Centenário Samuel Fuller: De realizador a outsider (1959-64)

O sistema arranja sempre modo de excluir os “incómodos”. Este período de grande criatividade e êxito, cujo auge seria Shock Corridor, terminou com um divórcio de Hollywood. The Naked Kiss foi um beijo amargo, a última obra concebida por Sam Fuller durante muitos anos. Só realizaria mais seis filmes na sua vida, entre 1970 e 1989, o último dos quais em Portugal, curiosamente.

Shock Corridor (1963).
Shock Corridor (1963).

(Continuação de «Centenário Samuel Fuller: O realizador (1955-59)».)

Durante os anos 50, Samuel Fuller rejeitou ofertas de grandes estúdios, para realizar filmes baseados em livros, protagonizados pelas estrelas da época. Pretendia manter o controlo artístico dos seus projetos, sem que lhe impusessem alterações de argumento ou casting. Deste modo, conseguiu trabalhar como um cineasta independente, movendo-se com astúcia dentro e fora do studio system e obtendo sucesso. Verboten! foi um êxito, pelo que o novo patrão da Columbia, Sam Briskin, o convocou.

A ideia que Fuller sugeriu, The Crimson Kimono (O Quimono Misterioso), era a história de dois polícias que investigam o homicídio de uma stripper, ‘Sugar Torch’. Um dos detetives é branco e o outro é nipo-americano. São amigos inseparáveis desde que combateram juntos na Coreia. Durante a investigação, apaixonam-se pela mesma rapariga, só que esta prefere o japonês.

Victoria Shaw e James Shigeta em O Quimono Misterioso (1959).
Victoria Shaw e James Shigeta em O Quimono Misterioso (1959).

A resposta que ouviu foi: “Bom, Sam, não podes tornar o tipo branco um filho da mãe? É que temos de vender o filme em todo o território americano, e vai ser difícil aceitarem isso.” Logicamente, a réplica do realizador foi a seguinte: “Ela escolhe o japonês porque é o homem para ela, não por o branco ser um filho da mãe. Ambos são bons polícias e bons cidadãos. Ela simplesmente apaixona-se pelo japonês, têm química.”

Face à insistência de tornar o branco um pouco filho da mãe, Fuller ripostou: “Não posso! Uma rapariga não fica um pouco grávida. Ou está ou não está. O meu chui é um tipo normal.”

Sam conseguiu persuadir Briskin, e filmou em Little Tokyo, Los Angeles, cenário raramente usado na época. The Crimson Kimono pode ser encarado como um filme convencional de investigação, mas, ao utilizar as nuances do triângulo amoroso, Fuller demonstra que o racismo não aflige apenas os brancos. Esta tensão chega metaforicamente ao clímax durante um combate de kendo. Como diz ‘Mac’ (Anna Lee), “o amor é como um campo de batalha. Alguém tem de ficar de nariz a sangrar”.

samuel fuller realizador a outsider (11)Uma cena difícil de filmar foi a inicial, em que ‘Sugar Torch’ foge, seminua, do cabaret onde trabalha, e é alvejada no meio do trânsito da baixa de Los Angeles. Os condutores não sabiam que se rodava um filme, e a polícia apareceu, pois “andava por ali a correr uma mulher de roupa interior”. Tinham sido também informados da presença de um cadáver. Posteriormente, ao verem como ficara a cena, Fuller e Briskin repararam que nenhum transeunte prestava atenção à mulher que corria. “Que raio se passa com este país?”, perguntou o produtor.

Sam ficou agradado com a obra, embora achasse que “a arte é infinita, e nunca ficamos totalmente satisfeitos”. Desagradou-lhe o modo como a Columbia o promoveu. No cartaz, surgiam frases como, “por que motivo escolhe ela um amante japonês?” Fuller contrariou também um hábito retrógrado de Hollywood – contratou um asiático (James Shigeta) em vez de um caucasiano para o papel do polícia japonês.

A mãe de Fuller, que também era a sua maior apoiante, morre pouco tempo depois. Devastado, Sam recebe outra triste notícia: A esposa pede o divórcio, alegando “crueldade mental”. Considerou tais alegações um disparate: “Às vezes, era difícil viver comigo, mas a relação deu o que tinha a dar, como tantas outras.” Demasiado enfraquecido para lutas legais, o realizador deixa a maioria dos bens à ex-mulher, incluindo a enorme casa em que viviam. Jack Warner, da Warner Brothers, lê o argumento de The Big Red One (O Sargento da Força Um) e oferece ao realizador um acordo milionário, com John Wayne como ator principal. Sam ficou entusiasmado, mas alertaram-no que Wayne reduziria a obra a uma aventura bélica inconsequente. Sem recuar, Fuller diz isso mesmo aos estúdios, o que provoca o cancelamento do projeto. Devido a estes três fatores, o cineasta torna-se numa figura solitária, mas não havia tempo para meditar demasiado em desgostos.

Em 1961, a Columbia propõe-lhe um filme de gangsters baseado num artigo de jornal: «Underworld U.S.A.». O texto explicava que, nos EUA, o crime, de facto, compensava.

Como era seu apanágio, Fuller abordou o tema sem contemplações, expondo os criminosos como figuras respeitadas na sociedade, benfeitores, até; pagam impostos e gerem os seus negócios de fachada, encobrindo atividades como tráfico de droga, prostituição e jogo ilegal. Contemporâneo, portanto. No centro deste panorama, temos a história de um rapaz, ‘Tolly’, que se torna um pequeno marginal, determinado em vingar-se de quem matou o seu pai.

Underworld U.S.A. (1961).
Underworld U.S.A. (1961).

Este retrato entrou em rota de colisão com o puritanismo dos estúdios, que obrigaram Sam a cortar cenas. “Por amor de Deus, o crime era chocante!” Indignado, Fuller propôs ironicamente aos executivos fazer um show de rádio, por não poder mostrar a realidade dos factos.

Com um excelente elenco, liderado por Cliff Robertson, o cineasta elaborou uma obra, mais uma vez, corajosa e fora do seu tempo: “Não estou a lidar com reis benevolentes e princesas deslumbrantes ou príncipes encantados, que nascem com castelos, joias e legados chorudos. Desde que os meus personagens nasceram, viveram vidas duras e injustas. São anarquistas, revoltados contra um sistema que, segundo eles, os traiu.” Influenciado por Jean Genet, pela sua experiência de repórter de crime e baseando-se na sua pesquisa, Fuller triunfa mais uma vez.

samuel fuller realizador a outsider (1)

“Nas minhas histórias, nunca julgo os personagens. O Papa prega a paz. O gangster prega a morte. Mas um escritor nunca favorece um personagem. Observa. Relata. Mostra. O trabalho do público é reagir.”

“A pena capital, para estes personagens, é a vingança, uma poderosa emoção em todos nós, muito humana e difícil de transcender. Mas penso que temos de evitar sucumbir à vingança. A pena de morte nunca dissuadiu ninguém de assassinar. Sou contra ela, já que é tão desumana. Torna-nos, indiretamente, em assassinos, também. Há argumentos fortes a favor dela, já que os assassinos e violadores também não são humanos. A nossa primeira reação a um crime terrível é dizer, ‘olho por olho, dente por dente’. E os inocentes que foram condenados?”

NAS FILIPINAS: “QUE HOMENS SÃO ESTES?”

Na primavera de 1961, Sam Fuller encontra-se nas Filipinas a realizar Merrill’s Marauders (Bravos até ao Fim), a história verídica de três mil soldados de infantaria que combateram para lá do limite das forças em Burma, em 1944. Não era o que o cineasta queria, mas a Warner insinuou que The Big Red One ainda podia ser viável. Era, por fim, a oportunidade de trabalhar com Gary Cooper, mas o ator adoeceu com cancro e teve de ser substituído por Jeff Chandler, já nomeado para um Óscar.

Jeff Chandler e Ty Hardin em Merrill's Marauders (1962).
Jeff Chandler e Ty Hardin em Merrill’s Marauders (1962).

A supervisão técnica foi do Coronel Samuel Wilson, de quem Fuller se tornou amigo, e a equipa instalou-se em Manila, na hospitaleira Base Aérea Clark, cujos soldados serviram de figurantes. Até os oficiais quiseram participar. O coronel passou vários serões com o realizador, bebendo vodka e descrevendo as condições infernais por que aqueles homens tinham passado. Sam determinou-se em retratar com rigor o clima brutal das batalhas nas selvas de Burma.

As difíceis filmagens duraram sete semanas e, nos intervalos, o afável Chandler jogava futebol com os soldados da base. Durante uma cena, desmaiou e teve de ser hospitalizado. De regresso às Filipinas, completou o filme. Depois disso, já nos EUA, faleceu, aos 42 anos, durante uma cirurgia, vítima de septicemia originada por negligência médica.

Sem se repetir, Sam Fuller mostra-nos soldados arrasados dos nervos, falando como os soldados falam, com os sotaques certos, sem heroísmos de pacotilha. Talvez a melhor forma de resumir Merrill’s Marauders seja através de um curto diálogo entre o médico e Merrill: “Não sei como eles o fizeram. Lutaram quando sofriam de tifo. Lutaram quando sofriam de malária. Lutaram esfomeados. Lutaram feridos. Lutaram de joelhos. Que tipo de homens são estes? O que são? Quem são?” A resposta de Merrill: “São a infantaria.”

Para fúria do realizador, o triunfo sangrento e insano dos soldados em Myitkyina foi manipulado pela Warner, que lhe adicionou um fim patriótico, propagandista e pomposo, com um narrador a gabar-se da vitória americana, incluindo imagens de um desfile militar. Fuller lutou contra o estúdio e perdeu. Outra sequência editada foi aquela em que, num depósito de combustível com pequenas construções, semelhante a um labirinto, os americanos, no meio do pandemónio e do pânico, matam os próprios camaradas. Sam Fuller testemunhara isto na guerra, mas a Warner achou que não era politicamente correto, dando uma desculpa: “Demasiado artístico.”

Uma das cenas de que Sam mais se orgulhava, envolve um sargento, exausto, numa vila. É-lhe oferecida uma tigela de arroz por uma anciã. Uma criança observa o militar, curiosa. Este, surpreendido perante a generosidade do gesto, começa simplesmente a chorar. Sem qualquer fala, Sam transmite-nos a incoerência, a total irracionalidade da guerra. “Sempre que revejo essa cena, choro também”, confessou o realizador. “Há uma alma nestes filmes, que só pode ser transmitida por quem esteve lá”, comentaria Martin Scorsese.

Igualmente impressionado com a obra, ficou o filho do General Patton, que convidou Sam a realizar um filme sobre o pai. “Sei que não gostava do meu pai, mas, pelo menos, fará um filme a sério!” Apesar da simpatia, Fuller recusou. Merrill’s Marauders foi um êxito de bilheteira, lucrou 18 milhões de dólares, uma grande quantia para a época, e obteve críticas ótimas na Time e na Newsweek, que lhe elogiaram a mestria e autenticidade. Recorda Platoon de Oliver Stone – soa a verdadeiro.

“EU TINHA DE FAZER ESTE FILME”

Samuel Fuller continuava a sentir a perda da mãe: “Ninguém recupera realmente da morte de um dos pais. Primeiro, ficamos ressentidos com ele ou ela, por não ser imortal. O tempo apazigua a dor e dá-nos perspetiva. Recordamos qualidades amadas, e não imperfeições humanas. Não existe maior satisfação do que mostrar respeito e gratidão pelos pais. Depois de falecerem, o nosso afeto e dedicação permanecem intactos. Desde que pensem nos vossos pais com amor, eles não morreram. Estão no vosso coração e na vossa mente.”

Shock Corridor (1963).
Shock Corridor (1963).

O cineasta realiza então um episódio da popular série The Virginian, no qual trabalha com Lee J. Cobb e Lee Marvin, mas, apesar de gostar dos atores, não aprecia a experiência. Depois disso, recorre a um guião que escrevera para Fritz Lang no fim dos anos 40, Straitjacket, título que mudaria para Shock Corridor (O Corredor do Silêncio), uma obra-prima do cinema.

“O meu título tinha a subtileza de um malho. Eu lidava com insanidade, racismo, patriotismo, guerra nuclear e perversão sexual. Como podia ser ligeiro com estes tópicos? Queria provocar o público. Retratei propositadamente situações chocantes e assustadoras. Ia ser um filme doido – do absurdo ao insuportável e ao trágico. O meu hospício era uma metáfora para a América. Como um Raio-X que deteta tumores, Shock Corridor sondaria as doenças da nossa nação. Sem um diagnóstico honesto dos problemas, como poderíamos ter a esperança de os curar?”

À superfície, o filme é um mistério em que um jornalista ambicioso, ‘Johnny’ (Peter Breck), ávido por vencer o Pulitzer, se faz passar por doente mental, instruído por um psiquiatra, sendo internado num manicómio. O seu objetivo é solucionar o assassínio de um paciente, cometido nas instalações. Será que o jornalista consegue resolver o caso sem ser afetado pelo que o rodeia?

Este ponto de partida não era tão mirabolante como parecia. Sam lembrava-se de casos em que jornalistas aceitavam missões bizarras para obterem os seus scoops. Mas, para conseguir que um projeto desta natureza se concretizasse, Fuller precisava de um produtor independente como Lippert, dos velhos tempos. Através de um agente, chegou a acordo com Samuel Firks, um magnata do negócio imobiliário, que lhe prometeu um ordenado, parte do lucro e total controlo artístico. O entusiasmo de Fuller ofuscou-lhe a cautela. Não se informou acerca de Firks, o que daria mau resultado.

A ala das ninfomaníacas. O ator Peter Breck ficou fisicamente magoado quando lhe caíram todas em cima.
A ala das ninfomaníacas. O ator Peter Breck ficou fisicamente magoado quando lhe caíram todas em cima.

Shock Corridor começa com uma citação de Eurípides: “Aquele a quem Deus quer destruir, primeiro deixa-o louco.” Vemos depois o corredor central do hospício, que parece infinito, uma ilusão conseguida através de espelhos. ‘Johnny’ vai entrevistando os internados que testemunharam o crime, visto que os pacientes têm lampejos de lucidez sobre essa e outras matérias. Fuller inclui cenas e personagens fortes, como ‘Trent’, um negro que enlouqueceu devido a um enorme ódio por si mesmo, e se julga um líder do Ku Klux Klan. ‘Trent’ embarca em discursos alucinados, levado à loucura devido à segregação racial de que foi vítima.

“‘Trent’ fala por mim e pelas pessoas sensíveis e inteligentes em todo o mundo, que amam os seus países, apesar de alguns políticos de ideias distorcidas, guerras enganosas e leis mesquinhas. Amo o meu país. Não há nada nem ninguém que me possa tirar esse amor profundo. Mas, raios, esta nação provoca-me úlceras, às vezes!”

John Ford visita Fuller no set de Shock Corridor.
John Ford visita Fuller no set de Shock Corridor.

Passo a passo, ‘Johnny’ aproxima-se da verdade, é submetido a tratamentos de eletrochoques e começa a sentir-se numa corda bamba entre a lucidez e a loucura. A namorada, ‘Cathy’ (Constance Towers) ajuda-o no embuste: Fez-se passar por sua irmã e queixou-se de que ele a via como amante. Ao visitá-lo no manicómio, ‘Cathy’ fica cada vez mais assustada e preocupada com o discurso de ‘Johnny’, que começa a acreditar nos falsos impulsos incestuosos e a ver em ‘Cathy’ uma irmã. A namorada tenta desmanchar a farsa, mas não será já tarde de mais?

O argumento era uma bomba, mas os produtores não gostaram do fim. Sam, para se certificar que não lho alterariam, filmou a cena final em último lugar, inundando o cenário e destruindo-o por completo, pelo que não houve hipótese senão mantê-la. A obra foi rodada em apenas 10 dias e, num deles, o lendário John Ford visitou Fuller de surpresa, encorajando imenso o realizador.

– Sammy, por que filmas neste cenário tão pequeno?
– Nenhum dos grandes estúdios tocava na minha história, Jack – respondeu Fuller. – É retorcida. É sobre a América.
– Vais levantar poeira outra vez, como em The Steel Helmet.
– Talvez, mas é um filme que tenho de fazer.

Ambos caminharam lentamente pelo cenário do corredor.

– Aqui, ficava a igreja – apontou Ford. – Aqui, o cenário da prostituta. Ali, o interrogatório do IRA.

John Ford filmara uma das suas maiores obras, The Informer (O Denunciante), de 1935, naquele miserável set. Também esse filme era incómodo, pelo que a RKO lhe dera um orçamento exíguo. Fuller ficou espantado por John Ford ter recebido tal tratamento. O realizador mais velho sorriu:

– Eu também tinha de fazer esse filme.

Shock Corridor foi um grande sucesso. Os críticos chamaram-lhe o filme mais arrojado do ano. Seria exibido em todo o mundo, tornando-se um clássico premiado, um filme de culto. Fuller, que nunca ligou a galardões, orgulhava-se de ter recebido o Prémio de Valores Humanos, atribuído pela Igreja Católica de Valladolid, Espanha, em 1968. Também a Biblioteca do Congresso preservou o filme entre os seus Clássicos, o que honrou o seu criador. Ironicamente, Sam Fuller não recebeu um único royalty por ele.

“Firks provou ser um cabrão insultuoso e desonesto. Não protestei muito porque assinara contrato para mais um filme. Mas o tipo não mexeu no filme. Shock Corridor ficou exatamente do modo que o concebi, realizei e editei.”

A VERDADE NUA

Em 1964, Sam Fuller dedica-se a outro filme notável, The Naked Kiss (Uma Luz no Submundo). (Não sei quem inventou estas denominações portuguesas, mas dá-me ideia que não assistiram aos filmes.) A história é protagonizada por uma prostituta, que, após uma luta com o seu chulo, decide ir para uma cidade pequena, onde tenta mudar de vida e se envolve com um respeitado e rico cidadão. ‘Kelly’, longe de encontrar sossego, depara-se com mesquinhez e hipocrisia, emergindo como a pessoa mais honesta da comunidade.

Constance Towers em The Naked Kiss (1963). Fuller fazia filmes cada vez melhores, mas este foi "demasiado" para Hollywood.
Constance Towers em The Naked Kiss (1963). Fuller fazia filmes cada vez melhores, mas este foi “demasiado” para Hollywood.

O conceito que Fuller tinha das prostitutas provinha dos seus tempos de repórter em Nova Iorque. “A palavra sugeria medo e repugnância.” Por vezes, o jovem jornalista ia a um bordel, usando o telefone para ditar reportagens. Conviveu assim com as raparigas.

“Comecei a conhecê-las enquanto pessoas. Elas tratavam-me como um irmão mais novo, embora não fossem muito mais velhas do que eu. Nunca me senti tentado a dormir com uma, porque as conhecia demasiado bem. De manhã, meditavam como freiras num convento, com os seus négligés e pijamas, para excitarem clientes madrugadores. Se eu aparecia, davam-me dinheiro para lhes ir comprar café e donuts.” Uma vez, trouxe café a uma, mas antes que ela o bebesse, a Madame chamou-a, pois tinha um determinado cliente à espera. A prostituta pediu a Sam para lhe segurar na chávena. Este disse, “mas vai ficar frio”. “Não”, disse ela, olhando para o tipo. “Conheço os meus clientes. Acredita que vai estar quente.”

Fuller e Towers no set.
Fuller e Towers no set.

“As raparigas têm o seu código ético, os seus próprios sonhos. Muitas queriam ter filhos e criar uma família. Era o bilhete de saída daquele beco. Mas muito poucas conseguiam. Sofriam de terríveis complexos quando saíam à rua, como se todos soubessem. As mais espertas juntavam dinheiro e assentavam num lugar onde ninguém as conhecia.”

Foi esta a inspiração de The Naked Kiss, que contém uma das cenas mais famosas de Fuller, em que ‘Kelly’ luta com o chulo, que lhe puxa o cabelo, e vemos que é uma peruca – a sua cabeça está rapada; uma vingança do chulo, uma afirmação do seu domínio sobre ela. Finalizado o confronto, ‘Kelly’ sai, e a câmara foca o calendário: É o Dia da Independência. A prostituta arranja-se ao espelho, volta a pôr a peruca, enquanto surgem os créditos iniciais. A sequência foi a última a ser filmada, já que Fuller queria que Constance Towers rapasse mesmo a cabeça, o que a sensual atriz fez sem se queixar.

Entre as obras de Fuller, The Naked Kiss, para mim, é um trabalho portentoso: Lança uma espécie de holofote sobre as pessoas respeitáveis, contrastando-as com uma mulher de má vida, que as supera em ética e moralidade. Não é um filme cómodo, envolve pedofilia, aborto e prostituição, material tabu no cinema americano dos anos 60, onde caiu como um meteorito. Em Inglaterra, foi banido. Hoje é, por vezes, denegrido como filme série b, datado, um cartoon implausível, o que, a meu ver, são reações nervosas de puritanos e não considerações objetivas. O filme ainda incomoda a pretensa sociedade dos bons costumes.

“Não entendo o que se passou… demasiado controverso, demasiado direto e cru… mas depois de The Naked Kiss, os magnatas, os produtores e atrizes deixaram de bater à minha porta. Para sobreviver no negócio, tive de aceitar o que aparecia.”

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Sam viajou até Paris, para trabalhar num projeto que não iria a lado nenhum e, enquanto passeava pelos Campos Elísios, fumando o seu charuto, viu, em grandes letras, Shock Corridor num cinema. O seu filme estreara em França com grande êxito. Fuller quis entrar para testemunhar a reação do público. A vendedora da bilheteira disse que já esgotara, mas Sam insistiu, causando uma barafunda, até que apareceu o gerente. O realizador apontou para o passaporte e para o cartaz, explicando que era o autor do filme.

“O público francês estava mesmo a seguir a minha história. Ria-se, gritava, assobiava, mas mantinha-se compenetrado. Talvez o adorassem. Talvez o detestassem. Mas o importante, para mim, é que lhes provocava reações viscerais. O que pode ser melhor do que vermos o nosso filme projetado numa sala cheia de rostos a fitarem o ecrã, seguindo uma história que inventámos do nada? Foi um daqueles momentos em que as lutas e bazófias do negócio do cinema pareciam ter valido a pena.”

The Naked Kiss foi um sucesso de bilheteira e manteve uma longevidade impressionante, só que, de novo, Fuller não viu um tostão. Sam decidiu tornar-se um cineasta independente. Mas não o fora desde sempre?

David Furtado

(Termina no próximo artigo.)

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