A Idade da Inocência de Martin Scorsese: Outros tempos, a mesma essência

age of innocence scorsese (7)Passado na alta sociedade nova-iorquina de 1870, este filme de época parece, à primeira vista, longe dos retratos brutais da Big Apple – obras como Os Cavaleiros do Asfalto, Taxi Driver ou O Touro Enraivecido. Não existe aqui violência explícita, mas Scorsese expõe lutas interiores tão ou mais violentas: As dos sentimentos. Tudo sob a capa dos bons costumes, discrição e elegância. O derramar de sangue é apenas “emocional”, tal como disse Michelle Pfeiffer.

No século XIX, em Nova Iorque, um jovem advogado, ‘Newland Archer’, apaixona-se pela ‘Condessa Ellen Olenska’, recentemente regressada à cidade e separada do marido. O problema é que ‘Archer’ está noivo de ‘May’, uma jovem pura e virginal, prima da Condessa… “Ele acha que ninguém se apercebe”, diz Scorsese, “mas todos se apercebem. Quando li aquelas palavras, senti que Edith Wharton me conduzia numa viagem. Senti-me como o personagem. E percebi como sou tolo. E como ele é tolo. Adorei a maneira como a prosa dela quase o desmembra”.

O filme de Scorsese, realizado em 1993, baseia-se na obra de Edith Wharton, escritora amiga e contemporânea de Henry James. Foi Jay Cocks, antigo crítico de cinema da Time e amigo do realizador, quem lhe deu o livro, em 1980. (Cocks acabaria também por escrever o argumento em parceria com o cineasta.)

“Ele disse-me, ‘quando realizares o teu filme de época, o teu romance, esta é a história que procuras”, declara Scorsese, que não conseguiu pousar o livro.

“Ele não quis dizer que eu me identificaria com ‘Archer’ ou ‘Ellen’ ou algo desse estilo. Era o espírito da obra, o espírito da terrível e intensa dor romântica. A ideia de que o mero toque da mão de uma mulher bastava. A ideia de que, ao vê-la do outro lado da sala, ele manter-se-ia vivo durante mais um ano. Acho que estas coisas fazem parte de mim. Jay, por essa altura, conhecia-me bastante bem.”

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Scorsese nas filmagens de A Idade da Inocência.

A “intensa dor romântica” não era estranha a Scorsese, que confessou, certa vez, não conseguir regressar a Veneza, por culpa de “associações sentimentais” relacionadas com a cidade. O realizador também admitiu que não conseguia assistir a filmes de determinado estúdio por causa de uma mulher que lá trabalhava. Talvez por ter sofrido estas “fobias” na pele, tenha conseguido tornar A Idade da Inocência numa obra notável, muito mais do que a adaptação convencional de um clássico da literatura.

“Não há muito derramar de sangue”, concorda Michelle Pfeiffer. “Pelo menos, não do tipo que estão a pensar. Há muito sangue emocional derramado. Marty descreveu-o como o seu filme mais violento.”

age of innocence scorsese (6)Os admiradores de Tudo Bons Rapazes, Casino ou do truculento pugilista Jake LaMotta, poderão olhar com desconfiança para uma obra que parece diametralmente oposta no percurso do cineasta. Isto é contrariado por vários fatores. O modo como Scorsese filma é totalmente identificável, a sua originalidade e sentido do imprevisto não se alteram, embora sirvam sempre o propósito da história. Há até algum humor. Visualmente, temos vários planos que poderiam ser transpostos para quadros a óleo. Sem cair no tom sépia que muitas vezes entorpece este género de produções, Scorsese utiliza cores vivas, retratando o período de modo fidedigno. A cena em que ‘Newland’ vai chamar a Condessa junto ao farol é um exemplo de um quadro vivo, a nível de composição, com a silhueta de Pfeiffer no horizonte.

Este estilo, que nunca cai no exagero, contrasta vincadamente com os códigos sociais rígidos, pelos quais os protagonistas se regem, no que toca ao modo de expressão, à maneira como se movimentam, como ganham as suas vidas, como casam e se apaixonam. Nesta última faceta, reside o drama de ‘Newland Archer’.

Entusiasmado, Scorsese pesquisou os costumes da época e espantou-se: “Naqueles dias, podíamos escolher entre 70 garfos diferentes. 70! É fascinante.” O realizador contratou especialistas em etiqueta, como Lily Lodge, cujo avô conhecera Edith Wharton pessoalmente. Ao todo, foram 12 os consultores envolvidos. As sete cenas de jantar foram preparadas com toda a minúcia. Michelle Pfeiffer nunca assistira a semelhante meticulosidade na sua carreira.

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Scorsese não considerou a hipótese de contratar Pfeiffer depois de a ver em Ligações Perigosas (1988), o que seria previsível, tratando-se de outro drama de época. Foi o seu papel em Viúva… Mas Não Muito, do mesmo ano, que lhe atraiu a atenção. “Embora fosse uma comédia, ela conferiu tanta veracidade ao papel que cheguei a pensar que ela era mesmo de Queens.”

UM MUNDO ESTILHAÇADO POR UM SUSSURRO

age of innocence scorsese (1)Para Edith Wharton, a “idade da inocência”, como a apelida com ironia, já desaparecera muito antes de terminar o livro. Nas palavras do crítico Roger Ebert, a autora “percebeu, contudo, que as personagens da sua história sentiam os mesmos desejos intensos que nós, os bárbaros modernos, e que, ao não tomarem uma atitude sobre eles, só tornavam tais paixões ainda mais poderosas”. Neste mundo onde a história se desenrola, há quem case por amor, sim, mas tal prática é encarada com desconfiança. Qualquer semelhança com os tempos modernos é pura coincidência.

Roger Ebert, que conhece a fundo a obra de Scorsese (e perde a objetividade com frequência, ao criticar os seus filmes), assinala que “outro ponto essencial é o tema Madonna-prostituta: O herói, ‘Newland Archer’, encontra-se dividido entre a heroína impoluta da alta sociedade e a divorciada, e portanto escandalosa, mulher recentemente regressada da Europa. O que é notável é a subtileza com que Scorsese retrata uma sociedade onde cada gesto ou a mínima diferença na entoação de uma frase podem tornar-se numa espécie de violência codificada”.

O crítico considera que “vivemos numa Era de modos brutais, em que as pessoas dizem rudemente o que pensam, a comédia é baseada no insulto e as obscenidades públicas não chamam a atenção”. Ebert contrasta esta ideia com a rigidez de comportamentos de A Idade da Inocência. Não sei se estou em completo acordo ou extremo desacordo. O filme, em essência, mostra como, cerimoniosamente ou não, todos estamos integrados numa sociedade que nos cataloga, em que a posição ou o dinheiro são fatores determinantes, em que o amor não é como o pintam. Em suma, mudaram as armas, mas o conflito é o mesmo. Aqui transparece a genialidade de Scorsese, que recorre à atriz Joanne Woodward na qualidade de narradora de várias passagens do livro, sempre integradas nos momentos propícios.

Scorsese joga com vários elementos, por vezes, simultaneamente, criando um efeito notável. Por exemplo, no início, quando ‘Newland’ entra em casa dos Beaufort, a câmara segue Daniel Day-Lewis num plano contínuo por detrás e de perfil, sem deixar de mostrar as pinturas nas paredes, a imponência do ambiente e a ironia da escrita de Wharton, narrada por Joanne Woodward:

“A casa dos Beaufort fora arrojadamente planeada. Em vez de uma estreita passagem até ao salão de baile, desfilava-se solenemente por várias salas. Mas só depois de se atravessar a sala carmesim, se podia ver O Regresso da Primavera, o muito discutido nu de Bouguereau, que Beaufort tivera a audácia de pendurar à vista de todos. Archer gostava de tais desafios às convenções. Em privado, questionava o conformismo, mas, em público, defendia a família e a tradição. Era um mundo tão precariamente equilibrado que a sua harmonia podia ser estilhaçada por um sussurro.”

“De cortar a respiração” é um termo mais aplicado a outro género de filmes, mas podemos facilmente empregá-lo para descrever esta e várias outras sequências de A Idade da Inocência. “Em geral, Archer divertia-se com as suaves hipocrisias dos seus pares.” É este homem confiante e desejoso de anunciar o seu noivado com a ingénua e pura ‘May Welland’ (Winona Ryder) que vê o seu mundo de aparências despedaçar-se, a pouco e pouco.

Scorsese com Pfeiffer e Day-Lewis.
Scorsese com Pfeiffer e Day-Lewis.

‘Newland’ que, de início, encara com um certo desprezo as teias da sociedade em que se insere, acaba por ficar dentro de uma “fortificação” da qual não pode sair. Sendo advogado, mas possuidor de ética e dignidade, ‘Archer’, num momento de paixão, acaba por sugerir a fuga com a Condessa, mas, e sem revelar demasiado, ambos sabem o que tal gesto implicaria. Este dilema entre o que se quer e o que se deve fazer é o fulcro de A Idade da Inocência.

ESPARTILHOS DEMASIADO APERTADOS

age of innocence scorsese (4)Durante as filmagens, Pfeiffer tornou-se quase uma protetora de Winona Ryder, uma irmã substituta. A importância dada aos pormenores foi de tal ordem que duas figurantes desmaiaram por terem os espartilhos tão apertados. “Os nossos vestidos eram tão justos que, se fizéssemos qualquer movimento, sentíamos tonturas”, recorda Winona. “Era muito doloroso mas tinha um ar belíssimo.”

Pfeiffer mostrou-se menos preocupada com o guarda-roupa. “Era desconfortável, de facto, mas tudo o que importava era trabalhar com Marty Scorsese”, comenta a atriz. “Era como um sonho tornado realidade. E também é invulgar trabalharmos com as pessoas que mais admiramos sem ficarmos desapontadas.”

Michelle Pfeiffer recorda um episódio da rodagem: “Filmávamos em Brooklyn Heights, na rua, e todas as pessoas da vizinhança apareceram, era como se o circo tivesse chegado à cidade. Eu estava dentro do meu trailer e, cá fora, ouviam-se grandes gritos. E eu não parava de procurar um lugar donde não me pudessem avistar do exterior. Fui para a parte traseira, onde não me viam e donde os ouvia melhor. Aquelas pessoas normalmente gritavam ‘Michelle, Michelle, adoramos-te, Michelle”, mas uma delas disse, ‘hei, pá! Eu vi-a e ela parecia velha”…

Uma das influências do realizador foi A Herdeira, filme de 1949 com Montgomery Clift e Olivia De Havilland. O Leopardo, de Luchino Visconti (1963), foi outra, e Scorsese chegou mesmo a exibir a sua versão restaurada perante os elementos do elenco e equipa técnica. Esta sensibilidade italiana é acentuada ao longo do filme. Um dos diretores artísticos foi Dante Ferretti, que venceria três Óscares, dois deles em filmes de Scorsese: O Aviador e A Invenção de Hugo (partilhados com a decoradora de cenários Francesca Lo Schiavo).

A angústia interior de ‘Newland’ é-nos transmitida de modo fabuloso por Daniel Day-Lewis, que, desde o início prometia e cumpriu: Tornou-se, ao longo dos anos, num dos atores mais verosímeis e brilhantes na pele de qualquer personagem, escolhendo com cuidado os projetos; desde O Meu Pé Esquerdo (1989) que lhe valeu o primeiro Óscar, passando por Em Nome do Pai, lançado no mesmo ano em que o filme de Scorsese, até 2007, em que surgiu com mais um desempenho extraordinário num filme de exceção, Haverá Sangue, de Paul Thomas Anderson, conquistando o segundo Óscar.

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Em Gangs de Nova Iorque (2002), Daniel Day-Lewis voltaria a trabalhar com Scorsese. Depois da longa “fase Robert De Niro”, o realizador teria feito uma escolha muito mais acertada, para seu ator-fétiche, com Day-Lewis, em vez de optar por Leonardo DiCaprio, dando-lhe papéis para os quais o ator notoriamente não foi talhado – Gangs de Nova Iorque, O Aviador, Shutter Island

O talento de Daniel Day-Lewis é compatível com a excelência das suas coprotagonistas femininas: Michelle Pfeiffer e Winona Ryder, nomeada para Melhor Atriz Secundária por este filme. Nomeado para mais quatro galardões, A Idade da Inocência só venceu na categoria de Melhor Guarda-Roupa. Winona Ryder, que, em finais da década de 80 e durante os anos 90 foi um dos mais promissores talentos do cinema americano, viria a perder a sua preponderância, sendo, de certo modo, ultrapassada por Natalie Portman, em papéis importantes que lhe serviriam como uma luva.

BRUTALIDADES E SUBTILEZAS

age of innocence scorsese (8)Quase no final, e sem revelar o desfecho, o autoconfiante e inteligente ‘Newland’ é descrito desta maneira implacável por Edith Wharton, novamente pela voz de Joanne Woodward. Pálido e quase a quebrar, o advogado tem de manter as aparências durante um cerimonioso jantar: “Archer via todas as pessoas de ar inofensivo como conspiradores, e ele e Ellen no centro da conspiração. Adivinhava-se, durante meses, alvo de silenciosos olhos observadores e ouvidos pacientemente à escuta. Percebeu que, de alguma maneira, a separação entre si e a parceira da sua culpa fora alcançada. E sabia que agora toda a tribo se unira em torno da sua mulher. Era um prisioneiro no centro de um campo fortificado.”

O desempenho de Daniel Day-Lewis, nestas situações, é exímio, nunca histriónico, e a sua angústia é quase palpável. Este trabalho do ator, enquadrado na elegância e na atenção ao pormenor, tornam A Idade da Inocência numa das obras-primas de Martin Scorsese.

O realizador conta que outro dos aspetos que o atraiu neste filme foi um diálogo entre ‘Newland’ e ‘May’, em que o marido é apanhado a mentir, mas disfarça na perfeição. “Ambos sabem que ele mentiu, mas nenhum o diz. Achei fascinante a ideia de filmar a cena com leveza. Pensei no posicionamento da câmara, na dimensão dos intérpretes no enquadramento, no nível emocional da performance dos atores. Foi engraçado, como pintar miniaturas, muito divertido.”

Em O Touro Enraivecido, a linguagem é totalmente diferente. Nas palavras de Scorsese:

“Bem, uma frase como, ‘vais encontrar o teu cão morto à porta’ não é a alma da subtileza… o que nunca me saiu da mente foi a brutalidade por detrás das maneiras. As pessoas escondem o que sentem sob a superfície da linguagem. Cresci em Little Italy e, quando alguém era assassinado, havia uma finalidade nisso. Muitas vezes, morriam às mãos de um amigo. Era quase um massacre ritualista, um sacrifício. A sociedade nova-iorquina de 1870 não tinha isso. Era de um sangue-frio extremo. Não sei o que é preferível. Cresci a pensar de um modo, mas, na minha vida privada, durante os últimos 10 anos, comecei a apreciar a habilidade de dizer pouco, em certas situações emocionais, e significar muito.”

Martin Scorsese dedicou o filme ao seu pai, que falecera recentemente, aos 80 anos. E é verdade que regressou a Veneza, onde A Idade da Inocência foi exibido no seu prestigiado festival. Ao assistirmos a este clássico, é notório que, sem desvirtuar o texto original de Edith Wharton, o realizador concebeu uma obra tão pessoal como os outros retratos de Nova Iorque que filmou; e que se tornaram universais devido à honestidade artística com que foram criados.

David Furtado

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2 Comments Add yours

  1. Amanda Pereira diz:

    Esse filme é realmente, uma daquelas obra primas que enchem nossos olhos, ouvidos e corações de sentimentos diversificados. Um filme que nos subtrai o ar. Magnífico. Na minha opinião, um dos melhores do Scorsese. Sem contar as atuações impecáveis de Day-Lewis, Winona e Pfeiffer. Adorei o artigo!!!!!!!

    1. Muito obrigado, Amanda. Um dos melhores do Scorsese antes de ter caído neste estado lastimoso…
      Excelente filme de época, achei. O material de base também é muito bom, ficou tudo reunido.

Comentários:

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