Centenário Samuel Fuller: O realizador (1955-59)

Em cinco anos, Sam Fuller realizou cinco filmes de uma intemporalidade notável, apesar de enquadrados em épocas distintas: Um film noir no Japão, um western sobre a Guerra Civil Americana; o conflito na Indochina, a Alemanha do pós-guerra. Viajou até à Amazónia, onde viveu com a tribo Karajá, experiência espiritual inesquecível. Foi felicitado por índios americanos e elogiado por mulheres, que chamaram a Forty Guns “o filme mais feminista de sempre”. Prossigamos a história onde a deixámos, com House of Bamboo (O Mistério da Casa de Bambú).

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(Continuação de «Centenário Samuel Fuller: O realizador (1949-54)».)

House of Bamboo foi realizado porque Zanuck lhe perguntou se queria filmar no Japão. Tratou-se de uma manobra do produtor, já que Sam era fascinado pelo Oriente, sobre o qual lera bastante. O argumento original era de Harry Kleiner, mas o realizador apenas aproveitou a estrutura, mudando a ação para Tóquio e integrando elementos da vida contemporânea japonesa numa história de traição, envolvendo ex-soldados e gangsters. Em House of Bamboo surge também um romance entre uma asiática e um americano.

Uma das cenas chave é aquela em que um gangster assassina outro na banheira: ‘Dawson’ (Robert Ryan) sente que está a perder o poder e alveja ‘Griff’ (Cameron Mitchell). Trata-se de uma cena homoerótica, disfarçada de vingança, numa época em que a homossexualidade era tabu.

Robert Ryan num dos cartazes de House of Bamboo.
Robert Ryan num dos cartazes de House of Bamboo.

“É algo que existe desde que o Mundo começou”, relata Sam Fuller. “Não se pode estereotipar pessoas ou generalizar os seus relacionamentos, já que cada um é especial. Detesto estereótipos e categorias, desde homossexualidade a heterossexualidade ou nacionalidade. De que nos servem, senão para nos transformarem em extremistas simplórios ou fundamentalistas fanáticos?”

Fuller considerou Gary Cooper para protagonizar, mas filmar nas ruas do Japão com um ator internacionalmente famoso, seria um problema, pelo que escolheu o (então) desconhecido Robert Stack. Procurando sempre conferir a maior veracidade possível, o realizador disse ao assistente para gritar, “ladrão!” em japonês, numa sequência em que Stack corre pelas ruas. Os transeuntes levaram a situação a sério e perseguiram o ator, agredindo-o. Mas foi tudo tão rápido que não conseguiram filmar. Robert ficaria zangado com Fuller durante muitos anos à custa deste incidente.

Robert Stack e Shirley Yamaguchi.
Robert Stack e Shirley Yamaguchi.

Para o papel de ‘Mariko’, Sam escolheu Shirley Yamaguchi, depois de assistir a vários filmes asiáticos. Filmar no Japão era um sonho para Fuller, que também admirava o cinema de Mizoguchi, Gosho, Naruse, Murata, Imai, Yamamoto, Osu ou Kurosawa. “Que técnica, que uso fantástico das cores!” Além disso, os japoneses tinham uma ligação muito forte ao cinema. Sam lamentou-se que o único filme a conseguir ultrapassar fronteiras, nessa altura, tivesse sido “a obra-prima de Kurosawa, Os Sete Samurais. Ainda por cima, cortado para um terço do original. Ainda assim, uma obra magnífica”. (Infelizmente, anuncia-se um remake deste filme para 2014. Só falta mesmo pilharem Citizen Kane.)

Fuller queria captar um choque de culturas, uma vez que, no Japão, se vivia um clima antiamericano, devido às cicatrizes da guerra e também à influência do comunismo. Durante uma conferência de imprensa, um jornalista hostil perguntou-lhe se o filme era político, e o cineasta, já saturado de tais perguntas e insinuações, respondeu com humor: “Claro. O vilão da minha história quer ter mais dinheiro. A diferença é que, no meu filme, o homem mata por isso. Você não fará tal coisa, pois não quer acabar na prisão.”

Um dia, Fuller passeava por Tóquio, acompanhado por Yamaguchi, sem saber como terminar o filme, quando uma bola de brincar caiu aos seus pés. A atriz explicou que devia ter caído de um edifício de 20 andares, em cujo topo havia uma espécie de infantário, onde as crianças eram deixadas enquanto os pais iam às compras. Ambos subiram e Sam descobriu, além de uma paisagem magnífica, um carrossel gigante que rodopiava num ângulo vertiginoso. Era o local perfeito para o final de House of Bamboo. Só que o dono não permitia o uso para filmagens. Não era uma questão de dinheiro – Mr. Nikkatsu era dono de lojas, hotéis e até de um estúdio cinematográfico, mas não queria privar as crianças do seu local de recreio.

Sam negociou com o proprietário, dizendo que até precisava das crianças como figurantes, explicou-lhe o argumento do filme, e Nikkatsu concordou, pedindo para participar como avô, de modo a poder supervisionar. A filmagem foi uma experiência positiva para todos. As crianças, sem se assustarem com os tiros, acharam tudo uma brincadeira. Até Nikkatsu se divertiu, tanto que nem quis que lhe pagassem nada. House of Bamboo seria mais um sucesso para a Fox.

DO JAPÃO À AMAZÓNIA

Samuel Fuller era agora um realizador famoso, mas continuava atormentado por pesadelos terríveis sobre a Guerra. Refugiava-se na música: Beethoven, Bach e Mozart. Começou a escrever um guião que só seria produzido 25 anos depois, The Big Red One (O Sargento da Força Um). Darryl Zanuck acabara de regressar do Mato Grosso e, tendo adorado a experiência, deu a Sam um livro chamado Tigrero de Sacha Siemel, cujos direitos tinham sido adquiridos pela Fox. Fuller interessou-se e disse a Zanuck que tinha de ver o Mato Grosso por si mesmo. No Rio de Janeiro, disseram-lhe que era de loucos ir a essa zona, pois havia tribos que decapitavam estrangeiros.

Os Karajá na nota de mil cruzeiros.
Os Karajá na nota de mil cruzeiros.

Viajando de avião, de cavalo, e percorrendo o território agreste à catanada, Sam e o seu guia chegaram às margens do Rio Araguaia, onde encontraram membros da tribo Karajá, descendente dos Incas. Eram pacíficos e, quando o realizador explicou as suas intenções, foi convidado a ficar pelos chefes.

O seu objetivo era captar imagens, mas a experiência marcá-lo-ia para sempre. Naquele local remoto do Mato Grosso, Fuller, pouco a pouco, descobriu “uma sociedade muito mais pacífica e sensível do que a nossa”. “Comecei a sentir-me o selvagem, e a ver os Karajá como os civilizados. Não havia crime, inveja ou ganância. Eram espirituais, a sua religião era a Natureza.”

Durante a estadia, Sam filmou os seus rituais e escreveu o argumento. Quando regressou aos EUA, deu-o a Zanuck, que adorou a história e as imagens. Infelizmente, as estrelas seriam John Wayne, Ava Gardner e Tyrone Power. Esta obra de grande potencial foi engavetada, pois as companhias de seguros exigiam valores astronómicos para que tais estrelas filmassem numa região tão perigosa. Fuller sentiu-se extremamente desiludido.

Sam passou a conviver mais com os seus amigos Richard Brooks e Dalton Trumbo, evitando Zanuck. Interiormente purificado, o realizador escreve mais um argumento, Run of the Arrow (A Flecha Sagrada), passado na Guerra Civil, depois de pesquisar a fundo as diferentes tribos de índios americanos: Os Oglalas, os Iroquois, os Seminoles, os Cherokees, os Cheyennes, os Shawnees e os Apaches.

É o relato de ‘O’Meara’ um amargurado soldado da Confederação que não aceita a rendição ao Norte. Viaja para o Oeste e une-se a ‘Walking Coyote’, sendo ambos capturados pelos Sioux. ‘O’Meara’ é obrigado a submeter-se ao ritual “run of the arrow”, e a sua vida é salva por ‘Yellow Mocassin’, uma índia com quem acaba por casar. Os índios são agora o seu povo, mas haverá mais provas a enfrentar.

Charles Bronson e Rod Steiger em Run of the Arrow.
Charles Bronson e Rod Steiger em Run of the Arrow.

O argumento era excelente, e não tardou até que um executivo da RKO, William Dozier, que era seu admirador, abordasse Sam. O cineasta, livre para trabalhar com outros estúdios que não a Fox, propôs-lhes esta história. Os chefes queriam Gary Cooper para protagonizar, mas Fuller achava que o indicado era o oposto de Cooper, sugerindo o estreante Rod Steiger. Depois de um braço-de-ferro com o estúdio, o realizador consegue a contratação de Steiger, mas o ator prova ser um problema.

Quando chegaram ao set, no Utah, Sam apercebeu-se que “Rod tinha talento, mas também, tendência para o exagero”. Além disso, apareceu com uma atitude, “eu é que sei, e para o diabo com os outros”. Para completar o elenco, Fuller escolheu, entre outros, a “Brigitte Bardot espanhola”, Sara Montiel e Charles Bronson para Chefe dos Sioux. “Bronson estava em início de carreira e tinha um ar magnífico como índio, com aquele corpo musculado e sorriso empedernido.”

“Steiger decidiu murmurar as suas frases, um truque que devia ter aprendido com Marlon Brando e os seus amigos do Actors Studio.” Exigia novos takes, enquanto Fuller preferia apenas dois. “Aquilo aborrecia todos menos ele. Por isso, eu deixava-o falar, certificando-me de que tudo acabaria no chão da sala de montagem.”

Na cena em que os Sioux confrontam a cavalaria, o teimoso Steiger queria filmar de uma maneira, e Fuller doutra. O realizador não cedeu, e toda a equipa ficou horas a assistir à casmurrice do ator: “Rod, ou fazes como eu quero, ou ficamos aqui até a Lua aparecer!” O ator começou a insultar Fuller, que gritou, “intervalo para o almoço!”

Quando regressaram, Steiger percebeu que não podia vencer. Refira-se que Rod Steiger não era fácil. Anos depois, Sergio Leone teria problemas semelhantes com ele.

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Apesar dos conflitos, Sam elogiou o trabalho do ator. Havia poucas distrações no Utah. Fuller visitava o seu amigo Raoul Walsh, que filmava The King and Four Queens ali perto. Quando Walsh soube qual era o argumento de Run of the Arrow, achou-o melhor do que o seu e, piscando o olho, pediu a Sam: “Eu faço o teu filme, tu fazes o meu.” Fuller explicou-lhe como era importante este trabalho, depois do desapontamento de Tigrero. Porém, várias vezes, Raoul Walsh aparecia e dava-lhe uma cotovelada: “Deixa-me só filmar umas cenas, Sammy!” Outros realizadores tentaram o mesmo. Um deles, Mervyn LeRoy, ofereceu uma alta quantia para o realizar, o que Fuller recusou.

O cineasta colocou uma contextualização ambígua no início do filme: “A derrota do Sul não foi o fim da Guerra. Foi o nascimento dos Estados Unidos.” Um dos seus objetivos era contrastar as paisagens luminosas do Utah com a natureza soturna do protagonista. Na pós-produção, além dos murmúrios de Steiger, Fuller apercebeu-se de que o sotaque de Sara Montiel era incompreensível, tendo de arranjar, à pressa, alguém que lhe dobrasse a voz. A sua secretária foi buscar uma certa Angie Dickinson, que trabalhava nos escritórios da RKO, aguardando a sua hipótese como atriz. “Ela tinha uma bela voz, já para não falar daquelas magníficas pernas”, recorda Fuller. Dickinson dobrou todas as falas de Montiel. Em troca, Sam prometeu-lhe um papel num dos seus filmes seguintes. E cumpriu. Angie estrear-se-ia em China Gate (A Porta da China).

Angie Dickinson em China Gate. Fuller cumpriu a promessa que fizera à atriz.
Angie Dickinson em China Gate. Fuller cumpriu a promessa que fizera à aspirante a atriz.

APLAUDIDO POR ÍNDIOS E PLAGIADO POR KEVIN COSTNER

Uma das primeiras exibições de Run of the Arrow foi em Washington D.C., tendo Fuller sido convidado para mostrar o filme a um comité de senadores americanos que tratavam dos orçamentos concedidos às reservas índias. Havia representantes de diversas tribos entre o público, que, no final, vieram congratular Fuller, achando o seu filme “autêntico e poderoso”. Sam considerava este momento como um dos mais importantes da sua carreira.

Em 1990, quando já vivia com Christa em Paris, o realizador foi assistir a Danças com Lobos de Kevin Costner, nos Campos Elísios. À saída, Christa estava muito perturbada. Achou que era um plágio descarado de Run of the Arrow.

“É plágio!”, disse ela. “Não”, respondeu Fuller, citando Jean-Luc Godard, “é hommage”. Christa insistiu e Fuller ripostou: “Lembras-te do final do meu filme? Em grandes letras aparece ‘o final só pode ser escrito por vós!’ É um convite a continuar a história.” “E então?”, perguntou Christa. “Então, eles continuaram a história!” O casal riu-se. E Fuller remata: “Era a melhor resposta a todos os plagiadores.”

Nat King Cole, que não se saiu nada mal em China Gate. Pelo contrário.
Nat King Cole, que não se saiu nada mal em China Gate. Pelo contrário.

A COLABORAÇÃO COM NAT KING COLE

Sam regressa à Fox para o seu projeto seguinte, China Gate, um filme desenrolado na Indochina, antes de se tornar no Vietname. Governado pelos franceses, o país está sob o cerco de revolucionários, apoiados pelos comunistas liderados por Ho Chi Minh. A Rússia e a China lançam provisões sobre o território. É aqui que encontramos ‘Lea’, ou ‘Lucky Legs’, que, para alimentar o seu filho de cinco anos, recorre ao contrabando. Possuindo ascendência chinesa, ‘Lea’ conhece a selva e aceita a missão de destruir o depósito de munições dos comunistas, comandado pelo ‘Major Cham’ (Lee Van Cleef). A equipa é composta por ‘Brock’, um veterano da Coreia, que foi casado com ‘Lea’ mas a abandonou quando viu que o filho de ambos tinha feições chinesas. Este racista é criticado por todos.

O cineasta afirma que não quis “fazer juízos de valor acerca do conflito na Indochina. A única missão de ‘Lea’ é arranjar forma de levar o filho para os EUA, a Terra Prometida”. Trata-se de mais uma obra poderosa de Fuller, que, sem nos dar sermões, explora a coragem, o racismo e o caráter, numa aventura empolgante.

Outro ator importante nesta ambiciosa e intensa obra é Nat King Cole. “Quando penso em China Gate, lembro-me sobretudo de ‘Goldie’, ao qual dei um passado militar muito semelhante ao meu.” Pegando num dos discos de Zanuck, Sam disse que queria um tipo exatamente como aquele. “Mas, Sam, ele é o cantor mais popular do país. Provavelmente, ganha mais, em duas semanas, do que terás para financiar o teu filme inteiro.”

Indiferente a tais matérias, Fuller pediu que fosse marcado um encontro com o cantor. O jantar revelou-se um sucesso. Cole era uma pessoa afável, adorou a história e aceitou participar, recebendo um salário muito baixo. Não era suposto que Cole cantasse, mas, já que o compositor Victor Young escrevera uma letra para o tema principal… China Gate/China Gate/Many dreams and many hearts/You separate… Fuller não resistiu a incluí-la quando a ouviu cantada por Cole. Pediu-lhe que cantasse desafinado, para que fosse mais realista. “Sammy, eu não posso cantar mal! O que diriam os meus fãs e os meus colegas?” Samuel… concordou.

“Nat King Cole trazia ao de cima a criança que há em todos nós. Eu amava o tipo. Ele já não está vivo, mas ainda o amo. As pessoas nunca desaparecem quando são amadas”, diria Fuller.

O FILME MAIS FEMINISTA DE SEMPRE

Barbara Stanwyck em Forty Guns.
Barbara Stanwyck em Forty Guns.

Um dos pontos mais altos da sua obra foi Forty Guns (Quarenta Cavaleiros) também de 1957. Aqui, Fuller começa a mostrar a sua preocupação com a delinquência juvenil. “As condições económicas da minha juventude formam a base da minha atitude de hoje”, comentaria. “Tenho pena dos miúdos ricos de agora, que não têm de lutar por nada. Quando cresci, eu e a minha família possuíamos recursos modestos. A minha mãe precisava da minha ajuda financeira. Não havia o paizinho trabalhador ou o tio rico, que pusessem a comida na mesa. Eu não podia ser um rebelde. Não há nada como o trabalho para transformar vadios adolescentes em adultos responsáveis.”

É um dos subtemas de Forty Guns, que abre com ‘Jessica Drummond’ vestida de negro, cavalgando um garanhão branco através do Condado de Cochise, seguida por 40 homens em 40 cavalos. ‘Drummond’ é dona destes homens e de quase tudo em Tombstone, Arizona. Só tem um fraco: O seu irmão, um desordeiro que gosta de alvejar quem lhe apetece. Entra então em cena ‘Griff’, um pistoleiro retirado, que prende o irmão e enfrenta ‘Jessica’.

Sam Fuller quis que Forty Guns fosse um western diferente, assentando a narrativa no fascínio americano por armas.

“Há quem considere as armas sexy, não faço ideia porquê. Arranjei uma data de metáforas em redor disto. Um casal a namoriscar diante de uma montra, com sombras de armas nos rostos. ‘Wes’ a observar a sua futura esposa pelo cano de uma espingarda. Uma mulher ‘é feita como uma 40-40’. ‘Jessica’ descreve um homem como ‘tudo, com dois pés e uma arma’. Quando ‘Griff’ começa o seu flirt com ‘Jessica’, a tensão sexual chega ao auge. Encarando ‘Griff’, ‘Jessica’ pergunta se pode sentir a sua arma. Este responde, ‘não, pode disparar na sua cara’.”

O realizador tratou as armas como objetos de fantasia, mas, no filme, elas também matam, tal como na vida real. “Há demasiadas armas e demasiadas pessoas violentas com acesso a elas”, acrescenta. “Hoje, a situação está fora de controlo, e algo de radical tem de ser feito.” O realizador reuniu um grande elenco, liderado por Barbara Stanwyck, num papel ambicionado por Marilyn Monroe, que abordou Fuller. Este explicou-lhe que ela não seria indicada (episódio relatado aqui). A rodagem, com os planos inovadores que Sam pretendia, foi complexa.

Stanwyck com Barry Sullivan ('Griff').
Stanwyck com Barry Sullivan (‘Griff’).

Numa sequência, tiveram de construir carris com mais de 300 metros, numa rua inteira, naquela que se tornou a dolly shot mais longa da história dos estúdios. Noutra, o diretor de fotografia, Joe Biroc, teve de ficar enterrado no solo, enquanto 40 cavalos passavam a centímetros da sua cabeça, a galope, o que o técnico achou assustador e foi captado em apenas um take.

E, para cúmulo, Barbara Stanwyck insistiu em filmar todas as cenas perigosas, incluindo uma em que cai do cavalo e, com o pé preso no estribo, é arrastada vários metros. Ora, isto foi filmado a meio dos trabalhos, pelo que havia o risco de a atriz se magoar seriamente, deixando o projeto em maus lençóis. Gene Fowler Jr., o editor, perguntou a Sam se estava doido ao permiti-lo. Stanwyck não só filmou a cena como a repetiu três vezes, devido a problemas técnicos. “Ao fim do dia, ela estava bastante dorida e ferida, mas nunca se queixou”, elogia Fuller.

Mais recentemente, Forty Guns foi reexibido no Festival de Cinema de Locarno, na Suíça, integrando um tributo ao cineasta. Várias mulheres abordaram Samuel Fuller, no final, dizendo que era “o filme mais feminista” a que alguma vez tinham assistido. O realizador também ficou satisfeito com os resultados.

PARA QUE NUNCA SE ESQUEÇA

Mesmo antes de se tornar veterano da II Guerra Mundial, Sam era fascinado pela cultura alemã. Teve a ideia de mostrar que, ao contrário do preconceito geral, os alemães não eram todos nazis. Porém, os estúdios nem queriam tocar no assunto, horrorizados com as imagens do Holocausto. Isto não iria deter Fuller…

Abordou a RKO com o argumento de Verboten!, que foca, entre outros temas, o envolvimento entre um soldado americano e uma alemã na Alemanha do pós-guerra. William Dozier achou arriscado, embora lhe agradasse a honestidade e consistência do relato. Especialmente preocupante era a secção final, em que é mostrado um excerto dos Julgamentos de Nuremberga. Dozier concordou, mas só se Fuller o realizasse em 10 dias e com um orçamento ínfimo.

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Sob limitações extraordinárias, o realizador conseguiu a proeza de filmar Verboten!, obra em que, mais uma vez, universalizou a experiência: 

“Quis que fosse para além do problema dos Werewolves e abrangesse a luta generalizada dos povos em países devastados pela guerra, em toda a parte, tentando sobreviver sem futuro, à mercê de extremistas que lhes prometem comida e esperança. Em tempos destes, um déspota pode facilmente subir ao poder.”

A música do início não é casual: A abertura da Nona Sinfonia de Beethoven. Durante a Guerra, Fuller e a sua unidade dormiram numa cidade, onde lhes foi dito que podiam escolher o local. Sam e um colega foram parar a uma casa abandonada, e Fuller depressa se apercebeu que era a antiga moradia de Beethoven, um dos seus heróis, com partituras, piano, fotos…

“A música é uma parte essencial de todos os meus filmes”, considera Sam Fuller, “talvez tão importante como a história. Antes da fotografia e do cinema, as pessoas ouviam música e recebiam fortes mensagens emocionais. Quando escrevo, visualizo o que quero que suceda no ecrã e imagino a música a acompanhar. Até gosto de adicioná-la bastante cedo, pois dá-me ideias para a narrativa. Dou instruções precisas aos compositores e depois deixo-os totalmente livres”.

Tendo faltado aos Julgamentos no final da Guerra e arrependendo-se disso, Fuller narrou, como um repórter radiofónico, a sequência arrepiante em que imagens de arquivo surgem no ecrã, uma vez que testemunhara o ocorrido no campo de batalha: “Mil anos passarão, e a culpa de Hitler e do seu gang não terá sido apagada… o ódio era a religião nazi. O ódio era o seu grito de guerra. O ódio era o seu Deus.”

Com esta poderosa obra, Fuller quis que as pessoas não esquecessem o que realmente aconteceu.

David Furtado

(Continua no próximo artigo.)

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