Clint Eastwood, homem, ator, mito: Entrevista exclusiva com o biógrafo Patrick McGilligan

Quando li Clint: The Life and Legend, em novembro de 2006, fiquei surpreendido por saber como a vida de Clint Eastwood diferia tanto da sua imagem pública. Algumas revelações foram bastante chocantes. O livro causou controvérsia e, em 2002, Eastwood processou o seu autor, Patrick McGilligan, e a St. Martin’s Press por difamação, exigindo 10 milhões de dólares. Foram feitos alguns cortes, mas a obra foi publicada e traduzida para diversos idiomas. Nalguns países, podemos encontrá-la na versão integral. O Wand’rin’ Star conversou com McGilligan acerca de Clint, Jack Nicholson, a escrita sobre cinema e a indústria cinematográfica.

Clint in Dirty Harry

Quando o li pela primeira vez, não conhecia o autor ou a sua reputação como um dos biógrafos e historiadores de cinema mais reconhecidos dos EUA. Terminada a leitura, ao verificar a enorme quantidade de fontes citadas por McGilligan, apercebi-me de que a sua pesquisa – que durou quase quatro anos – devia ser levada a sério. Falou com tantas pessoas do círculo mais próximo de Eastwood, confirmando os factos com tantas fontes, que nem o próprio Eastwood conseguiu impedir a publicação do livro. Clint: The Life and Legend obteve excelentes críticas na imprensa, desde o Daily Express ao Independent on Sunday, Sight and Sound, Time Out, Daily Mail, The Times, Observer, Empire, Daily Mirror à Uncut, para citar algumas. Estas publicações parecem concordar que se trata de um livro para pessoas que conseguem lidar com a verdade. A obra tornou-se a principal fonte do meu primeiro artigo sobre cinema, cuja versão portuguesa pode ser lida aqui.

Visto que Clint Eastwood é uma “lenda”, amado por muitos, o livro de Patrick McGilligan não caiu nas graças de alguns fãs incondicionais. Alguns dizem que é extremamente impreciso, outros, que ele inventou os factos. Alguns chegaram mesmo a alegar que o biógrafo tinha algo de pessoal contra Eastwood.

Quando lhe revelei as reações antagónicas que o meu próprio artigo obteve, McGilligan respondeu: “Algumas pessoas devem fazer contorções mentais para justificarem o seu amor ou admiração por Clint. Assistiu a isto recentemente, quando alguns racionalizaram a sua ‘atuação’ perante a Convenção Nacional Republicana, que foi perfeitamente fiel às políticas de direita da sua vida e dos seus filmes (tal como documentei no meu livro.)”

A sua primeira biografia foi sobre James Cagney. O autor também escreveu biografias altamente aclamadas de George Cukor, Alfred Hitchcock, (geralmente considerado o trabalho definitivo sobre o realizador até hoje, e finalista do prestigiado Edgar Award nos EUA); Fritz Lang, Oscar Micheaux, Jack Nicholson e Nicholas Ray. É também autor de cinco volumes bastante aclamados de Backstory, que incluem entrevistas com argumentistas de Hollywood, bem como Tender Comrades: A Backstory of the Hollywood Blacklist (com Paul Buhle).

Patrick McGilligan concordou, com amabilidade, em responder às minhas perguntas acerca do seu livro mais controverso; as suas impressões pessoais, a sua pesquisa, e também sobre o modo como começou a escrever sobre cinema. Eu quis saber por que motivo tantas pessoas adoram Jack Nicholson por detrás das câmaras, ao passo que muitas odeiam Clint. Como reagiu o biógrafo ao processo em tribunal, em que confrontou ‘Dirty Harry’ em pessoa? O ator compareceu em todas as audiências preliminares, mas McGilligan não teve de o fazer. Os pontos de vista do escritor acerca da indústria cinematográfica são também perspicazes.

Antes de começar o trabalho nesta biografia, disse que “conhecera Clint uma vez, no passado, que o entrevistou e que até nem ficou com má impressão dele, mas que manteve algumas reservas sobre ele e os seus filmes. Que reservas foram essas? Como o encarava anteriormente?

Clint, quando o conheci, por volta de 1976 – teria de confirmar as datas, mas julgo que foi mesmo antes de O Rebelde do Kansas – foi atencioso, discreto, agradável. Nessa altura (tal como hoje), achei-o muito sereno e experiente com a imprensa. Tão autoconfiante que nada o conseguia irritar. Mas provenho da geração dos anos 60, e cheguei com algum ceticismo.

Eu adorava (e adoro) os filmes de Leone, mas pertencia a um grupo de esquerda, envolvido numa revista de cinema chamada The Velvet Light Trap, que atacou Dirty Harry, por exemplo, considerando-o, a nível politico, de direita. (Dirty Harry ainda é um filme provocador, e Clint dá-nos uma representação influente de polícia duro sob a direção de Don Siegel… muitas das suas outras atuações são preguiçosas.)

Portanto, eu conhecia as suas tendências políticas e achava que elas se refletiam nos seus filmes. Ainda não sabia era até que ponto a sua vida pessoal se refletia nesses mesmos filmes. Já agora, pode ler a minha entrevista, que é praticamente a primeira entrevista séria e extensa com Clint na série de entrevistas publicadas em livro pela University of Mississippi Press. De qualquer modo, em suma, vim embora impressionado, mas mantendo as minhas reservas, encarando-o simultaneamente como uma grande figura.

O Rebelde do Kansas pode ser comparado a Imperdoável em termos artísticos. Contudo, este último foi o grande ponto de viragem, ao passo que O Rebelde do Kansas não obteve uma grande atenção aquando da sua estreia, em 1976. Eu já era fã de Clint quando ele era considerado pouco mais do que um herói de ação, e, quase de um dia para o outro, deu-se uma tremenda mudança de estatuto. Transformou-se num autor, os seus filmes mais antigos foram reavaliados. O que pensa sobre isto?

Tenho de discordar. O Rebelde do Kansas foi encarado como um western importante quando estreou; o filme foi elogiado pela crítica americana. Integrou uma série de filmes que começaram a conquistar os críticos. Os filmes com Sondra Locke, um após outro, trouxeram-lhe novos fãs e uma aprovação cada vez maior por parte da crítica.

Eu traço esta sedução dos críticos no meu livro – e houve muita sedução envolvida. Publicidade e manobras extravagantes da Warner Bros, a venda de múltiplos filmes a um só cinema enquanto unidade, uma especial atenção dada à imprensa com excursões e entrevistas, patrocínio do estúdio a museus e outros eventos comemorativos. Nem todas as estrelas ou realizadores-estrelas – não sucede a Redford, por exemplo – perseguem o reconhecimento e os prémios de modo tão incansável. Mas Clint é um excelente homem de negócios, empenha-se ativamente no sentido de promover cada filme que faz, e sabe promover uma imagem e estatuto que foram vitais para o seu sucesso.

O que quis dizer foi que, se compararmos O Rebelde do Kansas a Imperdoável, provavelmente o primeiro é melhor que Imperdoável, obra que colocou Clint num pedestal, por assim dizer. Mas, na verdade, surgiram em dois períodos diferentes da sua carreira. Prefiro O Rebelde do Kansas, tal como muitos fãs.

Também prefiro O Rebelde do Kansas. É mais peculiar. Imperdoável começa por ser um arquétipo, mas acaba por se tornar pedante e cair em lugares comuns, se quer que lhe diga.

Quando Marlon Brando venceu o seu segundo Óscar, em 1973, recusou-o e enviou uma índia para explicar o motivo: O tratamento dos índios por parte dos americanos, na vida real e no cinema. Mais tarde, nessa cerimónia, quando Clint atribuiu o Óscar de Melhor Filme, começou o seu discurso com uma piada que acho claramente de mau gosto, fazendo troça de Brando num tom de desdém: “Não sei se devo entregar este prémio em prol de todos os cowboys abatidos em todos os westerns de John Ford, ao longo dos anos.” E prossegue, falando de dignidade e valores humanos… Porém, três anos depois, surge como grande defensor dos índios no grande ecrã, em O Rebelde do Kansas. Recentemente, procedeu de modo idêntico, com uma atitude que também achei de mau gosto, durante a Convenção Nacional Republicana. Como comenta esta estranha duplicidade?

Não me surpreenderam os seus comentários nos Óscares. Sempre o considerei politicamente retrógrado. Ele fez campanha ou deu dinheiro a Nixon, Reagan, ambos os Bush, e agora a Romney.

Quando era Mayor de Carmel, apoiou projetos empresariais e medidas anti-ambientais, além de cilindrar a oposição. Até nos filmes, um tipo que aponta uma arma à cara de um negro e lhe diz para adivinhar quantas balas lhe restam, está a fazer uma afirmação política.

Normalmente, ele mantém-se discreto, no que toca à política, ou prefere descrever-se como “libertário”. Mas não o encaro assim e, de vez em quando – tal como no caso do Óscares ou da Convenção Nacional Republicana – vê-se no foco das atenções e não vira costas ao desafio. (O seu caráter litigioso é outra face disto; Dirty Harry ataca os tribunais e os advogados, tal como Clint na Convenção Republicana.) O que foi realmente invulgar na sua “atuação” Republicana, foi o facto de ser improvisada e de ser um monólogo. Isto é mais do que invulgar, é quase único, no caso dele. Mas sempre o achei um ator mais do que capaz, só que raramente trabalha com o necessário afinco para o provar.

O primeiro e verdadeiro “malpaso” de Clint, pelo menos mediático, parece ter sido o Caso Sondra Locke. De início, ela foi humilhada em público, mas contra-atacou e venceu Clint em tribunal. Sempre a achei promissora, como atriz e realizadora, mas Clint pôs-lhe simplesmente termo à carreira. Escreve que a sua opinião acerca dela mudou, após a sua pesquisa. De que modo?

Quando conheci Sondra, achei-a um pássaro ferido, voando em círculos com apenas uma asa. Não tinha passado muito tempo desde que Clint a expulsara de casa, e ela ainda não recuperara totalmente. Além disso, sofria de problemas de saúde.

Ela falou sobre derrotá-lo em tribunal e em escrever um livro para marcar posição, e eu achei que era tudo conversa; e tudo se concretizou. Ela foi uma grande fonte, e defino uma grande fonte como alguém que nos diz coisas que “batem certo” e que podem até criar uma imagem desfavorável sobre si mesmas. Ela indicou-me pessoas que não gostavam especialmente dela, por exemplo, por saber que elas teriam algo de importante a dizer sobre Clint.

Já que a entrevistou, que impressão lhe deixou, enquanto pessoa?

Sempre gostei dela, desde o primeiro momento, mas comecei a confiar nela e a considerá-la verdadeiramente compreensiva e sábia (uma sabedoria adquirida a muito custo). Pessoalmente, imagino-a sempre como a Sondra do “antes” e do “depois”: Antes e depois de Clint. Julgo que é difícil para os críticos que deram graxa a Clint, elogiando os seus filmes com Sondra, há muito tempo, encaixarem o modo como ele a tratou. Alguns desses filmes foram muito bons por causa dela, tal como retrato no meu livro. Mas prefiro a Sondra do “depois”.

Marilyn Ann Moss disse que Raoul Walsh era “o exemplo de alguém com grande talento, mas que, primeiro, era um ser humano generoso. Não encontramos isso com frequência na História de Hollywood”. Regra geral, a maioria das pessoas apenas vê “o desfile de carne” dos Óscares, como George C. Scott definiu certa vez, mas não se apercebe que é um mundo “feroz e competitivo”, de acordo com Anthony Perkins. Pesquisou este mundo de modo aprofundado. Concorda com estas afirmações? Como vê a indústria, enquanto insider e historiador de cinema?

Não sei se concordo com nenhuma dessas afirmações, de modo literal. Estou certo de que existem todos os tipos de seres humanos na indústria do cinema, incluindo os generosos, mas, mais importante do que isso, há uma variedade de comportamentos, tal como sucederia em qualquer microcosmo. O que sucede é que o bom e o mau são ampliados devido à importância da indústria cinematográfica (o glamour e o dinheiro), a sua publicidade e o resultado – os filmes e a imortalidade. As pessoas não são todas iguais, lá. Há grandes diferenças entre, digamos, Bette Davis e Katharine Hepburn, nos velhos tempos, e Jack Nicholson e Clint Eastwood, nos dias de hoje. Há semelhanças, sim, mas também diferenças a nível de personalidade e carácter, e nem todas podem ser atribuídas ao glamour e ao dinheiro. Mas o glamour e o dinheiro tendem, de facto, a distorcer o comportamento.

Como começou a escrever sobre cinema, tornando-se tão especializado? Foi por adorar filmes?

Cresci ao ar livre, participando em jogos de inverno e de verão, e a pescar e nadar num lago. Provavelmente, o primeiro filme que vi foi Ben-Hur. A minha mãe era uma católica rígida e achava que os filmes eram uma má influência; o meu pai achava que eles custavam demasiado dinheiro. Na faculdade, juntei-me a um grupo de pessoas da costa Leste, que eram doidas por cinema e que tinham assistido a imensos filmes enquanto cresceram. Algumas delas fundaram e escreviam para a The Velvet Light Trap. Eram também radicais contra a guerra, e envolviam-se noutras causas e matérias políticas. Eu concordava com elas, a nível político, e comecei a ver muitos filmes com estas pessoas. O nosso lema era: Protestar contra O Nascimento de Uma Nação, mas entrar à socapa para o ver, se possível.

O meu primeiro artigo para a The Velvet Light Trap era o ampliar de um trabalho que eu escrevera para uma disciplina que boicotava devido a uma greve por toda a universidade. O tema era James Cagney, ator que nunca vira num filme, antes de começar o meu trabalho. (Bom, talvez tenha visto um ou dois filmes de Cagney numa aula, mas nada sabia.)

O trabalho transformou-se num artigo, e o artigo transformou-se num livro. Naqueles tempos, não havia vídeo ou TV por cabo ou Internet, pelo que descobríamos velhos filmes e escrevíamos sobre eles sob um ponto de vista histórico ou político, de uma forma que achávamos inédita e empolgante.

Quando dei por isso, embora também fosse muitas outras coisas, muitas vezes em simultâneo, escrevia sobre cinema, e isso tornou-se no meu futuro. Isto é, obviamente, uma versão condensada dos acontecimentos…

Compara o seu trabalho acerca de Clint Eastwood ao livro sobre Jack Nicholson, do qual também é autor. Enquanto Eastwood tentou controlar a sua pesquisa, Nicholson, embora rejeitasse colaborar, não o tentou restringir de nenhuma forma. Eles aparentam ser pessoas totalmente diferentes. Por detrás das câmaras, muitas pessoas adoram Jack, e muitas odeiam Clint, tal como escreve. Sentiu a sombra de Clint durante a sua pesquisa? Ele estava a par dos seus progressos ou alguma vez o tentou deter?

Muitas pessoas perguntavam, “o Clint sabe o que você anda a fazer?”. E, quando eu respondia negativamente – ou lhes dizia para lho perguntarem a ele – era o fim do nosso contacto. (No caso de Jack, tal não aconteceu.) Algumas pessoas diziam coisas como, “não tenho nada a ganhar e tudo a perder, se falar consigo”. Tem de ter em conta que Richard Schickel encontrava-se a escrever a sua biografia autorizada (e “desinfetada”) e muita gente sabia disto. Por outro lado, muitas pessoas postas de lado ou deixadas para trás ou que tinham sido pisadas, no passado, estavam disponíveis, à espera que o telefone tocasse.

O realizador Ted Post surpreendeu-me quando atendeu o telefone e disse, “tenho todo o gosto em falar consigo, mas só se me prometer que não vai escrever as mesmas merdas que todos os outros”.

O argumentista de O Indomável Rebelde, que era, nessa época (e provavelmente ainda continua a ser), o filme de Clint mais rentável de sempre, a nível de bilhetes vendidos e dólares contabilizados, disse-me, “quer falar comigo? É a primeira pessoa que pergunta. Decerto, sabe que fui processado até deixar de existir pelo Clint…?” Não, eu não sabia isso, tal como muito do resto que apurei. Portanto, Clint sabia o que eu fazia – eu revelara-o a Schickel, de resto – e, ocasionalmente, tive de me encontrar com pessoas em segredo. Mas, de modo geral, eu era uma pulga e ele era um elefante, e o elefante não repara nem se importa com a pulga.

Jack Nicholson parece-me uma pessoa descontraída… bem, nem sempre! Mas a maioria das vezes. E o que escreve, vai de encontro a outras biografias. Quando trabalhou em As Bruxas de Eastwick, era muito terra-a-terra e parecia “um rapazinho, embora fosse, é claro, um adulto, tendo salvado o filme”, de acordo com Cher, citada numa biografia de Michelle Pfeiffer. O que pensa de Nicholson enquanto pessoa e colega, ao interagir com outros atores no set?

Jack trabalha arduamente e é quase um estudioso enquanto ator, e é também muito amigável com os outros atores nas cenas em que participa, filma o maior número de takes possível, diz as suas falas quando a câmara não o foca, se necessário, etc.

Admiro a sua ética enquanto ator e penso que, ao longo dos anos, isso o transformou no Bogart da nossa geração – sem exagero – quero dizer, um ícone e um símbolo tão poderoso e importante como Bogart; mas também é um ator cuja devoção à arte resultou em inúmeros filmes clássicos que se centram na sua atuação.

Prefiro a sua persona e o seu leque de filmes. (Clint é mais o John Wayne da nossa geração, embora eu prefira Wayne.) O sucesso de Clint, enquanto ícone e estrela centra-se mais na sua persona, e as suas representações tendem a cair naquilo a que Stanislavski (creio eu) apelidou de “despotismo dos hábitos adquiridos”.

Mas, para que não haja mal-entendidos, Clint é o descontraído e sereno; Jack é empolgado, intenso, imprevisível – mais semelhante às personagens que interpreta – pode ser muito amável, encantador e falador, por vezes, mas, noutras alturas, é temperamental e cuidado! O facto de ser tão diligente no set, de modo geral, só demonstra o seu conhecido profissionalismo como ator.

O biógrafo de Eastwood faz mais algumas afirmações interessantes sobre a personalidade do ator, o modo como trabalha, como tentou prejudicar a carreira do autor e procurou descobrir as suas fontes para lhes fazer o mesmo. Patrick McGilligan também explica que não tinha nada contra este “homem complicado de roupagem simples”. O biógrafo podia ter optado por um caminho mais fácil e lucrativo, escrevendo uma obra que apenas elogiasse Clint, e poderia ter evitado as minhas perguntas, algumas delas, um pouco difíceis, mas não o fez.

Li que, nos velhos tempos de Hollywood, as carreiras de muitos atores eram lançadas e outras destruídas com grande facilidade, não só pelo facto de ganharem, ou não, um Óscar, mas também por favores de todos os tipos, que muitas vezes ocorriam nos escritórios de produtores e pessoas poderosas. Acha que Hollywood mudou muito desde esses dias?

Se Hollywood mudou muito desde os dias do casting couch? [Uma referência aos sofás onde se faziam as audições.] Sim e não. Certamente. Mas esta é uma pergunta demasiado complexa para responder com generalizações. Em muitos aspetos, Hollywood é um lugar melhor – para atores afro-americanos, por exemplo, mas nem tanto para atrizes, realizadores e argumentistas – noutros aspetos, está na mesma. Tenho a certeza de que as leis federais e o movimento feminista travaram o sistema do casting couch e alguns dos piores excessos, mas tal como demonstra a vida de Jack [Nicholson], o uso da droga sempre aumentou e diminuiu; e, tal como demonstra a vida de Clint, as estrelas de Hollywood sempre se sentiram livres para brincarem aos políticos. E ambas provam que se pode maltratar mulheres e ficar impune.

Hollywood não é lugar para criar uma família, isso é certo – há tantas histórias de lares desfeitos e crianças magoadas – mas isso também acontecia nos velhos tempos. Fui amigo da animadora Faith Hubley, que trabalhou em Hollywood como assistente de continuidade para os The Three Stooges [Os Três Estarolas] nos anos 40 e, mais do que uma vez, ela disse-me que não conhecia uma única família desta indústria que se juntasse para jantar, à noite.

Atores como Al Pacino, entre outros, preferem manter uma certa distância de Hollywood. Até certo ponto, permanecem outsiders. (Pacino ficou muitos anos em Nova Iorque, por exemplo, recusando mudar-se para Los Angeles.) Fizeram-no para manterem os pés assentes no chão, mas a indústria nem sempre foi gentil para com eles. Pacino esperou 20 anos pelo seu Óscar, depois de todas aquelas representações fabulosas nos anos 70. O que lhe quero perguntar é o seguinte: Será que o temperamento malicioso e arrogante de Clint foi o produto de um ambiente de trabalho competitivo, ou já era assim antes de se tornar famoso?

Não diria que Clint tem um “temperamento malicioso e arrogante”. Tem tendência para se irritar, em certas ocasiões, ainda que isso tenha sido mais vincado no passado; e, de facto, tem momentos de hostilidade. Mas ele é, basicamente, a mesma pessoa que sempre foi. Não acho que tenha sido moldado pela indústria do cinema. Julgo que já era assim antes de entrar na indústria. Cresceu, amadureceu e mudou, em muitos aspetos, mas, também em muitos aspetos, permanece o mesmo, só que de modo mais expressivo do que quando era jovem. A personalidade, o carácter, as crenças, nada mudou. O estilo de representação e a abordagem são as mesmas. Realizar era obviamente significativo na sua evolução artística e comercial.

Mas ele sempre foi, citando alguém no meu livro, um homem complicado de roupagem simples, e sempre foi mais complexo do que aparenta. Não se conseguia prever que, quando começou, acabaria por se tornar tão importante e icónico, mas, simultaneamente, isso não surpreende ninguém que o tenha conhecido.

Ele absorveu e aprendeu em Hollywood o que lhe era necessário para fazer o que queria, na sua vida e carreira.

Marlon Brando disse que “as pessoas precisam de ter heróis, até heróis negativos”. Ele descreveu a sua experiência com Chaplin em A Condessa de Hong Kong, dizendo que tem de se separar um homem da sua obra; ou seja, enquanto encarava Chaplin como, provavelmente, “o maior génio que o cinema jamais produziu”, achou-o “um homem sádico”, e “uma mistura de várias coisas, como todos nós”. O seu retrato de Eastwood mostra um homem vingativo que destruiu gratuitamente as vidas e as carreiras de muita gente. Sabe se ele ainda se comporta assim? (A sua biografia engloba o período até 1999.)

Discordo, não acho que mostre que Clint destrói por vingança as pessoas e as suas carreiras. Ele tem razões para se comportar como se comporta, e são razões legítimas, do seu ponto de vista.

Ele pode ser vingativo, mas não esse o cerne da questão. É sobre proteger e servir Clint – a sua vida e carreira.

Se penso que ele, hoje, é o mesmo que foi no passado? Novas edições do meu livro foram publicadas em Espanha e França, atualizando a sua história. As pessoas podem mudar, embora isso seja raro. Não sei se ele “ainda é o mesmo”, hoje. Mas suspeito que sim, e de modo mais vincado, tendo em conta os seus filmes mais recentes e o seu monólogo de comediante de stand-up na Convenção Nacional Republicana.

A carreira de Clint ganhou um enorme impulso com Imperdoável, mas penso que, embora os seus orçamentos possam ser mais elevados e as produções mais aprimoradas, além de ter evoluído como realizador, tendo quase todos os críticos aos seus pés, a sua carreira permanece heterogénea. Um grande filme parece seguir-se a uma obra pouco imaginativa. Temos Mystic River, mas também temos Cowboys do Espaço. Como vê a carreira dele, antes e depois de Imperdoável?

Mystic River é um grande filme? Tenho as minhas dúvidas. O livro é superior. Alguns dos atores representam com exagero, o final arrasta-se de modo interminável.

Clint é um realizador extremamente competente; consegue entrar numa sala, saber onde posicionar a câmara e filmar uma cena tão bem como qualquer outro. O problema reside em argumentos que não são polidos, atores que não são ensaiados ou guiados, e em cenas filmadas num, em dois ou três takes, entre outros fatores. Mas, já que ele é tão competente enquanto realizador e rodeia a produção de verniz, os filmes que realiza podem ser muito bons – mas raramente, ou nunca, extraordinários.

Quando ele é a estrela, o público fica mais satisfeito. Mas, muitas vezes, o veículo que escolhe, como é o caso de Blood Work – Dívida de Sangue, Um Crime Real ou Cowboys do Espaço, por exemplo, denota as suas limitações.

Gran Torino é um dos meus filmes favoritos do período pós-Imperdoável. Mas, de certo modo, a personagem que ele interpreta é muito semelhante a um ‘Dirty Harry’ aposentado. Tem algum filme favorito, nesta fase mais recente da sua carreira?

Adoro Gran Torino, mas principalmente porque é Clint, enquanto cineasta e autor com ideias que tem vindo a reciclar ao longo das décadas. O rabugento e aposentado personagem ao estilo de ‘Dirty Harry’, a grande “revelação” de tolerância para com os Hmong, ao passo que os miúdos de rua negros são tratados como cartoons; o padre unidimensional que está errado; os membros da família que estão mais do que errados e são desprezíveis… até a ode a um automóvel, que parece uma revisitação de Cadillac Cor-de-Rosa.

Um filme muito tonto, na verdade, mas também um, como muitos que Clint fez, que é astuto para com o seu público. Para mim, o melhor filme que Clint alguma vez concebeu, como realizador, foi Cartas de Iwo Jima, porque ele não entra e porque não existem paralelos óbvios consigo próprio e porque o filme está muito, muito bem feito.

Muitos atores parecem ter as oportunidades das suas carreiras depois de trabalharem com Eastwood, o que é natural, dadas as circunstâncias. Cécile De France, por exemplo, que protagonizou Hereafter – Outra Vida, só diz maravilhas sobre trabalhar com Clint. Por vezes, pergunto-me se ele terá amolecido com a idade. Para alguém que era um tirano no set, tal como o retratou, ele aparenta grande descontração. O que acha? Trata-se de uma continuação das manobras publicitárias do passado?

Por que motivo um ator não diria algo de positivo acerca de trabalhar com Clint? O salário é elevado e pode-se gabar de ter sido dirigido por uma lenda durante o resto da vida. Ele é caloroso, amável, etc. E Hereafter – Outra Vida é um filme bastante bom! Eu nunca diria que ele é um tirano no set. Ele faz as coisas do modo que quer, e os outros aceitam os seus métodos à partida. Dificilmente é um tirano – escrevi sobre Fritz Lang, esse sim, um tirano. Clint sempre abordou a interpretação e realização de modo muito descontraído. Demasiado descontraído, diria eu, se pensasse como um crítico; mas quem pode pôr em causa o seu sucesso?

Eastwood moveu-lhe um processo por difamação, exigindo 10 milhões de dólares, acusando também a St. Martin’s Press. Sei que alguns cortes foram efetuados, e neles consta que ele batia na sua primeira esposa, Maggie, e teve medo de combater na Guerra da Coreia. Isto veio a público através das agências noticiosas. É-lhe permitido dizer quais os outros cortes no manuscrito que foram ditados pelo próprio Eastwood? (Ou o que abordam, em termos vagos?)

Os cortes não foram aplicados à edição original, que pôde manter-se em circulação porque eu (bem como a editora) não admiti irregularidades ou erros factuais. Para pôr termo ao processo, concordámos em fazer cortes apenas em todas as edições posteriores. Por isso, a edição francesa e espanhola incluem estes cortes, bem como material atualizado.

Referiu os dois principais temas – bater na mulher e o medo de lutar na Guerra da Coreia (este último, é descrito praticamente da mesma forma na biografia autorizada de Clint, escrita por Schickel). O resto era bastante trivial, talvez uma dúzia de pequenas modificações ou cortes, incluindo o tratamento de uma passagem que citava a mãe de Clint, a partir de um artigo que surgiu nos jornais de Oakland. (O argumento dele é que tal implicava que a sua mãe cooperara no meu livro – o que não é verdade, encontrando-se explicitado nas notas finais acerca dos capítulos. Mas, uma vez, Clint processou o The National Enquirer, argumentando basicamente o mesmo, insistindo que uma entrevista que o Enquirer republicara, originalmente surgido em Inglaterra, implicava a cooperação dele com a publicação.)

Independentemente das alterações, o meu retrato de 600 páginas de Clint – o tipo de pessoa que é, o tipo de ator e realizador que é, o modo como a sua vida se reflete nos seus filmes – permaneceu, e permanece, quase intacto.

Não conheço o sistema legal dos EUA, mas ainda não pode mencionar certos detalhes acerca do processo. Acha que há uma espécie de perseguição por parte de Clint? (Ou da sua equipa de advogados, presumo?)

Clint protege os seus interesses e bens; é essa a lição a retirar do processo. A sua “imagem” é um dos seus bens. Acredito que, se tivesse terminado todos os capítulos do meu livro elogiando a sua genialidade enquanto cineasta, não teria sido processado; em vez disso, interliguei a sua vida à sua persona e a certas ideias e lacunas nas suas interpretações e realizações.

Ele processou, não só para impedir o lançamento do livro, mas também para prejudicar e causar danos na minha carreira e, além disso – convém sublinhar –, para descobrir as minhas fontes e ir atrás delas para lhes fazer o mesmo. Não encaro isto como perseguição. Era previsível.

Se ler o livro, verá que ele muitas vezes se comportou de modo litigioso, envolvendo-se com advogados e tribunais e casos judiciais controversos, embora faça troça dos advogados em filmes como Dirty Harry ou quando discursou perante a Convenção Nacional Republicana.

Dada a sua natureza vingativa (talvez esta pergunta seja influenciada por J. Edgar…), acha que ele ainda segue de perto a sua carreira e as suas declarações, como é o caso desta entrevista? Ele tentou fazer-lhe o mesmo que fez a ex-colaboradores e amigos, complicando-lhes as carreiras? É um assunto delicado, mas, para quem escreve sobre cinema, acha que o poder de Clint em Hollywood poderia ter comprometido a sua própria carreira enquanto escritor? Pensou duas vezes antes de publicar o livro, durante a pesquisa ou quando o terminou?

Penso sempre duas vezes sobre tudo o que escrevo, já que todos os meus livros assumem posições. Duvido que Clint siga o que faço e a minha carreira de perto, hoje em dia, contudo; ainda sou uma pulga e ele, um elefante, e já escrevi o que tinha a escrever sobre Clint.

O acordo em tribunal exclui outro processo contra mim ou contra o livro, tal como estava publicado na altura em que o acordo foi concluído. Isso não o impede de processar outras pessoas – a si, por exemplo.

Alguma vez o livro correu o risco de não ser publicado?

O livro foi recusado pela sua editora original, na América, e por outras, mais tarde, já que todas temiam reações adversas da crítica e um processo judicial de Clint.

Acredite que poderia ter seguido uma via mais fácil e ganho mais dinheiro se tivesse escrito mais um livro a adular Clint. Mas os editores no Reino Unido aceitaram-no com entusiasmo e de imediato; eles mantinham uma distância, tanto emocional como política dos EUA, e entenderam o retrato de Clint e dos seus filmes como emblemático (e não o melhor) da América e de Hollywood.

Eventualmente, a St. Martin’s Press, onde eu possuía um vasto historial – e que conhecia a minha reputação quanto a honestidade e rigor –, publicou o livro e defendeu-o.

Clint Eastwood teve acesso ao manuscrito antes da publicação?

Que eu saiba, não, mas é possível. Os rascunhos circulam sempre de modo mais amplo do que possa pensar. Não sei como, mas, quando trabalhava na minha biografia de Alfred Hitchcock, Donald Spoto conseguiu obter um dos primeiros rascunhos, e os seus advogados ameaçaram processar porque eu, supostamente, estava a denegrir a sua reputação ao pôr em causa a sua tese do “lado negro”. (Essa ameaça não deu em nada.)

Dado que Clint é tão popular e uma figura tão importante no negócio do cinema, obteve muitas reações negativas depois da publicação do livro?

Obtive muitas reações negativas, mas também recebi muitas positivas.

Tem de compreender que, por doido que isto possa soar, nem toda a gente na América ou no mundo considera Clint Eastwood um grande artista ou ser humano; nem todos seguem os seus filmes avidamente; e algumas pessoas – críticos, bem como leitores comuns – não ficaram tão surpreendidas, mostraram-se gratas por terem um ponto de vista alternativo.

Digo sempre, até aos fãs incondicionais de Clint, que este livro lhes pode interessar, pois abordo-o sempre como um autor cuja visão pessoal se reflete nos filmes, e o meu livro, com a sua pesquisa sem precedentes, mostra Clint e as suas obras desse ângulo.

Algumas pessoas acusaram-no de ter algo de pessoal contra Clint Eastwood. Até eu, por vezes, achei que era o caso. Mas isso não encaixava no retrato geral, no modo como pesquisou, as fontes, tudo. É apenas uma opinião, mas há passagens em que menciona Clint de um modo algo rude. Foi por achar as suas atitudes revoltantes? (Muitas delas certamente são, no mínimo.)

Sei que isto pode espantar muita gente, mas não escrevo livros sobre as pessoas por ser, ou não, fã delas.

Por exemplo, mal conhecia os filmes de George Cukor, desconhecia quase em absoluto a sua vida e carreira, nem sequer sabia pronunciar convenientemente o seu nome, e a única vez que me encontrei com ele, fui tratado de modo bastante desprezível por ele – mas, ainda assim, sabia que ele era um objeto de estudo importante e que daria um bom assunto para um livro. Foi o mesmo com Clint.

Olho sempre para as pessoas sobre os quais escrevo através da mesma lente: como trabalham – os seus métodos – o quanto trabalham nos seus argumentos (muito importante), a sua religião, as suas opiniões políticas, as suas vidas sexuais, os seus valores, os seus relacionamentos com os outros, os seus hábitos e comportamentos. Embora soubesse mais sobre Clint do que, talvez, a minha mãe, não sabia muito sobre ele quando comecei – e certamente não sabia aquilo que vim a descobrir.

A maioria das pessoas que escrevem sobre cinema são fãs, e escrevem sob essa perspetiva. Já que adoram este ou aquele cineasta – ou estrela –, não querem ouvir nada que possa interferir nessa adoração. Compreendo isso. Mas sou biógrafo, não penso assim, de todo, e insisto que a minha pesquisa e reportagem aprofunda a compreensão sobre os meus objetos de estudo. Percebi, desde cedo, que o meu exame à vida e carreira de Clint estava a compor um retrato oposto à visão convencional que dele se tem, e acreditei – e acredito – que, na vasta quantidade de artigos e livros que o sobrevalorizam, havia espaço para um livro que tentava documentar verdadeiramente como ele vive e trabalha, mostrando como a sua vida contribui para o significado da sua persona e dos seus filmes.

Já lhe disse que comecei, encarando-o com ceticismo, em certos aspetos – Dirty Harry, etc. – e é verdade que fiquei a admirá-lo menos do que alguns dos meus outros temas. Mas não elogio assim tanto Fritz Lang, por exemplo, e não acho que a missão de um biógrafo seja agir como um fã. No entanto, não tinha nada de pessoal contra ele quando comecei, e não acho que o tenha julgado com demasiada rudeza; pois sei o quanto deixei de fora e como elaborei o retrato criteriosamente, diria que o “julguei” (palavra que não empregaria, e que retiro da sua pergunta) tão justamente quanto podia, utilizando o mesmo critério que apliquei a Cukor, Lang, Hitchcock, Altman, etc.

A sua biografia de Alfred Hitchcock foi muito aclamada e, julgando pelas críticas que li, é leitura essencial para fãs do realizador, e a melhor que foi escrita até hoje. Também escreveu outras biografias, igualmente aplaudidas, sobre figuras importantes da História do cinema, como George Cukor, Fritz Lang ou Nicholas Ray. São estes objetos de estudo que o encontram ou é o inverso? Pergunto isto porque não parecia especialmente interessado em Clint Eastwood, visto que já existiam muitos livros sobre ele, tal como escreve no posfácio.

Já que passei horas com Clint, em meados dos anos 70, fazendo-lhe uma longa entrevista, muito antes de outros, e visto que, antes disso, exibira os seus filmes na sociedade cinematográfica da minha Universidade, já deve ter percebido, por agora, que ele sempre me interessou, bem como os seus filmes. A verdade é que apenas escrevo sobre alguém porque consigo convencer um editor a dar-me um contrato, porque sou um profissional, o meu trabalho é o meu emprego, e tenho de ganhar dinheiro. Depois de escrever o meu livro sobre Jack Nicholson, o meu editor concordou que uma obra sobre Clint podia ser um bom modo de prosseguir. O meu livro sobre Jack chamou-se A Vida de Jack, e o livro de Clint ia-se intitular O Mundo de Clint. Ainda o prefiro como título: Livre para fazer tudo o que quer.

Em que está a trabalhar atualmente?

Estou a trabalhar num livro chamado Jovem Orson. Julgo que o título fala por si.

Quer acrescentar algum pormenor?

Gostava que divulgasse que visitei Portugal e adoraria regressar e ver um dos meus livros numa loja, traduzido em português. Os meus livros foram publicados por todo o mundo, numa dúzia de idiomas, cinco ou seis estão atualmente disponíveis em espanhol, mas, até agora, não há nenhum em português. Por que não a biografia de Clint?

David Furtado

Obrigado a Patrick McGilligan

Anúncios

Comentários:

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s