Chuck Norris – Segundo Round

O ator que muitos identificam com a figura indestrutível do grande ecrã, diz-nos que há um herói em todos nós. Confessa que foi reprovado no seu primeiro exame para cinto negro. Por pouco, não ficou mesmo desaparecido em combate, quando uma cena perigosa correu mal. Campeão mundial de Karaté, seis vezes consecutivas, Chuck Norris estabeleceu um novo objetivo, o cinema – em parte, devido ao conselho de um dos seus alunos, Steve McQueen. Entre outras curiosidades, ficamos também a saber que, num jogo de futebol, é bom termos Chuck na nossa equipa.

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The Octagon (1980).

Chuck Norris nunca usa um duplo, exceto nas cenas em que chora.

Em Desaparecido em Combate (1984), Norris executa diversas proezas, entre as quais, partir o cabo de um machado com o punho e cravar a lâmina no peito do opositor, ou destruir sozinho um campo de prisioneiros vietnamita. Na realidade, nem tudo foi assim tão simples, embora o ator afirme que tenta sempre executar as cenas perigosas. Uma delas, neste filme, correu mal:

“Depois de resgatar vários prisioneiros de um campo, dirigimo-nos à costa, onde um helicóptero deveria levar-nos dali. Quando estávamos no rio, com água pelo pescoço e o helicóptero sobre nós, ajudei os prisioneiros a subirem pela escada de corda, um a um.” Era suposto que, no fim do resgate, Norris se agarrasse ao último degrau, ou barra, da escada, e que o veículo subisse alguns metros, terminando o take.

“Devia ser a baixa altitude, já que o vento soprava com muita força, e o coordenador de duplos estava preocupado que eu, ao baloiçar tanto de um lado para o outro, pudesse ser apanhado pelas lâminas do rotor.”

No entanto, o helicóptero subiu a grande altitude e partiu para o oceano: “E ali estava eu, sem qualquer correia de segurança, a agarrar-me para salvar a vida.” Aos 300 pés de altitude (cerca de 90 metros), Norris começou a olhar para a água e a ponderar se a queda o mataria, caso se atirasse. “A equipa conseguiu finalmente contactar o piloto, que me pousou numa praia. Mas quase tiveram de me arrancar os dedos da escada!” Mais tarde, Chuck Norris perguntou ao coordenador de duplos se, caso decidisse saltar, a queda o teria morto. “Morto e enterrado”, foi a resposta.

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Desaparecido em Combate (1984).

Os seus heroísmos em filme, muitas vezes parcos em diálogos – “começas a irritar-me”, diz Norris a um brutamontes, antes de o projetar porta fora com um pontapé – contrastam com o conceito de heroísmo, na opinião do atleta. “Acho que as pessoas querem e precisam de heróis”, afirma. “Os jovens, em especial, querem alguém com quem se possam identificar, um homem ou mulher autoconfiante, sem medo de encarar a adversidade. Isto soa um bocado a lugar-comum, mas acredito realmente que há um herói em todos nós. Penso que todos fomos criados por Deus para sermos uma bênção para outros – o paladino de alguém.”

“Na sociedade de hoje, precisamos, mais do que nunca, de campeões. Precisamos de heróis. E não pense que não consegue ser esse herói. Pode não ser chamado para salvar a vida de outrem, mas todos podemos fazer a diferença no percurso doutra pessoa, com atos de bondade, misericórdia e contribuindo para a decência e integridade de uma vida.”

REPROVADO NO EXAME

Podemos pensar em Norris como a criatura indestrutível idealizada nos “factos” que se propagaram pela Internet. Mais do que as suas façanhas cinematográficas, o atleta conseguiu outra, muito mais difícil – foi, seis vezes consecutivas, campeão mundial de Karaté. No entanto, fracassou no seu primeiro exame para cinto negro.

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A Force of One (1979).

“Depois de Mr. Shin, o meu instrutor na Coreia, me ter dito que eu estava pronto para o exame, ele e outros cintos negros treinaram-me, obrigando-me a repetir técnicas que eu já praticara, vezes sem conta, até à exaustão. Quando se marcou a data em que eu teria de comparecer perante os examinadores, em Seul, sentia-me muito confiante.”

Foi no pico do inverno, com as estradas geladas, e Chuck Norris demorou duas horas a lá chegar, num camião do exército. O dojang (sala de treinos) não tinha aquecimento. “Era um grande edifício, e o vento soprava através das janelas sem vidraças. Vesti o meu gi (uniforme) e sentei-me de pernas cruzadas no soalho de madeira, entre outros 200 alunos, provenientes de Seul e de várias vilas coreanas, que também se submeteriam ao exame. Eu era o único aluno da Base Aérea de Osan. Os examinadores sentaram-se com faces graníticas a uma mesa.”

O exame começou com um aluno de cada vez a avançar e executar uma kata (combinação de posições e movimentos) diante dos examinadores. “Depois de estar ali enregelado durante três horas, chamaram o meu nome. Descruzei as pernas, um pouco entorpecido, por estar tanto tempo sentado naquela posição e avancei, fazendo uma vénia perante os examinadores.”

Estes pediram-lhe que executasse a bassai… “Eu praticara a bassai incontáveis vezes, mas, por muito que tentasse, não me conseguia lembrar como era. O meu cérebro deve ter congelado devido ao frio e ao nervosismo. Os examinadores acharam que eu não sabia e mandaram-me sentar. Acabara de fracassar na minha primeira tentativa de ser graduado com o cinto negro.”

O seu instrutor, Mr. Shin, nada disse a Chuck Norris sobre o fracasso. “Não me repreendeu nem me menosprezou pelo meu lapso. Disse-me para pôr tudo para trás das costas e aconselhou-me a estar preparado, na vez seguinte. E foi o que fiz. Treinei mais intensamente que nunca, determinado em não voltar a falhar. Quatro meses depois, fui examinado e passei com distinção.”

Chuck admite que demorou muito tempo a superar o medo do fracasso. Considera os medos sentimentos naturais, a não ser que sejam exacerbados e nos dominem as vidas. O ator conclui assim que os fracassos não passam de etapas no caminho para o sucesso. “Lembrem-se de Thomas Edison, que falhou umas 10 mil vezes antes de inventar a lâmpada. Ele disse, ‘eu não fracassei. Só encontrei 10 mil maneiras de não funcionar’.”

AFETO EM PÚBLICO

O maior orgulho de Chuck Norris são os seus sete filhos. Dois deles, os primeiros, treinaram artes marciais mas não chegaram a cinto negro, preferindo desportos. Norris deposita agora esperanças nas suas gémeas, que praticam e participam em torneios. “Mas o que mais aprecio em todos os meus sete filhos é o facto de não sentirem embaraço ao demonstrarem afeto. São capazes de me dar um beijo, em qualquer sítio ou altura, à frente de qualquer pessoa. Aprecio tanto isso, que não tenho palavras.”

chuck norris (2)Um dia, Norris levou o seu filho de 10 anos à escola. Quando parou o carro, quatro amigos aguardavam Eric. “Antes de sair, ele inclinou-se e deu-me um beijo de despedida. Quando se aproximou dos rapazes, um deles fez troça: ‘Ainda beijas o teu pai?’ Eric agarrou-o pela camisola e enfrentou-o, dizendo, ‘sim e depois?’. O rapaz parou de rir, e o grupo afastou-se. Testemunhei aquilo e fiquei tão orgulhoso do meu filho que quase não me contive.”

Para Chuck Norris, todas as ruas têm sentido único, o seu sentido, mais nenhum.

Em 1982, antes de começar as filmagens de McQuade, o Lobo Solitário, Chuck viajou até ao Brasil para fazer mergulho. No Rio de Janeiro, visitou várias escolas de artes marciais e treinou com os alunos. Soube que a mais conhecida e temível escola era a Gracie Jiu-Jitsu. Norris encontrou-a. Era gerida por uma família. O ator treinou com os seus elementos, até chegar a altura de combater com o mestre, Helio Gracie.

“Ele estava no início dos 70 anos, mas era duro como poucos. De início, consegui dominá-lo, mas depois ele disse-me para lhe dar um soco na cara. Alarmado, respondi que não o podia fazer. Ele insistiu, e eu fleti o braço para trás, timidamente, como se fosse atacar. É a última coisa de que me lembro. Quando recuperei os sentidos, momentos depois, Mr. Gracie pediu-me imensas desculpas por me ter apertado o pescoço com tanta força. Eu disse que estava tudo bem, embora praticamente não conseguisse engolir nada nos dois dias seguintes!”

O mestre pediu-lhe para ficar e treinar, dizendo que Norris daria um excelente praticante de Jiu-Jitsu, mas o ator teve de partir, com pena sua, devido às filmagens. Continuaria a praticar esta arte em Los Angeles, com os irmãos Machado, primos dos Gracie. Há poucos anos, Chuck Norris lamentou a morte de Helio Gracie, aos 95 anos, afirmando que o mundo perdera “o melhor entre os melhores”.

chuck norris Lone Wolf McQuade 1983
Lone Wolf McQuade (1983). Com Barbara Carrera e David Carradine.

MCQUEEN E NORRIS: ALUNO E PROFESSOR

Norris é conhecido como uma pessoa afável quando não está em combate. “Nessas alturas, torno-me quase animal e tenho de lutar. Mas isso acaba por se tornar, em parte, no contexto dos meus filmes, em que determinado personagem não quer lutar mas é obrigado a isso pela força das circunstâncias. É algo que todos evitamos a todo o custo, enquanto professores de Karaté, mas, quando tal sucede, temos de, pelo menos, lidar com a situação.”

Norris acerta no alvo ao dizer que a maioria das pessoas imagina o Karaté como “uma aplicação física”. “O que faz por nós, mentalmente, psicologicamente e emocionalmente, é muito mais importante.”

As cenas de três ou quatro minutos, no ecrã, demoravam entre 16 a 18 horas a filmar, o que obrigava Norris a treinar como se se preparasse para um torneio: Três horas, todas as manhãs. Fazia-o também para manter uma boa forma física, à qual Norris disse estar habituado durante 20 anos (antes desta entrevista, em 1980).

Bruce Lee disse, certa vez, a Steve McQueen que, se quisesse ter lições de Karaté, Norris era o melhor. Chuck, que admirava McQueen, ficou surpreendido quando recebeu um telefonema do ator. Conheceram-se, começaram a treinar e tornaram-se amigos. “Steve, além de se esforçar imenso nos treinos, era um tipo de pés assentes na terra, muito franco, não gostava de rodeios.”

Foi justamente Steve McQueen a sugerir ao instrutor que tentasse o cinema. Este disse-lhe que nunca tivera lições de representação. Mas Steve contrapôs: “Representar não se baseia apenas em ter lições. Ou tens uma certa presença que transmites no ecrã, ou não tens. Acho que podes ter isso. Por isso, sugiro-te mesmo que o tentes.” Chuck Norris decidiu seguir o conselho de McQueen, mas apercebeu-se que estava a competir com pessoas muito mais experientes. Assim, optou por escrever um argumento que viria a ser vendido em 1977, tornando-se na base de um filme de sucesso.

Chuck-Norris-and-Steve-McQueen
Chuck Norris com Steve McQueen à porta do seu ginásio no início dos anos 70.

Em 1974, Norris optou pela escola de Lee Strasberg, mas não encontrou o que pretendia – um treino de representação especificamente focado no cinema, o meio que lhe interessava realmente, uma vez que não tinha ambições teatrais. Um ano e meio de aprendizagem com uma especialista em representação da MGM aperfeiçoou-lhe a técnica.

PRIMEIROS PASSOS  

Quando foi contratado para o seu primeiro filme, no qual não recebeu crédito, The Wrecking Crew (1968) com Dean Martin, Norris passou duas semanas a imaginar como pronunciar uma frase, que era a sua única. Nessa estreia, teve também de lutar com Martin, que usava um duplo, mas, quando teve de filmar com o ator, Norris empregou um pontapé rotativo, tendo avisado Dean previamente para que se abaixasse, já que este tipo de pontapés podem ser muito perigosos.

“Martin abaixou-se muito pouco; eu receava que ele o fizesse, pelo que apliquei ao pontapé menos força do que o normal. Acertei-lhe no ombro e ele foi parar ao outro lado da sala”, recorda Chuck. “O realizador quase teve um ataque cardíaco. No segundo take, executei o pontapé mais alto e ele estava agachado no chão!”

Chuck lê algumas piadas sobre si próprio:

Pode-se criticar a limitada versatilidade de Norris enquanto ator, mas quando este diz que, após conquistar o que pretendia no mundo do Karaté, estabeleceu novos objetivos, não podemos negar que também os concretizou. Chuck sofreu vários reveses na sua vida, como dificuldades económicas e o fim de um casamento que durava há mais de 30 anos. O ator considera a transição como fator evolutivo e estabelece metas para si próprio.

McQuade, o Lobo Solitário é um dos seus filmes favoritos e um dos mais populares. “Foi uma transição, para mim. Os anteriores tinham sido filmes de artes marciais, e este era puramente de ação e aventura. De início estranhei, mas o conceito desenvolveu-se, tornando-se na série Walker, o Ranger do Texas.” Todos precisamos de transição e mudança, defende Norris; embora não gostemos, elas são necessárias ao nosso progresso pessoal.

De rosto empedernido, barba, bazuca e metralhadoras, tornou Invasão EUA (1985) no filme em home video mais vendido de sempre dos estúdios MGM até 2007, apenas ultrapassado por E Tudo o Vento Levou, de 1939…

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Invasion U.S.A. (1985).

A mente de Chuck Norris está ligada à Internet. Ele atualiza páginas da web ao pestanejar.

Os “factos” sobre Chuck Norris proliferaram na Internet, o que, na opinião do ator, lhe modificou a imagem. “A verdade é que a Internet é uma enorme bênção, mas também pode ser uma terrível maldição. Podemos usá-la para e-mailing, para falar com amigos através do Skype. Por outro lado, há o jogo online, a pornografia e os predadores sexuais em busca de corações e mentes.” Norris aconselha-nos o safe surfing.

No artigo anterior, mencionei algumas das piadas de mau gosto que circulam sobre Norris. Uma é: “Quando Chuck Norris joga Monopólio, afeta a economia mundial.” O ator não se inibe de criticar frases destas: “Não há nada de engraçado em tempos económicos difíceis.” Aconselha as pessoas a não perderem a esperança e também tem algo a dizer dos que lucram em épocas destas, e dos que vivem apenas para o lucro, citando Benjamin Franklin: “Até hoje, o dinheiro nunca fez nenhum homem feliz, nem irá fazer… Quanto mais um homem tem, mais quer. Em vez de preencher um vácuo, cria um.”

São também tempos de egoísmo. De acordo com Norris, “o altruísmo é uma batalha para todos nós. Dar, recorda-nos que não estamos sós, e, muitas vezes, coloca as nossas dificuldades numa perspetiva adequada. Podemos não possuir muitos tesouros, mas temos sempre um pouco do nosso tempo e dos nossos talentos para auxiliar outros”.

O FUTEBOLISTA CHUCK

Chuck Norris sabe tudo o que há para saber, exceto a definição da misericórdia.

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Chuck Norris e Molly Hagan em Code of Silence (1985).

Um ponto que Norris sublinha é que, ao deixarmo-nos intimidar, estamos a dar a vitória aos oponentes. Depois de terminar as filmagens de O Código do Silêncio (1985), o ator foi convidado a integrar uma equipa para um jogo de futebol em Florença. A equipa adversária era composta por celebridades italianas que tinham treinado durante cinco meses com a seleção do seu país. Nervoso por não conhecer o jogo, Norris sentiu-se também apreensivo quando soube disto e também quando pisou o maior campo do mundo, perante uma audiência de 50 mil pessoas.

“O nosso treinador deu-nos algumas instruções e disse-nos para esperarmos ‘golpes baixos’. ‘De que tipo?’, perguntei eu? ‘Podem-te acertar nas pernas e aleijar-te os joelhos.’ Respondi: ‘O primeiro que tentar isso comigo, morre no campo!’” Quando conheceu o jogador que lhe ia fazer a marcação, Norris perguntou-lhe: “Já sei que não posso usar as mãos, mas posso fazer isto?”, executando um rápido pontapé lateral que quase lhe tocou no nariz. “Não… isso não”, respondeu o jogador. “Está bem, era só para saber…” “Durante o jogo, o homem não se aproximava de mim, e pude passar a bola à vontade para os meus colegas de equipa.”

Ao intervalo, o jogo estava 1-0, com a equipa de Chuck em vantagem, mas o ator pediu para ficar no banco, por se ter fartado de correr e estar exausto. Na segunda parte, contudo, os jogadores da sua equipa começaram a sair de campo, um com o nariz a sangrar, outro a coxear; até o suplente saiu, lesionado no tronco. “O treinador olhou para mim e encolheu os ombros. Por isso, voltei ao campo. Felizmente, tinha o mesmo jogador a fazer-me a marcação. Para desalento dos italianos, o jogo acabou e vencemos por 1-0.”

Continua no próximo round. (Se Chuck Norris não me encontrar primeiro.)

David Furtado

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