Pink Floyd – Wish You Were Here: O som da ausência

Num estúdio de ensaio em Kings Cross, David Gilmour tocou quatro notas por acaso. A sonoridade hipnótica chamou imediatamente a atenção de Roger Waters, “isso é bom!”. O resultado foi uma música, «Shine On You Crazy Diamond». Quando sentimos uma ausência dentro de nós, este som pode ser-lhe claramente associado. Segue-se uma análise do conceito e dos temas do álbum clássico dos Pink Floyd, lançado em setembro de 1975.

Nunca seria fácil para um grupo elaborar um álbum depois do sucesso universal de The Dark Side of the Moon. Para Roger Waters, o álbum devia ter-se chamado Wish We Were Here. Depois de conquistarem o dinheiro, a fama e o sucesso, os Floyd caíram num marasmo e pensaram mesmo em separar-se. Não era bem aquilo que tinham previsto.

É este um dos méritos de Wish You Were Here: Revolta-se contra o aspeto comercial do negócio, aprofunda ainda mais o relacionamento humano; não é um Dark Side parte 2, mas sim, um sinal de integridade artística e um esforço criativo incomparável e raro nos dias de hoje. Só encontro comparação em Lou Reed, que, depois do sucesso de Transformer, gravou Berlin.

Tal como na obra de Reed, havia que exorcizar fantasmas e, no caso dos Floyd, era Syd Barrett. “Houve uma altura, após Dark Side, em que facilmente podíamos ter acabado o grupo, estávamos nervosos quanto à ideia de continuar”, comentaria Nick Mason. “Achei horrível o tempo passado no estúdio”, acrescenta. Contudo, receavam também rejeitar o “nome de marca” que tinham criado entretanto, segundo Roger Waters.

As almas dos Floyd não estavam à venda. Os seus rostos não surgiam nas capas dos discos, não davam entrevistas e, ao vivo, eram ofuscados pelo jogo de luzes. A música era suficiente, mas foram precisos dois anos para gravar o álbum, e o grupo conseguiu a proeza de igualar o sucesso artístico de Dark Side com um trabalho totalmente diferente.

Os Pink Floyd passaram o ano de 1974 gastando o dinheiro que tinham ganho e mais ocupados com as suas vidas pessoais. David Gilmour arranjou tempo para tocar com Roy Harper e também para “patrocinar” uma jovem cantora de 15 anos, Kate Bush. Impressionado com o seu trabalho, convidou-a para o seu estúdio, para que gravasse um conjunto de maquetes. Por esta altura, o guitarrista adquiriu a Fender Stratocaster com o número de série 001., que se veio juntar à sua coleção de cerca de 100 instrumentos. Foi uma época em que Gilmour também assentou com a pintora americana Ginger, com quem teria três filhas. Contrastando com o momento feliz de Gilmour, Roger Waters via o seu casamento a desmoronar-se. Parte da vida de Roger, durante esta fase, vir-se-ia a refletir em The Wall.

Syd Barrett durante a visita a Abbey Road.
Syd Barrett durante a visita a Abbey Road.

A VISITA DE SYD

A 5 de junho de 1975, o dia de casamento de David e Ginger, surgiu um misterioso visitante em Abbey Road. O primeiro a notar a sua presença foi David Gilmour, que não ligou, pensando que era algum engenheiro de som da EMI. Richard Wright entrou e sentou-se ao lado de Roger. 10 minutos depois, Waters sussurrou a Wright: “Sabes quem é aquele tipo?” “Não, julguei que fosse teu amigo”, respondeu o pianista. “Pensa, pensa…”, insistiu Roger. Só então Wright se apercebeu que era Syd. Waters começou a chorar quando viu o amigo num estado irreconhecível.

Barrett com Waters nos primeiros tempos dos Pink Floyd.
Barrett com Waters nos primeiros tempos dos Pink Floyd.

“Para que estão a ouvir isso outra vez?”, disse o colega, fazendo também saber aos velhos amigos que estava pronto para regressar ao grupo. Quando lhe perguntaram como engordara tanto, respondeu que tinha um frigorífico na cozinha e “comia muitas costeletas de porco”.

A dissociação de Syd Barrett – O antigo, brilhante, amigável e genial e o homem de olhar vazio, com o cérebro danificado pelo consumo de LSD, obeso e de cabeça e sobrancelhas rapadas, de gabardina, com um saco de papel debaixo do braço e com quem não se conseguia ter uma conversa – provocou a tristeza e a ira de Roger Waters.

Neste disco, apontou armas à mão que lhe dera ou pão, ou melhor, à indústria da música, a máquina que, em parte, acelerara a autodestruição de Syd. Indiferente ao poder dessa máquina, Waters atacou-a com um sarcasmo quase venenoso que viria a intensificar-se nos dois álbuns seguintes, Animals e The Wall. Até o notável e elegante trabalho de guitarra de Gilmour varia entre o melancólico e o agressivo. O grupo encontrara o tema; e o desgosto originou uma obra-prima.

Barrett juntou-se aos convidados na cantina da EMI, para uma pequena receção, celebrando o casamento de Gilmour, onde alguns o confundiram com um fanático do Hare Krishna, com o seu riso maníaco e olhares fixos. Syd acabou por desaparecer, nessa noite, sem se despedir dos colegas, que nunca mais o veriam.

A Gilmour e Waters bastaram quatro notas para evocar a perda de um amigo e a desconexão que todos já sentimos relativamente a nós próprios, em alturas de crise, dor ou mágoa. Foram essas notas que trouxeram ao de cima o sentimento de culpa e o arrependimento de Roger. De acordo com Waters, “não poderia ter acontecido sem ele, mas também não poderia ter continuado com ele”.

pink floyd wish you were here (4)

A HISTÓRIA

Mas Wish You Were Here não é tão pessimista como possa soar. Há o apelo de «Shine On», a invetiva de Waters para que não sejamos líderes na gaiola da nossa alma, e há também lugar para o trabalho de guitarra exemplar de David Gilmour, que, tecnicamente, é um dos pontos altos da sua carreira. Os blues sob um fundo de rock progressivo, psicadélico ou como lhe queriam chamar, de «Shine On», as notas da guitarra de 12 cordas de «Wish You Were Here», mais um caso em que Waters disse, “isso é bom”. Por vezes, Gilmour tocava certos improvisos ou variações, e Waters, atento, comentava… “isso é bom”. “Mas não podemos usá-lo”, respondia David. “Já foi tocado por outra pessoa.”

Em 1974, os fãs começaram a comprar o que pensavam ser o novo álbum dos Pink Floyd, chamado British Winter Tour ’74. Era um disco pirata bem elaborado, que continha três temas novos, gravados ao vivo: «Raving and Droolin’», «Gotta Be Crazy» e «Shine On You Crazy Diamond». Os primeiros dois são versões embrionárias de dois temas que só surgiriam em Animals, na forma de «Sheep» e «Dogs», respetivamente. O terceiro era novo, mas tratava-se de uma versão rudimentar, comparada com a final. Gilmour pretendia que o novo disco integrasse apenas estes temas, mas Roger opôs-se, argumentando que tal não seria coeso.

Wish You Were Were foi gravado nos estúdios de Abbey Road; a música foi composta por todos, e as letras escritas por Roger Waters. Entre os convidados, surgem as vocalistas Vanetta Fields e Carlena Williams, que acompanhavam os Floyd ao vivo. As sessões foram problemáticas e interrompidas por digressões. O casamento de Nick Mason desagregava-se (tal como já sucedera ao de Roger Waters), pelo que tocar bateria não constava na sua lista de prioridades. Este desinteresse provocou a impaciência de Gilmour.

Exaustos, desinteressados e com dificuldades em concentrar-se nas meticulosidades de uma gravação complexa, passaram vários dias no estúdio sem gravar nada. Waters confirma que “as primeiras sessões foram uma tortura”. “Mas continuámos durante umas semanas”, até que numa agitada reunião do grupo, declarou que a única solução era gravar um álbum sobre o que estava a suceder no momento, “o facto de não nos olharmos nos olhos e de ser tudo muito mecânico”.

Desalento e impaciência no estúdio, durante a gravação de Wish You Were Here.
Desalento e impaciência no estúdio, durante a gravação de Wish You Were Here.

Em desacordo, estava Richard Wright, que não concordava com os ataques de Roger à indústria e com as suas alusões à loucura, admitindo que não eram temas que lhe suscitassem grande afinidade.

Ironicamente, é este o disco preferido de Gilmour e (era) também o de Richard Wright. Se o papel do guitarrista é fulcral, Wright dá-nos a paisagem sonora de solidão e dissociação que marcam o álbum do princípio ao fim.

“Acho que é o meu favorito, entre tudo o que fizemos”, disse Wright, “gosto do feel do álbum. É o tipo de música – tal como em Dark Side – que nós os três compúnhamos, por vezes, ao mesmo tempo. Acho que o melhor material dos Floyd surgiu quando dois ou três de nós colaboravam assim. Depois, perdemos isso, deixou de haver troca de ideias entre os elementos da banda”.

A CAPA

A capa foi outro problema. Ao passo que, em Dark Side, o prisma funcionara como um ícone, aqui, Storm Thorgerson, dos Hipgnosis, viu quatro músicos desalentados no estúdio, baseando o conceito nessa imagem, bem como na música. Aliás, Thorgerson, responsável pelo título do álbum, comentou com perspicácia: “A música parecia evocar a sensação de alguém que não está realmente presente, num sentido mais amplo, e não só a situação de Syd. A ideia da presença contida, dos modos como as pessoas fingem estar presentes, quando, na verdade, as suas mentes estão noutro lugar qualquer, e os estratagemas e motivações empregues psicologicamente para suprimirem a sua presença num sentido pleno; tudo se uniu num único tema – a ausência de uma pessoa ou de um sentimento.”

pink floyd wish you were here (13)De início, o disco foi embrulhado numa embalagem de polietileno negra, com um autocolante concebido por George Hardie:

O aperto de duas mãos mecânicas sobre um fundo composto pelos quatro elementos, Terra, Ar, Fogo e Água. Esta imagem evoca também, num toque místico associado à música, os signos dos quatro Floyd: O Fogo para Wright (Leão), o Ar para Mason (Aquário), a Água para Gilmour (Peixes) e a Terra para Waters (Virgem).

Dentro desta embalagem, estava o álbum, com a foto do aperto de mão entre dois homens, um deles a arder. Este último encontrava-se obviamente “ausente”, já que não sentia as chamas. A ideia foi de Thorgerson, que comentou que as pessoas não revelam os seus sentimentos íntimos aos outros, com medo de ficarem “queimadas”. George Hardie teve então a ideia de um homem a apertar a mão ao seu sósia. Ficar “queimado” era também um termo da indústria musical, quando um artista era enganado e não recebia os royalties.

Problemas na sessão de fotos para a capa.
Problemas na sessão de fotos para a capa.

A contracapa mostra um executivo de uma discográfica, sem rosto, um fato vazio num deserto, estendendo um disco de vinil, “vendendo a alma”, segundo Thorgerson. Outros elementos gráficos integravam um lenço a esvoaçar e uma figura feminina nua e quase invisível, e o mergulhador que não provoca salpicos (o modelo passou um mau bocado, tendo de fazer o pino dentro de água e manter-se imóvel). Todo o conceito foi recebido com palmas espontâneas dos Pink Floyd.

As cópias de vinil continham também um postal do mergulhador. A cópia de vinil que tenho, veio com o referido postal, mas já sem o “embrulho” negro. É desnecessário dizer que este ambicioso conceito dos Hipgnosis causou problemas quando o álbum foi lançado em CD.

O sucesso foi enorme: Wish You Were Here chegou ao Top 1 nos EUA e, no Reino Unido, devido às pré-encomendas, foi diretamente para o topo, com a EMI a não conseguir lidar com tanta procura, sendo obrigada a declarar que só poderia satisfazer 50 por cento de cada encomenda.

AS CANÇÕES

Shine On You Crazy Diamond (Part 1): O tema foi inspirado pelas quatro notas de Gilmour e contém o melhor trabalho de teclas que Richard Wright alguma vez gravou. Surge também o saxofone de Dick Parry. É o único tema dos Pink Floyd que Waters admite ter sido inspirado diretamente por Syd Barrett, embora saibamos que isso não é verdade. Foi durante a fase final da mistura deste tema que Syd surgiu em Abbey Road.

Além do aspeto emocional, tecnicamente, também surgiram problemas: O grupo achou que a primeira versão não resultara bem, pelo que, depois de vários dias de trabalho em vão, começou uma nova. A meio do trabalho, descobriram que alguém inadvertidamente, inundara dois canais de eco, tornando essas pistas inúteis e obrigando-os a recomeçar do zero. Este tema é, por vezes, listado em cinco partes distintas, sendo a quinta parte aquela onde começam os vocais.

“«Shine On» não é bem sobre Syd”, afirmou Roger Waters. “Ele é apenas um símbolo para todos os extremos de ausência que algumas pessoas têm de adotar, já que é o único modo de suportarem a tristeza da vida, da vida moderna… retraem-se completamente. E achei isso muito triste.”

Depois de uma semana no estúdio, Gilmour ainda procurava o som certo para as suas evocativas quatro notas. Ao saber que o enorme Estúdio 1 de Abbey Road, habitualmente reservado para orquestras, se encontrava vago, quis, de imediato, experimentar a gravação naquele ambiente cavernoso. O equipamento foi rapidamente movido pelas escadas abaixo, com o próprio guitarrista a servir de roadie. Apenas com a presença do seu técnico, Phil Taylor, Gilmour gravou então várias partes de guitarra de «Shine On» com a sua Black Strat.

Gilmour e o seu técnico de guitarras, Phil Taylor, gravando em Abbey Road, no estúdio geralmente usado para orquestras.
Gilmour e o seu técnico de guitarras, Phil Taylor, gravando em Abbey Road, no estúdio geralmente usado para orquestras.

Na versão “Experience”, surge «Wine Glasses», de um projeto intitulado «Household Objects», que consistia em utilizar objetos do dia-a-dia para um álbum. Entretanto, a ideia foi abandonada, mas ficou o som de copos com diferentes quantidades de líquido, e do som que geram quando rodamos o dedo na borda.

Welcome to the Machine:

Roger Waters trouxe a letra para o estúdio e compôs a música com o seu sintetizador VCS3. Os Pink Floyd chamavam-lhe «The Machine Song». Foi, em parte, inspirada pela natureza mecânica das sessões, além de ser um ataque ao show biz. O tema começa com uma porta a abrir-se, conduzindo, não à descoberta e evolução musical, mas a uma máquina do rock, muito mais motivada pela ganância e por sonhos ocos de sucesso. A música termina com os sons de uma festa. Roger Waters:

“Colocámos lá esses sons para sublinhar o vazio completo, inerente a esse tipo de reuniões, em que pessoas bebem e conversam. Para mim, é o símbolo derradeiro da ausência de contacto e de sentimentos verdadeiros entre as pessoas.”

pink floyd wish you were here (1)Have a Cigar:

Foi tocado ao vivo em abril de 1975, pela primeira vez, e cantado por Waters. Porém, no estúdio, o compositor achou que não conseguia interpretá-lo com o sarcasmo adequado, até porque tinha a voz de rastos, depois de ter trabalhado arduamente em «Shine On». Gilmour gravou o vocal, contrariado devido à letra, que considerava “uma lamúria”. Como Roy Harper gravava no estúdio ao lado, e já era companheiro de concertos dos Floyd, e em cujo álbum HQ, Gilmour colaborara, Waters sugeriu que a cantasse ele, esperando oposição, mas todos acharam ótima a ideia. Mais tarde, Roger arrependeu-se: “Não porque ele o tenha cantado mal… só porque já não somos nós.”

Em 2011, foi lançada a edição “Experience” de Wish You Were Here, contendo a versão cantada por Gilmour e Waters. Por um lado, o vocal de Harper ajuda a sublinhar a ausência enquanto tema, por outro, prefiro a versão dos Floyd e concordo com Waters. Refira-se que esta edição “Experience” é notável, já que, além da remasterização que produziu um som mais nítido, contém um segundo CD com as faixas já citadas. De facto, os vocais não soam tão agrestes como o de Harper. Gilmour está desinteressado, e Waters parece quase tímido para quem expeliu os vocais sarcásticos em The Wall.

Um ponto alto na versão oficial é o solo de Gilmour, bem como o seu trabalho exemplar de guitarra ritmo. Sem os seus adorados delays, o guitarrista explora o tema de forma irrepreensível, com pormenores em staccato, insistindo numa só nota, e no solo “pergunta resposta”, ou seja, uma frase responde a outra. É um diálogo personalizado e inimitável.

A frase “qual de vocês é o Pink?” foi realmente dita por várias pessoas, em particular por um executivo ignorante dos EUA, e tornar-se-ia numa arma, depois da separação do grupo. Waters usou essa mesma frase nas t-shirts de uma das suas digressões a solo.

Wish You Were Here: This star nonsense… Ao contrário do habitual para os Pink Floyd, a letra foi escrita antes da música. Waters afirma que a letra é sobre os elementos contraditórios do seu carácter, lutando entre si: “O idealista compassivo e o avarento rapazinho que quer apoderar-se de todos os doces.” Assim, o Roger arrogante tenta invocar a presença do seu alter-ego mais positivo.

O tema foi encadeado no anterior para o fazer soar como um rádio barato de transístores. Ao vivo, este efeito seria conseguido movendo inúmeros “sliders” da mesa de mistura em simultâneo. Ouvimos assim, num canal, um rádio ruidoso e, no outro, a guitarra acústica perfeitamente nítida.

Há a famosa história do violinista de jazz, Stephane Grapelli, que contribuiu, depois de lhe pagarem 300 libras. Na altura, pareceu uma boa ideia, já que Grapelli gravava no estúdio ao lado. A sua contribuição é inaudível; misturada com os sons do vento que terminam a canção. (Eu não consigo ouvir nenhum violino…) Na edição “Experience”, o tema surge com a sua contribuição e um solo de guitarra diferente de Gilmour. Francamente, apesar do virtuosismo do violinista, a melhor decisão foi excluí-lo totalmente da mistura. Grapelli está autenticamente a tocar pelo salário, indiferente ao conteúdo da música. Além disso, consta que não queria saber dos Pink Floyd para nada.

O tema orquestral do início é uma gravação da Quarta Sinfonia de Tchaikovsky. O som do rádio foi gravado no auto-rádio de David Gilmour, a tosse é dele, e o guitarrista ficou tão repugnado ao ouvi-la, que deixou de fumar.

pink floyd wish you were hereComeçou tudo com Gilmour a tocar uma guitarra de 12 cordas emprestada. Roger ouviu e gostou. Acabaria por se tornar na melhor das colaborações entre ambos, além de «Comfortably Numb»; um dos raros momentos Lennon/McCartney destes dois músicos que, pura e simplesmente, não se entendiam. A ideia era alguém estar a ouvir rádio, sintonizar uma estação e tocar guitarra por cima. Daí os sons de tosse e, mais uma vez, o distanciamento, e a ausência da banda e a sua falta de dedicação.

A união entre melodia e letra é perfeita, bem como o scat de Gilmour, que, na gravação não é destacado, mas que, nas versões ao vivo, se ouve plenamente.

Shine On You Crazy Diamond (Part 2): Inicialmente, o tema era tocado inteiro, em 1975, até que «Have a Cigar» surgiu. Encontra-se subdividido nas partes 6-9. E retoma o tema do início, com mais um verso. A guitarra slide de Gilmour e o ambiente de jam session, acabam por trazer ao de cima o trabalho genial do pianista Richard Wright. As suas notas terminam em tom maior, o que sugere que estados de espírito de dissociação e afastamento podem ser ultrapassáveis.

A DIGRESSÃO

Para a digressão do álbum, os Floyd colaboraram pela primeira vez com o cartoonista político Gerald Scarfe, que criou animações para «Welcome to the Machine», um prenúncio da sua participação mais global em The Wall. Além de possuírem a mesa de mistura mais potente da altura, os Floyd tiveram também a ideia de criar uma gigantesca bola de espelhos, que salpicava de luz o público durante «Shine On You Crazy Diamond». Tudo custou 100 mil libras, e uma equipa de 35 pessoas trabalhou na parte técnica. Curiosamente, o itinerário da digressão foi planeado de acordo com o calendário futebolístico, pelo que o grupo assistia a jogos do campeonato inglês durante a tarde e, à noite, tocava.

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Outra particularidade foi o afastamento quase total dos media: Os jornalistas não eram bem-vindos. Se recebiam um bilhete para um dos espetáculos londrinos, era uma sorte. David comentou, em 1978: “Detesto a ideia de passear por onde quiser, como uma pessoa normal, e ter pessoas constantemente a olharem para mim e a atormentarem-me. Muita gente troca isso de bom grado pela sua privacidade, mas eu não sou assim, e nós, enquanto grupo, também não.” Ainda mais crítico foi Roger:

“Muita gente, na imprensa, atacou-nos ferozmente, dizendo que as letras eram horríveis. Por vezes, penso que não seriam capazes de fazer melhor. Esquecem-se que as pessoas que compram discos e gostam de música não são todas licenciadas em Literatura Inglesa…”

Apesar de tudo, os poucos jornalistas que conseguiram ter acesso ao grupo, acharam os seus elementos afáveis. “Era apenas uma questão de andar por ali e não interferir”, comentou Chris Charlesworth da Melody Maker. Outro foi Karl Dallas, que conquistou a confiança do grupo, a qual terminou quando publicou um livro sobre eles, Bricks in the Wall. Anos mais tarde, David Gilmour brincaria que a banda não queria comprometer a sua “imagem astral”, dando aos fãs demasiada informação, “sobre nós, em casa, a ver TV e a beber cerveja”.

Um artigo da New Musical Express, atacou violentamente o grupo e a sua imagem (ou falta dela). Nick Kent acusou-os também de indiferença perante os fãs e criticou Gilmour, “mais o seu cabelo sujo”. O guitarrista contra-atacou, dizendo que levava muito a sério o seu trabalho na guitarra e que não era necessário cabelo limpo para isso.

Foi o disco que vendeu mais rapidamente da carreira inteira do grupo. Os Floyd regressaram então ao silêncio. Nos final dos anos 70, a indústria musical sofreria uma grande mudança, e foi quando reapareceram. Mas isso é outra história…

Wish You Were Here permanece um diamante por lapidar, como é hábito nas grandes obras. Assenta em sentimentos humanos com os quais nos debatemos hoje, cada vez mais. Será que nunca ninguém se olhou ao espelho e pensou algo como, “quem me dera que estivesses aqui…”, referindo-se a si próprio ou a alguém? Seríamos hipócritas se disséssemos que não.

David Furtado

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2 Comments Add yours

  1. Ótima análise, agora procuro entender esse álbum com outra visão, a de que sentimos profunda saudade de alguém. Apesar do desanimo, a guitarra, a bateria e os vocais se encaixaram perfeitamente num conjunto, querendo expressar esse sentimento. Nunca tinha ouvido falar nesse álbum alternativo Wish You Were Here Experience, mas acabei de baixar e vou ouvir agora mesmo… Achei perfeita (parece ter sido trabalhosa), bem detalhada, profunda. Parabéns pelo seu trabalho, David Furtado!

    1. Obrigado, Gustavo. Veja o álbum sob essa perspetiva que verá ainda mais. A versão alternativa que refere é muito boa, aconselho vivamente. Há poucos álbuns assim porque tal como diz, é difícil reunir pessoas tão talentosas num certo momento em que estão todas dedicadas ao projeto em causa, como aqui aconteceu. Todos eles deram algo de si ao disco.

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