramente personificado na presença opressiva da fábrica; a princípio, não são dados nomes às personagens, o que denuncia um propósito estritamente documental. A insistência nos detalhes sórdidos é típica na denúncia social; o uso do calão corresponde mais a uma necessidade de documentar e fotografar, do que a uma necessidade expressiva. Por outro lado, o tratamento episódico dos acontecimentos aplica as normas básicas da escrita impressionista; a apreensão da vida através da perceção.”[1]

“Uma rapariga, do bando das maquilhadas da cidade, caminhou pela rua fora. Atirava variados olhares de relance aos homens que passavam por ela, fazendo convites sorridentes a homens de padrão rural ou deseducado e parecendo, quase sempre, tranquila ao não dar pela presença de homens de cariz metropolitano nos rostos.”

“Percorrendo avenidas cintilantes, mergulhou na turba que emergia dos locais de esquecimento. Apressou-se a desbravar caminho através da multidão, como se resolvida a alcançar um lar longínquo, curvando-se para a frente no seu formoso capote, levantando graciosamente as saias e escolhendo para os seus pés, onde sobressaíam bons sapatos, os pontos mais secos dos pavimentos.”

Todos os diálogos da obra possuem a fonética do sotaque nova-iorquino, (sincopado e de vogais abertas, diferente do que se ouve no sul dos EUA e no oeste) e a mãe, a velha da caixa de música e ‘Nell’, exprimem-se, algumas vezes, por meio de diversas expressões idiomáticas específicas da Irlanda.

NAS RUAS DE OUTRA CIDADE QUALQUER

stephen crane maggieEm Maggie, Stephen Crane subverte também as convenções do realismo – a acumulação de detalhes que se tornam num modelo do mundo real –, conseguindo utilizar os pormenores de uma cena realista, elevando-a ao nível de uma expressividade muito maior. No capítulo XVII, por exemplo, ‘Maggie’ parte do bairro dos teatros, sem encontrar cliente, e cruzando-se com todos os clientes que já suportou, ao longo da sua curta carreira como prostituta; e dirige-se ao rio, na margem do qual começa a história. ‘Maggie’ desce cada vez mais (como a classe dos clientes foi descendo) e termina, por fim, na morte. Suicidou-se ou foi assassinada? Crane deixa-o ao nosso critério, sobrepondo, de certa forma, as duas hipóteses.

“A cidade que restringia a individualidade, nas cenas precedentes, acaba finalmente por aniquilá-la. Na sua última cena, ‘Maggie’ tornou-se anónima: uma rapariga das legiões carmesim.” [2] Tal como disse Hemingway, em O Adeus Às Armas: “O mundo quebra toda a gente, e depois muitos ficam mais fortes no lugar da fratura. Mas aqueles que não consegue quebrar, mata-os. Mata os muito bons, os muito doces, os muito corajosos, imparcialmente.”

Existe uma coerência subtil, ao longo de todo o romance, não só no ordenamento, no contraste e na auto-suficiência dos capítulos, como também na simbologia da cor, que sempre foi utilizada por Crane, até nos títulos de algumas das suas obras: «The Blue Hotel», The Red Badge of Courage, «The Bride Comes to Yellow Sky», «A Gray Sleeve». “O tom rubro, que surge sempre associado a ‘Mrs. Johnson’, é o emblema da sua dissolução violentamente destrutiva. A seda amarela das mulheres da orquestra é menos ameaçadora, mas, em conjunção com os homens calvos, o amarelo sugere que a valsa no salão de matizes esverdeados é um estádio temporário antes da decadência inevitável.” [3]

Se um livro é um filme na mente, Stephen Crane foi o primeiro realizador dos inúmeros filmes tendo Nova Iorque como pano de fundo. As personagens são constantemente enquadradas em cenários que mudam, o que faz com que olhemos para elas de outra forma, depois de as termos perdido de vista na cidade.

Crane inspira-se em Nova Iorque, tornando a sua escrita quase cinemática, numa fusão entre impressionismo e realismo. Nova Iorque é a cidade de todas as histórias. Pode ser a Nova Babilónia, podem ser simples ruas, mas, tal como o percurso de ‘Maggie’ até ao rio, tudo se desenrola numa cidade sem tempo, que molda, não só o comportamento, como também a natureza humana.

Quando a obra foi rejeitada, o desiludido Stephen Crane comentou, “pobre ‘Maggie’… caiu por terra”.

Mas sobreviveu. ‘Maggie’ ainda percorre as ruas de Nova Iorque. E as ruas de outra cidade qualquer.

David Furtado

Adaptação do posfácio da minha tradução de Maggie de Stephen Crane.

[1] Sergio Perosa, «Naturalism and Impressionism in Stephen Crane’s Fiction», Bassan (ed.), Critical Essays, p. 84-5. [N.T.]
[2] Maggie a Girl of the Streets and other tales of New York, edited with an introduction by Larzer Ziff, with the assistance of Theo Davis, Penguin Classics, 2000, xiv.
[3] Idem.

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7 Comments Add yours

  1. Daiana Milena diz:

    Gostaria de ler o livro…Pelo jeito será difícil. Procurei muito na internet a tradução…Como faço?

    1. Cara Daiana: Experimente contactar os responsáveis pelas editoras portuguesas e brasileiras e perguntar-lhes por que motivo se recusam a publicar um livro desta importância, publicado há mais de 100 anos. Há mais de 10 anos que tento publicar a minha tradução desse livro em Portugal e ainda não ouvi uma resposta com nexo, nem espero ouvir.

  2. ADRIANA CONDE diz:

    Olá Davi! Estou estudando exatamente esse livro de Crane no Doutorado. Adorei seu texto e suas imagens! Li o livro em Inglês, pois sou brasileira e não temos tradução ainda em português por aqui.

    1. Olá, Adriana! Ainda bem que ajudou. Também não temos tradução em português porque as editoras não querem. Mas, se isto continua assim, ponho aqui a tradução do Maggie e fica resolvido. Digo isto pois já muitas pessoas de Portugal e do Brasil mostraram interesse em lê-lo. Obrigado.

  3. Isso me ajudará bastante, mas tenho que ler a obra inteira, mas estando em inglês complica e muito já que tenho apenas uma semana para traduzir (de forma bastante rude, utilizando os tradutores e tentando fazer minhas adaptações). Obrigado por compartilhar seus conhecimentos conosco.

  4. Letícia diz:

    Seria ótimo se vc colocasse sua tradução aqui. Iria ajudar muitas pessoas na hora da leitura!

  5. Olá! Seu texto foi muito esclarecedor e me ajudou bastante! Obrigado!

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