Suspiria de Dario Argento, 35 anos depois: Terror a 400 graus

Um dos maiores realizadores italianos de sempre esteve novamente em Portugal como convidado de honra do Motelx – Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa. Recordemos uma das suas obras-primas, através de declarações do realizador, da protagonista, Jessica Harper, da coargumentista Daria Nicolodi, do ator Udo Kier e do diretor de fotografia, Luciano Tovoli.

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Suzy Banyon decidiu aperfeiçoar os seus estudos de ballet na escola de dança mais famosa da Europa, a célebre Academia de Friburgo. Um dia, às 9h00, embarcou no Aeroporto Kennedy, em Nova lorque, e chegou à Alemanha às 22h40, hora local.

Depois desta introdução, ‘Suzy’ passa pelo aeroporto e viaja de táxi até à Academia. Vem a descobrir que não é uma escola de bailado, mas sim, um covil de bruxas.

suspiria dario argento (10)A primeira obra da trilogia das “Três Mães” é considerada um marco do cinema de terror. Seguir-se-iam Inferno em 1980 e o execrável La terza madre em 2007. Argento queria filmar uma espécie de Branca de Neve e os Sete Anões em versão terror e, para tal, escolheu uma protagonista de rosto angélico, Jessica Harper. A banda sonora hipnótica foi composta pelos Goblin, com a colaboração do realizador.

Argento afirma que o seu anterior filme Profondo rosso, tinha sido muito bem-sucedido em Itália.

“Quis dar outro salto qualitativo para o desconhecido. Sabia que os meus fãs me seguiriam se eu tomasse outro rumo, e foi por isso que comecei a pensar num tema baseado no oculto. Era a minha oportunidade de entrar no campo do meu mentor, Edgar Allan Poe, por isso, comecei a dar voltas à cabeça, em busca de uma recordação há muito esquecida, relacionada com o sobrenatural.”

Dario Argento revela que, quando era jovem, se interessava muito por bruxas. “A bruxaria e magia negra eram temas que me fascinavam, e li vários livros sobre o assunto. Viajei bastante pela Europa e encontrei muitas mulheres que diziam ser bruxas. Inspirei-me num livro em particular sobre o tópico, acerca de uma escola de raparigas, onde elas aprendem magia. De início, pretendi que tivessem entre 11 e 14 anos, mas o meu distribuidor italiano [F.A.C.] nem quis ouvir falar disso, pelo que tive de enquadrar as idades entre os 18 e os 21.”

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O realizador e coargumentista manteve os comportamentos juvenis. “Se olharem para o design de produção de Suspiria, vão reparar que todas as maçanetas das portas são mais altas do que o normal. Isso foi de propósito, pois quis reduzir a estatura das atrizes, fazendo-as parecer adolescentes. Suspiria é contado do ponto de vista de uma criança, e penso ser essa uma das razões por que é tão primário e assustador.”

O DESIGN

Escrito pelo realizador e pela então companheira, Daria Nicolodi, a obra foi filmada com uma película Technicolor fora de stock. Na época, Argento comentou: “O medo é uma temperatura corporal de 370 graus centígrados. Com Suspiria, eu queria chegar aos 400!” O cineasta sabia ao certo o que pretendia, em termos de iluminação e cores. “Duas semanas antes de começarmos a filmar, fui ter com Luigi Kuveiller, responsável pela fotografia dos meus dois filmes precedentes, e expliquei-lhe o que queria. Mostrei-lhe o clássico de Walt Disney, Branca de Neve e os Sete Anões, de 1937, para ilustrar a qualidade psicadélica e vívida que ambicionava. Ele disse que era muito densa e impossível de conseguir. Devido a este comentário, soube que não era a pessoa indicada para o trabalho.”

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Argento opta então por Luciano Tovoli:

“Foi um total contraste. Ele percebeu perfeitamente o que eu idealizara. Eu estava mesmo decidido acerca das cenas iniciais. Pretendia causar o maior impacto possível. O objetivo era começar Suspiria do mesmo modo que um filme de terror normalmente termina. Isso manteria o público atento, a imaginar o que supostamente se seguiria.”

Luciano Tovoli já conhecia o trabalho de Argento quando recebeu um telefonema do realizador, no início de 1976. “Ele disse apenas, ‘Luciano, quero que façamos um filme juntos’, o que me deixou em pânico. Não achei que tivesse suficiente experiência para trabalhar com ele. Depois de falar com os meus colegas, que com ele trabalharam enquanto diretores de fotografia, Vittorio Storaro (L’uccello dalle piume di cristallo) e Luigi Kuveiller (Le cinque giornate e Profondo rosso), senti-me mais calmo. Ambos me disseram que se tinham sentido motivados no sentido de criar algo de especial para ele e que tinham gostado da experiência.”

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Tovoli foi até à casa de Argento, para um encontro durante o qual o realizador lhe explicou as suas intenções. “Disse-lhe que não sabia se era a pessoa certa para um trabalho tão monumental. Mas concordei em fazer alguns testes.” O diretor de fotografia toma uma decisão crucial: “Decidi eliminar a cor normal, optando por uma abordagem mais baseada na pintura.”

“Entregámos o negativo a cores aos laboratórios Technicolor, que o dividiram em três, vermelho, azul e verde. Depois, eles imprimiram uma cor em cima da outra, de modo a conferir ao filme aquele aspeto reluzente. Também exigimos alto contraste para aumentar o brilho das cores primárias. Isto foi ideia de Dario, já que ele queria que o filme se assemelhasse a uma escultura viva. Por isso, usámos filtros azuis e vermelhos em cada metade do rosto de cada ator, para que parecesse tridimensional.”

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O diretor de fotografia sublinha que “outro elemento importante são os cenários muito vincados”. “Consegui isso ao refletir os focos de luz em espelhos, em vez de os fazer incidir diretamente nos objetos e pessoas. É uma questão de distância. Comecei a colocar tantos espelhos no set, que me encararam como um narcisista descontrolado!”

Luciano Tovoli esteve envolvido na cena rodada na Königsplatz de Munique, em que a câmara adota o ponto de vista de uma águia que mergulha sobre o personagem: “Demorou dois meses a planear e foi das últimas a filmar. A câmara deslizava por um cabo e, quando estava próxima do solo, acionava um mecanismo que a soltava do cabo, fazendo-a subir. O truque consistia em que o público não visse esse cabo. Demorou uma semana a conseguir a iluminação certa. Felizmente, os três takes correram bem e não partimos nenhuma câmara.”

Tovoli relembra que “o entusiasmo de Dario foi contagioso, durante toda a filmagem. Os atores aguentaram algumas situações difíceis por estarem convencidos de que criávamos algo de único, embora não soubessem bem o quê. Apesar de tudo, foi uma rodagem algo tensa”.

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DESACORDO ENTRE DARIO E DARIA

O filme baseou-se parcialmente em Confessions of an Opium Eater, o clássico semiautobiográfico, publicado em 1822 por Thomas De Quincey. Como os fãs do realizador sabem, Argento focou-se essencialmente na secção relativa às “Três Mães”. A dos suspiros, a das trevas e a das lágrimas. Foi também substancial a contribuição de Daria Nicolodi, cuja avó frequentara uma escola em que a bruxaria integrava o curriculum! Assim se elaborou a história da jovem ‘Suzy’, que vai estudar bailado para a Tanz Akademie em Friburgo.

Argento levou mais longe o conceito de De Quincey: “Ele disse que queria escrever um romance sobre as Três Mães. Nunca o fez, pelo que decidi fazê-lo eu!” Ainda nas palavras do cineasta, “temos de encarar todo o filme como um pesadelo experimental em crescendo”.

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Daria Nicolodi não reagiu bem a estes comentários do ex-companheiro. Aliás, de acordo com uma notícia publicada na Variety, Nicolodi foi substituída por Stefania Casini, depois de partir um tornozelo durante a rodagem:

“Fui eu que aconselhei Dario a seguir outra direção, depois de Profondo rosso. A ideia foi minha, o título era meu. Eu andava a ler o livro de De Quincey e falei-lhe da parte da Mater Suspiriorum, da Mater Tenebrarum e da Mater Lachrymarum. Disse a Dario que ‘Suspiria’, baseado na Mãe dos Suspiros, seria um grande título para um filme, e ele concordou.”

Nicolodi prossegue: “Ele não é muito flexível no que toca a dar crédito a outros. Até à última semana da montagem, não sabia se me iam dar o devido crédito. Disse a Dario, Salvatore e Claudio [respetivamente, o pai e irmão do realizador] que, se não o fizessem, eu impediria a estreia. Eles creditaram-me como coargumentista, mas Dario pegou literalmente na história verídica da minha avó, e apropriou-se dela. Fiquei tão horrorizada pelos seus atos que me afastei durante um ano.”

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Por estes motivos, Nicolodi sempre se recusou a ser coautora da sequela, Inferno, a pedido de Argento e requisitada pela 20th Century Fox. Mas acabou por ceder, ao ver que Dario enfrentava problemas com o seu caótico argumento. Desta vez, não obteve crédito.

JESSICA HARPER NA TORRE DE BABEL

Segundo Dario Argento, “sempre se pretendeu que fosse uma viagem de LSD realmente mágica”. “Filmei na Alemanha para acentuar os aspetos expressionistas do conto de fadas, e também quis que Jessica Harper o protagonizasse, mal a vi em Phantom of the Paradise (O Fantasma do Paraíso, de Brian De Palma, 1974).”

Para Harper, o convite foi uma total surpresa. “Soube que O Fantasma do Paraíso fora um grande êxito em Itália e que Dario o tinha visto. Talvez tenha sido esse o motivo. Enviaram-me o guião, que li e me deixou intrigada. Como ia ser filmado em Itália, achei que seria uma aventura divertida. Tenho tendência a encarar as propostas que me fazem como aventuras, e Suspiria pareceu-me uma invulgar.”

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Jessica Harper assistiu aos filmes anteriores de Argento e achou-os “fabulosos e interessantes”. “Atraem-me sempre os projetos que fogem um bocado ao mainstream – para o bem e para o mal, como sucede às vezes”. A atriz, que acabou por se tornar no rosto do filme, tanto em cartazes como no imaginário dos cinéfilos e fãs, pensa que Argento a contratou por ser capaz de “mostrar o lado vulnerável de uma personagem forte”.

“‘Suzy’ é claramente uma pessoa forte, contudo, a sua força é temperada por uma doçura que a torna muito atrativa. Estudei dança moderna durante anos e tinha treino nesse campo, mas não acho que Dario estivesse muito preocupado com isso.”

Vários atores americanos filmaram em Itália durante os anos 70, pensando que o seu trabalho não alcançaria grandes públicos. Se o filme fosse um fracasso, não afetaria as suas carreiras. “Isso nunca me preocupou”, diz Jessica Harper. “Encaro a vida com uma atitude mais positiva do que essa! Talvez, a nível profissional, eu tivesse sido estúpida, já que nem sabia se Suspiria ia ser, ou não, exibido nos EUA. O argumento, tal como estava escrito nas páginas, não tinha o impacto extraordinário que eventualmente surgiria no grande ecrã. Não pensei muito nisso, na verdade. Esperei que Suspiria fosse mais um filme razoável dentro do género, nada mais, nada menos.”

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Outro elemento essencial do filme foi a música dos Goblin, cuja banda sonora é tão importante como as imagens. Alice Cooper comentou, com humor, que não sabia “que diabo era aquilo”. “Só se conseguia perceber que era europeu!”

As filmagens começaram a 26 de julho de 1976, em Munique e na Baviera, a sudeste do território alemão. A produção mudou-se depois para os lendários estúdios De Paolis Incir, em Roma, onde se filmaram os interiores – ao todo, foram três meses de rodagem.

“Jessica fazia-me rir, pois parecia sempre muito confundida durante as filmagens”, recorda Dario Argento. “Duas semanas depois de começarmos, deu uma entrevista a um jornal e disse que trabalhar no filme era como estar numa Torre de Babel. Toda a gente andava de um lado para o outro, falando línguas diferentes.”

Confundida, sim, mas não desagradada. “Dario não dominava bem o inglês, nessa época, portanto, nem sempre era fácil comunicar com ele. Mas possuía outras capacidades que me levaram a crer que era esperto e completamente concentrado, confiante na estética da sua visão. Ouvi pessoas dizerem o total oposto, mas, para mim, ele foi um apoio constante. Trouxe à superfície o melhor de mim, e isso nota-se no resultado final.”

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Jessica Harper não distingue a abordagem de Argento, a nível cultural, da abordagem de realizadores americanos.

“Ele é apenas um homem civilizado que acredita em tratar as pessoas com respeito. Nem sempre isso acontece; trabalhei com alguns realizadores que se mostraram muito desrespeitosos e até ingratos. Dario pareceu-me boa pessoa, de início, e a minha opinião não mudou.”

A jovem Harper estava algo receosa devido à presença no elenco de Joan Bennett (‘Madame Blanc’), uma atriz de prestígio, associada à tradição da Hollywood dos anos 40 e ao studio system. “Não a achei nada arrogante ou egocêntrica. Era uma mulher adorável.” Argento contratou Bennett apenas por ser viúva de Fritz Lang, autor de obras que marcaram profundamente o realizador italiano: Metropolis, Siegfried e os filmes do Dr. Mabuse.

Alida Valli e Joan Bennett.
Alida Valli e Joan Bennett.

A atriz, que também é uma excelente cantora, como provou em O Fantasma do Paraíso, acha algo estranho que o papel com o qual é mais identificada seja o de ‘Suzy Banyon’, mas reflete: “É assim a arte de Dario. Sinto-me feliz por ter participado nesse ponto alto, maravilhoso e bizarro da minha carreira.”

Outro ator que teve problemas com tantos idiomas no set foi o alemão Udo Kier (‘Dr. Frank Mandel’). Trabalhava num telefilme com Rainer Werner Fassbinder quando recebeu um telefonema de Argento. “Foi dois dias antes de a produção começar a filmagem dos interiores em Roma. Dario explicou-me que tinha um papel pequeno mas importante para mim. Nunca o conhecera, mas sabia da sua reputação. Disse-me que era um longo discurso sobre as trevas e que só confiava em mim para o dizer, não faço ideia porquê. Mas senti-me lisonjeado e, já que estava em Munique, compareci junto do edifício da BMW.”

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Kier ficou baralhado com as duas páginas de argumento que lhe deram, escritas em inglês. “Nessa época, o meu inglês era terrível, pelo que tive dificuldade em decorar as falas. Por isso, Dario pôs alguém fora do alcance da câmara, atrás do banco onde Jessica e eu nos sentámos, e que me ia ditando as falas à medida que eu as dizia. Correu tudo na perfeição, mas eu não fazia a mínima ideia do que estava a dizer. Filmámos quatro takes, de quatro ângulos diferentes e foi tudo. Fassbinder ficou furioso por eu ter tirado um dia para participar no filme de Argento, mas senti-me feliz por desempenhar um pequeno papel no que se tornaria um clássico do terror.”

A mesma ideia é partilhada por Jessica Harper, que revelou:

“Não fazia ideia que Suspiria se tornaria numa obra tão influente. Apercebi-me que o trabalho de Dario resultaria em algo muito interessante e belo, mas após estes anos todos… foi mesmo no começo da minha carreira, e eu era bastante ingénua acerca do cinema em geral, pelo que não percebi que Dario elaborava um clássico intemporal. Agora vejo a quantidade de realizadores que foram influenciados por ele, inspirados pela sua estética e habilidade. Ainda me espanta, imaginar alguém como Quentin Tarantino sentado num videoclube em Brentwood, a ver Suspiria e a minha representação, vezes sem conta.”

Dario Argento recapitula: “A recordação mais forte que tenho de Suspiria, além de ser uma filmagem que decorreu de modo muito feliz e de acabarmos por passar as noites todas a beber cerveja, foi comparecer na estreia em Roma [a 1 de fevereiro de 1977]. As pessoas saíam do cinema, a correr e aos gritos. Foi um momento incrível para mim, e nunca o esquecerei.”

David Furtado

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