Johnny Cash: Parte verdade, parte ficção, uma autêntica contradição

Kris Kristofferson definiu-o assim num tema, e Cash revia-se nestas linhas. Desde 1955 até à sua morte, em 2003, manteve-se 48 anos sob as atenções do público. Cantou na Casa Branca para presidentes, nas prisões para condenados. Tinha um lado bom, um lado negro. O cristão devoto passou grande parte da vida a pecar. The Man in Black. Uma lenda. “Hello… I’m Johnny Cash…”

johnny cash (31)Perguntas-me por que visto sempre de negro,
Por que nunca vês cores brilhantes em mim,
E por que o meu aspeto parece ter um tom sombrio.
Bom, há uma razão para as roupas que visto.

«Man in Black» (1971).

Várias razões explicam a longevidade de Johnny Cash. A luta tortuosa entre o seu lado positivo e o seu lado negro, as contradições dos seus atos, a voz inconfundível, a rebeldia e a contrição. O apelo é universal, já que parecia conter em si todas as qualidades e defeitos com que nos debatemos. Reedições recentes das suas canções voltam a recordar-nos uma das figuras mais importantes da música popular no século XX. A sua voz soava e continua a soar como a de um amigo que canta para outro.

Johnny Cash criançaJohnny nasceu em circunstâncias difíceis, a 26 de fevereiro de 1932 em Kingsland, no Arkansas, numa cabana, a meio da Grande Depressão, o mais novo de quatro irmãos. O pai, Ray, tinha muitas vezes de procurar trabalho noutros locais, e Johnny recordar-se-ia de ver o seu progenitor a saltar de um comboio em andamento, diante da casa da família. Outra lembrança que o marcou foi a de ouvir a mãe cantar, já que herdara o talento musical do pai, professor de música e diretor do coro de uma igreja durante 40 anos.

A criança foi educada no cristianismo, cantando hinos. Desde muito cedo, a mãe notou algo de especial em John, de acordo com o irmão Tommy:

“Quando ele tinha quatro ou cinco anos, ela disse que ele era diferente. E era-o, de facto, diferente de todas as outras crianças. Ela dizia que Deus estava com John e que ele iria cantar para milhões de pessoas. E tinha razão.”

A família mudou-se para Dyess, ao abrigo do New Deal do presidente Roosevelt, e Ray Cash comprou o primeiro rádio da família em 1936. “A primeira vez que soube o que queria fazer na vida foi quando tinha quatro anos. Ouvi uma canção chamada «Hobo Bill’s Last Ride» de Jimmie Rodgers. Foi maravilhoso. A partir de então, só queria cantar na rádio.”

johnny cash (29)O pai deitava-se cerca das 20:00, mas Johnny podia ficar acordado um pouco mais, para ouvir música. E, mesmo quando já devia estar a dormir, baixava o volume para ouvir mais canções. Foi assim que conheceu Roy Acuff, Eddie Arnold, Hank Williams, e o seu favorito, Jimmie Rodgers. O pequeno Johnny não ouvia apenas country, captava outras estações, atento ao som dos cantores negros de gospel e blues.

Aos cinco anos, a criança junta-se aos irmãos mais velhos na apanha do algodão. Aos oito, carregava pesados fardos às costas com a família, quando não estava na escola. Era uma vida dura para adultos e ainda mais para uma criança. A música era a sua fuga, e, nos campos, Johnny cantava temas que ouvira na rádio e canções gospel que a mãe lhe ensinara, como «Amazing Grace» ou «This Old Rugged Cross», hinos que não deixaria de cantar durante toda a vida.

Envergo o negro pelos pobres e derrotados,
Que vivem no lado sem esperança e esfomeado da cidade,
Envergo-o pelo prisioneiro que há muito pagou pelo seu crime,
Mas ainda lá está por ser vítima dos tempos.

Johnny ia também ao cinema, onde viu o “cowboy” Lash LaRue, que se tornaria um dos seus heróis. LaRue vestia-se sempre de negro, e foi daqui que Johnny Cash retirou a ideia para a sua própria indumentária, pela qual ficaria famoso mais tarde. (Se bem que também tenha descrito outros motivos, coerentes com o seu modo de ser, na canção «Man in Black».) Cash teve a oportunidade de ver Lash LaRue em Dyess, quando ia ser exibido um dos seus filmes, mas o ator apareceu demasiado bêbedo para subir ao palco – a primeira vez que Johnny testemunhou uma celebridade a demonstrar o seu pior lado em público e a conseguir safar-se com isso, devido apenas à fama.

Apesar dos ídolos musicais, a pessoa que Johnny mais admirava era o seu irmão, Jack, dois anos mais velho. Atlético, e não franzino como o irmão, Jack era o orgulho dos escuteiros.

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“Nunca houve irmãos mais íntimos e que se amassem tanto, em nenhuma família, como eu e o meu irmão Jack”, escreveria Johnny, anos depois, na sua autobiografia. “Ele era uma pessoa forte, estudava a Bíblia… sempre quis ser como ele.”

johnny cash (4)A 12 de maio de 1944, o irmão mais novo ia pescar, enquanto o mais velho ia trabalhar na oficina da escola. Enquanto caminhavam até lá, Johnny tentou convencer Jack a esquecer o trabalho e ir pescar com ele. Mas Jack recusou, sabendo que a família precisava do dinheiro (três dólares). Seguiram caminhos diferentes e nunca mais se encontrariam. Jack sofreu um violento acidente com uma serra mecânica circular, que bateu num nó da madeira e lhe atingiu o tronco de frente, falecendo nove dias depois. O pai culpou Johnny injustamente. Cash sofreria de um enorme sentimento de culpa devido à trágica morte do irmão, de acordo com o seu psiquiatra nos anos 60 e 70.

Johnny nunca recuperou totalmente desta perda e foi então que a sua personalidade dividida, e reconhecida pelo próprio, se começou a manifestar. Tornou-se introspetivo, refugiou-se na música e começou a escrever poesia. Depois de terminar o liceu, em 1950, abandonou Dyess e rumou ao norte dos EUA. Trabalhou nas fábricas de automóveis de Detroit, mas desistiu, alistando-se na Força Aérea. Nos testes de aptidão, foi classificado com notas altas por distinguir sons complexos, sendo selecionado para a prestigiada função de intercetor de mensagens de rádio, captando relatos codificados, ou em código Morse, do inimigo e traduzindo-os. No Texas, conheceu também a sua primeira mulher, Vivian.

Cash é destacado para uma missão em Landsberg, na Alemanha. Era bem pago e, nas noites de folga, descobriu a cerveja alemã e as algazarras em bares.

Durante o dia, intercetava mensagens de rádio, especialmente da União Soviética. Era um dos melhores na sua função e o primeiro a captar e retransmitir o relato da morte de Estaline ou o do voo do primeiro bombardeiro russo. Estes longos turnos exigiam grande concentração e, certa vez, John descontrolou-se e atirou uma máquina de escrever pela janela, sendo perdoado devido ao seu profissionalismo.

Johnny não ouvia só mensagens. Ao fim de semana, captava as emissões do Grand Ole Opry, em Nashville, no Texas, não esquecendo o sonho de um dia atuar no santuário da country. Comprou a sua primeira guitarra por poucos dólares, aprendeu a tocar com colegas e descobriu que, na caserna, alguns camaradas partilhavam os seus gostos musicais. Formou um grupo, os Landsberg Barbarians, mas não esquecera Vivian, pedindo-a em casamento e enviando um anel de noivado para o Texas.

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Em 1954, Johnny Cash regressou aos EUA, endurecido devido à passagem pelo exército. Ao chegar de autocarro a Memphis, o irmão Roy aguardava-o, tendo feito um intervalo a meio do dia de trabalho numa oficina de automóveis. Johnny acompanhou-o até lá e conheceu dois colegas do irmão, mecânicos e amadores da guitarra: Marshall Grant e Luther Perkins. Grant recordaria:

“Quando vi Johnny, tive um estranho pressentimento, como se visse Deus. Ele, Luther e eu tornámo-nos irmãos de sangue nesse instante.”

Para ganhar a vida, Johnny tornou-se vendedor de eletrodomésticos de porta a porta, tarefa na qual não era bom, até porque tinha outros planos. Nos tempos livres, juntava-se a Marshall e Luther para tocar. Pediu 50 dólares emprestados a Marshall para poder casar com Vivian. Memphis, nesses tempos, era o centro da fusão entre gospel e blues que despoletaria a revolução do rock and roll. Elvis Presley gravara o primeiro single no Sun Studio, a poucos quarteirões da oficina onde Johnny conhecera os dois amigos.

O grupo nem sabia afinar um baixo… porém, Johnny estava determinado em enveredar pela música e começou a telefonar a Sam Phillips, proprietário e produtor da Sun Records, que transformara Elvis numa estrela. Pediu uma audição e disse que era cantor de gospel. “Não, obrigado, o gospel não vende.” À segunda, Johnny disse que era cantor de country. Nova recusa.

“Descobri a que horas o homem ia trabalhar e, certa manhã, sentei-me nos degraus do estúdio com a minha guitarra. Ele apareceu e apresentei-me. Ele perguntou se era eu que tinha telefonado, respondi-lhe que sim, e ele disse, ‘entra, vamos lá ouvir’.”

Johnny escrevera uma canção chamada «Hey Porter», que impressionou Sam. Este disse-lhe para voltar no dia seguinte e trazer músicos. Cash trouxe Luther e Marshall. O som era rude, mas Phillips gostou e gravou o tema para um single. Semanas depois, gravou o lado b, «Cry, Cry, Cry». O grupo precisava de um nome, e Sam Phillips batizou-os de Johnny Cash & The Tennessee Two. Editado o single, todas as estações de rádio de Memphis começaram a passar ambos os lados. Johnny regressou a Dyess, espantando a família, que adorou o disco. Até na jukebox da loja local, os seus conterrâneos puderam ouvir, vezes sem conta, o single e, a partir de então, todos os discos de Johnny Cash.

johnny cash (27)Dois dólares e 41 cêntimos foi o valor do primeiro cheque de royalties que Cash recebeu. Ganhando 20 ou 30 dólares por noite, o grupo começa a atuar com sucesso em Memphis. Em 1955, Johnny partilha o cartaz com Elvis, num espetáculo importantíssimo na sua carreira. No dia seguinte, as fotos nos jornais mostravam os dois músicos, embora, em privado, nunca tivessem sido amigos íntimos – eram rivais e faziam até troça um do outro.

O sonho concretizava-se, à medida que o casamento ia de mal a pior. Vivian receou que as atenções femininas que Elvis recebia se repetissem com Johnny. Na sua primeira digressão, Cash viaja até ao Texas, acompanhado por Elvis Presley e outros artistas da Sun Records, como Carl Perkins, que se tornaria amigo íntimo de Johnny – tinham nascido no mesmo ano, crescido em relativa pobreza e trabalhado nos campos de algodão.

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No camarim, Cash e Perkins trocavam ideias. Johnny partilhou com Carl a ideia de uma nova canção que compunha acerca de “andar na linha” ou, por outras palavras, de ser fiel a Vivian. Cash queria dar-lhe o título «Because You’re Mine», mas Carl disse, “não, chama-lhe antes, «I Walk the Line»”, o que inspirou Johnny a terminar o tema em 20 minutos. Seria um dos seus maiores êxitos. Retribuindo o “favor”, Johnny sugeriu a Carl que escrevesse uma canção que se tornaria no maior sucesso de Perkins. Cash estava no carro, com o pé apoiado no banco da frente, a olhar para o sapato, e disse que Carl devia “escrever uma canção sobre sapatos… talvez sobre uns blue suede shoes…”

Na estrada, Johnny conheceu os excessos da vida de músico, mas fazia intervalos e regressava a casa, para junto da esposa e da filha, Roseanne. Continuava a ganhar o suficiente para assegurar a sobrevivência e ainda vendia eletrodomésticos.

No final de 1955, é lançado «Folsom Prison Blues», outro hit dos Johnny Cash & The Tennessee Two, que atingiu o número 4 das tabelas de vendas country/western. Desta vez, a inspiração veio de um filme a que Cash assistira na Alemanha, Inside the Walls of Folsom Prison.

Seguiram-se atuações em programas de rádio, destacando-se o prestigiado Louisiana Hayride, que já lançara as carreiras de músicos famosos como Hank Williams, além de simbolizar um ritual de passagem para atuar no Grand Ole Opry. Chega então o segundo cheque de royalties da Sun Records, com a quantia de 6 mil dólares, mais do que o pai de Johnny ganhava num ano. A venda de eletrodomésticos ficou definitivamente posta de parte.

A 7 de julho de 1956, o sonho de infância torna-se realidade: Cash atua no Grand Ole Opry. Milhares de pessoas ouviram pela rádio. Foi uma noite em cheio, um sucesso tremendo e, além disso, Johnny também foi apresentado à mulher que seria o amor da sua vida, June Carter. Pouco tempo depois, voltaram a encontrar-se no Opry e, embora ambos fossem casados, Cash disse-lhe que, um dia, casaria com ela. Musicalmente, o sucesso chegara, bem como digressões mais extensas e trabalho de estúdio.

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A contratação de um novo e astuto manager, Stu Carnell, permitiu a Johnny alcançar novas zonas dos EUA com a sua música. Foi neste período que a pressão de tocar todas as noites e de viajar constantemente começou a afetar Cash, que emagreceu bastante. Um dos músicos na digressão deu a Johnny o seu primeiro comprimido.

As anfetaminas eram vendidas nas farmácias mediante receita médica e populares entre quem queria perder peso ou camionistas que tinham de conduzir e manter-se acordados durante longos períodos. A comunidade médica, publicamente, dizia que estas substâncias não produziam efeitos secundários, mas, em privado, os médicos sabiam a verdade. Entre quatro e 12 horas, mantinham uma pessoa acordada e alerta, dependendo da dose. Passado o efeito, caía-se num sono profundo, ou então tomava-se mais, entrando num ciclo vicioso.

Johnny Cash via esta droga como um medicamento que o auxiliava na sua profissão e depressa ficou viciado; perdia as inibições e o nervosismo antes de atuar. Seis meses depois, estava já com um aspeto quase cadavérico, mas a sua popularidade nunca sofreu abalos. Compunha sem parar, temas como «Give My Love to Rose» ou «Big River».

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Enquanto aguardava a chegada da sua terceira filha com Vivian, Johnny assinou um novo contrato, desta vez com a Columbia Records, o que trouxe mais promoção, uma maior percentagem nas vendas de discos e lhe permitiu gravar um projeto há muito ambicionado, um álbum de canções gospel, ideia que Sam Phillips sempre recusara. O compositor muda-se então para a Califórnia e lança o seu primeiro álbum, The Fabulous Johnny Cash e Hymns by Johnny Cash.

johnny cash (3)Quando Johnny regressou à estrada, apesar destes triunfos e das aparições televisivas cada vez mais frequentes, o seu comportamento modificou-se; as alterações de humor provocadas pelas anfetaminas acentuaram-se. Em agosto de 1960, W. S. Holland, antigo baterista de Carl Perkins, junta-se ao grupo.

Um dia, no camarim, Johnny disse aos três amigos que, enquanto fosse músico queria que tocassem com ele em todos os espetáculos e gravações que fizesse. Este era o lado fiel e solidário de Cash, que contrastava com as atitudes violentas sob o efeito das anfetaminas e do álcool. Os sentimentos de culpa e a consciência do rumo autodestrutivo pelo qual enveredara, faziam com que Johnny Cash se refugiasse cada vez mais na religião como modo de se redimir.

Em tournées que os deixavam esgotados, e para combater a monotonia, Johnny e a banda começaram um longo historial de destruir hotéis, protagonizando diversas partidas, muito antes deste procedimento se tornar quase ritualístico entre grupos na estrada. Um dia, por exemplo, compraram uma serra elétrica e serraram todas as pernas das cadeiras e mesas de um quarto de motel, deixando os móveis na mesma posição. Adivinha-se a reação do hóspede seguinte, ao tocar no mobiliário… “Fizemos um bom trabalho, mas não pudemos ficar para testemunhar o efeito”, comentou o baterista.

A morte do seu melhor amigo, o cantor Johnny Horton, num acidente de viação, foi outra perda sentida profundamente por Cash. O início dos anos 60 ficou marcado por um consumo cada vez maior de estupefacientes e vandalismo nos hotéis. Uma vez, Cash e companhia atiraram um televisor pela janela, espatifando-o no parque de estacionamento para assustar um promotor – gesto perigoso que poderia ter matado alguém.

Noutra altura, em Des Moines, aborrecido por ter ficado no quarto ao lado da sua banda (com algum humor, diga-se), Johnny foi buscar o machado de emergência ao corredor e abriu uma “porta” na parede à machadada, para ter assim hipótese de confraternizar com os amigos quando quisesse.

johnny cash (20)Os músicos não consumiam as mesmas substâncias que Johnny, mas eram sempre cúmplices nestas investidas. Depois do episódio da parede, de regresso ao hotel, acharam que iam ter problemas com a gerência. W. S. Holland disse a Johnny para ir buscar novamente o machado… e abrir, desta feita, a porta do quarto à machadada. Disseram ao gerente que alguém vandalizara o quarto e nem pagaram a estadia…

“O meu caso com os comprimidos já começara” confessa Cash na sua autobiografia. “Rapidamente se tornou voraz, consumindo-me na década seguinte. É espantoso como não destruiu por completo a minha carreira.”

“Durante esses anos, fiz música de que ainda me orgulho, especialmente Ride This Train, Bitter Tears e os meus outros álbuns conceptuais, com sucesso comercial. «Ring of Fire» foi um grande êxito, em 1963. Por essa altura, já destruíra a minha família e estava empenhado em fazer o mesmo a mim próprio. Mas sobrevivi.”

Johnny e June Carter.
Johnny e June Carter.

Problemas conjugais sérios coincidiram com o auge do seu sucesso. Johnny é preso por embriaguez em Nashville, as suas cordas vocais começavam a ser afetadas pelo uso contínuo das anfetaminas; perdia a voz, os espetáculos eram cancelados e, noutras alturas, nem sequer aparecia. No meio desta espiral, June Carter junta-se à digressão, atuando com Johnny. Apesar de não ter o talento de Cash, possuía uma presença em palco e um humor que cativavam o público. Os colegas aperceberam-se de que ambos estavam unidos por mais do que a música. Viviam casamentos infelizes e estavam apaixonados.

Sem sucesso, June tentou que Cash parasse com as drogas – quanto mais tentava, pior se tornava a situação; espetáculos cancelados, comportamento errático e desconfianças dos promotores, que só o contratavam para salas pequenas, receando pedidos de devolução de bilhetes. Johnny gravava agora álbuns, e não os lucrativos singles que o tinham projetado para a fama e o sucesso. Nesta fase, June escreveu uma canção em parceria com Merle Kilgore, inspirada pelo modo como se apaixonou por Johnny, oferecendo a Cash um grande e necessário êxito, «Ring of Fire». Chegou ao número um do top de música country.

Quando os comprimidos se tornaram mais difíceis de obter, Johnny Cash recorreu a outros meios, desde arranjar receitas de médicos a lidar com traficantes. Durante as digressões internacionais, prosseguiu o vandalismo. Num hotel elegante de Frankfurt, irritado por um comentário antiamericano de um alemão, Cash retalhou reproduções de quadros famosos à facada. A situação resolveu-se, mas o grupo ficaria banido desse hotel. O cantor começou a sofrer vários acidentes de automóvel, ao conduzir embriagado ou drogado, mas até a polícia fazia vista grossa, uma vez que se tratava de Johnny Cash. Tal não sucedeu em 1965, quando foi detido por tráfico de droga, depois de ter trazido uma enorme quantidade de anfetaminas e sedativos do México.

johnny cash (15)Apesar de tudo, continuava a autodestruição e não havia desculpas para as suas atitudes. Durante um espetáculo no Grand Ole Opry, sala na qual já era frequente atuar, ao ter problemas com o ajustamento de um microfone, descontrolou-se, pegou no suporte e partiu 40 lâmpadas de palco. Foi, desta vez, banido de entrar na Opry. Piorando a situação, entrou no carro de June e embateu rapidamente num poste, partindo o nariz e quatro dentes.

Saturada, Vivian pediu o divórcio de um casamento fantasma, o que permitiu a Johnny ficar com June, que entretanto também se divorciara. O cantor comprou a sua casa de sonho em Hendersonville, perto de Nashville. Em 1967, embarcou num voo para comparecer numa reunião familiar. A bordo, mostrou-se tão perturbado e violento, que o piloto teve de aterrar de emergência e expulsá-lo do avião. Quando finalmente chegou a Nashville, o irmão, Tommy, e o pai receberam-no no aeroporto. Tommy perguntou-lhe se já tinha acabado o “espetáculo do dia”, e Johnny agrediu-o violentamente. No dia seguinte, pediu desculpa e o incidente foi esquecido, uma vez que a família conhecia aqueles impulsos furiosos.

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Com Bob Dylan.

Acho que nos vamos safando bem, por agora,
Com os nossos carros reluzentes e roupas vistosas,
Mas para que nos lembremos dos que ficaram para trás,
À frente, deve haver um homem de negro.

Eram já 10 anos de abuso de substâncias: O cantor podia mostrar-se amável, mas, quando o lado negro tomava conta dele, era monstruoso. Numa caverna perto de Chattanooga, Tennessee, Johnny Cash tenta suicidar-se, entrando nos túneis labirínticos com uma lanterna, e caminhando até a luz se apagar. Deitou-se no chão e esperou a morte. Segundo relata na sua autobiografia, manteve-se assim durante horas, até Deus lhe ter falado; queria que ele fizesse muitas coisas na vida. Cash ergueu-se e encontrou a saída nas trevas.

Em novembro, foi detido por embriaguez na Geórgia por um xerife compassivo. Depois de passar a noite na cela, o agente da autoridade perguntou-lhe como é que uma coisa tão pequena como um comprimido lhe destruía a vida.

“Disse-me que muitas pessoas gostavam de mim, tal como ele próprio, e que me estimavam. Disse que eu era um homem melhor do que aquilo. Nunca me esqueci das suas palavras.”

O episódio, quase rotineiro no percurso de Cash, motivou-o a deixar finalmente os excessos, recorrendo a um psiquiatra. Isolou-se durante semanas em casa, sofrendo de abstinência, pesadelos e febres. Julgou que enlouquecia. Com a ajuda dos amigos e de June, Cash libertou-se do inferno e dos seus demónios íntimos.

Em 1975, escrevia com conhecimento de causa:

“Prefiro falar sobre o antídoto, o reverso da violência, da tragédia, do vício e das outras dificuldades e atribulações que este mundo nos oferece. Por isso, agradeço um par de sapatos confortáveis nos pés. Sinto-me grato pelos pássaros e acho que cantam só para mim quando me levanto de manhã, parecendo dizer, ‘bom dia, John, conseguiste, John’. E, ao primeiro raio de sol, sinto-me grato por viver até à noite para o poder observar.”

johnny cash (19)“Felizmente, não sofro de nenhuma doença terminal, a minha saúde é razoável; levanto-me, tomo o pequeno-almoço e caminho entre as flores, sentindo o aroma das orquídeas. Sinto-me grato por ter uma boa esposa ao meu lado, em quem confio e dependo de muitas formas. Sinto-me grato por ser a minha alma gémea e podermos conversar, por vezes, sem palavras.”

Johnny Cash já merecia esta paz. Perdoou-se a si mesmo pela morte do irmão. Em 1969, de sistema limpo, Johnny Cash era já uma lenda, reencontrando o rumo. Casou com June e a sua popularidade sustentou-se, agora auxiliada pelo seu próprio programa de TV, para o qual convidou músicos como Eric Clapton, Joni Mitchell ou Bob Dylan.

Bob Dylan e Johnny Cash.
Bob Dylan e Johnny Cash.

Na década de 70, as vendas dos discos diminuíram, mas Johnny Cash continuou em digressão pelos EUA e um pouco por todo o mundo. Nos anos 80, já pouco vendia. O seu autocarro de digressão, denominado “Unit One”, tinha a casa de banho forrada com pele de crocodilo…

“Tenho um lar que me leva onde quer que vá, é o meu berço e o meu conforto, deixa-me adormecer nas montanhas e acordar nas planícies: O meu autocarro, é claro. Adoro-o. Anda melhor agora do que quando era novo, provavelmente devido ao peso que lhe adicionámos ao longo dos anos. Só precisou de um novo motor em 17 anos e poucas reparações. Levou-nos a todos os cantos dos EUA e do Canadá sem nos deixar apeados uma única vez. Quando saio de um aeroporto e o avisto, é um alívio! Ah! Segurança, familiaridade, solidão. A paz, finalmente. A minha concha. Eu e June lemos bastante, desde a Bíblia a pulp fiction.”

johnny cash (28)Facilmente caio na tentação de traduzir aqui por inteiro a autobiografia de Johnny Cash… parece falar-nos como um amigo, sem renegar os tempos maus, e honestamente contando uma história verídica que parece ficcional como todas as boas histórias. Ambas permanecem.

Bem sei, há coisas que nunca estarão certas,
E as coisas precisam de mudança onde quer que passemos,
Mas até fazermos algo e tornarmos algumas coisas certas,
Nunca me verão num fato branco.

As novas gerações não o conheciam, até que 1993, a situação se alterou, quando Cash foi contactado pelo produtor Rick Rubin, mais conhecido pelo seu trabalho com os Beastie Boys ou os Run–D.M.C. Rubin foi um dos grandes responsáveis pelo regresso triunfante de Johnny Cash, transformando-o num ídolo para novos públicos.

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“A minha doença não está ativa. A noite passada, passaram uma garrafa de vinho pela mesa, e nem pensei em beber um gole. Por que penso nisso agora? Cuidado, Cash! Nunca sejas complacente. Nunca tomes nada como garantido. Não esqueças, altos preços foram pagos e serão pagos de novo se te tornares demasiado egotista e autoconfiante. Sinto-me grato pela brisa que vem do mar e que sabe tão bem agora, e o aroma do jasmim quando o sol se põe. Sou um homem feliz.”

Johnny Cash venceu 11 grammies, gravou mais de 1.500 canções; foi integrado no Nashville Music Hall of Fame em 1980, no Rock & Roll Hall of Fame em 1992, recebeu o prémio da Biblioteca do Congresso americana, o Living Legend Award, em 1999, e vendeu mais de 50 milhões de discos.

Faleceu a 12 de setembro de 2003, quatro meses depois da esposa, June.

The Man in Black” desapareceu, mas a chama continua viva. É hoje popular em todo o mundo, com novos fãs da sua música, do seu legado e junto de pessoas que partilham as suas convicções. Há um homem de negro em todos, pelo menos, nos que admitem as realidades. The Ring of Fire? “O círculo não será quebrado” por nós.

Ah, gostaria de envergar um arco-íris todos os dias,
E dizer ao mundo que está tudo OK,
Mas tentarei trazer algumas trevas nas costas,
Até as coisas melhorarem, sou o Homem de Negro.

David Furtado

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4 Comments Add yours

  1. luiza diz:

    ameiiiii..sou fã de johnny cash faz 3 anos..tenho 16 anos e ele é minha ispiraçao admiro demais ele..chorei lendo tudo isso..abraços

    1. Olá, Luiza. O Johnny Cash é mesmo daqueles artistas que nos inspiram. É por isso muito gratificante ler as suas palavras. Obrigado! Abraço.

  2. Wellington diz:

    Poucas vezes se encontram textos de tamanha qualidade e conteúdo, ainda mais em nossa língua, bom… sem palavras mesmo, só agradeço ao autor! 😀 sou bastante fã do Johnny também, já havia assistido o filme, mas o texto é bem mais detalhado.

    1. Obrigado, Wellington. Ainda bem. Também sou fã do Johnny Cash. Gostei do filme. 🙂

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