Pink Floyd – The Dark Side of the Moon: Em sintonia com a Terra

Todos os dias, a cada momento, este álbum toca algures no Planeta. É o que dizem as estatísticas acerca de uma das obras-primas da História do rock. Segue-se a conceção e análise, tema a tema, de um disco que entrou na órbita da Terra há 42 anos.

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Já muito foi escrito e revelado. Tentarei evitar redundâncias. Tudo começou na cozinha de Nick Mason… durante esta reunião dos Pink Floyd em casa do baterista, surgiu a ideia de interligar canções sobre as pressões diárias a que todos estamos sujeitos. O ciclo de temas foi interpretado ao vivo, a 17 de fevereiro de 1972 no Rainbow Theatre, em Londres, com o título, «A Piece for Assorted Lunatics», concerto que ficou marcado por uma falha de energia durante «Money», mas cujo impacto dramático não escapou aos críticos.

pink floyd dark side of the moon (22)De certa forma, o tema encontrou o grupo, e não o inverso. É uma hipnótica evocação da alienação, da paranoia, da loucura e da morte. Roger Waters não se retraiu perante estes temas, nas letras; sabia que eram intemporais, mas talvez não adivinhasse a longevidade do álbum. O compositor diria:

“Achámos que conseguiríamos fazer uma coisa inteira sobre as pressões que todos sentíamos e que podem levar uma pessoa ao limite das suas forças. A pressão de ganhar muito dinheiro, o tempo que voa tão rápido, as estruturas de poder organizadas como a Igreja ou a política, a violência, a agressão…”

Roger passou noites a listar as pressões, num brainstorming com Nick Mason, até se decidir a sentar-se com papel e lápis para escrever “the fucking words”. David Gilmour acrescenta que “Roger tentou realmente que as suas letras fossem diretas e simples, facilmente assimiláveis e compreensíveis. Em parte, porque as pessoas tinham interpretado mal outros temas nossos”.

“Penso que todos os nossos álbuns anteriores foram um passo em direção a The Dark Side of the Moon”, comentou Richard Wright. “Estávamos sempre a aprender, tanto em técnicas de gravação como na composição, o que ia melhorando.”

Wright, Gilmour e Mason.
Wright, Gilmour e Mason.

O disco foi a apoteose de um período experimental de cinco anos. Para o anterior manager dos Floyd, Peter Jenner, “Dark Side é um dos grandes discos de rock. Embora fosse, em grande medida, sobre Syd Barrett, foi o trabalho em que conseguiram fugir de Syd”.

O título «The Dark Side of the Moon», uma referência ao subconsciente, foi bastante ponderado, já que os Medicine Head tinham lançado um álbum com o mesmo nome no princípio de 1971. Os Floyd alteraram o título para «Eclipse», mas retomaram a denominação original, visto que o álbum dos Medicine Head foi um flop. Pouco antes do seu lançamento, em março de 1973, o grupo continuava indeciso. As primeiras cópias exibiam apenas o título «The Dark Side…»

pink floyd dark side of the moon (8)Pela primeira vez, as letras foram todas escritas por Roger Waters, e a sua importância (e genialidade) levou a que, também pela primeira vez, fossem impressas na capa de um álbum dos Pink Floyd. As gravações decorreram durante 1972, nos estúdios londrinos de Abbey Road, utilizando o, então novo e aliciante, equipamento de 24 faixas, ou canais. O engenheiro de som Alan Parsons recebeu 35 libras por semana; trabalharia nos concertos do grupo e recebeu um Emmy por Dark Side. Segundo alguns críticos, construiria uma carreira a solo, apenas baseado nas paisagens sonoras que elaborou para os Floyd, o que não agradou nada a David Gilmour.

A tensão entre Waters e Gilmour já existia, nestes tempos. Culminaria no fim da década de 70, quando gravavam The Wall em Los Angeles e quase se agrediram fisicamente, durante uma discussão acesa num restaurante. Neste caso, o árbitro entre ambos foi o produtor Chris Thomas, que procurou equilibrar as opiniões díspares durante a mistura do álbum. Aliás, esta mistura ficou famosa, já que não há quebra entre os temas (excetuando a pausa antes de «Money»), deixando todo o álbum fluir de modo natural.

Este fator coincidiu com uma época em que as rádios começaram a difundir álbuns inteiros e não só temas isolados, pelo que as interligações entre os temas de Dark Side foram outro trunfo e motivação para o divulgarem como se fosse uma só música, sem lapsos ou quebras.

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Os Floyd nem conseguiam acreditar no sucesso do álbum.

The Dark Side of the Moon não só atingiu o número 1 do top britânico e o número 1 nos EUA, bateu recordes: Manter-se-ia no top 200 dos Estados Unidos durante mais de 800 semanas, o equivalente a mais de 15 anos. Estima-se que tenha vendido 50 milhões de cópias e que, num em cada cinco lares britânicos, exista uma cópia do álbum. Em maio de 1991, reentrou subitamente no top da Billboard e venderia 7,7 milhões de cópias nos EUA desde essa data até 2006, segundo um artigo do The Wall Street Journal (publicado em 2006). Ao contrário de álbuns anteriores do grupo, Dark Side recusava-se a sair do top.

A formação Waters, Gilmour, Wright e Mason tocou-o ao vivo 385 vezes, a última das quais no Festival de Knebworth, em 1975. Após uma pausa de quase 20 anos, o ciclo de canções foi retomado por inteiro, sem Waters, na digressão The Division Bell, em 1994.

RIchard Wright e David Gilmour no estúdio.
Richard Wright e David Gilmour no estúdio.

ELETROCARDIOGRAMA DA VIDA

A famosíssima capa foi também um triunfo de simplicidade e uma escolha rápida: Três segundos bastaram… Concebida pelos Hipgnosis, foi desenhada por George Hardie. De acordo com Storm Thorgerson, foram executados sete trabalhos com variantes, a banda foi convocada, olhou para os designs e disse em uníssono: “Aquela.” E saíram da sala. Thorgerson implica Richard Wright nisto, já que o teclista pedira “algo simples, clínico e preciso, mas que também aludisse aos efeitos de luz dos Pink Floyd ao vivo”.

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Note-se que a capa possui dois erros deliberados; o espectro não inclui púrpura, para simplificar. A contracapa mostra o prisma a produzir um espectro convergente – algo fisicamente impossível, mas necessário para permitir que as capas abertas fossem dispostas em sequência, formando um design contínuo e geométrico, útil para a promoção e exibição do álbum nas lojas. Relaciona-se também com o batimento cardíaco que começa e termina o álbum.

As cópias em vinil incluíam dois autocolantes e dois posters. Um deles é uma imagem dos quatro Floyd, o outro é uma visão noturna das pirâmides de Gizé. A edição em CD foi bastante criticada devido à alteração do artwork, mas, recentemente, foi editada a versão “Immersion” que retoma a imagem original, além de incluir preciosos extras.

Nick Griffiths, que seria, anos depois, engenheiro de som dos Pink Floyd, fez um comentário, quanto a mim, certeiro: “Dave fez com que as pessoas gostassem, e Roger pô-las a pensar. Esta combinação resultou muito bem.”

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DARK SIDE: TEMA POR TEMA

Speak to Me: Esta colagem de sons, que incorpora vozes, o batimento do coração, caixas registadoras, tiquetaques e a gargalhada demencial do road manager Roger the Hat (de uma banda rival), é um prenúncio do que se seguirá. O road manager foi também o autor da famosa frase, “I’ve been mad for fucking years, absolutely years, I’ve been over the edge for yonks…” Roger Waters alegou posteriormente que este crédito foi um presente para Nick Mason, já que o baterista tinha apenas sido mencionado anteriormente, enquanto compositor, em Ummagumma. “Sei que sou louco, sempre fui louco, como a maioria de nós. Não se pode explicar por que se é louco. Mesmo que não se seja louco…” Tudo culmina num grito de quem já não aguenta, e desagua na suavidade aparentemente lânguida de «Breathe».

Estas frases proveem de uma sessão em que Waters erguia cartões com perguntas do estilo, “qual foi a última vez que bateste em alguém?” ou “o que pensas sobre a morte?” Uma das contribuições veio de Paul McCartney, sendo descartada, pois o músico expressou-se de modo cauteloso e filosófico, sem a espontaneidade dos outros participantes.

pink floyd dark side of the moon (14)Breathe (in the air):

Em todo o álbum, Waters apropriou-se finalmente do grupo, usando-o como megafone, um veículo para a sua visão do mundo – mistura de cinismo e raiva contra o sistema, contrapondo-os a uma defesa inabalável dos valores humanos, para que as pessoas comuns se apercebam do potencial das suas vidas e não se desliguem da realidade. É este o tema subjacente a «Breathe». “Respirem, não tenham medo de gostar.”

On the Run: Da autoria de Gilmour e Waters, esta peça foi criada essencialmente com um sintetizador VCS3 e pretende, através de efeitos sonoros, passos frenéticos e o anúncio de um voo iminente, criar uma sensação de paranoia. Ao vivo, antes do lançamento do disco, era composta por um solo de guitarra e teclado, mais audível (passe a expressão). Num bootleg, ouvi esta primeira versão, e o tema não é desinteressante. Ao longo do concerto, Gilmour sofre de uma rouquidão terminal, mas a sua guitarra é um assalto aos sentidos, na fronteira do feedback e, às vezes, ultrapassando-a. Li algures que, na secção funky de «Echoes» carrega com os pés no eco e no Big Muff em simultâneo, e o mesmo sistema parece usado aqui. Aliás, Gilmour (salvo raras exceções) sempre preferiu os seus velhos pedais de efeitos à prova de bala, e nunca foi fã das pedaleiras modernas com mil efeitos digitais incorporados, que a maioria dos guitarristas usa hoje, achando que tais sons não têm qualquer personalidade.

Um exemplo de como as vozes de Gilmour e Wright se harmonizavam. Das sessões de Meddle (1971):

Time: Uma cacofonia de relógios abre um dos temas mais famosos dos Pink Floyd. Um parêntesis: A proeminência dos vocais e da guitarra de David Gilmour, neste álbum fulcral, ajudá-lo-iam na ressurreição dos Floyd, em 1986. Foi aqui que o guitarrista, de longe o melhor vocalista do grupo, começou a cantar temas que não eram da sua autoria. Os efeitos sonoros derivam de uma faixa de teste em som quadrifónico, gravada por Alan Parsons para a EMI, com o objetivo de testar equipamentos hi-fi.

pink floyd dark side of the moon (23)A letra denota a preocupação com o envelhecimento, por parte de Waters, e foi escrita quando este tinha apenas 28 anos, numa fase em que temia que a vida lhe passasse ao lado. Wright canta em duas partes, sozinho e em harmonia com Gilmour; duas vozes que soavam bastante bem.

A frase “hanging on in quiet desperation is the English way” tornou-se uma das mais famosas do disco, sendo inspirada por uma passagem de Walden, trabalho autobiográfico de Henry David Thoreau: “The mass of men lead lives of quiet desperation.” E depois temos o solo de Gilmour.

O guitarrista já demonstrara a rápida evolução do seu estilo na maratona de «Echoes» ou em «Stay», mas é neste álbum que sobressai e encontra o seu lugar no som dos Pink Floyd, esculpido por si mesmo e por Wright, o que provocava atritos com Waters, mais preocupado com as letras. O apropriadamente intemporal solo de «Time» parece bombardear os sentidos, sendo simultaneamente melódico e com fuzz proveniente do pedal Big Muff de David, com eco e delay. O portentoso tema, cuja autoria é atribuída aos quatro músicos, flui naturalmente até… «Breathe Reprise», que não é listado em separado. “O dobrar do sino de metal chama os fiéis para se ajoelharem e ouvirem os feitiços mágicos suavemente pronunciados.” E surge o piano…

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The Great Gig in the Sky: Quando não estava a ser oprimido por Waters, situação que se intensificaria ao longo dos anos, Richard Wright era capaz de compor temas belíssimos como este, que evoca, de modo sedutor, a morte.

Quando se decidiu que o tema precisava de mais um elemento, além do subtil pedal steel ou lap steel de Gilmour, Clare Torry foi chamada ao estúdio. Disseram-lhe que não havia letra e que podia improvisar. A cantora gravou diversos takes, houve quem lhe chamasse gritos de orgasmo, e muitos consideram que devia ter recebido um crédito na composição. Wright confessou-se “arrepiado” com a performance de Torry. Foi paga com apenas 30 libras. Mais tarde, a cantora de gospel embolsaria uma fortuna, quando o tema foi usado para um spot publicitário dos analgésicos Neurofen (!), recriando a sua performance com músicos de estúdio.

«The Great Gig in the Sky» era referido, nos concertos ao vivo, pré-lançamento, como «The Mortality Sequence». No álbum, encerrava o lado A. Em CD, há um “cross fade” que o une ao tema seguinte.

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Money: Os efeitos sonoros das moedas, para se ajustarem ao invulgar ritmo de 7/8, foram aplicados ao marcar a fita original, cortando-a no chão do estúdio, e remontando-a, para que as moedas e caixas registadoras não falhassem um compasso. Este procedimento moroso poderia hoje ser executado em minutos, com um sampler e um sequenciador, o que mostra também como os Floyd estavam adiantados em relação à sua época, ambicionando efeitos para os quais não existia equipamento adequado. A referência de Waters aos jatos Lear acaba por ser irónica, visto que, anos mais tarde, Mason e Gilmour tiraram o brevet, e o guitarrista fundou uma companhia para promover a sua coleção de aviões clássicos.pink floyd dark side of the moon (5)O sucesso de «Money» acabou por ser também um caso de “o feitiço vira-se contra o feiticeiro”, visto que foi lançado em single, tornando-se, porventura, na canção mais conhecida de Dark Side e projetando a banda para o estrelato, cujas pressões quase a desagregaram. É o tema mais tocado na História dos Pink Floyd – pela banda, como encore na tournée de Animals e nas digressões a solo de Gilmour e Waters.

O solo de Gilmour, dividido em três secções, é outro clássico do guitarrista, que utilizou uma Fender Stratocaster, para as duas primeiras, e uma Guitarra Lewis (feita especialmente para ele por Bill Lewis) na terceira. O instrumento possui 24 trastos, mais três do que uma Stratocaster, o que perfaz duas oitavas e permite a Gilmour reproduzir os sons mais agudos do terceiro solo. É possível tocá-lo numa Stratocaster (falo por experiência própria), embora seja mesmo no limite da escala e tecnicamente pouco confortável.

Us and Them: Waters partilha a autoria com Richard Wright. A música foi originalmente gravada com Wright ao piano para a banda sonora de Zabriskie Point de Michelangelo Antonioni, e intitulada «The Violent Sequence». Tinha 21 minutos de duração. Ao vivo, Waters era o vocalista, mas Gilmour assumiu a tarefa em estúdio, com o auxílio de Wright. O saxofone de Dick Parry é mais sereno do que os tons ríspidos de «Money».

A nível temático, Rogers Waters questiona a identidade pessoal de acordo com a identidade social, ou a hierarquia de cada indivíduo. Criticando o desprezo com que os ricos tratam os pobres, utiliza imagens de soldados e generais, concluindo que “afinal, somos todos homens comuns”.

Any Colour You Like: Este instrumental com solos de sintetizador e guitarra é o único tema, em toda a obra dos Pink Floyd, composto pelos outros três, ou seja, sem Waters, quando este ainda integrava o grupo. O título é retirado de um anúncio ao Ford Modelo T, que oferecia aos compradores a escolha de “qualquer cor” que desejassem, “desde que fosse negro”.

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Brain Damage: Composto e cantado por Roger. Finalmente, surge a frase “the dark side of the moon”. A letra, “the lunatic is on the grass” foi retirada de outra canção de Waters, composta durante as sessões de Meddle, em 1971, mas nunca gravada, ironicamente intitulada, “The Dark Side of the Moon”.

Apesar de Waters ter, por vezes, alegado o contrário, é notório o fantasma de Syd Barrett a pairar sobre este tema. No íntimo, sofrendo as pressões do negócio da música, Waters temia ficar no mesmo estado incomunicável de Syd.

Eclipse: Uma das canções/lista de Waters, técnica que o músico empregaria com algum facilitismo nos álbuns subsequentes dos Floyd e também na sua carreira a solo. Inicialmente, era um instrumental, até que o grupo percebeu que o álbum conceptual precisava de uma conclusão fundamentada, pessimista por sinal: “Tudo debaixo do Sol está em harmonia, mas o Sol é eclipsado pela Lua.”

pink floyd dark side of the moon (6)O porteiro dos estúdios Abbey Road, Jerry Driscoll, fecha o ciclo com a frase, “não há nenhum lado escuro da Lua. Na verdade, ela é toda escura”. No CD remasterizado, com o som no máximo, consegue-se ouvir algo semelhante a uma orquestra a tocar «Ticket to Ride» dos Beatles, depois da frase de Driscoll. Falou-se de uma interferência durante a fase de masterização, e foi também dito que seria uma piada dos Floyd, especulações sem resposta. Há também a teoria de que, se assistirmos ao filme O Feiticeiro de Oz (1939) em simultâneo com o disco, certas cenas-chave acompanham idênticos momentos no álbum. Isto foi negado veementemente pelos Pink Floyd, que disseram tratar-se de coincidência.

Richard Wright afirmaria que, quando se sentaram todos para ouvir o produto final, pensou, “isto vai ser uma coisa em grande”. “É um álbum excelente. Mas não sei por que continua a vender. Tocou nalgum nervo, na época. Parecia que estava tudo à espera deste álbum, por alguém que o fizesse.”

David Furtado

(E, enquanto leu este artigo, o álbum já passou algures na Terra. Tempus fugit…)

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One Comment Add yours

  1. neto onofre diz:

    in love pink floyd

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