Samantha Fuller em entrevista: Filha de Samuel Fuller realiza documentário sobre o pai

A filha do lendário cineasta Samuel Fuller encontra-se a trabalhar num documentário intitulado A Fuller Life. Para obter o controlo criativo do projeto, optou por angariar fundos de forma independente, seguindo os passos de Sam. Samantha filmou até agora James Franco, Wim Wenders, Tim Roth, Mark Hamill, James Toback, Bill Duke e Robert Carradine, entre outros. O documentário revelará também filmes inéditos de Sam Fuller, num relato que se confunde com a História do século XX. Samantha Fuller falou em exclusivo ao Wand’rin’ Star sobre o seu trabalho, as memórias do seu pai e o modo como quer manter o legado vivo e apresentá-lo a novas gerações.

samantha fuller interview (8)

A primeira vez que “vi” Samantha Fuller foi no pequeno papel que desempenha em White Dog, a neta do racista que treinou o cão para matar negros. As desventuras desse filme, que já aqui relatei, precipitaram o exílio autoimposto de Samuel Fuller em Paris. Foi lá que Samantha cresceu; estudou na Sorbonne e, depois da morte do pai, em 1997, regressaria aos Estados Unidos, onde vive hoje.

A Fuller Life é um projeto em continuidade; Samantha pretende angariar fundos publicamente para que o centenário do seu pai seja celebrado com um documentário feito por ela, a ser lançado em 2013. É isso que descreve na página do Kickstarter. Quer que o filme seja exibido em festivais e ambiciona a maior exposição possível. Quanto mais não seja, um DVD. A filha do realizador encontra-se também a restaurar digitalmente várias bobines filmadas por Fuller, descobertas recentemente, e que retratam a História americana e também a do século XX, já que nos remetem para a Segunda Guerra Mundial ou para a golden age de Hollywood.

Foi já filmado bastante material e, à semelhança do seu pai e da sua mãe, Christa Lang-Fuller, Samantha pretende singrar no mundo do cinema com cautela, mantendo controlo criativo, apesar de saber que muito mudou, desde os tempos em que o seu pai realizava filme após filme, quase sem concessões, e obtinha grande sucesso.

Acho este projeto importante historicamente – é quase um pedaço da História do cinema em vias de concretização. Por isso, todos os apoios são poucos para um documentário que, para ela, é um presente de aniversário tardio, e que para todos os apreciadores sérios de cinema é uma inevitabilidade.

Samantha Fuller respondeu às questões que lhe coloquei acerca do projeto, sobre o seu pai e o impacto que ele teve na sua vida e no cinema. Vou publicar este trabalho em versão inglesa, pela primeira vez no Wand’rin’ Star, porque o acho importante e também porque alcançará, espero eu, outras pessoas que, conheçam ou não a obra do cineasta, se poderão interessar por este importante projeto que ainda depende de financiamento.

Existem vários documentários interessantes sobre Samuel Fuller, como The Typewriter, the Rifle & the Movie Camera ou o especial da TCM, além de extras de DVD e curtas-metragens. O que mostrará A Fuller Life aos admiradores do realizador e também às pessoas que não conhecem o seu trabalho?

O meu pai e eu, muitas vezes falámos sobre fazer algo de especial no seu 100º aniversário; era um modo de ele me dar esperança, de que estaria vivo para celebrarmos juntos.

Ele tinha 63 quando eu nasci, e sou sua filha única. Sabíamos que, presumivelmente, ele não estaria cá muitas mais décadas, e falar sobre o seu aniversário de três dígitos foi sempre uma forma apaziguadora de especular que havia a hipótese de estar vivo para este evento. Embora ele já tenha falecido há bastante tempo, sinto que a sua presença nunca desapareceu, e que devia honrar a minha palavra, planeando uma celebração do centenário. Para esta ocasião, a minha mãe e eu decidimos convidar alguns amigos para virem ler passagens da autobiografia do meu pai, A Third Face, acho que ele teria gostado de ver os seus colegas cineastas dando vida à sua história. A sua vida foi repleta de grandes relatos interligados com contextos históricos e educacionais. Ele testemunhou capítulos importantes da História americana; desde escrever em jornais sobre a época da Grande Depressão, infiltrar-se em reuniões do Ku Klux Klan até arriscar a sua vida, combatendo quatro anos na Segunda Guerra Mundial enquanto soldado de infantaria. Encontrei 100 bobinas de película em 16mm, que o meu pai filmou com a sua câmara Bell & Howell, e que nunca foram exibidos publicamente. Uma parte, cuidadosamente selecionada, foi convertida, há pouco tempo, para formato digital, e será incorporada neste filme. Esta seleção inclui as filmagens recolhidas pelo meu pai, na Segunda Guerra Mundial, em Nova Iorque nos anos 50, em Hollywood, na Golden Age, e excertos divertidos de filmes caseiros.

A obra de Samuel Fuller suportou o teste do tempo. Acha (ou espera) que o seu documentário ajudará a expor o legado do seu pai a uma nova geração de apreciadores de cinema?

A história dele coloca-nos em situações com as quais nos podemos relacionar na nossa sociedade atual. Dificuldades económicas, racismo e guerras são autênticas batalhas, sempre a ocorrer nalgum ponto do mundo. A sua perseverança, determinação e grande sentido de humor são inspiradoras para mim, e espero que também o sejam para outras pessoas.

Há mais de meio século, ele escreveu, produziu e realizou numerosos projetos cinematográficos, muitos deles baseados nas suas próprias experiências. Colecionou uma quantidade imensa de memorabilia relacionada com a sua vida. O seu escritório, um lugar que gosta de chamar “the shack”, manteve-se tal como está desde o dia em que morreu, a 30 de outubro de 1997. Mantive-o intacto por razões pessoais, é um lugar mágico, como se estivesse parado no tempo. Acho que chegou a altura de eu partilhar este grande cenário com um público que, acredito, sentirá o espírito de Sam, ao celebrar este centenário connosco. Os leitores trazem Sam de volta à vida, ao contarem as histórias dele através das palavras dele. Todos eles falam do íntimo e oferecem-nos contribuições fantásticas. Acredito que atores como James Franco, que abre as leituras, motivarão o interesse de uma geração mais jovem. Convidados como Wim Wenders, Tim Roth e Mark Hamill, entre outros, possuem os seus próprios seguidores, que irão descobrir a história do meu pai através deste tributo. Trata-se de uma peça intemporal da História americana, combinada com uma peça intemporal da História do cinema.

Na página do Kickstarter, menciona a preservação do material que o seu pai filmou. O que pretende fazer para preservar este legado?

O meu pai deixou mais de 100 bobines de material inédito, que captou com a sua câmara Bell & Howell de 16mm, ao longo de três décadas. Estou a dar o meu melhor no sentido de transferir essas bobines para qualidade digital. Algumas delas, irei usar em A Fuller Life.

Filmes como China Gate não foram editados em DVD. Tem controlo sobre estas edições? Ou a sua mãe, Christa Fuller?

Não. Mas tenho a certeza de que o DVD deste filme será editado, eventualmente.

Desempenhou um pequeno papel em White Dog, como a neta do racista. Tem recordações dessas filmagens, ou da rejeição do filme, esse episódio vergonhoso que fez com que a sua família fosse viver para Paris?

Sim, eu disse uma frase algo chocante nesse filme: “Onde está o meu cão?”, vindo da boca de uma pequena e doce menina branca, que procurava o seu cão racista e assassino… da filmagem de White Dog recordo-me basicamente de brincar com o elenco de cães brancos usados em diferentes cenas. Tinha cerca de seis anos na altura, portanto não estive envolvida no aspeto político do filme. Quando olho para trás, só posso imaginar a frustração e desapontamento do meu pai, ao ver como o filme foi ou não foi lançado adequadamente. Este filme controverso despoletou uma situação controversa, conduzindo-nos a um novo rumo nas nossas vidas. O filme só foi lançado nos Estados Unidos muitos anos depois, mas foi um sucesso em França. Ao refletir sobre isto, hoje, posso dizer que White Dog mudou a minha vida, no sentido em que, se as coisas tivessem corrido de outro modo, provavelmente não nos teríamos mudado para França.

Como foi, ser educada em França e voltar depois aos Estados Unidos?

Nasci em Los Angeles e mudei-me para Paris aos sete anos. A transição, do verde exuberante de Hollywood Hills para as historicamente ricas ruas parisienses, foi bastante drástica, e depressa me adaptei a um novo estilo de vida. Adorei a faceta social de me encontrar num ambiente mais “adensado”, interagindo com pessoas e fazendo novos amigos com facilidade. O meu passaporte continuou americano, mas o meu coração tornou-se parisiense. Passei 15 anos lá, até que surgiu o momento de uma nova mudança. Os meus pais já se tinham mudado para Los Angeles poucos anos antes, e eu tinha saudades deles. Depois da morte do meu pai, em 1997, decidi juntar-me à minha mãe na Califórnia, para que pudéssemos ficar mais próximas. Esta mudança para a América foi difícil, a readaptação demorou um pouco, mas consegui assentar num novo estilo de vida. Agora, 15 anos depois de já cá estar, adoro ambos os lugares de modo idêntico, embora, às vezes, fique com os “Paris Blues” e deseje dar um salto até ao meu bairro de infância e passar algum tempo no café da esquina…

Também desempenhou um pequeno papel em Street of No Return, filmado em Portugal (Sintra). Já que esteve no set, que memórias guarda de ver o seu pai a realizar? (Ou uma impressão de Portugal, se é que a tem? Ele escreveu que adorou a atmosfera onírica de Sintra.)

Guardo boas memórias, que prezo, desses tempos. Portugal foi, de facto, onírico, e as cenas que o meu pai criou, pareciam também saídas de um sonho. A senhora nua num cavalo de noite, e os frenéticos motins de rua, foram divertidos de observar. Gostei de ser dirigida pelo meu pai, e aprecio o facto de ele não me ter dado tratamento especial no set, exceto uma discreta piscadela de olho, de vez em quando.

Li sobre o começo de Mr. Fuller enquanto realizador; ele afirma que estava nervoso, que não sabia realizar um filme. Contudo, em I Shot Jesse James, apercebemo-nos logo de que há um realizador consumado a controlar tudo, com estilo pessoal e ideias próprias. Como é que ele concretizou isto, sem ter treino formal e prévio na realização?

Fico contente por me perguntar isso, porque assisti, há pouco tempo, a algumas filmagens do meu pai a realizar o seu primeiro filme. Estava entre as bobines recentemente descobertas e que foram digitalizadas. Se ele estava nervoso, bem, o certo é que não o demonstrou. Sorri e ri-se no set de Jesse James. Mostrarei isso em A Fuller Life.

O cinema independente parece ser um traço familiar. Está a trabalhar em A Fuller Life, seguindo a tradição do seu pai. Planeia realizar um filme seu, com um argumento escrito por si? (Além deste?)

Sim, sim e sim.

John Cassavetes, que Samuel Fuller conheceu e admirava, é considerado (e com boas razões para tal) o “pai do cinema independente”. Mas Fuller surgiu antes e foi sempre um cineasta independente trabalhando no studio system. Como conseguiu realizar filmes tão pessoais e intensos no contexto desse sistema?

Praticamente não havia barreiras criativas no caminho de Sam, embora ele tivesse de fazer concessões em certas alturas. Julgo que isso se deve à grande proximidade que tinha com os seus personagens – foi assim capaz de persuadir os chefes dos estúdios a aceitar essas personagens, se o queriam aceitar a ele.

Acho isto um paradoxo: Quando o studio system entrou em colapso, a meio dos anos 60, foi difícil para Samuel Fuller encontrar produtores. Só em 1969, com Caine (Shark!), conseguiu regressar à realização. Ele culpou The Naked Kiss por este lapso, mas não conseguiu compreender muito bem por que motivo as pessoas deixaram de lhe bater à porta. Acha que houve outros fatores envolvidos?

Ocorre-me uma resposta complexa e bastante longa. Gostaria de falar a fundo sobre isso noutra altura.

O seu pai afirmou que os grandes orçamentos iriam arruinar o negócio do cinema. A indústria produz agora remake após remake, e filmes de grande orçamento sem grande conteúdo. (Excetuando alguns casos e o cinema independente.) Como encara o negócio do cinema nos dias de hoje?

Creio que a mudança se deve ao modo como as pessoas assistem aos filmes, hoje em dia. Menos pessoas se deslocam ao cinema, porque, acima de tudo, é um investimento considerável, ir à noite ao cinema, quando se tem um rendimento familiar médio, especialmente com a economia atual; e, em segundo lugar, muitos destes frequentadores de cinema com rendimento médio, obtiveram televisores de grande ecrã para verem os filmes em casa. O processo que conduz um filme de baixo orçamento a ser lançado com sucesso é nebuloso para mim, já que não tenho muita experiência nesse domínio. Parece que, até muitos filmes de grande orçamento não conquistam o lucro previsto. Estamos a meio de uma transição. Quanto ao facto de os remakes de grande orçamento não terem grande assunto, acho que eles existirão sempre, e, pessoalmente, nem sempre me desagradam, desde que eu saiba que os criadores do original não foram prejudicados em demasia. O meu pai e eu podemos discordar neste tópico.

Algumas pessoas ainda veem o seu pai como realizador de filmes série B, já que muitas vezes trabalhou com baixos orçamentos. São coisas diferentes. Não acha isto um preconceito?

Faço minhas as palavras do meu pai: “Gosto de fazer filmes série A com um orçamento série B.”

Shark! foi cortado pelos produtores, e o DVD é bastante mau. Achei-o um filme com potencial, mas estragado por isto. Há hipótese de restaurar a versão original de Mr. Fuller?

Que eu saiba, não.

O seu pai escreveu que queria que “a sua menina se orgulhasse dele”. Obviamente, está orgulhosa. Qual foi a lição mais importante que ele lhe ensinou?

“Mantém-te doce como és, não deixes que o mundo te mude.” Uma citação de uma canção do seu amigo Nat King Cole.

De certeza que assistiu aos filmes do seu pai. Quais prefere, e do que gosta mais acerca do trabalho dele?

Adoro o trabalho dele no seu todo. E também adoro a forma como ele se projeta nas personagens, sejam partes dele próprio ou pessoas que o marcaram. Os seus diálogos são sempre francos, ele não gostava de rodeios… e desprezava aquilo a que chamava “língua-de-trapos”.

A Fuller Life possui uma lista impressionante de convidados. Pode revelar mais alguns nomes, além dos que já estão confirmados?

Vou-lhe dizer quem filmámos até agora, e que partes da vida de Sam eles leem.
James Franco lê sobre os primeiros dias de Sam, nos anos 20, nas ruas de Nova Iorque, trabalhando como copyboy.

Bill Duke lê sobre os tempos em que Sam era repórter freelancer, nos anos 30, atravessando os Estados Unidos durante os dias da Depressão.

James Toback lê sobre o primeiro encontro de Sam com Hollywood e a escrita de argumentos.

Há uma grande reunião do elenco de The Big Red One, com Kelly Ward, Perry Lang, Robert Carradine e Mark Hamill, lendo sobre o alistamento de Sam na infantaria americana, a unidade Big Red One, e as suas primeiras experiências em combate.

Tim Roth lê sobre as praias sangrentas no Dia D.

Wim Wenders lê a passagem sobre o duplo encontro de Sam com Marlene Dietrich.

Monte Hellman descreve os horrores dos campos de concentração nazis.

Buck Henry lê sobre o reaparecimento de Sam em Hollywood depois de combater quatro anos na Segunda Guerra Mundial.

E mais se seguirão…

David Furtado

Agradeço a Samantha e Christa Fuller.

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