Janis Joplin: “Troco todos os meus amanhãs por um único ontem”

Há 42 anos, morreu a primeira superestrela feminina do rock e uma figura que, até aos dias de hoje, não tem paralelo. A 3 de outubro de 1970, Janis terminou o dia de trabalho no estúdio, que correu bem, e foi para um bar onde se embriagou. A última pessoa a vê-la viva foi o porteiro do hotel onde a cantora estava instalada. Era 1:00. 18 horas depois, deram finalmente pela sua falta e foi encontrada morta no quarto com uma overdose de heroína. Terá falecido por volta da 1:40.

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O disco que gravava, Pearl, foi lançado mês e meio depois, atingindo o número 1 do top. A morte de Joplin foi o culminar de um processo, de uma vida de rejeições que contrastou com uma aceitação quase geral.

janis joplin (2)Port Arthur, no Texas, no início dos anos 60, era um dos territórios mais conservadores dos EUA, uma cidade conhecida pelas suas refinarias de petróleo. Janis teve uma infância feliz, até que, aos 16 anos, no liceu, começou a expressar a sua opinião sobre a terrível segregação racial do quotidiano. Havia escolas para negros e brancos. Esta rebeldia não caiu bem na comunidade que a apelidava de “porca”: “Para uma mulher, esperava-se que acabasse o liceu, casasse, tivesse uma data de filhos e mantivesse a boca calada. Como eu não fiz nada disso, puseram-me de parte”, diria mais tarde Janis numa entrevista.

Depois de circular o rumor que dormira com todos os rapazes do liceu, o que, segundo um colega, é uma estupidez, já que provavelmente era virgem por essa altura, Joplin nem sequer foi convidada para o baile de finalistas liceal. A jovem descobriu que conseguia cantar e já estava cativada pelos blues quando ingressou na faculdade, em Austin, onde foi considerada, “o homem mais feio do campus universitário”. Foi a primeira a não usar soutien e a assumir uma atitude desafiadora e feminista, anos antes de o movimento ter surgido.

Não é de estranhar que, anos mais tarde, já famosa, quisesse comparecer na reunião de antigos alunos do liceu, na conservadora Port Arthur. Mas aquilo que poderia ser uma valente bofetada de luva branca, acabou por sair como um tiro pela culatra.

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No fundo, Janis queria uma aceitação que nunca lhe poderiam ter dado. Acompanhada por um grupo de jornalistas, que, às primeiras perguntas, descobriram o seu ponto fraco, Joplin responde com tristeza, dizendo que nunca a tinham convidado para o baile de finalistas, e que se tinham rido dela, expulsando-a da cidade, da faculdade e, por fim, do Estado do Texas. Esta visita, rodeada de exuberância, não foi bem vista pela mãe, que, ao ver o “espetáculo” pela TV, lhe disse no meio de um tumulto familiar, “oxalá nunca tivesses nascido”.

Photo of Janis Joplin

Depois do mau começo no Texas, Janis partiu para San Francisco, onde o pensamento era diferente, bem como a abertura de espírito. Começou a cantar e a ser aplaudida e também a ficar viciada em álcool e speed, com que se injetava. Era admiradora dos escritores Beat, movimento que já entrara em declínio na altura em que a jovem chegou à Costa Oeste.

janis joplin (9)Durante este breve período, Janis conheceu e ficou noiva de um homem que parecia ter tudo para a enquadrar no lado normal da vida. Na comunidade artística de Frisco, Michel parecia, no entanto, algo estranho, com o seu fato, cabelo curto e ar formal. Feita num farrapo devido aos excessos de speed, Janis regressou ao conformismo da terra natal, pondo fim a essa vida e tentando satisfazer a família, dizendo que encontrara um noivo e ia assentar. Começou a fazer compras e a esforçar-se por se integrar. O noivo, depois de a pedir em casamento ao pai e de se apresentar à família, esqueceu-se de uma coisa: O anel de noivado. Janis aguardou. O noivo desapareceu abruptamente sem deixar rasto e ficou… a woman left lonely.

Esta amargura despoletou um regresso a San Francisco, em 1966, onde Janis se empenhou em desenvolver o seu talento, provocando rapidamente uma admiração generalizada.

Treinou os seus vocais “wall of sound”, dando a ilusão de cantar mais do que uma nota em simultâneo. Os cantores de blues expressavam a injustiça e os seus problemas, enquanto Janis quase gritava sobre a sua própria solidão, que, em muitas alturas da sua vida, parece ter sido quase insuportável.

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Os Big Brother and the Holding Company precisavam de uma cantora, e convidaram-na. Foi uma fase em que Janis tinha medo de agulhas e de tudo o que o mundo artístico trazia com ele. Decidida a não recair nos erros anteriores, começou a dar que falar. Mas o álcool estava sempre presente e não tardou até que drogas cada vez mais pesadas integrassem o seu dia-a-dia.

É fácil especular sobre o conceito sex, drugs and rock and roll, no caso de Janis Joplin. Sabemos que, durante a sua curta vida, teve relacionamentos com ambos os sexos, mas, quando parecia aparecer alguém que a atraía (e era recíproco), algo nela despertava um mecanismo de insegurança e retraimento.

O percurso de Janis com os Big Brother é, quanto a mim, algo acidentado musicalmente. A sua voz portentosa arrasa com o acompanhamento de um grupo mal sincronizado. Isto conduziu ao Festival de Monterey, em 1967, do qual surgiram duas estrelas, apesar do The Who terem partido o equipamento: Janis e Jimi Hendrix.

A vocalista dos Jefferson Airplane, Grace Slick, comentou que “Janis foi tão poderosa e tão diferente, com as emoções todas à flor da pele…” As críticas foram extraordinárias; consideraram-na “talvez a melhor cantora de blues desde Ray Charles”.

janis joplin (7)Quando os Big Brother editaram o seu segundo álbum, Cheap Thrills (que se tornou num êxito imediato em 1968), Janis era já uma estrela num mundo, até então, consagrado aos homens. Até a própria Etta James, uma das maiores influências de Joplin, afirmou que ela “era como um anjo que apareceu e abriu um caminho que as miúdas brancas nunca tinham pisado”. Os artistas negros nunca foram esquecidos pela cantora, que até financiou uma lápide para Bessie Smith. “Ela mostrou-me o ar e ensinou-me a preenchê-lo”, disse Janis.

No dia em que o grupo se estreou em Nova Iorque, e depois de terminado um espetáculo que mais uma vez tomou a crítica e o público de assalto, os elementos dos Big Brother saíram, acompanhados por groupies. Janis, por incrível que pareça, ficou sozinha e foi até um bar no Lower East Side. Uma noite triunfante acabara em solidão.

Justificadamente, o público sempre se interessou mais por Joplin e pelas suas opiniões francas e, muitas vezes, humorísticas, o que levou à tensão no grupo. Depois de uma canção, Joplin estava ofegante e mal conseguia respirar. Um dos elementos dos Big Brother chamou-lhe “Lassie” no palco. Janis obviamente reagiu com fúria: Além de lhe chamar cadela, o comentário recordou o seu complexo de se achar feia. Nos bastidores, os dois acabaram à pancada. Era altura de mudar.

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Surge em cena Albert Grossman, o manager de Bob Dylan; um homem que apreciava realmente a música, mas que era um negociante. Dylan viria a referir-se a ele em «Dear Landlord», depois de problemas legais os terem separado: “Please don’t put a price on my soul.” Janis optou por deixar a banda, apesar dos complexos de culpa e fez, de certa maneira, um pacto com o diabo, como Robert Johnson na encruzilhada.

De acordo com a sua biógrafa, Alice Echols, “o estrelato tornou a vida de Janis mais agitada sob várias formas, mas também intensificou a sua solidão, à medida que a sua vida se tornava numa névoa de quartos de hotel, camarins, aeroportos e bares; vestindo-se provocantemente, com o cabelo rebelde adornado por plumas rosas e azuis, com os braços repletos de braceletes que tiniam ruidosamente, Janis foi posta de lado. Com frequência, era alvo de admiração, mas, muitas vezes, objeto de ridículo e troça”.

janis joplin (6)Echols, autora de Scars of Sweet Paradise, livro em que, depois de cinco anos e 150 entrevistas, pretendeu mostrar uma mulher e não uma caricatura, não considera Janis “exatamente uma vítima”. “Ela recusava-se a obedecer às regras do jogo. Com frequência, as pessoas diziam, ‘mas quem se julga ela?’”

Grossman livrou-se dos músicos e pôs Janis à frente de uma banda mais competente. Foi o início da sua carreira a solo. I Got Dem Ol’ Kozmic Blues Again Mama!, apesar de ser mais um passo na ascensão da vocalista, não foi uma experiência bem-sucedida. Por esta altura, a inteligente Janis sabia que estava por detrás das grades do seu sucesso. O consumo de drogas e álcool intensificou-se. Os colegas com quem contactava ou colaborava, como foi o caso de Tom Jones, achavam-na “uma pessoa despretensiosa, amável e que não tolerava bullshit”.

A vida pessoal de Janis Joplin estava desfasada do seu progresso artístico. Era agora um símbolo de força para todas as mulheres americanas, mas só lhe restava a música, no meio das rejeições que pareciam assolá-la sem tréguas.

“Vou para o palco, faço amor com 25 mil pessoas e regresso a casa sozinha”, disse, certa vez. Numa aparente contradição, afirmou: “Nenhum tipo alguma vez me fez sentir tão bem como um público.” Joplin também não tinha ilusões quanto a muitos dos que a ouviam: “As pessoas, embora façam de conta, gostam que os seus cantores de blues tenham vidas miseráveis.”

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Para enfrentar as contrariedades, Janis criou um alter-ego, “Pearl”, com um visual extravagante e plumas no cabelo. Nas entrevistas, era simpática e conhecida pelas suas gargalhadas e sotaque texano. Ao contrário do que se poderia supor, Janis Joplin escrevia cartas à família, explicando o seu estado de espírito e assegurando que tudo estava bem. E não eram insinceras. Tentou realmente afastar-se da heroína, compensando a abstinência com quantidades enormes de tequila.

Quando gravava o álbum que se chamaria Pearl, recaiu no vício. No meio de tudo isto, a cantora gravava vocais espantosos. “Toda a gente que conheço é doida exceto o presidente Nixon…”, ironizava durante as gravações de Pearl, em que parecia animada; tinha uma banda com quem se sentia bem, os Full Tilt Boogie, que também a admiravam.

“Podemos não estar aqui amanhã”, cantou em «Get It While You Can», o que parecia um prenúncio de 4 de outubro de 1970.

É lugar-comum dizer-se que a energia e alma de Janis Joplin ficaram gravadas e imortalizadas em fitas num estúdio. Também se especulou que estaria outra pessoa no seu quarto, no Landmark Hotel, e que a heroína era demasiado pura, provocando uma overdose. Não era a primeira vez que tal lhe acontecia, mas, desta vez, não havia quem a ajudasse, e morreu sozinha, tanto quanto se sabe.

Ficou a lenda. Mais do que isso, ficaram as emoções que a sua voz ainda provoca. Para os verdadeiros fãs, e tal como ela cantou, “a piece of my heart” pertence a Janis, pois ela deu mais do que isso e deu mais aos outros do que lhe deram a ela; teve a coragem de ser uma mulher diferente e ninguém a superou desde então. “Troco todos os meus amanhãs por um único ontem.”

David Furtado

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8 Comments Add yours

  1. Oliveira diz:

    Janis Joplin é Sem sombra de dúvidas, ao meu ver, a maior cantora que existe, escrevo no presente, pois para mim, ela continua VIVA! Com certeza quem a ouve e a ve näo consegue ficar indiferente ao seu charme e poder, mesmo as vezes parecendo uma menina tímida, como pode-se perceber isso nas suas entrevistas, sobretudo aquela em sua cidade natal. Ela é täo magnífica e franca, que näo consegue esconder o que lhe vai na alma, isto de certa forma a tornava vulnerável! Näo sei se ela gostaria de viver neste nosso mundo täo fabricado, onde os artistas säo moldados para gerar dinheiro e esquecem que a música deve ser sentida! E isso, só Janis faz, cada vez que a ouco, também sinto a emocäo do seu corpo e da sua alma cantando! É täo bom ve-la e ouvi-la minhaa cara Janis! Com certeza voce olha aqui para baixo e dá aquela risada franca que também nos faz rir!
    Obs: Meu teclado é alemäo, por isso alguns erros de portugues.

    1. Obrigado pelo comentário, Oliveira. Também acho isso. Ela era diferente, devido a todos estes aspetos que refere. Fugiu aos moldes e foi igual a si própria. Quanto ao mundo de hoje, a maioria é assim, de facto. Mas ainda há, felizmente, algumas exceções. 🙂 Agora, uma força da Natureza como a Janis, que tenha surgido entretanto, não estou a lembrar-me… ela ainda é incomparável.
      Conheço esses teclados. Não há problema. Expressou-se bem.

  2. Liana diz:

    Janis, não existiu nada igual antes, e nem existirá depois ….. a carência que deixava nítida em muitas entrevistas, nos leva a crer que se tivesse realmente sido amada como merecia, não teria chegado ao ponto que chegou. A impressão que temos é que se sentia rejeitada não só pelos colegas da escola mas pela própria família. Pena ter partido tão cedo, mais sua obra e a força de suas canções ficarão para sempre, ela cantava não só com a vóz, mas com o corpo e a alma, magnifica em todos os sentidos.
    Deixou muita saudade, mas sua obra é imortal ……………….

    1. Sim, Liana, concordo com o seu comentário. Ela não “se sentia rejeitada”, ela “foi rejeitada” pelas pessoas que refere. Nasceu numa comunidade muito conservadora que nunca a aprovou, nem depois do sucesso. Porque, se antes a desprezavam, passaram a invejá-la. Nem tudo foi mau e muito de bom ficou.

  3. Liana diz:

    É verdade David, mas querendo ou não, eles tiveram de engolir o sucesso da maravilhosa branca do blues, Janis foi a precursora do rock feminino, lutava contra a discriminação racial que infelizmente até os dias de hoje ainda existe, fico imaginando o impacto naquela época de uma pessoa como Janis, ela ía na contramão de tudo que aquela sociedade hipócrita queria impor as pessoas, nós mulheres devemos muito a ela em termos de liberação, e o impacto da curta existência desta mulher, é incrível, pois ainda hoje, quando a ouvimos, a sensação é de que está viva, e na verdade está, na força de suas canções, pois sua vóz profunda e penetrante parece que circula em nossas veias, vc bem colocou, uma Força da Natureza. Gostaria de saber se há algum fã clube dela aqui em SP.

    1. Também concordo, Liana. Ela teve também um impacto na “libertação” das mulheres na música, e especificamente no rock, que era reservado a homens, ou pelo menos, eram eles as “estrelas”. Joni Mitchell foi outra que também fez muito por derrubar essas barreiras. Continuo a achar arrepiante a maneira como Janis Joplin canta, ainda hoje. Uma força da natureza, sim. Quanto mais intensamente brilham, mais depressa se apagam. (Ou como é a frase…) Se SP é São Paulo, não sei. Experimente procurar na Internet. Obrigado.

  4. mais do que um ícone dos anos 60 Janis foi um exemplo de talento garra e originalidade qualidades cada vez mais raras nas artistas que viriam a surgir no universo da musica depois dela !

    1. É verdade, Maria Claudia. E mais do que isso: Foi única.

Comentários:

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