Samuel Fuller: Um final série B, até sempre

A Cinemateca Americana homenageou o realizador com a exibição de seis obras suas. “A verdade vem ao de cima, no final, e agora vemos que o seu impacto, influência e inspiração foram espantosamente profundos”, disse Jim Jarmusch, um dos muitos realizadores que hoje lhe prestam tributo. Em 1996, pouco antes da sua morte, Sam foi distinguido na cerimónia dos Independent Spirit Awards, recebendo um prémio especial pela sua vasta contribuição para o cinema.

Jim Jarmusch e Samuel Fuller (5)

(Continuação de «Centenário Samuel Fuller: De realizador a outsider (1959-64)».)

Acho que ele nunca me ensinou nada em concreto sobre realização, mas só ao conviver com ele… ele era um oceano de experiência. Tenho saudades de Sam Fuller… por que já não lhe podemos telefonar para conversarmos com ele? Não está certo, não está certo…

Jim Jarmusch

Em Paris, Sam encontra, por acaso, Luc Moullet que escrevia para a Cahiers du Cinema. Fuller dá-lhe os parabéns pela revista e, por intermédio de Moullet, encontra-se com Jean-Luc Godard, que se preparava para filmar Pierrot le fou. “Eu gostei do tipo, mas não foi por ele me ter dito que os meus filmes o tinham influenciado. Ri-me disso. Deixemo-nos de coisas, Godard roubara-me uma série de ideias de Pickup on South Street e Underworld U.S.A., que usou nos seus primeiros filmes. Não me importo, mas chamemos as coisas pelos nomes.”

Godard convida Sam para uma participação em Pierrot le fou (Pedro o Louco). Jean-Paul Belmondo vira-se para Fuller e pergunta: “O que é o cinema?” “Não foi ensaiado e não sei se era o que se pretendia, por isso, fiz de mim próprio. ‘Um filme é como um campo de batalha. Amor. Ódio. Ação. Violência. Numa palavra, emoção.’ Um take e acabou-se. Godard adorou e, acreditem, estaria rico se tivesse ganho cinco cêntimos por cada vez que cada revista de cinema e programa de festival, em todo o mundo, imprimiu essa maldita frase!”

Fuller podia ser persona non grata nos EUA, mas, em Paris, foi bem acolhido; o fundador da Cinemateca Francesa, Henri Langlois organizou uma homenagem ao americano, onde Sam também conheceu François Truffaut, que disse identificar-se com as crianças nos filmes de Fuller. Tornar-se-iam amigos. “Truffaut era uma pessoa adorável”, segundo Sam.

Vivendo agora num apartamento donde avistava o topo da Catedral de Sacré Coeur, Sam sentia-se motivado. Uma rapariga que conhecera na homenagem apresenta-o a Christa Lang, uma atriz alemã em começo de carreira, que já entrara em obras de Roger Vadim, Claude Chabrol ou Godard. A química entre ambos foi imediata, e Christa seria a companheira do realizador durante os 30 anos seguintes, até à sua morte. O projeto em que Sam trabalhava não avançou, e o realizador regressa aos EUA, em janeiro de 1966, descobrindo que a sua carreira descarrilara totalmente. Não tinha grandes hipóteses de trabalhar na América.

Samuel Fuller e Christa Lang revisitando Omaha Beach.
Samuel Fuller e Christa Lang revisitando Omaha Beach.

Passados alguns meses, Christa Lang juntou-se a Sam, na Califórnia. Fuller recapitula as três décadas que viveu com a atriz: “Confesso que era difícil alguém estar casado comigo. Mas, de algum modo, fizemos com que funcionasse, num esforço conjunto. Eu fazia-a rir com as minhas histórias e otimismo. Trabalhei arduamente para satisfazer os seus sonhos de constituir família e obter uma educação superior. Christa foi a minha leal, astuta e realista ‘Sancho Pança’; sem a sua compreensão e apoio, a minha louca cruzada por fazer filmes poderosos teria terminado há muito, afundada num monte de frustração, vodka, contas bancárias a zero e histórias na gaveta.”

Passaram cinco anos, e Sam não realizou um filme. Ansioso por retomar a atividade, aceitou um trabalho no México, acerca de um traficante de armas no Sudão, que se alia a um misterioso casal para procurar um tesouro no Mar Vermelho.

“Eu devia ter ido ao médico, para que me examinassem a cabeça, antes de me envolver com aqueles produtores. Como todas as descidas aos Infernos, começou gloriosamente”, ironiza Sam.

Cinco anos antes de O Tubarão de Spielberg, o filme incorporava várias cenas subaquáticas e ataques de tubarões. Baseando-se num romance obscuro, Fuller escreveu um argumento ao qual chamou Caine. Contratou Silvia Pinal, por admirar o seu desempenho em Viridiana (1961) de Luis Buñuel. Burt Reynolds fora já contratado pela produção.

Buñuel soube que Fuller estava no México e convidou-o para jantar em sua casa. Tinham bastante em comum. O cineasta espanhol confessou-se admirador da obra de Sam e elogiou Shock Corridor. Christa adorou a experiência, já que era grande fã de Buñuel.

Buñuel e Fuller.
Buñuel e Fuller. (Foto de Christa Fuller.)

A rodagem foi caótica devido à incompetência da equipa. Ainda por cima, Fuller fez um comentário inconsequente a Burt Reynolds, que este levou a sério. “A mulher abandonara-o, e eu tentei animá-lo, dizendo-lhe que ela devia ter ido à procura de um tipo mais inteligente e talentoso. Burt ficou de lágrimas nos olhos e disse que não trabalhava mais.” A insensibilidade de Sam foi reparada por Christa, que teve uma conversa com Reynolds. De acordo com o realizador, esta fragilidade não transpareceu no seu desempenho: “Burt empenhou-se e trabalhou arduamente.”

Meses depois, os produtores convidam Fuller para um visionamento de Caine, agora rebatizado de Man-Eater. Sam convidou Peter Bogdanovich, que era então crítico da Esquire, e sofreu um choque. A película tinha sido retalhada e remontada.

Quando a projeção terminou, Fuller perdeu a cabeça: Disse aos produtores que raramente tinha sido tão desrespeitado. “Se Peter não me impedisse, provavelmente teria estrangulado os filhos da mãe!” Chegou a pedir à Directors Guild of America que removesse o seu nome do filme.

O que dizer de Shark!, como foi intitulado, por fim? Nota-se que foi manipulado por amadores, que lhe alteraram o ritmo, enchendo-o de cortes abruptos, tornando-o num filme série Z. É lamentável, pois Shark!, além de sólidas representações, possui um enredo interessante, cenas subaquáticas empolgantes e elementos fullerianos. O DVD é pan & scan, um trabalho desleixado que lembra um mau VHS. Shark! é um candidato a restauro, se é que o material original sobreviveu ao tempo.

“TODOS OS ARTISTAS SÃO ANARQUISTAS”

Durante esta fase, Sam Fuller fez uma audição para um papel em O Padrinho II, um papel que foi entregue a Lee Strasberg. (Com Al Pacino, de costas.)
Durante esta fase, Sam Fuller fez uma audição para um papel em O Padrinho II, um papel que foi entregue a Lee Strasberg. (Com Al Pacino, de costas.)

Fuller mudou-se para uma nova casa, nas Hollywood Hills, a qual apelidou the Shack. Alguns dos seus vizinhos seriam John Cassavetes, Gena Rowlands e Quentin Tarantino. Converteu a garagem em escritório, continuando a trabalhar em guiões que não passaram do papel. Um documentarista alemão visitou o realizador e ficou tão agradecido com a cooperação de Sam que o convidou a realizar um filme em Colónia, e foi assim que Fuller concebeu Dead Pigeon on Beethoven Street (1972) para a TV alemã.

A obra é protagonizada pela companheira, Christa, e Glenn Corbett, que se estreara em The Crimson Kimono. O argumento de Fuller baseava-se no Caso Profumo, o grande escândalo, envolvendo chantagem a políticos e call girls. O realizador encarou o projeto como uma comédia descomprometida. Durante a estadia na Alemanha, recebeu o telefonema de um fã, Rainer Werner Fassbinder, que Fuller considerava “um visionário determinado em mostrar a verdade no ecrã”.

Durante uma cena, Glenn Corbett entra bum cinema onde exibem Rio Bravo dobrado em alemão. Espantado ao ver John Wayne falar alemão, Corbett teve um ataque de riso tão espontâneo que a cena foi mantida. O operador de câmara era Jerzy Lipman, que trabalhara com Roman Polanski.

Lipman nunca questionava Fuller, e este, desconfiado, perguntou-lhe porquê. O técnico revelou que Polanski lhe ordenara a dizer “sim” a tudo o que Fuller pretendesse. A equipa chamava-lhe “Herr Direktor” ou “Mister Fuller”, e ficou chocada quando o cineasta disse, “chamem-me apenas Sam”, o que equivalia a desrespeito para os técnicos alemães.

Uma outra cena foi rodada em Bona, no Museu Beethoven, onde, muitos anos antes, Fuller pernoitara, durante a Guerra. O diretor impediu a entrada, mas Sam perguntou-lhe por que tinham movido o piano para outro sítio. Acabou por contar a história ao intrigado diretor, de como dormira lá, de como Beethovenstrasse foi um paraíso para as tropas americanas. Comovido, o diretor permitiu o uso da Casa-Museu.

Rodeado de fãs.
Rodeado de fãs.

Quando foi exibido, Tote Taube in der Beethovenstraße, foi um sucesso junto do público alemão. Acabou por ser lançado internacionalmente, e o seu humor foi bem acolhido na Grã-Bretanha. Foi ainda selecionado para o Festival de Cannes, com a maioria da imprensa francesa a apelidá-lo de “anarquista”.

“Céus, as pessoas sempre me tentaram rotular politicamente. Primeiro, era de direita, depois, de esquerda. Agora, estava fora do radar. Odeio todos esses rótulos e os preguiçosos jornalistas que nos tentam colá-los. Os críticos e comentadores projetam constantemente as suas fantasias em todos os artistas que concebem algo de original. Todos os artistas são anarquistas, ok? Queremos agitar o público, questionar o aceitável, despoletar terramotos no cérebro. De outro modo, porque não procurar um emprego seguro e de salário regular, como bancário?”

Fuller não considerava Dead Pigeon um dos seus filmes mais conseguidos. Concordo. Christa Lang não é má atriz, mas não esconde a insegurança nalgumas cenas. O enredo tem alguma graça, mas é rebuscado e não se enquadra no restante legado de Sam Fuller. O realizador continuou a escrever argumentos e romances e a ser convidado para homenagens e tributos em todo o mundo. Os jovens realizadores independentes demonstram a sua apreciação, convidando-o para desempenhar pequenos papéis nas suas obras, como sucedeu com Dennis Hopper em The Last Movie, em 1971. Outro admirador era Wim Wenders, “um talentoso realizador”, de quem Sam Fuller se tornou amigo e com quem tinha longas conversas sobre cinema. Outro cineasta a desempenhar um papel em O Amigo Americano era Nicholas Ray, com quem Sam reestabeleceu o contacto. “Era um realizador dos diabos, um leão.”

O CONCRETIZAR DE DOIS SONHOS

Em 1973, Sam Fuller escreve o argumento de The Klansman (O Homem do Klan), mas este é deturpado. Um dos protagonistas, Lee Marvin, detestou as alterações, mas assinara contrato, caso contrário teria abandonado o trabalho. O ator convidou Christa para a estreia. A companheira de Fuller não acreditou no modo como tinham distorcido o argumento. No final, Lee nem comentou. Pousou gentilmente a mão na barriga de Christa, que se encontrava nos últimos meses de gravidez, e disse: “Pensemos em futuros projetos.”

Com Lee Marvin na rodagem de The Big Red One.
Com Lee Marvin na rodagem de The Big Red One.

Por acaso, Fuller encontrou Lee Marvin na sua loja de charutos favorita. “Sammy”, disse Lee, “quando é que fazemos The Big Red One?” O ator conhecia a história do projeto ambicioso que Sam lutara por realizar durante tantos anos. “Serás o meu Sargento!”, ripostou Sam.

Na vida de Sam Fuller, nem tudo era cinema. Em janeiro de 1975, nasce Samantha. “Foi um dos dias mais gloriosos da minha vida. Aos 63, tornara-me pai. Nunca me sentira tão ambicioso ou enérgico. Nada nem ninguém me podia rebaixar novamente. No fim de contas, queria que a minha filha se orgulhasse do pai.”

Peter Bogdanovich insistiu com a Paramount para que o acordo se concretizasse em relação a The Big Red One (O Sargento da Força Um). Fuller recusara realizar Patton e O Dia Mais Longo, e expôs logo aos estúdios que cada fotograma do seu filme seria baseado em experiência pessoal. Um relógio de pulso num braço cortado, imagem que nunca esquecera de Omaha Beach, era apenas um dos muitos detalhes. Os seus quatro soldados e o sargento teriam uma dimensão alegórica.

“Eram símbolos de sobrevivência. O seu incansável avanço era uma estranha dança de morte, absurda e incompreensível.”

Sam queria que a obra terminasse com esperança, apesar dos horrores.

Ao escrever o argumento, o realizador começou a sofrer de pesadelos terríveis, gritando a meio da noite; experiências dolorosas, retidas no subconsciente, vieram à tona. Uma das preocupações principais do produtor Gene Corman (irmão de Roger Corman) era a reputação de Lee Marvin, que bebia em excesso. Corman sugeriu Steve McQueen, e o ator interessou-se, mas Sam Fuller só visualizava Lee como o seu Sargento. Christa sugeriu Mark Hamill como ‘Griff’. O jovem ator vacilou, mas aceitou, depois do forte incentivo de George Lucas.

Sam enviou o guião a Lee Marvin. Na manhã seguinte, o telefone tocou: “Sammy, fala o teu Sargento!”

Lee Marvin
Lee Marvin “carregou o filme aos ombros”.

“É certo que Lee se embebedou algumas vezes, mas, com os diabos, ele carregava o filme aos ombros! Estes episódios nunca interferiram com o nosso horário. Era um sonho tornado realidade, filmar com um ator como Lee Marvin. Pouco dizíamos, antes de cada cena. Ele entrava sempre no personagem. Muitas vezes, um olhar, um aceno de cabeça ou um sorriso, eram as únicas indicações que eu lhe dava. Raramente estive em tamanha sintonia com um ator.”

Todos reconheceram o quanto significava para Sam Fuller realizar o filme, e todos se empenharam a fundo. A primeira versão durava quatro horas e meia. A Lorimar achou comercialmente inviável e cortou-o para 1h53m, o que foi doloroso para Fuller. Ainda que truncado, foi exibido em Cannes. Os críticos chamaram-lhe um dos melhores filmes de guerra de sempre. A Time, a Newsweek, o Wall Street Journal aplaudiram-no com entusiasmo. “Um crítico francês comparou o meu trabalho ao de Apollinaire, por amor de Deus!”

O coração e alma de Sam Fuller estavam neste filme, e sentia alguma tristeza por ter sido cortado, esperando que um dia a sua versão fosse exibida. Faleceu em 1997. Em 2004, a versão restaurada é exibida em Cannes.

O REGRESSO A UMA PRAIA

Temos três faces. A nossa primeira face é aquela com que nascemos, a que vemos ao espelho de manhã. A segunda face é desenvolvida graças ao ego, criatividade e sensibilidade. A que as pessoas identificam como ‘tu’, rindo-se de piadas, desanimado quando as coisas não correm bem, encantador quando a sedução faz parte do plano. Depois, há a terceira face. Ninguém vê essa. Não surge no espelho e não é visível por pais, amantes ou amigos. É a face que apenas tu conheces. É o teu ‘eu’ verdadeiro. Atenta aos teus medos mais profundos, esperanças e desejos, a tua terceira face não te mente, e não lhe podes mentir. Chamo-lhe a amante da minha mente, guardiã das minhas utopias secretas, amargas desilusões e nobres visões.

samuel fuller final serie b (1)Esta filosofia ajudava nos piores momentos, mas, ao triunfo agridoce de The Big Red One, seguiu-se um momento vergonhoso para a Paramount. Sam realiza White Dog (O Cão Branco), sendo o produto final cancelado pelo estúdio. (Episódio relatado aqui.) À semelhança de outros realizadores, Fuller refugia-se na Europa, em Paris.

Em 1984, propõem-lhe a realização de Thieves After Dark, história de um jovem casal francês, desempregado e disfuncional, em confronto com as realidades do dia-a-dia. O argumento é escrito juntamente com Olivier Beer, com quem Sam não se entende. Ennio Morricone compõe a banda sonora. A obra é selecionada para o Festival de Cinema de Berlim. Sam não conseguia esquecer o que lhe tinham feito com White Dog e sentia saudades da América.

No 40º aniversário do Dia D, o jornal francês Libération quis que Fuller regressasse à Normandia e escrevesse as suas memórias.

“Em Omaha Beach, segurei nas mãos de Christa e Samantha quando caminhávamos pela areia, até onde o mar ondulava pacificamente. 40 anos antes, eu debatera-me naquelas águas ensanguentadas, com morteiros a explodirem por cima de mim, soldados mortos espalhados pela praia. Minas e metralhadoras nazis rugiam por todo o lado. Senti-me grato por estar ali de novo, com a minha jovem esposa e a minha bonita filha de nove anos. Samantha atirava pedras ao oceano, brincando onde muitos tinham lutado e morrido. Era revitalizador vê-lo através dos seus olhos azuis e inocentes, ainda desconhecedores do fardo da História. Agradeci a Deus por ela ainda não ter a mais remota ideia da violência que o Homem é capaz de exercer sobre o seu semelhante.”

Com Jim Jarmusch na Amazónia.
Com Jim Jarmusch na Amazónia.

Sam Fuller era, por esta altura, convidado para festivais de cinema em todo o mundo, a um ritmo espantoso. Divertiu-se bastante em Edimburgo, Locarno e San Sebastian. Em Deauville, conheceu alguns realizadores da nova geração, como Walter Hill, cujo trabalho apreciava e com quem se deu bem. Outro foi Jonathan Demme, que Fuller já conhecia e admirava pelos seus “fortes valores democráticos” e “despretensiosismo”. No Festival de Avoriaz, partilhou um charuto com George Miller, realizador de Mad Max. Em Avignon, reencontrou Louis Malle e jovens como Quentin Tarantino.

“Tarantino tinha uma mente voraz e apaixonada por filmes. Caramba, ele decorara diálogos inteiros, palavra por palavra, dos meus filmes! Dei-me logo bem com ele e achei que ele fizera um belo trabalho com a sua estreia, Cães Danados.”

Jim Jarmusch: “Sam foi descartado culturalmente, nos anos 80 e 90, nos EUA. Por sorte, as pessoas da nossa geração descobriram Sam e Nick Ray e muitos realizadores de Hollywood através da Nouvelle Vague, lendo os textos de Godard ou Truffaut, numa espécie de estranho círculo que se fechou, via cinema europeu… veio de França, onde Sam sempre foi respeitado. Aqui, era um realizador de filmes série B, uma anomalia. Mas a verdade vem ao de cima, no final, e agora vemos que o seu impacto, influência e inspiração foram espantosamente profundos. E ele sempre demonstrou grande abertura connosco, a nível de ideias, encorajava-nos. Aconteceu comigo, com Alex Rockwell, Mika Kaurismäki, Tarantino, transmitia-nos uma energia enorme.”

Nicholas Ray com Fuller em março de 1977, durante as filmagens de O Amigo Americano de Wim Wenders em que ambos participaram.
Nicholas Ray com Fuller em março de 1977, durante as filmagens de O Amigo Americano de Wim Wenders, em que ambos participaram.

Fuller aceita o convite de Emil Weiss e permite que as suas filmagens do campo de concentração de Falkenau sejam usadas num documentário elogiado em Cannes.

“Haverá sempre cabrões fundamentalistas que tentarão minimizar o Holocausto”, diz Fuller. “A verdade não os deixa. Os fanáticos nunca poderão rever a História para que sirva as suas agendas políticas. Nunca! O filme não mente.”

Em 1989, o produtor Jacques Bral convida-o a realizar Street of No Return (Rua Sem Regresso), obra com Keith Carradine. É a história de um cantor que se apaixona pela namorada de um gangster. Este manda cortar-lhe as cordas vocais, pondo-lhe fim à carreira. O cantor torna-se num vagabundo alcoólico, obcecado pela vingança e por recuperar a amada. Muito do financiamento veio de Portugal, pelo que filmaram “na cidade mágica de Sintra”, comenta Fuller. “Aquele sítio tinha uma atmosfera onírica, tornando tudo irracional, quase utópico.”

samuel fuller final serie b (3)

Em vez de lançar a versão que Fuller lhe entregou, o produtor passou um ano a cortar o filme. Elementos da equipa telefonavam a Fuller, protestando que não tinham sido pagos. Este não sabia o que dizer, já que nem a ele lhe tinham pago. Mal promovido e lançado em Paris, a meio de agosto, Street of No Return foi um fiasco. Fuller não se queixou, dando-se por contente por poder realizar aos 78 anos.

Os fãs Martin Scorsese e Jonathan Demme queriam produzir um filme de Fuller, o que o deixou entusiasmadíssimo. Era um sonho, que foi recusado pelos estúdios. Apesar da idade e dos problemas de saúde, Sam não perdia o vigor. Outro sonho se concretizaria.

DE NOVO NA AMAZÓNIA

Durante um jantar com cineastas mais jovens, Mika Kaurismäki, Jim Jarmusch e Sara Driver, Sam falou sobre a sua visita à Amazónia e do seu convívio com os Karajá, tendo Christa sugerido que visitassem todos a zona, passados 40 anos. O documentário foi realizado por Kaurismäki.

“Jim e eu compúnhamos um par bizarro – ele, o alto e jovem irreverente, eu, o baixo, quixótico e velho rabugento.” Esta jornada, que Jarmusch, diz que “não é bem um documentário, é um género novo”, permitiu a Sam regressar ao convívio dos índios. A princípio, sentiu-se um pouco nervoso. Será que o reconheceriam? Será que ainda existiam? Sim. O chefe e os membros mais velhos ainda se recordavam do realizador do charuto. Tigrero: A Film That Was Never Made (1994) retrata esta experiência em que um dos pontos altos foi a projeção das imagens que Sam captara, perante o olhar curioso dos Karajá. Para satisfação do cineasta, os índios ficaram comovidos ao reconhecerem familiares e, alguns, até a si mesmos. Ficaram gratos a toda a equipa. No final, Jim Jarmusch não quis ir embora!

Jim Jarmusch e Samuel Fuller.
Jim Jarmusch e Samuel Fuller.

Pouco depois desta experiência, Sam Fuller sofreu um ataque, sendo hospitalizado. Não temia a morte, mas lamentava não poder continuar a escrever as suas histórias e assistir ao crescimento da filha. Após uma vida vivida em pleno, Samuel Fuller deixa-nos uma última palavra, entre tantas que escreveu:

“Amor. Quero lá saber se soa a um final piroso de um filme série B. Toda a gente tem problemas, reveses, frustrações, tragédias. O amor faz-nos ultrapassar tudo isso. O amor inspira generosidade, paciência e compaixão. Se aprendi alguma coisa, ao escrever todas aquelas histórias, ao ter lutado numa guerra mundial, ao realizar todos aqueles filmes, naqueles altos e baixos, aprendi que tudo, tudo se resume a cinco abençoadas palavras: O amor é a resposta. Ok, novas vozes, façam-se ouvir!”

David Furtado

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